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As atividades principais correspondem às formas particulares com que a criança se relaciona com a realidade em cada etapa do desenvolvimento, são as formas pelas quais ela aprende. Assim, tais atividades influenciam no desenvolvimento humano, pois este tem “sua dependência essencial do modo de vida, que é determinado pelas relações que o indivíduo considerado ocupa nas relações” (LEONTIEV, 1978, p. 89).

Assumimos com Vigotski, Leontiev e Elkonin, que o desenvolvimento psíquico humano pode ser dividido em etapas ou períodos. Cada período é determinado por um tipo de atividade principal ou dominante. No âmbito do desenvolvimento da criança, a atividade principal é aquela que provoca mudanças quantitativas e qualitativas no processo de seu desenvolvimento, pois, por meio dela, as formas superiores de conduta são formadas e desenvolvidas (LEONTIEV, 2001). Em outras palavras, ela “é então a atividade cujo desenvolvimento governa as mudanças mais importantes nos processos psíquicos e nos traços psicológicos da personalidade da criança, em um certo estágio de seu desenvolvimento” (LEONTIEV, 2001, p. 65).

Em cada momento de seu desenvolvimento, a criança tem um modo específico de relacionar-se com o mundo e aprender, ou seja, ela tem uma atividade que é diretora de seu desenvolvimento, uma atividade que é a principal para aquele momento do seu desenvolvimento. Essas atividades não são estanques, imutáveis ou instintivas, pois não são naturais, dependem das condições concretas de vida e sobrevivência em que o sujeito está inserido. Dentro da mesma compreensão que a atividade humana possui no sentido marxista, a atividade principal conduz o desenvolvimento de cada ser humano e é condicionada pelas condições concretas de vida (LEONTIEV, 1978; 2001; ELKONIN, 1987).

A atividade principal que norteia o desenvolvimento no período de zero a um ano é a comunicação emocional, pela qual o bebê se comunica através do olhar, choro, balbucio, sorriso. Mesmo não tendo linguagem oral articulada ainda, a criança é capaz de se comunicar com seu meio por várias maneiras. Nessa fase, é muito importante a linguagem que o parceiro mais experiente utiliza no processo mediador com a criança, que deve ser na forma ideal, ou seja, da forma como é utilizada nas práticas sociais, para que desde muito cedo, a criança já presencie os atos de fala e venha desenvolver adequadamente a linguagem oral.

No período de um a três anos, a manipulação objetal constitui a atividade dominante no desenvolvimento; nesse momento, a criança explora os objetos para se apropriar das funções sociais deles, tais como colher, lápis. Neste caso, o parceiro mais experiente ensina a criança a utilizar o instrumento, ou essa criança aprende simplesmente observando como se usa, por imitação.

Dos três aos seis anos de idade, a atividade principal é o faz-de-conta, o brincar. Período importante para todo o desenvolvimento infantil, a criança se apropria das condutas sociais e das regras da sociedade por meio do brincar.

Tomemos qualquer brincadeira com situação imaginária. A situação imaginária em si já contém regras de comportamento, apesar de não ser uma brincadeira que requeira regras desenvolvidas, formuladas com antecedência. A criança imaginou-se mãe e fez da boneca o seu bebê. Ela deve comportar-se submetendo-se às regras do comportamento materno. (VIGOTSKI, 2008, p. 27).

No jogo, a criança desenvolve as formas superiores de conduta, tais como: atenção voluntária, controle da própria conduta, imaginação, raciocínio lógico, memória lógica – funções importantes e que alicerçam todo o desenvolvimento ulterior. O desenvolvimento das funções psíquicas superiores está ligado naturalmente ao curso do desenvolvimento de sua atividade (LEONTIEV, 2001).

Entre os sete e onze anos, período escolar, a atividade principal é o estudo. Nessa etapa, a criança ingressa na sistematicidade do ensino escolar, começa a perceber que seu lugar na sociedade muda: agora possui as “obrigações” escolares como deveres e notas; para ela – somente agora – faz algo importante.

Dos doze aos dezesseis anos a atividade principal é a comunicação íntima pessoal, que caracteriza o desenvolvimento da adolescência. A partir dos dezoito anos, a atividade que domina é o estudo ou o trabalho, característicos da fase adulta.

Como se pode depreender do exposto, a criança aprende, se humaniza por meio da atividade principal desde a mais tenra idade, porém a atividade de estudo, presente no ensino escolar, para o desenvolvimento da criança é especialmente relevante, pois cabe a ela

[...] a importante tarefa de transmitir à criança os conteúdos historicamente produzidos e socialmente necessários, selecionando o que desses conteúdos encontra-se, a cada momento do processo pedagógico, na zona de desenvolvimento próximo. Se o conteúdo escolar estiver além dela, o ensino fracassará porque a criança é ainda incapaz de apropriar-se daquele conhecimento e das faculdades cognitivas a ele correspondentes. Se, no outro extremo, o conteúdo escolar se limitar a requerer da criança aquilo que já formou em seu desenvolvimento intelectual, então o ensino torna-se inútil, desnecessário, pois a criança pode realizar sozinha a apropriação daquele conteúdo e tal apropriação não produzirá nenhuma nova capacidade intelectual nessa criança, não produzirá nada qualitativamente novo, mas apenas um aumento quantitativo das informações por ela dominadas. (DUARTE, 1999, p. 98).

Quanto mais o professor compreender esse fato e tiver conhecimento das particularidades do desenvolvimento humano – a atividade principal – melhor será sua mediação, pois ele organizará as condições para o desenvolvimento de situações significativas de aprendizagem para seu grupo de crianças, de estudantes (MELLO, 2010), já que é pela atividade principal que os sujeitos melhor aprendem em cada período do desenvolvimento.

Para organizar uma atividade de ensino que venha incidir na ZDP dos estudantes, de ações pedagógicas direcionadas aos seus interesses e necessidades, é necessário que o professor tenha conhecimento dos níveis de ajuda (VIGOTSKII, 2001b; VYGOTSKI, 1996; 2003; ARIAS BEATÓN, 2005) e saiba utilizá-los na orientação da atividade das crianças. Esses níveis constituem uma categoria vigotskiana que esclarece como o professor atua pedagogicamente com um grupo heterogêneo de estudantes que, afinal, são sujeitos com ZDPs e níveis de desenvolvimento reais diferentes.

O primeiro nível de ajuda corresponde à recordação feita pelo professor ao estudante do que é proposto naquele momento. Nesse nível, o professor recorda o objetivo da tarefa proposta. Com essas ações o professor objetiva que a criança mobilize todo seu conhecimento acerca do assunto trabalhado e atinja o mais independentemente possível a resolução da tarefa.

O segundo nível de ajuda implica um grau de independência menor que o primeiro. O professor lembra ao estudante de tarefas realizadas anteriormente que sejam semelhantes àquela que está sendo proposta. O estudante mesmo pode fazer uma espécie de comparação entre aquela e a nova e mais complexa tarefa proposta.

O terceiro nível de ajuda é usado quando o grau de dificuldade apresentada pelo estudante é maior. Neste nível, o professor inicia conjuntamente com o estudante a resolução do problema proposto. Durante o desenrolar da tarefa, o professor percebe a oportunidade e solicita ao estudante que finde a tarefa sozinho.

O quarto ou o último nível de ajuda diz respeito à demonstração propriamente dita de todos os passos para a resolução de uma situação problema que foi proposta, implicando o menor grau de independência do estudante em comparação com os demais níveis de ajuda. A demonstração de como se resolve a tarefa é o último grau, quando a dificuldade apresentada pelo estudante é realmente muito grande.

Os níveis de ajuda são uma forma de fazer a atividade de ensino incidir na ZDP dos estudantes, propiciando sua aprendizagem, fazendo-os avançar no processo de desenvolvimento. Tais níveis podem ser, assim, considerados como ações mais potencializadoras da aprendizagem e do desenvolvimento humano, como já o demonstrou Vigotski em uma pesquisa experimental, na qual concluiu que,

Com auxílio de perguntas-guia, exemplos e demonstrações, uma criança resolve facilmente os testes, superando em dois anos o seu nível de desenvolvimento efetivo [real - LB] enquanto a outra criança [sem o auxílio dos níveis de ajuda - LB] resolve testes que apenas superam em meio ano o seu nível de desenvolvimento efetivo. (VIGOTSKII, 2001b, p. 111).

A questão da ajuda em diferentes níveis permeia a mediação do outro durante todos os períodos do desenvolvimento psíquico humano, sobretudo a mediação pedagógica desenvolvida pelo professor na idade escolar, período que implica a maior complexificação das formas superiores de conduta por meio da atividade de ensino organizada pelo professor e da atividade de estudo desenvolvida pelo estudante. Esse processo ocasiona a apropriação dos conhecimentos científicos e desenvolvimento do pensamento teórico, visto que o “caráter desenvolvente da atividade de estudo como

atividade principal na idade escolar está vinculado ao fato de que seu conteúdo são os conhecimentos teóricos”. (DAVÍDOV, 2003, p. 211, tradução nossa)18.

Nesse contexto, a ação educativa promovida pelo professor orienta a aprendizagem dos estudantes em direção aos objetivos da atividade de estudo, por meio da qual eles se apropriarão dos conteúdos culturais necessários ao desenvolvimento de suas formas superiores de conduta. A atividade de ensino está, dessa forma, intrinsecamente articulada à atividade de estudo, como veremos a seguir.

2.3 A organização da atividade de ensino e suas possíveis relações com a atividade

Benzer Belgeler