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BĠLĠNCĠN/KĠġĠLĠĞĠN TABAKALAġMA MODELĠ

ANTHONY GIDDENS‟IN EYLEM TEORĠSĠ

3.2. BĠLĠNCĠN/KĠġĠLĠĞĠN TABAKALAġMA MODELĠ

O método genealógico presente no pensamento de Michel FOUCAULT expõe a estreita ligação entre saber e poder, de como há uma simbiose entre essas dois “espaços”99 de

manifestação do ser humano. O pensador francês afirma, acerca disso, que “se quisermos realmente conhecer o conhecimento, saber o que ele é, apreendê-lo em sua raiz, em sua fabricação, devemos nos aproximar, não dos filósofos mas dos políticos, devemos compreender quais são as relações de luta e poder.”100

O saber é produzido mediante regras estabelecidas por relações de poder, as quais lhe conferem validade. As verdades obtidas por meio dos saberes, remetem ao poder e vice- versa, já que, para FOUCAULT, inexistem relações de poder sem uma constituição correlata de um campo de saber, bem como não há saber livre de relações de poder, este que, portanto, é relacional e não essencial. Isso implica afirmar que os critérios de verdade que formam o saber não são extraídos aprioristicamente, mas são construídos historicamente. As configurações de poder estabelecem as verdades que sustentam os saberes.

Esse breve panorama foucaultiano serve como pano de fundo para discorrer sobre a atuação política, sobretudo em seu aspecto de elaboração normativa. Os políticos orbitam nessas instâncias coligadas, quais sejam, o saber e o poder, manipulando instrumentos de dominação, como as forças armadas, a ciência, imprensa e, em um plano regulador de áreas como as dos três exemplos anteriores, há o Direito, que conjuga de forma sobremaneira evidente o poder e o saber, imiscuídos dentro de seu cerne. Existe uma amálgama dentro de uma norma jurídica, composta por um lado, pelos saberes que justificaram a escolha de determinadas medidas (por exemplo, os dados e argumentos que permitiram a implementação de um conjunto de leis ligados a uma determinada política criminal) e, por outro lado, seu poder, sobretudo o coercitivo que decorre da sanção pela inobservância a uma norma.

99 As aspas se justificam em razão da ausência de essência, a carência ontológica das categorias “saber” e

“poder”.

100 FOUCAULT, Michel. A verdade e as formas jurídicas. 3ª ed. Tradução de Roberto Cabral de Melo Machado.

A elaboração das leis é eminentemente um processo político,101 haja vista que tanto do

ponto de vista formal (referente aos procedimentos que regem a criação normativa e os protagonistas desses atos) como sob o prisma material (a necessidade de sopesamento de custos e benefícios e a capacidade de modificar determinada realidade que uma lei pode proporcionar), a gênese da lei se insere num processo decisório que conjuga, em tese, uma relação de técnica e discricionariedade empregada por um corpo de indivíduos eleitos que são competentes, ao menos do ponto de vista formal, para tal empreitada.

A norma advém do conflito, promovendo o diálogo entre grupos e interesses. François EWALD, discípulo de FOUCAULT, observa um caráter prudencial no Direito, já que há uma consideração a respeito dos efeitos na norma quando aplicada à realidade. Todavia, dentro de um regime de produção da verdade que lastreará as normas, estas não mais dependem de um referencial objetivo calcado na realidade, mas de um mero reportar-se ao outro, a quem apreende o sentido (subliminar no caso de uma norma simbólica). Tome-se o exemplo do autor, segundo o qual na política nuclear internacional as armas servem para não serem usadas, apenas para influenciar no cálculo das intenções dos poderes envolvidos.102

As normas simbólicas não se aplicam à realidade e, no limite, não são feitas para serem usadas, já que muitas vezes não possuem a mínima aplicabilidade. Elas são feitas para causarem um impacto positivo na sociedade, sem que precisem sair do plano do dever-ser. Aludindo à analogia feita por EWALD, pode-se pontuar que as armas nucleares estabelecem uma relação de intimidação que permite uma barganha com os demais poderes envolvidos, apenas calcada em seu potencial já que elas não são utilizadas. Por seu turno, as normas simbólicas também, assim como as armas nucleares, têm seus efeitos eminentemente calcados no potencial – na verdade inexistente – que o corpo social credita a elas, como aptas a modificar a realidade.

Por mais que as funções das normas possam ser elencadas em ações como regular, prescrever, salvaguardar, sancionar... em última análise, toda teleologia de um comando normativo está inserida dentro do significado de um verbo, qual seja, solucionar. O atrito ou potencial para tanto, clama pela normatização jurídica (há normas em relações que, em um primeiro momento, prescindem do Direito; exemplos são vastos, como os deveres de

101 O tema de elaboração de leis só será tratado en passant. Sobre o assunto, Cf., por exemplo, SILVA, José

Afonso da. Processo Constitucional de Formação das Leis. 2ª ed., São Paulo: Malheiros, 2006.

determinado credo, a etiqueta ou as regras de algum jogo).

Assim, em uma assertiva que pode soar temerária em virtude de sua generalização, é possível afirmar que todas as normas jurídicas (até mesmo as estruturais, principiológicas ou que versam sobre fundamentos) são soluções.103 “Normalizar consiste em determinar uma

referência ou um modelo para um objeto ou uma atividade. Se há necessidade de uma norma, é porque não há uma referência natural para este objeto.”104 As normas agiriam sobre

determinados problemas, que, algumas vezes, são meras questões técnicas, mas que necessitam de uma resposta, por exemplo, a data de entrada de vigência de determinado diploma.

2.1 – A desfiguração do conteúdo material da normas jurídicas

Elucidar um problema, por sua própria acepção, pode não ser tarefa das mais simples, e isto não seria diferente no Direito. Assim, já surge um empecilho inicial na elaboração legislativa, encontrar uma norma jurídica que esteja apta105 a resolver um problema da

realidade. Elaborar uma solução extraída do plano do dever-ser106 aplicável ao ser, em uma

análise kelseniana.

Tamanho é o número de variáveis que se entrelaçam dentro do tecido social, que até leis que versam sobre assuntos simples, necessitam de considerável esmero em sua elaboração, haja vista que seus efeitos não se limitarão a situação pontual que suscitou a criação da norma, já que o campo de influência de uma norma dificilmente pode ser mensurado. A complexidade da elaboração da lei não reside apenas na qualidade do conteúdo a ser criado. O próprio processo de aprovação é complexo, permeado por fases de discussões e votações. Tudo isso em uma estrutura rígida que proporcionaria, em tese, um produto final suficientemente debatido e maduro para sua aplicação na realidade. Além disso, todos esses procedimentos garantiriam a isenção da norma criada, confeririam legalidade à lei neófita.

103 Tercio Sampaio FERRAZ JUNIOR aponta, em um sentido semelhante, o protagonismo da decidibilidade no

Direito. Cf. Introdução ao Estudo do Direito: técnica, decisão, dominação. São Paulo: Atlas, 2003, pp. 88-91.

104 Ibid., p. 592.

105 Ou que dê a impressão de estar apta, eis a distorção do “Direito penal simbólico”. 106 Que se divide em três categorias: o obrigatório, o proibido e o permitido.

Há uma técnica legislativa delineada para assegurar a qualidade da lei venha a vigorar, ao menos em seus requisitos formais. Contudo, deturpações dos mecanismos legislativos são rotineiras e ocorrem tanto no plano material, quanto formal, tendo sempre por fim algum tipo de interesse que não se coaduna com as funções de uma norma jurídica.107

No plano formal (relativo aos trâmites pelos quais passam uma norma jurídica), por exemplo, leis são aprovadas a toque de caixa, ou tem sua aprovação condicionada a alianças partidárias, com permutas nas votações, para que uma lei posterior versando sobre outro assunto também seja aprovada. Há ainda, situações ainda mais graves, como o apoio de parlamentares a uma proposta mediante a compra de votos.

Todavia, é sob o ponto de vista material (no sentido do conteúdo das normas) da elaboração da lei que os desvios recorrentes guardam estrita relação com o presente trabalho: leis cujos efeitos são intencionalmente distintos daqueles que aparentam ter; leis que atuam sobre a percepção dos indivíduos acerca do problema em detrimento de atuarem sobre o próprio problema; a criação deliberada de leis cujo conteúdo é incapaz de representar uma mudança na realidade. Importante ressalvar aqui que a concepção de realidade refere-se ao mundo fenomênico, já que o âmbito mental não diz respeito ao Direito, já que apenas as externalizações do pensamento são relevantes no plano jurídico.

Essas deturpações na criação de normas jurídicas são corriqueiramente recepcionadas de forma positiva pela sociedade. Há uma interpretação e consequente valoração das novas leis por parte da opinião pública. A habilidade do legislador em criar leis que agradam a população rende um precioso capital político, fazendo com que, muitas vezes, uma norma seja criada de tal maneira que ela passa ao largo de qualquer vislumbre de mudança da realidade.

A capacidade de um político lograr êxito (leia-se, perpetuar a si e seus aliados no poder, como o significado do êxito) no jogo que envolve os anseios populares, está diretamente ligada ao uso de instrumentos que manipule o corpo social. Há um imenso cabedal utilizável para tanto, que vai desde obras faraônicas, discursos inflamados, ao culto à

107 Eduardo BITTAR expõe uma perniciosa utilização das leis como medida política de negociação de interesses

intrapartidários e interpartidários. “Um vício imperdoável da cultura naciona, que deposita na ideia de legalidade a miraculosa crença da solução pelo discurso (lege habemus), gerando-se uma persuasividade inócua (leis se tornam expedientes ideológicos, retóricos e demagógicos), sabendo-se que sem condições de efetivação política, orçamentária e econômica, que devem ser negociavas com consciência e responsabilidade social, se torna impossível transformar a realidade com uma penada do legislador”. BITTAR, Eduardo C. B. O Direito na pós-

personalidade.

Dentre as diversas formas de angariar simpatia popular, uma das mais perniciosas é recorrer a leis que vão ao encontro do senso comum. É justamente este artifício que guarda relação com o presente trabalho. A princípio, uma lei que não funciona só seria prejudicial por sua omissão. Contudo, o grande problema não está nas leis que não funcionam, mas sobretudo nas leis que quase não funcionam, tendo aplicabilidade reduzida e concentrada a determinado grupo de pessoas, contribuindo para um processo de seletividade, que como será demonstrada mais a frente, é típico do sistema penal.

Como já foi demonstrado, o processo legislativo possui uma complexidade no que concerne aos seus procedimentos e trâmites. Por outro lado, quando se angaria uma maioria de legisladores favoráveis a um projeto de criação ou modificação de uma norma, cria-se uma agilidade na sua aprovação, o que torna a lei simbólica em um instrumento de manipulação rápido e barato.

Apenas para ilustrar a criação oportunista de leis, pode-se pensar em um exemplo inserido no objeto dessa pesquisa, que são as normas penais: há um crime que causa grande comoção nacional, prontamente um projeto de lei que transforma a conduta criminosa em questão em crime hediondo, entra na pauta. Os debates são brevíssimos, rapidamente a proposta tramita entre a Câmara e o Senado e, em curtíssimo lapso temporal, a lei está aprovada.

Os parlamentares que votam em acordo a essa medida se dividem em três tipos: aqueles que compartilham a visão da sociedade, segundo a qual o endurecimento das leis é uma forma de diminuir a criminalidade108; outros tantos que notam como o voto a favor de

uma lei requisitada pela opinião pública pode se tornar um patrimônio político; por fim, há os que conjugam os dois primeiros tipos, em um típico exemplo de união do útil ao agradável.

Uma vez publicizada a aprovação dessa nova lei, será suscitada uma satisfação no corpo social, naqueles que pleiteavam o endurecimento das penas para aquele crime. Essa estratégia reflete o que Marcelo NEVES expõe ao afirmar que, de acordo com EDELMAN (em uma posição acrítica do simbolismo político), "a política simbólica serve antes à harmonia social, reduzindo as tensões e, portanto, desempenhando primariamente uma função

aquietadora do público, ('political quiescence')."109

2.2 – Os sentidos internos à norma simbólica

O simbolismo no Direito possui uma "prevalência do significado 'político-ideológico' latente em detrimento de seu sentido normativo-jurídico aparente".110 Marcelo NEVES utiliza

significado e sentido como sinônimos, diferenciando, em contrapartida, o traço latente e "político-ideológico" que é proeminente na legislação simbólica, do traço aparente e normativo-jurídico. Assim, mesmo se tratando de uma norma jurídica, ela carece de efeitos notáveis que operem no plano do Direito.

Na realidade, justamente sua construção – seguindo os preceitos formais da elaboração de leis – e sua inserção dentro do ordenamento legal dão à norma eminentemente simbólica matizes jurídicas. Falta a ela a efetividade necessária à concreção da sua finalidade específica, pois toda e qualquer norma tem uma razão de ser que motivou sua criação.

Ao contrário, sobejam na norma simbólica, notas "político-ideológicas", ou seja, dotadas de um referencial que se manifesta sobre o ideário da população. A partícula "político" está ligada, conforme este capítulo vem demonstrando, a capacidade do governante angariar simpatia do corpo social, o que lhe conferirá duas vantagens: maior governabilidade durante seu mandato, já que haverá menos pressões sobre o trabalho desempenhado; por outro lado, as ações direcionadas a um ganho político, se exitosas, terão efeito sobre as urnas, rendendo votos para reeleição do político que utilizou desse artifício ou do candidato por ele apoiado.

Por seu turno, na expressão "político-ideológicas", a segunda palavra alude a uma concepção crítica de ideologia, já que esta também poderia ser vista de uma forma neutra,

109 NEVES, Marcelo. A constitucionalização simbólica, cit., p. 24. GARLAND, por seu turno, afirma que “a

formulação de políticas se torna uma forma de atuação simbólica que rebaixa as complexidades e o caráter duradouro do controle do crime efetivo, em favor das gratificações imediatas de uma alternativa mais expressiva. A elaboração de leis se torna uma questão de gestos retaliadores, cujo objetivo é o de reconfortar um público preocupado com o tema e de se alinhar ao senso comum.” GARLAND, David. A cultura do controle. Crime e ordem na sociedade contemporânea. Tradução de André Nascimento. Rio de Janeiro: Revan, 2008, p. 282-283.

referindo-se a um plexo de ideias particulares a uma realidade111. Todavia, sob o prisma

crítico, a ideologia representa uma forma de alienação, pois as ideias reificam-se, adquirindo vida própria e impondo-se aos homens, num processo de assujeitamento.112 A ideologia

constitui, dessa maneira, uma forma simbólica de dominação, cujo espectro alcança todos os sujeitos inseridos em sociedade.113

Há um centro de gravidade pelo qual orbita toda a política simbólica (que tem entre uma de suas características, o uso de ideologias). De acordo com a concepção estritamente crítica de sua utilização, esse centro corresponde a estabilização do status quo pelas elites que manipulam a massa ignorante e desorganizada, por meio de satisfações simbólicas. Observa- se nessa crítica, uma visão do governante como títere do povo, sendo que a exígua consciência política da sociedade acaba facilitando a utilização de artifícios, como os mitos políticos ou normas simbólicas. Nessa esteira, GRAMSCI afirma que "uma ideologia política se apresenta não como fria utopia, nem como raciocínio doutrinário, mas como uma criação da fantasia concreta que atua sobre um povo disperso e pulverizado para despertar e organizar a sua vontade coletiva."114

Louis ALTHUSSER aponta que "a ideologia representa a relação imaginária dos indivíduos com suas condições reais de existência."115 A definição do pensador francês vai ao

encontro do fenômeno de satisfação da sociedade por meio de atos político-ideológicos, eis que esses estabelecem uma deturpação da percepção dos indivíduos, frente à realidade. Nesse sentido, as "relações ideológicas ocultam, ou representam mal, relações reais, embora ao mesmo tempo designem uma relação vivida e, portanto, real.”116

A afirmação infracitada expõe a corrupção da realidade, nas relações ideológicas, o

111 Em sua concepção neutra, a ideologia – que é inerente a todo sistema social – assegura a estabilidade da

sociedade, assegurando a constituição das normas, costumes, instituições e crenças que fazem referência a cultura da sociedade a qual ela remete, em um processo de resguardo das formas atinentes àquela comunidade.

112 Cf. MARX, Karl; ENGELS, Friedrich, "A Ideologia Alemã, 5ª ed., tradução de José Carlos Bruni e Marco

Aurélio Nogueira. São Paulo: HUCITEC, 1986. p. 21.

113 Acerca do tema, cf. REICH, Wilhelm. Psicologia de massas do fascismo. Tradução de Maria da Graça M.

Macedo. São Paulo: Martins Fontes, 1972, pp. 77-78.

114 GRAMSCI, Antonio. Maquiavel, a Política e o Estado Moderno. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1976,

p. 4.

115 ALTHUSSER, Louis. Aparelhos Ideológicos do Estados: notas sobre os aparelhos ideológicos do Estado. 2ª

ed. Tradução de Walter José Evangelista e Maria Laura Viveiros de Castro, Rio de Janeiro: Edições Graal, 1985, p. 85.

116 MCLENNAN, Gregor et al. A teoria de Althusser sobre Ideologia. Tradução de Rita Lima, In: Centre for

que reforça a definição althusseriana de ideologia. Todavia, o excerto vai além, ao propor que, concomitantemente à ocultação ou má representação, a ideologia designa uma relação presente na realidade. Novamente, a afirmação se coaduna com o posicionamento de ALTHUSSER, já que ele também assevera que "a ideologia tem uma existência material.”117

Há, então, no pensamento desse autor, uma estreita ligação entre ideologia e vivência, no sentido que a primeira se liga a experiência do indivíduo, das condições materiais que experimenta e que são o pano de fundo para a elaboração de uma ideologia, como um conjunto de ideias descoladas da realidade.

Por mais que a ideologia, como o próprio radical da palavra já demonstra, esteja ligada a uma pluralidade de ideias relativas a algum objeto, é imprescindível que haja um arcabouço fático que suscite a ideologia, o qual funcionaria como uma agregação das vontades e necessidades advindas da realidade dos indivíduos.

Acerca disso, é importante distinguir que a ideologia, imperiosamente ligada à realidade, não necessariamente é verdadeira, visto que a apreensão e codificação dos fatos reais podem ser deturpados nesse processo de formação ideológica. Por tal razão, diversos autores mantêm a já referida posição crítica acerca da ideologia, que para eles, representa uma forma de dominação, uma vez que os discursos ideológicos podem servir de embuste para aqueles que desejam uma mudança da realidade. Ambicionando a modificação, eles se convencem com as ideias propostas, sem imaginar que a aplicabilidade e capacidade delas modificarem o cenário em que vivem é inexistente.

Há, portanto, uma carga demagógica muito acentuada nas ações "político-ideológicas". Elas proporcionam satisfação à população, relegando aos seus efeitos na realidade, uma importância secundária.

2.3 – O mito político

Para Alfred SAUVY, os mitos correspondem a "ideias comumente recebidas, que

desaparecem ao serem examinadas."118 Nessa definição, fica claro o quão perfunctório é o

componente de verdade inserido em um mito, que é facilmente desconstruído por uma análise mais detida sobre seu conteúdo. No entanto, em matéria de política, são exceções aqueles que se empenham numa interpretação aprofundada das ações e discursos. Em geral, nota-se uma ausência de racionalidade nas tomadas de decisões da sociedade. Vislumbra-se uma massa acrítica, norteada mais por critérios emocionais do que racionais.

Pode-se articular a ideologia, que foi abordada no subcapítulo, com um conceito de mito, segundo o qual, os mitos são unidades inscritas dentro de uma ideologia, que a aproximam do povo, pois os mitos inspiram interpretações emocionais. Os mitos, apesar de remeterem ao abstrato, funcionam como a materialização da ideologia, lançando mão de um ideário que é comungado pela coletividade. Nesse sentido, pode-se citar alguns exemplos de mitos que são manipulados no jogo político119: o da Idade de Ouro, representando a

possibilidade de ascensão da sociedade a um período de apogeu; do Salvador, como uma