2. RİSK ALMA DAVRANIŞI İLE İLGİLİ KURAMSAL GÖRÜŞLER
2.4. R İSK A LMA D AVRANIŞI K URAMLARI
2.4.5. Bütünleştirici Kuramlar
De carona nas asas do tempo vejo-me, ainda criança, caminhando de mãos dadas com minha avó, embaixo das enormes árvores que enfeitavam o caminho da casa da fazenda até a vazante do açude. Ali, ela cultivava repolho, coentro, cebolinha. A minha avó cultivava também pimentões vermelhos, verdes e amarelos, o que me causava muita admiração, pois até então, só conhecia os pimentões verdes que davam mais sabor aos alimentos na casa de meus pais. Aqueles vermelhos e amarelos instigavam a minha vontade de prová-los, e foi assim que passei a comer pimentões crus, recém-colhidos, ainda molhados de orvalho.
Até hoje, se fechar bem os olhos, consigo sentir aquele cheiro de terra molhada e de pimentões pedindo para ser colhidos e degustados ali mesmo, na horta, regados também pelo carinho e afeto da vovó.
Após os cuidados dispensados à horta, colhíamos tomates, folhas de alface e couve, que mais pareciam grandes leques das rainhas e princesas que habitavam minha imaginação, e voltávamos para casa, a fim de prepararmos as iguarias para o almoço.
Vovô chegava do trabalho, lavava o rosto suado e as mãos calejadas numa bacia de ágata branca, com a água que minha avó, pacientemente, derramava sobre suas mãos, de um cântaro igualmente branco. Depois deste pequeno ritual, sentávamos à mesa e almoçávamos em silêncio.
Silêncio quebrado apenas quando vovô decidia contar algum causo ocorrido lá no roçado, como uma cobra enorme e talvez muito venenosa que teria atravessado seu caminho, ou lamentado sobre aquela bela melancia que teria trazido para casa se o guaxinim não a tivesse descoberto primeiro. Ou, ainda, como as juritis estavam cantando àquela manhã, sinal de que teríamos chuva ao fim da tarde. Às vezes meu avô chegava com cara de pouca conversa, cenho franzido. Decerto a praga da lagarta estava devorando a plantação. Nessas ocasiões, ele não ficava para a cesta, tinha providências a tomar ou a família não teria provimentos para o resto do ano.
Eu, menina que era àquela época, aos cinco/seis anos de idade, não sabia que tais experiências e ensinamentos do meu contexto familiar, estavam se constituindo nos alicerces da minha formação primeira.
Naquela convivência eu estava sendo iniciada nas primeiras noções de ética, de respeito e preservação da natureza; recebia lições de previsões do tempo através do relato de experiências dos adultos que me rodeavam e da observação direta dos fenômenos naturais. Aprendia a gostar e valorizar as pessoas pelas suas histórias, ao mesmo tempo, singulares e universais.
Minhas noites na casa de meus avós eram embaladas, não só pelo balanço da rede no alpendre, mas pelos sentimentos em mim despertados pelas histórias contadas. Meu avô contava suas experiências como soldado destacado para lutar na Segunda Guerra Mundial no estado do Rio Grande do Norte e, embora fizesse parte de um grupo de reserva, passou por muitas situações difíceis que ele contava e recontava muitas vezes no alpendre, reafirmando que nenhum homem deveria “provar” de experiências de guerra.
E eu, que nunca tinha ouvido falar em guerras, ficava me perguntando por que os homens se matavam e muitas vezes, com o olhar cheio de pavor, perguntei a
meu avô se ele já havia matado alguma pessoa, para ouvi-lo dizer com sua voz pausada e mansa: “Minha filha, eu nunca precisei matar nem uma cobra, que também tem suas bonanças”. Isso me deixava muito confusa porque, naquela época, eu já acreditava que os homens não podiam matar uns aos outros, mas podiam sem nenhum problema, matar cobras.
Ora, entre as histórias ouvidas no alpendre, fiquei sabendo de muita gente que morreu porque foi picada por cobra; que algumas, após picar sua vítima, iam espreitar na cumeeira da casa, a saída do caixão. Como pode um bicho tão peçonhento, tão mau, não merecer ser morto? Ah, eu acreditava que também os sapos precisavam morrer. Eu tinha pavor a sapo, e ficava sofrendo pelas princesas dos contos de fadas que precisavam beijar sapos, para transformá-los em príncipes. Coitadas!
Meu avô contava que na vazante quando ele ia plantar arroz, batata e cana, os sapos subiam pelas suas pernas. Como eu ficava agoniada e achava meu avô ainda mais valente e corajoso por isso. Mais tarde, quando eu fui para a escola, comecei a contestar a professora que falava de animais úteis e nocivos. É claro que eu colocava os sapos no rol dos nocivos e a professora considerava errado, ao mesmo tempo em que não reprovava o fato de eu classificar a cobra também como nociva.
Pelos motivos já expostos, eu não conseguia enxergar o que havia de útil em sapos e cobras, mas hoje, refletindo sobre essa experiência, percebo que na verdade não se deve enquadrar o conhecimento, as coisas e os fatos, em conceitos fechados.
Na fazenda do meu avô produzia-se queijo de manteiga. A enorme casa circundada por alpendres tinha como vizinho próximo, o curral, onde ficavam as vacas e suas crias, durante o dia. Quando os últimos raios de sol se despediam do horizonte, deixando no céu uma faixa amarelo-ouro que ofuscava meu olhar, era hora de meu avô voltar do roçado e, antes de entrar em casa, ir apartar as vacas dos bezerros. Estes passavam a outro curral, onde ficavam noites a fio.
Assim, garantia-se bastante leite nos reservatórios naturais das vacas (os úberes) e quando o sol começava a dar sinal do seu retorno, vovô e meu tio adentravam o curral para a ordenha. Saia Branca era a vaca de estimação de meu avô, também considerada a mais forte e saudável, por isso era dela que ele enchia meu copo do leite morninho que eu tomava, ali mesmo, no curral.
Mais tarde, o leite levado para casa era colocado para coalhar e seguia-se o processo de decantação. Vovó, junto com minhas tias, enchia enormes trouxas brancas feitas de saco alvejado e punha para coar até a última gota de soro. No dia seguinte, aquela coalhada se transformaria numa branca mistura que, levada ao fogo, ia ficando dourada e transformava-se em queijo.
Terminado o processo, minha avó deitava-o, ainda quente, em tabuleiros de vários tamanhos. Uma parte seria consumida pela família e o que restasse seria vendido na cidade para ajudar nas despesas domésticas. O queijo era cozido num imenso taxo de metal e, quando dele era retirado, sobrava uma crosta que se formara no fundo. Era hora de atacar, hora de raspar o taxo. O queijo, ainda quente, fazia fios que iam desde a enorme vasilha até minha boca, de forma que, às vezes, eu ficava entrelaçada numa teia de queijo que grudava nos meus cabelos e na minha pele branca. Eu era uma menina feliz, cheirando a queijo, a manteiga e a pimentões vermelhos.
Mal sabia que aquelas experiências de criança teceriam teias que estariam presentes em muitos outros momentos de minha vida. Não mais teias feitas de fios de queijo, mas outras que foram se formando e crescendo como as estruturas e arquétipos da vida, na diversidade das suas relações, restando-me continuá-las e transformá-las, rasgando-as, retirando-lhes os nós e, por vezes, acrescentando-lhes outros, para tecê-los diferentemente.
Neste momento em que paro para refletir sobre minhas experiências, estabeleço uma analogia dessas teias com teias de conhecimento, já que este não é algo que está dado. É na relação que com ele estabelecemos, nas experiências vivenciadas em diferentes contextos ao longo de nossas vidas, que vamos tecendo as nossas teias de significados, aos poucos modificando-as e sendo nós mesmos modificados, a ponto de não sabermos mais identificar onde tudo começou, assim como não sabemos aonde vai dar, num entrelaçamento constante, tal qual a teia que a aranha tece, sem nenhum compromisso com o tempo.
Assim, acredito que o nascimento da professora na qual me tornei, se deu por meio de adesões, nos meandros dessas teias de ralações comigo mesma, com os outros e com objetos do conhecimento.
Como toda criança, gostava de me fantasiar e era no baú de roupas da minha tia Elita que encontrava solo fértil para dar asas a minha imaginação. As saias de cambraia branca com largos bicos ingleses compunham o figurino perfeito para me
transformar em noiva. As flores para a mão eram colhidas no jardim que ficava na lateral da casa. Também era dentro desse mesmo baú que me escondia quando fazia alguma coisa que os adultos consideravam errada, o que, inevitavelmente, sujava toda a roupa. Minha tia resolveu virar a fechadura do baú para a parede, acabando com a minha festa. A inspiração surgia, então, com os lençóis de cama com os quais eu fazia longos véus, com as camisolas da minha avó, os aventais da cozinha e até com as peles de animais que ornamentavam as cadeiras da sala. Tudo compunha uma peça para realização das minhas brincadeiras, vivências do faz de conta e alimento do imaginário.
Tia Elita, assim como minha mãe, era costureira e, frequentemente, as pessoas nos visitavam trazendo pacotes de tecido que ela transformava em peças de vestuário. Eu considerava essa atividade muito mágica, não entendia como um pedaço inteiro de pano podia ganhar tantas curvas e formas. Talvez influenciada por essa experiência, muito cedo comecei a fazer roupas para minhas bonecas e, mais tarde, tornei-me costureira também de minhas próprias roupas e de outras pessoas, sem nunca ter frequentado um curso de corte e costura.
Na minha família, a maioria dos alimentos consumidos, as peças do vestuário e também os nossos brinquedos eram confeccionados artesanalmente. Foi da minha tia Elita que ganhei a boneca mais bonita da minha infância. Boneca de pano, feita por ela mesma. Acompanhei todo o processo de confecção da boneca. Ela fez cada parte separadamente: o tronco, as pernas, os braços... À cabeça ela dedicou uma atenção especial, bordou o rosto da boneca com boca vermelha, maçãs do rosto rosadas com rouge, olhos azuis para combinar com os meus, sobrancelhas marrons e cabelos loiros, cheios de cachinhos. Seus braços e pernas eram móveis e ela era enorme, parecia um bebê humano. Eu podia vestir nela tantas roupas quanto quisesse. Brincar com aquela boneca que eu vi nascer da combinação de retalhos de tecido, flocos de algodão e fios de muitas cores, me permitiu vivenciar o jogo simbólico, desempenhar papéis sociais e culturais, tão necessários ao desenvolvimento de uma criança.
Foi, ainda, nessa época da minha infância que fiz meus primeiros contatos com outra cultura: a dos cidadãos do mundo, os ciganos. Era tradição na minha família dar ‘arrancho’ aos ciganos. Estes apareciam, periodicamente, lá no sítio montados em mulas com seus recém-nascidos metidos dentro de tipóias que as mães traziam transpassadas em seus ombros. As casas/barracas, prontas para
serem montadas e desmontadas com a maior facilidade possível, junto com vestuários e utensílios, eram igualmente transportadas nos lombos das mulas.
Mas, o que mais me impressionava era o mistério que rondava o interior das tendas armadas, os longos e coloridos vestidos usados pelas ciganas, as tatuagens feitas em seus corpos (geralmente o nome do homem amado), os colares de muitas cores e contas, e suas formas de falar.
Passávamos o dia observando os movimentos daqueles nômades. Eles riam muito, deixando à mostra seus dentes de ouro, contavam segredos entre si, em “sua língua”, conquistavam pessoas para ler a sorte e alegravam-se com o pouco que tinham. Quando caía a noite, acendiam uma fogueira, em torno da qual cantavam e dançavam. Quando eles se iam, deixavam suas marcas, por longo tempo, nas cinzas que restavam da fogueira, nas trempes em que preparavam seus alimentos ou em algum objeto que deixavam para trás.
Algumas ciganas contavam-nos histórias fantásticas de seu mundo e de sua sabedoria. Uma das histórias que ouvi e que muito me impressionou, dizia respeito ao surgimento do universo. Contava a cigana que, um dia, os deuses se revoltaram porque no mundo não existia pessoas ‘normais’, apenas deuses que disputavam, entre si, o poder.
Então, um grupo desses deuses resolveu atear fogo no universo e morreram todos, incluindo plantas e animais. O mundo virou uma gigantesca bola de fogo, levando muito tempo para esfriar novamente. Aí começou a surgir os animais, dentre eles os homens, as plantas e tudo que conhecemos hoje, contou ela. Ficávamos (eu e meus irmãos), muito confusos porque conhecíamos a história do dilúvio de que fala a Bíblia sagrada e não sabíamos em qual história acreditar.
Afinal, se o mundo já tinha acabado uma vez, teria sido com água ou com fogo? Passávamos muitas horas fazendo elucubrações sobre o fim do mundo, e morríamos de medo da morte. Contudo, a forma misteriosa que a cigana usava para contar as histórias era o que mais me fascinava. Ela contava sobre a perseguição que sofrera seu povo por não ter uma pátria, e eu ficava pensando nas vezes que ouvi meu pai, irritado, chamá-los de pragas do Egito, mas, o que queria dizer Egito? Só muito depois fiquei sabendo que se tratava de um país. E, assim, eu ia sendo iniciada nessas histórias diferentes das que, convencionalmente, se contam para as crianças.
Esse conjunto de histórias contadas pelas ciganas que se confrontava com as histórias da Bíblia cristã, certamente me ajudou a construir uma visão de mundo, na qual valem várias versões. Creio que a dificuldade que tenho hoje em aceitar uma só verdade, uma só versão sobre uma história ou um fato, é oriunda de experiências como esta que acabo de narrar.
Lembro-me de como sonhei fugir com os ciganos, pensava que eles podiam me mostrar outro mundo, mas agora acho que o que mais me atraía era aquele estilo de vida, ao mesmo tempo, incerto e livre.
O que aprendi com os ciganos? Aprendi a respeitar a diversidade, aprendi a criar meus deuses, a acreditar nos mitos. Aprendi sobre outras formas de explicar a origem do universo; aprendi muito sobre a vida.
Essa é uma forma de dizer das minhas experiências no/com o mundo, no contexto da minha vida familiar, uma forma de narrar aprendizagens constituintes da subjetividade e singularidade de meu processo de formação.