Considerando que as categorias são construções históricas e que seus fundamentos políticos, filosóficos e econômicos são constitutivos e constituintes de um só processo, para compreender a categoria emancipação social, cabe-nos ainda refletir sobre a Modernidade num enfoque contemporâneo, sobre o capitalismo tardio e a constituição da “condição pós-moderna”, por entender que o objeto de pesquisa em processo tem expressões determinantes neste período.85
Há quem diga que insistir na retomada dos fundamentos modernos soa “remar contra a corrente”, pois vivemos num período marcado pela negação da razão, pela despolitização, pelo individualismo e fragmentação (marcas da pós- modernidade). Contudo, acreditamos que a recorrência à Modernidade e as suas circunstancialidades históricas ilumina a compreensão do presente e desafia as perspectivas de construção do futuro, fazendo frente à tendência anti-moderna. Como diretriz da presente tese, argumentamos a defesa dos valores modernos, no que se refere à potencialidade do conhecimento, da liberdade e autonomia humana, da razão dialética, da emancipação, da democracia no desenvolvimento humano-social, apesar dos resultados ou produtos que estes tenham causado nas mãos e direção que as dominaram – capitalismo / liberalismo. Não podemos concordar com as marcas que a intitulada pós-modernidade tem colocado à humanidade, pois o valor da democracia moderna, a instituição de direitos sociais as conquistas humano-sociais não podem ser relegadas a um passado que não serve mais de orientação ética aos padrões contemporâneos de civilidade.
Assim, com base nos autores consultados não vamos desconsiderar as novas condições/ marcas da pós - modernidade, mas vamos continuar assumindo a defesa da Modernidade nas condições contemporâneas.
85 Há um consenso de que o Período Contemporâneo compreende a sociedade do século XX que se
estabeleceu pós Segunda Guerra Mundial, mais especificamente anos 60 – 70 com a crise mundial do petróleo e com as novas configurações do capitalismo tardio.
Há um certo consenso de que estudar a história em processo86 implica em
dificuldade de apreensão devido o desenrolar dos acontecimentos se dar no imediato e de se estar diante do imprevisível, tendo o risco de ficarmos limitados na compreensão do fenômeno estudado. Mesmo assim nos arriscamos em fazê-lo – para entender a pós-modernidade - tendo por referência autores como CHAUÍ (1999), JAMESON (1997), NETTO (1996), HOBSBAWN (1995) e HARWEY (1992) que têm estudos avançados sobre a sociedade contemporânea.
Segundo HARVEY (1992) a condição pós-moderna é originária, também, de uma onda de “raiva do Humanismo e do legado do Iluminismo” que desembocou numa denúncia da razão (principalmente com os eventos das suas grandes guerras mundiais e seus mecanismos anti-humanistas) e numa “... profunda aversão a todo projeto que buscasse a emancipação humana pela mobilização de forças da tecnologia, da ciência e da razão” (p.47)
Com referência a esses pressupostos (sem otimismo, com raiva do Humanismo, com aversão aos projetos emancipatórios) o quadro contemporâneo se desenha numa intitulada sociedade pós-moderna. Não se pode dizer que a razão crítica tenha uma posição de destaque na orientação das questões humano-sociais contemporâneas. Mas, também, não podemos ser tomados por um utopismo romântico que prevê a derrubada abrupta do capitalismo diante das determinações concretas da fase contemporânea do sistema capitalista: tardia, globalizada, financeira, pós – industrial... Apesar das incertezas, parece-nos que essas novas determinações não representam uma relação de ruptura com os movimentos sistêmicos anteriores do capitalismo, mas uma continuidade com novas roupagens.
Para HARWEY (1992) ainda vivemos numa sociedade onde permanece a produção em função de lucros com princípio organizador básico da vida econômica, porém, ocorreram grandes eventos desde a primeira grande recessão do pós- guerra, na década de 70, que modificaram radicalmente o processo de trabalho, hábitos de consumo, configurações geográficas e geopolítica, poderes e práticas de Estado, entre outras. Deste modo, entendemos JAMESON (1997) quando
86
Sem requer fazer comparação, lembramo-nos dos comentários de FERNANDES (2001) quanto as dificuldades de Marx e Engels em seus estudos históricos que se referiam a “acontecimentos” “séries de acontecimentos” da história diária “momentos” em que eles se desenrolavam, isto é, sobre as dificuldades de se estudar a história em processo, e mesmo assim os autores as suplantaram.
argumenta que para compreender a cultura da sociedade capitalista contemporânea é preciso ter como referência a relação entre elementos como o capital financeiro, a sociedade de consumo, a mídia, a cultura de massas87.
A década de 70 é ilustrativa da crise do capitalismo monopolista que é levado a encontrar estratégias devido a “recessão monumental e o que se lhe seguiu pôs de manifesto um giro profundo na dinâmica comandada pelo capital: chegava ao fim o padrão de crescimento que, desde o segundo pós - guerra e por quase trinta anos (as três ‘décadas gloriosas’ do capitalismo monopolista) sustentara, com as suas ‘ondas longas expansivas’, o ‘pacto de classes’ expresso no Welfare State”. (PRZEWORSKI in NETTO, 1996, p. 90)
A estratégia capitalista foi a substituição do regime rígido de acumulação - fordista - keynesiano - que até meados nos anos 70 o orientava88. Em síntese, o princípio Keynesiano prega a intervenção estatal na economia através de investimento e endividamento para distribuição de renda e promoção do bem-estar social, com o objetivo de diminuir as desigualdades. E para o princípio Fordista89 a organização industrial é baseada no planejamento, na funcionalidade e no prazo do trabalho industrial, com a centralização e a verticalização das plantas industriais, grandes linhas de montagem concentradas num único espaço, formação de grandes estoques. É orientado pelas idéias de racionalidade e durabilidade dos produtos e de
87
O autor dedica a esta problemática o livro Pós-Modernismo: a lógica cultural do capitalismo tardio, ao qual fazemos referência, para formar um entendimento sobre a sociedade contemporânea, sem nos especificar em todos elementos indicados pelo autor: cultura, ideologia, vídeo, arquitetura, espaço, teoria, economia, cinema. Sem abandonar a categoria totalidade (tão questionada pelos pós-modernos) “... repõe o marxismo como teoria explicativa tanto dos novos fenômenos econômicos, políticos e sociais, como da própria produção cultural.” (PEIXOTO, 1998, p.54)
88
“... parece que havia indícios de problemas sérios no fordismo já em meados dos anos 60.” (HARVEY, 1992,p. 135) O mercado interno da Europa Ocidental e do Japão estava saturado. Nos EUA a queda da produtividade e da lucratividade (depois de 1966) marcou o começo de um problema fiscal. “De modo mais geral, o período de 1965 a 1973 tornou cada vez mais evidente a incapacidade do fordismo e do keynesianismo em conter as contradições inerentes a o capitalismo.” (idem, ibidem)
89 No início do século XX Ford “... fez pouco mais do que racionalizar velhas tecnologias e uma detalhada
divisão do trabalho preexistente, embora, ao fazer o trabalho chegar ao trabalhador numa posição fixa, ele tinha conseguido dramáticos ganhos de produtividade” HARVEY, 1992,p. 121) Somado ao fordismo o Taylorismo “um influente tratado que descrevia como a produtividade do trabalho poderia ser radicalmente aumentada através da decomposição de cada processo de trabalho em movimentos componentes e da organização de tarefas de trabalho fragmentadas segundo padrões rigorosos de tempo e estudo do movimento” (idem, ibidem) Encontramos em GRAMSCI (1989,P.397) sobre Taylor e sua expressão do trabalhador como um “gorila domesticado” que este “... exprime com cinismo brutal o objetivo da sociedade americana; desenvolver o máximo, no trabalhador,as atitudes maquinais e automáticas, romper o velho nexo psicofísico do trabalho profissional qualificado (...) e reduzir as operações produtivas apenas no aspecto físico maquinal.” Sobre essa perspectiva do fordismo e americanismo consultar a última fonte indicada de Gramsci.
uma política salarial e promocional visando aumentar a capacidade de consumo dos trabalhadores. (CHAUI, 1999)
A substituição se deu para um regime de acumulação flexível que se apóia na flexibilidade dos processos de trabalho, dos mercados de trabalho, dos produtos e padrões de consumo. Caracteriza-se pelo surgimento de novos setores de produção (movimenta o chamado setor de serviços), novas maneiras de fornecimento de serviços financeiros, novos mercados e, sobretudo, taxas altamente intensificadas de inovação comercial, tecnológica e organizacional. “A acumulação flexível envolve rápidas mudanças dos padrões de desenvolvimento desigual, tanto entre setores como entre regiões geográficas...” (HARVEY, 1992, p.140) Com a globalização da economia houve a transferência da produção industrial dos centros tradicionais do Primeiro Mundo para o Terceiro Mundo, em busca de vantagens como “mãos e cabeças baratas” para o trabalho, ocasionando a queda do número de postos de trabalho em centros de alto salário para outros de baixos salários.
Como a produção não mais se desenvolve no molde fordista - com grandes plantas industriais – que concentra todas as etapas da produção (desde a aquisição de matéria prima, produção e distribuição dos produtos), mas se desenvolve pela dispersão do processo e das etapas da produção, flexibiliza a espacialização na ‘fábrica difusa’ e favorece a terceirização (difusão e sub-contratação de mão de obra). Esse processo resulta no desaparecimento de “...todos os referenciais materiais que permitiam à classe operária perceber-se como classe e lutar como classe social, enfraquecendo-se ao se dispersar nas pequenas unidades terceirizadas espalhadas pelo planeta.” (CHAUI, 1999, p. 30)
Continua a autora dizendo que o capitalismo contemporâneo não opera por inclusão da sociedade no mercado de trabalho, mas por exclusão – que não se dá apenas pela automação, mas também pela velocidade da rotatividade de mão de obra, que de uma hora para outra, se torna desqualificada devido as mudanças tecnológicas. Com a precariedade de empregos, a quantidade de mão de obra excedente, o declínio demográfico das classes industriais e aumento da pobreza se fragiliza também o poder dos sindicatos. Com a ação coletiva dificultada, o individualismo se encaixa no quadro geral - como mais um elemento – favorecendo a transição do fordismo para a acumulação flexível (HARVEY, 1992), do trabalho
coletivizado para o trabalho individualizado, do sujeito coletivo para o sujeito de particularidades desarticuladas. As características do capitalismo pós-moderno / tardio / fragmentado / heterogêneo / identidades singulares são ideologicamente “embutidas” no indivíduo. Dizendo nas palavras de HOBSBAWM (1995, p. 328) “A revolução cultural de fins do século XX pode assim ser bem entendida como o triunfo do indivíduo sobre a sociedade, ou melhor, o rompimento dos fios que antes ligavam os seres humanos em texturas sociais.”
Ainda segundo HARVEY (1992) a desvalorização da força de trabalho90 sempre foi a resposta dos capitalistas à queda de lucros. Mas essa regra geral esconde elementos contraditórios: por um lado a alta tecnologia aumenta o poder de uma pequena camada de trabalhadores com alta remuneração e habilidade técnica com “espírito empreendedor”, caracterizando uma “nova aristocracia do trabalho” e por outro faz surgir uma sub classe mal remunerada e totalmente sem poder, o que acaba contribuindo para o aumento da desigualdade de renda.91
O Capitalismo Tardio desvaloriza o trabalho produtivo coibindo a abertura de postos de trabalho, mas por outro lado, privilegia o sistema de mercado financeiro, aspecto que, segundo HARVEY (1992) parece como o mais especial pós 1972. Aqui há uma surpreendente formação de capital fictício que oscila no mercado internacional, entre valorizações, desvalorizações, transações bancárias e na bolsa de valores afetam diretamente a vida econômica e social do mundo inteiro.
Ao contrário do keynesianismo, o Capitalismo Tardio – na maioria dos países - despreza a presença regulatória do Estado não apenas no mercado como também nas políticas sociais (a onda de privatização dos serviços públicos é motivada por esse pressuposto). A transnacionalização da economia também descarta a presença do Estado nacional, deixando para as agências internacionais (FMI e Banco Mundial) o comando para a estabilidade econômica nos paises. O Estado nacional perde então, seu papel de regulação e com isso os direitos sociais “... como pressuposto e garantia dos direitos civis ou políticos tende a desaparecer, porque o
90
Sobre a desvalorização da força de trabalho e as “metamorfoses do mundo de trabalho” consultar a obra de ANTUNES, R. Adeus ao trabalho? São Paulo : Cortez, 1995.
91
Paralelamente a essa nova distinção de classes HOBSBAWM (1995) indica que a “mudança social mais impressionante” da segunda metade do século XX é a morte do campesinato e esta deixa para traz o mundo passado. Lembra que este aspecto fora previsto por Marx no século XIX, quando alertava que a industrialização o eliminaria.
que era um direito, converte-se num serviço privado regulado pelo mercado, e portanto, torna-se uma mercadoria ...” (CHAUI,1999, p.32 )e somente tem acesso aquele que tem dinheiro para comprá-lo.
Sem o Estado Nacional e com a globalização da economia, há formação de grandes corporações de integração nacional – blocos econômicos que têm centralizado ainda mais a riqueza e o mapa mundial. A divisão entre países ricos e pobres – do norte e do sul - demonstra a contradição de acumulação e distribuição da riqueza mundial (lembremos que essa contradição sempre existiu, mas nunca como nas proporções contemporâneas).
Outro elemento que caracteriza o capitalismo é o acesso ao conhecimento científico e técnico que sempre teve papel decisivo na luta competitiva, como afirma HARVEY (1992): mas na contemporaneidade há uma “renovação de interesse e de ênfase”, pois situados num mundo de rápidas mudanças de gostos e necessidades, o conhecimento a “... última técnica, do mais novo produto, da mais recente descoberta científica, implica a possibilidade de alcançar uma importante vantagem competitiva” (p.151) O saber (conhecimento e informação) também se torna uma mercadoria chave – não mais como suporte, mas como elemento fundamental para a acumulação. CHAUI (1999) também faz essa análise dizendo que a ciência e a tecnologia contemporâneas, submetidas à lógica neoliberal e pós-moderna, tornaram-se o contrário do que era previsto: “em lugar de fonte de conhecimento contra as superstições, criam a ciência e a tecnologia como mitos e magias; em lugar de fonte libertadora das carências naturais e cerceamento às guerras, tornaram-se através do complexo industrial-militar, causas de carências e genocídios.” (p. 50) Então, o conhecimento como determinante da emancipação humana e social fica, nas condições contemporâneas, ainda mais limitado diante do principio moderno de universalidade.
CHAUI (1999) argumenta que o conjunto de condições materiais92 que constituem a contemporaneidade corresponde ao imaginário social Neoliberal que
92
Condições materiais, em resumo “... desintegração vertical da produção, tecnologias eletrônicas, diminuição dos estoques, velocidade na qualificação e desqualilificação da mão-de-obra, aceleração do turnover da produção, do comércio e do consumo pelo desenvolvimento das técnicas de informação e distribuição, proliferação do setor de serviços, crescimento da economia informal e paralela, e novos meios para prover os serviços financeiros (desregulação econômica e formação de grandes conglomerados financeiros que formam um único mercado mundial com poder de coordenação financeira).” (CHAUI, 1999, p.31)
as legitima e as justifica ideologicamente. Por sua vez, esse imaginário tem como sub-produto a ideologia pós-moderna que é a forma de vida social econômica e política, expressa pelas novas marcas do capitalismo tardio93.Diz a autora:
“podemos ver essa ideologia em toda parte...” Esse modo de vida é circunscrito pela insegurança e pelo medo ditados pelo mercado94, que realiza três grandes
inversões: substitui a lógica da produção pela da circulação; substitui a lógica do trabalho pela lógica da comunicação; substitui a lógica da luta de classes pela lógica da satisfação-insatisfação dos indivíduos do consumo.
Nessa mesma linha de pensamento, Jameson coloca que o pós- modernismo95 (dominante cultural da lógica do capitalismo tardio) representa o reflexo e aspecto concomitante de mais uma modificação sistêmica do próprio capitalismo, logo, não é um estilo cultural totalmente novo, mas reflete as contradições do capitalismo. O pós - modernismo é uma criação, um desdobramento desta fase do capitalismo que precisa de uma “lógica cultural” que seja a base para o consumo e para o lucro constantes, assim, deve haver um tipo de cultura que perpassa a sociedade que o legitime, ou seja, a cultura a serviço do capital (tanto a cultura de massa como a alta cultura são instrumentos para aprendizagem e treinamento)96 A mídia tem um papel preponderante nesta assimilação, reforçando
os valores culturais que reproduzem o sistema maior em que estamos inseridos. Institui-se ideologicamente uma dinâmica onde cultura e a economia se fundem para dar sustentação e estrutura ao lucro acirrando a desigualdade e a falta de liberdade que são considerados “fenômenos de desajuste individual”, como vimos na ascensão do capitalismo/liberalismo, mas que hoje ganham contornos específicos
93
HOBSBAWM (1995) no livro A Era dos Extremos: o breve século XX –1914 – 1991, mais especificamente nos itens Revolução Social e Revolução Cultural aborda as mudanças sociais e culturais ocorridas na família, na presença das mulheres e dos jovens na sociedade contemporânea.
94 São quatro traços principais que a caracterizam “a insegurança que leva aplicar recursos no mercado de
futuros e seguros; dispersão, que leva a procurar uma autoridade política forte, com perfil despótico; o medo, que leva ao reforço de antigas instituições, sobretudo a família e as formas místicas e autoritárias ou fundamentalistas de religião; o sentimento do efêmero e da destruição da memória objetiva dos espaços levando ao reforço de suportes subjetivos da memória (diários, biografias, fotografias, objetos) CHAUI,1999,p.32.
95
Segundo HARVEY (1992) é muito “confusa” a distinção e o uso dos termos: moderno / modernismo, pós- moderno/pós-modernismo, as expressões “ismo” representam os movimentos culturais estéticos correspondentes à modernidade e a pós-modernidade, sem com isso afirmar que existe uma unidade interna de concepções nos movimentos. Sobre essa terminologia consultar também CONNOR (1996)
96
No capítulo II esclareceremos a relação e distinção desta tipologia de cultura com base no pensamento de Rouanet.
pela fase que o demarca: pós-industrial97, pós-imperial, pós-moderna, pós-
marxista...
Quando enfrentam o que o passado não as preparou para enfrentar, as pessoas tateiam em busca de palavras para dar nome ao desconhecido, mesmo quando não podem defini-lo nem entendê-lo. Em determinado ponto do terceiro quartel do século, podemos ver esse processo em andamento entre os intelectuais do ocidente. A palavra-chave era a pequena proposição ‘após’, geralmente usada na forma latinizada ‘pós’ ou ‘post’ como prefixo para qualquer dos inúmeros termos que durante algumas gerações foram usados para assinalar o território mental da vida no século XX (...) Como os funerais, esses prefixos tomaram conhecimento oficial da morte sem implicar qualquer consenso, ou na verdade certeza, sobre a natureza da vida após a morte. (HOBSBAWM, 1995, p. 282)
Diz o autor que esses prefixos e seus agregados não implicam em consenso, nem na verdade sobre as novas configurações que surgiram rápidas e mundiais, mas essas transformações entram na consciência de muitos pensadores que as vivem e as propagam como verdadeiras.
HARVEY (1992) coaduna com HOBSBAWM quando afirma que há pouca certeza quanto a coerência e o significado dos sistemas de pensamento que possam ter substituído o pensamento moderno. Devido a essa incerteza contemporânea é difícil avaliar e interpretar as mudanças que os pós-modernos afirmam ter ocorrido.
Em contrapartida a essa posição encontramos em LYOTARD (2000) que o descrédito aos valores modernos, as metanarrativas, aos grandes discursos do século XIX é deflagrado pela condição pós - moderna, pois, segundo o autor, o conhecimento moderno (que prometia emancipação) está sob suspeita (a serviço da libertação ou dos crimes contra a humanidade?). A pós-modernidade é fragmentada e oportuniza a emergência do efêmero, do individual, de uma pluralidade de explicações, de poderes, de abertura às diferenças culturais e éticas. Por esse motivo as metanarrativas não são adequadas à explicação ou a unificação da sociedade: o conhecimento moderno se divide em especialidades e perde de vista a totalidade.
97
Segundo BOTTOMORE, T. OUTHWAITE, W. - Dicionário do pensamento social do século XX (1996): A concepção de sociedade pós industrial difere tanto da sociedade industrial como da sociedade pré-industrial agrária. Caracteriza-se mais pela produção de serviços do que de bens, a maioria de sua força de trabalho esta em profissões de colarinho branco. A antiga classe operária esta desaparecendo e, com ela, muitas das características e conflitos da sociedade industrial.
Segundo CONNOR (1996) as duas principais narrativas a que a ciência recorre são a política e a filosofia (as quais Lyotard faz a crítica como incapazes de explicar a condição pós - moderna). A narrativa política é aquela “... associada com a Ilustração e personificada nos ideais da Revolução Francesa, é a narrativa da gradual emancipação da humanidade da escravidão e da opressão de classe. Supõe-se que a ciência tenha um papel central nesse processo como a representação do conhecimento que, uma vez posto a disposição de todos, vai ajudar a atingir essa liberdade absoluta.” (p.31) E a narrativa filosófica, associada a narrativa política, é aquela “... iniciada e atualizada na obra de Hegel, mas ampla em sua influencia geral, em que o conhecimento é um importante componente da gradual evolução na história da mente autoconsciente...” (p.31)
Essas duas narrativas são teleológicas, quer dizer, “...dependem da idéia de um itinerário para algum alvo final. Elas são metanarrativas, isto é, narrativas que subordinam, organizam e explicam outras narrativas...” (p.31)
Diante da definição de metanarrativas (as quais Lyotard faz a crítica dizendo que com falência dessas idéias, há a falência da modernidade) não podemos concordar com este autor, pois a explicação filosófica e política do pensamento moderno – do qual originam-se tantas outras teorias/narrativas – são pertinentes e iluminam o conhecimento de questões que cercam a humanidade na contemporaneidade. Nesse sentido, concordamos com COUTINHO (1972) quando