No Brasil as instituições policiais que lidam com conflitos e criminalidade urbana se constituem na formatação dual polícia civil e polícia militar. Essa visão dupla confunde e complica ainda mais a possibilidade da sociedade oferecer a autoridade devida a cada instituição e compreender as diferenças que existem formalmente em sua constituição por direito.
O exemplo mais marcante pioneiro no Brasil e que teve fortes impactos na segurança pública são as UPPs (Unidades de Polícia Pacificadora), implantadas na cidade do Rio de Janeiro em 2008. A noção de polícia pacificadora é o que orienta a prática das UPPs, tendo como objetivo central retomar, com policiais fortemente armados, territórios antes dominados por grupos criminosos e estabelecer o Estado Democrático de Direito. A proposta é devolver à população local a paz e a tranquilidade públicas, necessárias ao exercício e desenvolvimento integral da cidadania (UPPRJ, 2013).
O formato proposto pelas UPPs se difere na prática do ideal do policiamento comunitário, pois o intuito, em primeiro momento, é mais o de neutralizar a força do tráfico
de drogas sobre a comunidade a partir de intervenções mais ostensivas, para em seguida caminhar em direção a um envolvimento maior da polícia com relação ao cotidiano da comunidade atendida. Anteriormente à implantação das UPPs, houve diversas tentativas fracassadas, por se caracterizarem mais pontuais e com pouco apoio e envolvimento do governo. Por outro lado, o projeto de “pacificação” das comunidades no Rio de Janeiro é voltado para um constante policiamento das favelas, contando com a participação da comunidade, bem como mecanismos de controle da ação policial e avaliação contínua. Para Soares et al. (2012), o projeto das UPPs se assume como não acabado por considerar que passará por muitos processos de mudanças, visto que é uma mudança na filosofia de trabalho e de segurança pública participativa, sendo um trabalho contínuo e contando com o envolvimento de muitos.
Foi realizada uma pesquisa pelo Centro de Estudos de Segurança e Cidadania (CESEC, 2010) com 359 policiais que trabalham desde o início da implantação das UPPs. Na tabela abaixo, faz-se um resumo das informações coletadas durante a pesquisa5:
Tabela 1: Resultados de Pesquisa sobre o que os policiais das UPPs pensam sobre o programa
Categoria Pesquisada Respostas dos Policiais
Formação Profissional 63% consideram formação adequada, porém sentiram falta de disciplinas práticas
Principais atribuições dos
policiais das UPPs Mediar Conflitos entre moradores Reduzir violência doméstica Tipo de trabalho realizado na
maior parte do tempo Ponto Fixo – 37,6% Ronda a Pé – 29,8% Satisfação com Trabalho
Satisfeitos – 40,6% Insatisfeitos – 31,4% Indiferentes – 28% Planos em relação à Instituição
70% dos policiais preferiam trabalhar em outras unidades da Polícia Militar
41,4% sairão da PM se aparecer oportunidade melhor 36,3% pretendem ficar até se aposentar
22,3% já estão procurando algo melhor Fonte: Elaborada pela autora a partir de dados da pesquisa CESEC (2010).
Os dados demonstram certa inadequação dos policiais na prática profissional da polícia pacificadora conforme se coloca em sua proposta inicial. Foram identificados alguns
5 Pesquisa realizada pela CESEC no Rio de Janeiro em 2010 com tema “Unidades de Polícia Pacificadora: o que pensam os policiais.”. Disponível em:
resultados interessantes de serem citados para futuro comparativo com nossa atual pesquisa no PRQ no Ceará que serão retomados ao serem analisados os resultados do presente estudo.
Com estes dados, demonstra-se que há muito a mudar na forma de trabalho e que os policiais precisam realmente “vestir a camisa” de uma nova forma de policiamento, o que demanda uma mudança de postura e de visão de mundo para atuar de forma pacificadora.
O projeto foi considerado bem sucedido e inspirou em seguida projetos semelhantes em outros estados brasileiros: o governo do estado da Bahia criou as Bases Comunitárias de Segurança (BCSs) para atender às comunidades de Salvador; o Governo do Paraná criou as Unidades Paraná Segura (UPSs) para atender às comunidades de Curitiba; o governo do Maranhão criou as Unidades de Segurança Comunitária (USCs) para atender às comunidades de São Luís; e o governo do Rio Grande do Sul criou os Territórios da Paz (TP). Além do Governo do Amazonas que implantou em 2013 a Ronda no Bairro6, com um formato muito semelhante ao modelo cearense do Programa Ronda do Quarteirão.
Em pesquisa realizada pela Confederação Nacional das Indústrias (CNI) em outubro de 2011, foi apontado que o brasileiro se mostra dividido ao avaliar a evolução dos serviços prestados pela polícia nos últimos anos. Da amostra pesquisada, 21% consideram que o serviço policial melhorou, enquanto 19% mencionam que piorou a situação da segurança pública do país. A parcela da população entrevistada aponta que a melhora da atuação policial está diretamente relacionada com o aumento dos salários e melhora da formação e do treinamento dos policiais. Percebe-se que esta pesquisa já aponta o treinamento como uma forte estratégia de superação das dificuldades dos policiais e consideram falha a descontinuidade da formação profissional (CNI; IBOPE, 2011).
Partindo para uma perspectiva mais específica, isto é, dessa possível relação entre formação/treinamento e melhora na atuação policial, busca-se compreender, no atual estudo, a estratégia de implantação do Programa Ronda do Quarteirão no estado do Ceará. Um estudo realizado em São Paulo diagnosticou os desejos dos paulistas em relação à polícia: telefonar e ter a polícia (agilidade), ver polícia nas ruas (sensação de segurança) e que a polícia vá atrás dos criminosos habituais (informações precisas que permitam uma repressão efetiva) (CASTRO, 2012). Interessante fazer um paralelo com nosso tema e perceber que os anseios são os mesmos diagnosticados aqui no Ceará quando se propôs o Ronda do Quarteirão com
telefone celular da viatura para fácil acesso, postos a cada raio de 2 km e com sistemas de georreferenciamento e informações via satélite para facilitar perseguições.
A partir desta contextualização ampla do surgimento da ideia do policiamento comunitário, cabe-se esclarecer as premissas básicas e mudanças concretas esperadas para a concreta implantação deste tipo de policiamento, compreendendo os impactos estruturais requeridos por esta nova forma de fazer polícia.