O estudo do território em suas múltiplas e diversas dimensões presta-se, significativamente, à construção de uma sistematização ou de um meio operacional para a análise objetiva das condições social e historicamente construídas pela sociedade em sua relação com as condições de vida da população (VALLEJO, sem data).
Ademais, o território corresponde a um meio percebido, passível de subordinação a uma análise subjetiva de acordo com grupos sociais específicos. A sua compreensão por inteiro é, ainda, imprecisa e efetuada segundo diversas
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tradições, bem como sujeita aos distintos pontos de vista ou pontos de vida, segundo COUTO (sem data), de uma sociedade flagrantemente marcada pela heterogeneidade de condições e contextos de vida, estando aquele – o território - não só relacionado a uma extensão particular da Terra, identificada pela natureza, pelas cicatrizes que a sociedade ali imprimiu, e continua a imprimir, como também a uma localização espacial, apontada a diferentes escalas, como a global, a regional, a da cidade, a da rua e até mesmo de uma casa apenas (BARCELLOS & MONKEN, 2005).
Para SANTOS (1999), o espaço geográfico é definido como “um conjunto indissociável de sistemas de ações e objetos” e, para adquirirem materialidade, esses objetos, tanto naturais, quanto elaborados tecnicamente, e ainda os eventos da vida, precisam estar situados no espaço e no tempo. Conforme SANTOS (1999), ainda, os objetos são:
“esse extenso, essa objetividade, isso que se cria fora do indivíduo e se torna instrumental de sua vida, tal como uma cidade, uma barragem, as estradas de rodagem, os portos, e outros, sendo do domínio tanto da geografia física quanto da geografia humana que, através da história desses objetos, da forma como foram produzidos e mudam, essas geografias se encontram.” (p.11)
Com a técnica, conceito-chave da obra de Milton Santos, o indivíduo em sociedade forma um conjunto de meios instrumentais e sociais com os quais produz e realiza sua vida e, ao mesmo tempo, cria espaço. Essa concepção de espaço leva em conta todos os objetos existentes numa extensão contínua, supondo a coexistência desses objetos como sistemas e não somente como coleções: a utilidade atual dos objetos, passada ou futura, vem exatamente do seu uso combinado pelos grupos humanos que os criaram ou que os herdaram das gerações anteriores. Seu papel, portanto, além de funcional, é também simbólico. Desse modo, a identificação desses objetos, seus usos pela população e sua importância para o fluxo das pessoas e de materialidades são de grande relevância para o reconhecimento da dinâmica social, hábitos e costumes, bem como na determinação de vulnerabilidades para a saúde humana, originadas nas
interações de grupos humanos em determinados espaços geográficos (SANTOS, 1988 apud BARCELLOS & MONKEN, 2005).
Segundo SANTOS (2002), a realidade social pode ser entendida segundo a análise de sua dimensão espacial local, a partir da noção de lugar, e a partir de sua dimensão temporal, esta baseada no cotidiano. Daí, a idéia bastante difundida, e por nós abordada neste estudo, do cotidiano localmente vivido, o lugar. Sobre este aspecto, assinalam BARCELLOS & MONKEN (2005):
“A característica mais importante do lugar é, antes de tudo, de natureza interna, cuja extensão confunde-se com sua própria existência, tendo uma configuração física, ou melhor, territorial. Essa característica funda a escala do cotidiano e seus parâmetros são a co- presença, a vizinhança, a intimidade, a emoção, a cooperação e a socialização com base na contigüidade, reunindo na mesma lógica interna todos os seus elementos: pessoas, empresas, instituições, formas sociais e jurídicas e formas geográficas. O cotidiano imediato, localmente vivido, traço de união de todos esses dados, é a garantia de comunicação. Assim, a análise da “dimensão espacial do cotidiano” permite, sobretudo, concretizar as ações e as práticas sociais, conduzindo ao entendimento diferenciado dos usos do território, das ações e das formas geográficas que podem formar contextos vulneráveis para a saúde.” (p. 901)
Com relação à atualidade do tema da sustentabilidade ambiental, BARREIRA FILHO & SAMPAIO (2004) colocam a discussão do lugar como central e base da análise e das propostas de intervenção para o desenvolvimento local. Os autores defendem a idéia de que a abordagem local dos problemas ambientais perpassa o uso dos potenciais endógenos das comunidades, a partir dos quais seria possível construir dialeticamente o desenvolvimento, no qual a base deste seria a participação democrática dos membros das comunidades para a busca da melhoria das condições de vida das pessoas em seus ambientes localmente vividos. CAPRA (1996) apud BARREIRA FILHO & SAMPAIO (2004) nos brindam com um chamamento à responsabilidade, onde “o grande desafio de nosso tempo é criar comunidades sustentáveis, com ambientes sociais e culturais em que possamos satisfazer as nossas necessidades e aspirações sem diminuir as chances das gerações futuras”. SILVA & RODRÍGUEZ (2001) apud BARREIRA FILHO & SAMPAIO nos trazem que:
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“A participação popular no processo de construção do desenvolvimento local sustentável deve ser vista como fundamental para o planejamento e gestão das políticas públicas, que passam diretamente pelos interesses das comunidades e, portanto, devem contar com o maior número de pessoas possíveis para as tomadas de decisões e que esta participação deve vir acompanhada de Autonomia, Eqüidade, Identidade Sociocultural e Compatibilidade Ambiental. Na realização da gestão, o lugar apresenta-se como grande receptor e objeto de percepção das ações e políticas dos homens, pois é no lugar que percebemos que tipo de gestão está ocorrendo, se ela visa os interesses da maioria ou consolida apenas a exploração desta maioria em favorecimento da minoria. O conceito de lugar requer participação.” (p.92)
Portanto, construir o discurso da sustentabilidade ambiental desprovido da noção de lugar é praticamente inviável, pois, por mais que pensemos numa sustentabilidade ambiental dita global, é no lugar que ela se concretiza, ou não. O lugar é o local do cotidiano, do banal, é onde construímos nossa história, identidade e vida. O lugar é a base da reprodução da vida e pode ser analisado do ponto de vista da tríade habitante-identidade-lugar (CARLOS, 1996).
Mais do que discutir a noção de lugar, precisamos buscar seu entendimento e nuances nas ciências humanas e na geografia, em particular, onde o problema da (re) definição do lugar emerge como uma necessidade diante do esmagador processo de globalização que se realiza nestes tempos com complexidade nunca vista na história.
Conforme CARLOS (1996) apud BARREIRA FILHO & SAMPAIO (2004), temos que:
“As relações que os indivíduos mantêm com os espaços habitados se exprimem todos os dias nos modos de uso, nas condições mais banais, no secundário, no acidental. É o espaço passível de ser sentido. Pensado, apropriado e vivido através do corpo (...) Como o homem percebe o mundo? É através do seu corpo, de seus sentidos que ele constrói e se apropria do espaço e do mundo. O lugar é a porção do espaço apropriável para a vida, apropriada através do corpo, dos sentidos, dos passos de seus moradores, é o bairro, é a praça, é a rua.” (p.93)
Por esta visão, o lugar corresponde a um fragmento de um todo, a partir do qual se pode compreender o indivíduo, suas ações e transformações, sendo o lugar único, na qual quantos mais os lugares se mundializam, mais se tornam singulares e específicos, qual seja, únicos. O lugar é vida repleta de sentimentos e sentidos, palco da construção das inter-relações sociais. A apropriação e a intervenção da sociedade no lugar fazem com que ele se torne espaço. E assim, espaço da contradição, espaço da afirmação, espaço da negação, espaço de disputas, espaço da vida, enfim (HOLZER, 1997).
A técnica é um elemento fundamental para compreender o processo de organização espacial. É a técnica que intermedeia a interação homem-natureza. Através dela, cria-se uma natureza humanizada. A técnica produz um espaço que é “um misto, um híbrido, um composto de formas e conteúdo” (SANTOS, 1999). Milton Santos caracteriza o espaço do mundo contemporâneo como meio técnico-científico-informacional, quando as idéias de tecnologia, de ciência e de mercado globais são encaradas como um conjunto. A base e o substrato da produção, utilização e funcionamento do espaço são a ciência, a técnica e a informação. É por essa lógica que os espaços são (re) qualificados e incorporados às novas correntes mundiais (CZERESNIA & RIBEIRO, 2000). “O meio técnico-científico-informacional é a cara geográfica da globalização”, conforme SANTOS (1999).
A racionalidade do espaço, entendida historicamente e fruto das redes, é expressa por meio do “conteúdo geográfico do cotidiano” (SANTOS, 1999). A globalização fez redescobrir a corporeidade, revelada como uma certeza materialmente sensível, em virtude da fluidez, velocidade e referência a lugares e coisas distantes e, assim, fez reaparecer, no cenário científico, a dimensão local, aproximando os verdadeiros significados da realidade social, através da consideração do cotidiano (BARCELLOS & MONKEN, 2005).
O conceito de rede torna-se, portanto, indissociável ao de espaço. Definidos como conjuntos de centros funcionalmente articulados, as redes integram os espaços configurando-se basicamente em dois aspectos: o material e o social. As redes atravessam contextos sócio-culturais e materiais e podem ser
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compreendidas como constituindo espaços de circulação e difusão de doenças. A estrutura epidemiológica da doença se modificou, ao longo da história, com a transformação do espaço (CZERESNIA & RIBEIRO, 2000).