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3. DEPREM ETKİLERİ

3.4. Bilecik'te Depremler

3.4.1. Bölgenin genel jeolojisi

A observação empírica serviu para me apontar para o conceito de campo como aquele que melhor retrataria o Estado, pelo menos na situação investigada. Conforme explica Bourdieu (2014), dentro do campo burocrático do Estado existem agentes com interesses diversos, que por isso estão em constante luta. As lutas são intrínsecas ao campo burocrático do Estado (BOURDIEU, 2014). Ou, como relatam Fligstein e McAdam (2012), os campos são inerentemente conflituosos.

Ao observar um campo e, portanto, uma arena de disputas, vivenciei e ouvi relatos de conflitos e competições entre os agentes com os quais buscava conviver, conforme demonstrado anteriormente. Mas os campos não são dinâmicos apenas por suas disputas. Competição e cooperação estão sempre na base da construção de todos os campos (FLIGSTEIN e MCADAM, 2012). Portanto, no campo do Estado aqui em análise, algumas práticas de cooperação também foram observadas.

Para retratar dinâmicas como a descrita acima, a noção de campo é utilizada nas mais diversas áreas do conhecimento, e hoje pode-se encontrar pesquisas em sociologia, psicologia, saúde, educação, tecnologia, dentre muitas outras, que se pautam no conceito. A ideia geral por traz da noção de campo diz respeito a um espaço social, que contém nós ou posições, bem como suas mútuas relações (MAZZA e PEDERSEN, 2004).

O conceito de campo aparece com uma frequência cada vez maior nas pesquisas da área de estudos organizacionais (EMIRBAYER E JOHNSON, 2008), principalmente para se pensar as relações de poder, dominação, classes, que estes campos representam (EVERETT, 2002). Intensamente difundido na área, o conceito de campo ganhou força, particularmente, a partir da noção de campos organizacionais cunhada pela abordagem institucional, perspectiva teórica que até hoje possui forte influência na área. DiMaggio e Powell (2005, p. 76), autores de destaque dentro da abordagem institucional, definiram os campos organizacionais como “aquelas organizações que, em conjunto, constituem uma área reconhecida da vida

71 institucional: fornecedores-chave, consumidores de recursos e produtos, agências regulatórias e outras organizações que produzam produtos ou serviços similares”.

A noção de campos organizacionais traz contribuições para os estudos das organizações na medida em que inclui não apenas um tipo de organização, mas todas as organizações relevantes para o fenômeno em análise (EMIRBAYER e JOHNSON, 2008). Em virtude de sua utilidade para a análise das organizações, o conceito de campo organizacional ganhou grande apelo, a ponto de podermos dizer que foi dentro da abordagem institucional que o conceito de campo foi mais utilizado e elaborado (EMIRBAYER e JOHNSON, 2008).

Entretanto, conforme defendem Emirbayer e Johnson (2008), embora o conceito tenha trazido fortes contribuições para a área, a utilidade da noção de campo conforme formulado originalmente por Bourdieu (autor cujo pensamento influenciou fortemente a noção de campos organizacionais da abordagem institucional) tem sido subutilizada quando aplicada apenas ao nível dos campos organizacionais: “A truly unified field-based framework for organizational analysis must bring the field-theoretic approach to bear, not only on the analysis of clusters of organizations, but also on the analysis of the social configurations in which organizational fields are themselves embedded” (EMIRBAYER e JOHNSON, 2008, p. 3).

Favorável à utilização do conceito em estudos organizacionais, Swartz (2008), defende que a perspectiva de campo de Bourdieu oferece à área ganhos conceituais muito maiores do que as noções de contexto organizacional, ambiente ou população, com as quais os seus pesquisadores estão habituados a trabalhar. Ao discutir as contribuições que tal conceito pode trazer, o autor explica que a noção de campo ressalta, por exemplo, as dinâmicas de conflito, que ficam em segundo plano em outras perspectivas teóricas. Segundo Swatz (2008), o conceito ajuda, ainda, a explicitar o tipo e a qualidade das relações que se estabelecem, indicando quem é dominado e quem é dominante, o que não ocorre a partir da noção de populações ecológicas. O conceito engloba, também, conforme o autor, os laços concretos entre agentes, também presente na análise de redes sociais, mas vai além, ao se atentar para efeitos institucionais mais amplos, como o papel do capital simbólico. Em face das múltiplas contribuições do conceito, Emirbayer e Johnson (2008) defendem que a noção de campo, conforme proposta por Bourdieu, precisa ser reconhecida como um conceito crucial para a análise de organizações, tendo em vista que estas precisam ser situadas em seu contexto relacional, dentro da matriz de ralações que estabelecem.

72 Indo ao encontro dos autores, me proponho aqui a trabalhar com a noção de campo, conforme proposta por Pierre Bourdieu, para a análise do Estado nas favelas, como forma de localizar as organizações que representam o Estado dentro do contexto relacional no qual são constituídas e constituintes, assumindo que uma organização em ação também pode ser compreendida enquanto um agente social coletivo, embora por vezes os agentes sociais do campo burocrático do Estado também se apresentem na forma de agentes individuais, que merecem relevo para as análises organizacionais, tendo em vista que compõem o contexto relacional do campo.

O conceito de campo é definido por Bourdieu e Wacquant (2012, p. 134) “como una red o una configuración de relaciones objetivas entre posiciones”. Os campos, assim pensados, são relacionais, dinâmicos, contingenciais, em constante mudança, indicando a necessidade de serem pensados relacionalmente ou dialeticamente (EVERETT, 2002).

O dinamismo que marca as estruturas do campo segue uma lógica própria. Cada campo possui sua lógica específica que vai determinar o seu funcionamento particular (BOURDIEU & WACQUANT, 2012). Marca-se, assim, que o campo deve ser pensado “como um espaço estruturado com suas próprias regras de funcionamento e suas próprias relações de força” (MISOCZKY, 2006, p. 81). Ou seja, cada campo possui um jogo que lhe é próprio e que o distingue de outros.

A lógica inerente a determinado campo está associada a relações de poder e dominação. Disputam-se a hegemonia do saber (campo científico), da linguagem (campo linguístico), do bem estar social (campo do Estado), de acordo com a lógica que determina um campo específico.

Daí que os campos são constantemente comparados aos jogos - analogia originalmente estabelecida por Bourdieu e Wacquant (2012). Entretanto, para eles, diferentemente de um jogo, o campo possui regras que não estão explícitas ou codificadas, e as próprias regras do jogo estão também em jogo ali.

Decifrar a lógica de determinado campo implica compreender as lógicas de dominação em ação, assim como o valor relativo das diferences espécies de capital. Seguindo sua analogia com um jogo, Bourdieu e Wacquant (2012) comparam os diferentes tipos de capital com cartas de um baralho, cujo valor relativo de cada uma delas, muda de acordo com o jogo em questão. Em outras palavras, o valor relativo das diferentes espécies de capital varia para cada um dos campos, de acordo com o jogo que se estabelece ali. Conforme Bourdieu (2012, p. 134), “as espécies de capital, à maneira dos trunfos num jogo, são os poderes que definem

73 as probabilidades de ganho”, servindo como “armas” na luta por ascendência em um campo (EMIRBAYER E JOHNSON, 2008).

Entretanto, não são os tipos de capitais que diferenciam um campo de outro, mas a sua lógica inerente de disputa e dominação, que, eventualmente, pode levar ao recurso de capitais específicos. Existem espécies de capitais que são consideradas fundamentais, e que, portanto, fazem-se presentes em vários campos (SALLAZ & ZAVISCA 2007). Este é o caso, por exemplo, do capital econômico - considerado por Bourdieu como a forma mais óbvia de capital - e também dos capitais cultural e social, mencionados em vários estudos. O capital econômico é aquele que se apresenta na forma de riqueza material, como dinheiro, ações, bens patrimônios; já o capital cultural se apresenta como conhecimento, habilidades, informações, por exemplo; por fim, o capital social corresponde ao conjunto de acessos sociais, que se dá sob a forma de relacionamento e redes de contatos (THIRY-CHERQUES, 2006).

Mas existem ainda espécies especializadas de capital, que só tem valor dentro de um campo particular. Estas são definidas em função da lógica específica de cada campo ou do jogo que ali se joga, o qual determina as propriedades que ali tem cotação ou que ali são consideradas eficientes. Estas propriedades funcionam como o capital específico do campo em questão e como fator explicativo das práticas que nele ocorrem (BOURDIEU, 2011b). Por exemplo, o capital científico é identificado por Bourdieu (2004b) como o capital específico do campo científico.

Embora existam, em um mesmo campo, diversos tipos de capital – fundamentais ou especializados -, Everett (2002) chama atenção para o fato de que todas as formas de capital estão conectadas. Quando um agente possui uma grande quantidade de um dado tipo de capital (o econômico, neste caso, pode ser um bom exemplo), ele provavelmente também terá uma grande quantidade de outros tipos de capitais (linguístico, social, etc) (EVERETT, 2002)

Merece relevo na perspectiva de Bourdieu uma forma destacada de capital, a qual o autor denomina de capital simbólico, ou seja, “a forma percebida e reconhecida como legítima das diferentes espécies de capital” (BOURDIEU, 2012, P. 135). Conforme explica, em mais detalhes, Bourdieu (1996, p.170):

o capital simbólico é uma propriedade qualquer (...) que, percebida pelos agentes sociais dotados das categorias de percepção e de avaliação que lhes permitem percebê-la, conhecê- la e reconhecê-la, torna-se simbolicamente eficiente como uma verdadeira força mágica: uma propriedade que, por responder às ‘expectativas coletivas’, socialmente constituídas, em relação às crenças, exerce uma espécie de ação à distância, sem contato físico.

74 A partir do conceito de capital simbólico, conforme definido acima, Bourdieu (2012, p. 7) propõe que se trabalhe com a noção de poder simbólico, descrito pelo autor como “esse poder invisível, o qual só pode ser exercido com a cumplicidade daqueles que não querem saber que lhe estão sujeitos ou mesmo que o exercem”. O poder simbólico é uma forma transfigurada e legitimada de outras formas de poder. Assim, para Bourdieu (2012, p. 15), as relações de força são transformadas em poder simbólico a partir de um “trabalho de dissimulação e de transfiguração (numa palavra, de eufemização) que garante uma verdadeira transubstanciação das relações de força, fazendo ignorar-reconhecer a violência que elas encerram objetivamente”. Nesse sentido, o poder simbólico proposto pelo autor deriva da posse de um recurso reconhecido e valorizado pelos demais agentes do campo (CARVALHO e VIEIRA, 2007), ou seja, da posse do capital simbólico.

A lógica de dominação que determina um campo específico é jogada pelos agentes que compõem a estrutura do campo. É quando um determinado agente possui uma ou mais espécies de capital que são eficazes naquele campo, que ele adquire poder e influência, e isso o faz existir como um agente no campo em questão (BOURDIEU e WACQUANT, 2012). A distribuição dos agentes no campo, por sua vez, dependerá do volume e da estrutura de capital que possuem, determinando suas posições (BOURDIEU, 1996).

Thiry-Cherques (2006) explica, de forma sintética, que Bourdieu adota o termo “agentes” para designar todo aquele que atua tentando manter ou alterar as relações de força, e que possui um sistema adquirido de preferências, de percepção, de classificação, tendo os seus atos limitados a certos “constrangimentos estruturais”.

De forma a representar este “agente em ação”, Bourdieu desenvolve o conceito de

habitus, definindo-o como sistema de esquemas de percepção e apreciação, como estruturas

cognitivas e avaliatórias que eles (os agentes) adquirem através da experiência durável de uma posição do mundo social” (BOURDIEU, 2004a, p. 158). Como estrutura estruturante, mas também estruturada (PECI, 2003), o habitus interioriza o exterior e exterioriza o interior, ao juntar um aspecto objetivo (estrutura) e um aspecto subjetivo (percepção, classificação, avaliação) (PINTO, 2000). Em outras palavras, o habitus, é “um corpo estruturado, um corpo socializado, um corpo que incorporou as estruturas imanentes de um mundo ou de um setor particular desse mundo” (BOURDIEU, 1996, p. 144), que pode ser assumido como uma subjetividade socializada (BOURDIEU E WACQUANT, 2012).

Essa estrutura estruturante e estruturada, a qual Bourdieu denomina de habitus, é produzida a partir de estruturas características de certas condições de existência, é produto da

75 história (BOURDIEU, 2011a). Portanto, “the habitus could be considered as a subjective but not individual system of internalized structures, schemes of perception, conception, and action common to all members of the same group or class (…)”6 (BOURDIEU, 1977, p. 86).

Embora exista uma tradição em estudos organizacionais que investe na transposição da perspectiva de campo de Bourdieu para auxiliar na elucidação da realidade organizacional, as dificuldades na transferência de conceitos ainda não estão plenamente superada. Não é por acaso que ainda são empreendidas muitas discussões teóricas a respeito do tema em periódicos importantes (Ex: EMIRBAYER e JOHNSON, 2008; VAUGHAN, 2008; DOBBIN, 2008; SWARTZ, 2008; EVERETT, 2002; OZBILGIN e TATLI, 2005; GOLSORKHI ET AL, 2009).

Fligstein e McAdam (2012) trazem importantes contribuições para que se avance em relação ao pensamento de Bourdieu em sua recente obra A Theory of Fields. Apesar de a teoria proposta não estar direcionada exclusivamente aos pesquisadores de estudos organizacionais, os avanços que ela traz ajudam a superar uma das principais dificuldades da área no que diz respeito à perspectiva de campos: o tratamento das organizações enquanto agentes coletivos.

Inspirados fortemente (mas não exclusivamente) na perspectiva de Bourdieu, com a qual declaram ter grande afinidade, Fliegstein e McAdam (2012) se propõem a apresentar uma teoria integrada que explique como a estabilidade e a mudança são alcançadas por atores sociais em arenas sociais circunscritas. Para tal, partem do conceito de campos de ações estratégicas, como unidades fundamentais de ação coletiva na sociedade, “which can be defined as mesolevel social orders, as the basic structural building block of modern political/organizational life in the economy, civil society, and the state” (FLIGSTEIN e MCADAM, 2012, p. 3)7. Eles enxergam os campos como arenas construídas socialmente dentro das quais atores com dotes variados de recursos competem por vantagens. Fligstein e McAdam (2011) reforçam que o que eles chamam de campos de ações estratégicas é um termo que pode ser usado de forma intercambiável com o conceito de campo.

Assim como Bourdieu, Fligstein e McAdam (2012) também estão preocupados em repensar o problema da relação entre agência e estrutura e a relação entre processos macrossociais e as micro relações. Entendem que a melhor maneira de alavancar discussões a

6 Tradução livre: o habitus pode ser considerado como um sistema subjetivo, mas não individual, de estruturas

internalizadas, esquemas de percepção, concepção, e ação comuns a todos os membros do mesmo grupo ou classe.

7 Tradução livre: que podem ser definidas como ordens sociais de nível meso como o bloco básico de construção

76 este respeito se dá por meio da criação de uma teoria de ação de nível meso, alcançada por meio do conceito de campo. Os autores também compartilham com Bourdieu uma noção de processualidade inerente aos campos. Para eles, mesmo campos que podem ser considerados estáveis tem a eles inerentes um constante processo de mudanças incrementais: “To a degree, change is always going on”8 (FLIGSTEIN e MCADAM, 2012, p. 7). Assim, como em Bourdieu, esse dinamismo implica que os limites do campo não são fixos, mas mudam de acordo com a definição da situação e das questões em jogo.

Com vistas a marcar as diferentes posições assumidas pelos atores nos campos, Fliegstein e McAdam (2012) adotam os termos incumbentes e desafiadores. Enquanto os primeiros assumem posições privilegiadas e uma influência desproporcional nos campos, os segundos assumem posições menos favorecidas e tem pouca influência no campo. Naturalmente, incumbentes lutam para se manter em suas posições, enquanto desafiadores esperam a oportunidade para desafiar a ordem dominante.

Uma das mais importantes contribuições de Fliegstein e McAdam (2012) está em pensar o contexto ambiental mais amplo no qual os campos estão inseridos, ajudando-nos a compreender a inter-relação entre campos e evitando que o pesquisador foque apenas no que ocorre no interior do campo (MORGAN ET AL, 2014). Para os autores, este contexto ambiental pode ser pensado como um sistema intrincado de campos, mais próximos ou mais distantes, que se influenciam mutuamente. Utilizam a metáfora da Boneca Russa para auxiliar na compreensão de sua perspectiva teórica: assim como a boneca, o ambiente contextual é composto por campos dentro de campos, de maior ou menor dependência, que podem levar a mudanças uns nos outros. Em síntese, todos os campos estão embebidos em uma rede complexa de outros campos. Para os autores, estas relações entre campos constituem uma das principais fontes de mudança e estabilidade em todos os campos.

Campos próximos, segundo os autores, são aqueles com laços recorrentes e cujas ações afetam o outro campo. Campos distantes, por sua vez, são aqueles que não possuem laços e não tem capacidade de influenciar um outro campo. Distinguem-se também campos dependentes e interdependentes. Um campo que está muito sujeito à influência de outro diz-se dependente. Esta dependência pode ter uma série de fontes, como autoridade legal ou burocrática, dependência de recursos, ou de força física ou militar (FLIGSTEIN e MCADAM, 2012). Quando dois campos ligados exercem mais ou menos igual influência sobre eles, diz-

77 se que eles estão em uma relação de interdependência. Mas os campos também podem ser independentes, ou seja, não afetados por outros campos.

A compreensão deste contexto mais amplo se faz necessária, na visão de Fligstein e McAdam (2012), porque o estado de um campo em um determinado momento é simultaneamente moldado pela dinâmica interna do campo e pelos eventos que se dão em um campo de ações estratégicas externo com o qual o campo em questão tem laços próximos e de dependência. Os autores reconhecem a dificuldade de se delimitar as fronteiras do que é externo e interno, mas defendem que qualquer análise de campo que falhe em levar a sério a questão das relações externas está fadada a ser incompleta.

Fligstein e McAdam (2012) evidentemente reconhecem a influência de Bourdieu em sua obra e referem-se a teoria do autor como uma das mais desenvolvidas e consolidadas perspectivas de campo já produzidas. Mas não deixam de apontar os seus avanços em relação à Bourdieu, os quais, segundo os autores, poderiam ser aceitos pelo próprio Bourdeiu como um caminho profícuo para a expansão da teoria dos campos. Para os autores, embora elaborada e consistente, a teoria do Bourdieu não dá conta de compreender a natureza dos atores coletivos, tão importantes para os estudos organizacionais. As discussões empreendidas por Bourdieu estão focadas em atores individuais, e são raras as considerações a respeito de atores coletivos. Esse foco nos indivíduos é muito útil, mas tende a obscurecer a dinâmica coletiva dos campos (FLIGSTEIN e MCADAM, 2012). Os autores enxergam estas dinâmicas coletivas como complementares às ações individuais gerais que é a preocupação central de Bourdieu.

Além disso, embora Bourdieu também considere a existência de múltiplos campos que estabelecem relações entre si, o autor não discute a natureza destas relações entre campos. Bourdieu estava ciente do fato de que os campos eram interligados uns aos outros, mas ele raramente teorizou sobre a relação entre os campos e a dinâmica que poderia resultar desta interação (FLIGSTEIN e MCADAM, 2012). Para os Fligstein e McAdam (2012), esta discussão é fundamental para entender a estabilidade ou mudança dos campos. Por fim, a maioria do trabalho do Bourdieu estava orientada para a compreensão de campos existentes, e como eles moldam o comportamento dos agentes de forma profunda. Mas o seu trabalho não estava tão preocupado com a emergência de novos campos e a transformação dos campos existentes, preocupação que se torna central na perspectiva de Fliegstein e McAdam (2012), e que pode ser de grande valia para a compreensão da realidade organizacional.

78 É a partir desta noção de campo, conforme cunhada por Bourdieu e posteriormente complementada por Fliegstein e McAdam (2012), que o Estado será aqui compreendido. O Estado, na visão particular de Bourdieu (2012), é entendido como um campo burocrático ou campo da função pública, que se define “par la possession du monopole de la violence symbolique e légitime”9, capaz de regular os demais campos, como um poder no topo do poder (BOURDIEU, 2012, p. 14). Em termos mais específicos, Bourdieu, Wacquant e Farage (1994, p. 3), a partir da proposição weberiana, definem o Estado como “an X (to be determined) which sucessfully claims the monopoly of the legitimate use of physical and symbolic violence over a definite territory and over the totality of the corresponding population”10.

Para chegar a sua definição própria de Estado, Bourdieu (2012) faz uma adição à tradicional definição weberiana – que o entende como monopólio da violência legítima, tratada como sinônimo de uma coerção física (WEBER, 1999) – acrescentando que se trata de

Benzer Belgeler