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Belgede 18 MART 2022 Sayı 4573 (sayfa 13-74)

Praticamente qualquer exposição sobre adolescência parece passar obrigatoriamente por uma breve revisão crítica inicial, dada a diversidade de teorias que as abordam e, principalmente, dada a dificuldade desconfortante resultante do esforço para defini-las. A exposição que se segue, porém, não pretende exaurir o assunto, nem mesmo sintetizar as diversas teorias em alguma espécie de teoria geral da adolescência. Este breve resumo, assim, busca tão somente demonstrar alguns dos atuais modelos de adolescência e a forma como cada um parece priorizar certos aspectos como os mais fundamentais à constituição ou

construção de sua identidade.

Ora, já em 1758, Rousseau procurava fazer prescrições sobre a educação de jovens, por meio da descrição dos pensamentos e sentimentos de um ser humano imaginário, a que chamou Emílio, desde o seu nascimento até que ele alcançasse a idade adulta. Nessa obra clássica, Rousseau (1758/1999) defende a irredutibilidade da criança ao adulto, o que o leva a propor um programa educacional próprio para a infância. A isto se soma a apreciação de que a adolescência também constitui um estado específico do ser humano com características próprias, diferenciadas daquelas do adulto e da criança. Neste sentido, podemos dizer que Rousseau foi o grande precursor das teorias sociológicas e psicológicas e tornou-se o “pai” intelectual da infância, da adolescência e da juventude em suas acepções modernas.

Avançando ao século XX, encontramos pelo menos três produções importantes que contribuíram para a modelização da adolescência nos saberes psicológicos: com Stanley Hall, sua invenção e sua correlação ao corpo e à puberdade, com Erik Erikson, a concepção de que a adolescência está atrelada a uma crise da identidade, e com Aberastury e Knobel, uma sofisticação de certas idéias de Hall e de Erikson, onde uma necessária crise de identidade é compreendida como o luto pelo corpo infantil perdido.

No ano de 1904, encontramos o psicólogo e educador norte-americano Stanley Hall, o qual publicava um dos trabalhos pioneiros sobre a adolescência, como viria a ser compreendida e vivida hoje. O clima científico da época em que Hall (1904/2003) publica seu livro (chamado Adolescente) era aquele que se sucedia à rejeição inicial da teoria de evolução das espécies por meio da seleção natural, que Charles Darwin publicara em A Origem das

Espécies, de 1859, e em livros posteriores. O estudo de Hall não era exceção e atribuía a essa

transição da infância à adolescência, por meio da puberdade, a obediência a determinadas leis biológicas.

Como observa Passerini (1994), Hall também se baseara nas concepções de Rousseau (1758/1999), as quais atribuíam características antitéticas de conflito à adolescência como “hiperatividade e inércia, sensibilidade social e autocentrismo, intuição aguçada e loucura infantil” (p.352). E assim, a partir do início do século XX, a psicologia passou a ocupar-se da adolescência enquanto objeto de estudo, caracterizando-a, de forma geral, como um período de confusão e conflito.

Para Hall (1904/2003), com o surgimento de instintos na puberdade, destacando-se os de natureza sexual, o indivíduo adolescente enfrentaria uma fase de instabilidade emocional e de perturbação psicológica, pois o cérebro não teria atingido ainda o completo controle sobre as funções e instintos cegos33. Devido a este descontrole, o adolescente apresentaria

repentinas mudanças de humor e um significativo aumento em sua sensibilidade emocional. Desta maneira, muitas das ações do início da adolescência, que são consideradas criminosas e imorais, aconteceriam em decorrência de impulsos instituais sobre os quais a consciência é ainda incapaz de se opor. A adolescência, então, é vista como um fenômeno universal e de natureza instintiva.

Além desta natureza confusa, Hall (1904/2003) localiza também alguns aspectos positivos na adolescência, como a aquisição da consciência dos valores que moldarão a vida adulta, a moral, a política e a religião, e o aumento das capacidades intelectuais, que tornarão o adolescente apto à escolarização. Sua concepção, muito embora aborde a vida social e emocional do adolescente, reforça exatamente seus aspectos biológicos, dando importância secundária a outras questões subjetivas.

Por sua vez, as teorias de base psicanalítica que se seguiriam à publicação dos textos de Freud sobre a puberdade e a sexualidade infantil34 apresentariam concepções semelhantes a esta com relação ao caráter universal da adolescência, como as obras de Anna Freud. Já a partir da década de 50, o instinto, que desempenhava papel crucial na teoria de Hall (1904/2003), foi gradualmente substituído por relações subjetivas mais sofisticadas, como a percepção da transformação do próprio corpo e o despertar da sexualidade ou o conflito entre a continuidade e a transgressão na sucessão das gerações, entre outros. Estes diversos

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Nesta concepção, conforme descreve Abbagnano (1982), instinto é compreendido como um padrão nato, estável, não escolhido e pouco modificável, de natureza biológica, vinculado a uma determinada estrutura orgânica, e que tem por função determinar o comportamento animal e humano.

34 Referimo-nos, principalmente, aos Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade, de 1905. No último ensaio,

Freud (1972a) propõe que as “transformações da puberdade” desencadeiam a recapitulação dos desdobramentos da sexualidade infantil, que culminam em uma integração das pulsões sexuais parciais típicas da infância (isto é, culminam no primado da genitalidade). Esta integração que o indivíduo sofre em sua sexualidade, como explica Alberti (1999), nunca seria perfeita e implicaria, enfim, em um sentimento de incompletude.

elementos foram, dessa maneira, valorizados como fundamentais para a formação de sua identidade adulta e à superação do conflito, considerado muitas vezes como inevitável.

Hoje, a perspectiva que se baseiam neste credo científico, embora ainda existam, e talvez ainda persistam por bastante tempo, encontram-se em estado de obsolescência. Dificilmente se sustenta o discurso de que a territorialidade da adolescência é aquela do domínio exlusivo do corpo. O que não encontra consenso atualmente é a definição de quais outros aspectos são os mais importantes ou centrais ao tratar da juventude e da adolescência, ou melhor, que território é devido a cada um desses equipamentos.

A conhecida teoria de Erik Erikson sobre a adolescência, apresentada em seu livro

Identidade: juventude e crise, de 1968, a retrata como uma fase natural do desenvolvimento,

na qual haveria necessariamente uma crise de identidade. Nesse trabalho, porém, o autor defende que as visões psicanalítica e sociológica, pelo menos as de sua época, não seriam capazes, individualmente, de circunscrever a juventude e o problema da identidade que esta evoca. Com isso, traz à tona as aparentemente inconciliáveis territorializações da adolescência e da juventude, propondo uma síntese, confessamente incipiente, ao problema.

É necessário, portanto, reconhecer o mérito de Erikson (1968/1976), que foi o primeiro a engendrar um diálogo – do qual poderemos questionar as conclusões – entre a psicanálise e as ciências sociais. Diálogo este que o levou a produzir sua teoria própria, na qual propõe a existência de crises de adaptação ao longo da vida, das quais aquela que ocorre na juventude é apenas uma, embora se constitua na crise mais importante. Para o autor, dessa forma, não se pode negligenciar a importância teórica e clínica crucial dos modelos sociais e não se pode atribuir a eles um papel de breve “também”.

Naturalmente, a negligência geral destes fatores na psicanálise não favoreceu uma aproximação com as Ciências Sociais. Os estudiosos da sociedade e da história, por outro lado, continuam ignorando alegremente o simples fato de que todos os indivíduos nasceram de mães; de que todos nós já fomos crianças; de que as pessoas e os povos começaram em seus berçários; e de que a sociedade consiste em gerações no processo de desenvolvimento de filhos em pais, destinados a absorver as mudanças históricas durante as suas vidas e a continuar fazendo história para os seus descendentes. (p.44)

Apesar de sua apreciação sociológica, Erikson (1968/1976) postula a existência de oito estágios do desenvolvimento psicossocial funcionalmente análogos ao desenvolvimento fisiológico. Em cada uma destas fases, haveria a possibilidade da aquisição de novas habilidades, sendo a confiança em si e nos outros, o desenvolvimento da vontade autônoma e o sentimento de iniciativa própria, aquelas que se sucedem durante a infância.

Estes primeiros estágios e os que se lhes sucedem atingiriam um momento que é vivido como uma crise de aprendizagem, somando-se a isto o fato de que, a cada nova crise, há uma atualização das crises precedentes. Se a resolução destas crises se der de maneira satisfatória, será construída uma qualidade positiva no ego, mas se persistir o conflito, ou mesmo se for resolvido insatisfatoriamente, o ego fica prejudicado, incorporando a qualidade negativa correspondente.

Portanto, cada passo sucessivo é uma crise potencial por causa de uma mudança radical de perspectiva. A palavra crise é usada aqui num sentido de desenvolvimento para designar não uma ameaça de catástrofe, mas um ponto decisivo, um período crucial de crescente vulnerabilidade e de potencial; e, portanto, a fonte ontogenética da força e do desajustamento generativos. (ERIKSON, 1968/1976, p. 96)

Muito embora, para o autor, a aquisição da identidade do ego se realize de diferentes formas, de acordo com os modelos sociais e com as normas culturais em que estão inseridos os jovens, Erikson (1968/1976) sustenta a teoria de que a adolescência passa invariavelmente por uma crise de identidade, no sentido de crise apontado. Compreende, então, a adolescência não apenas em função de conflitos individuais de natureza biológica ou enquanto fenômeno psíquico intrínseco ao indivíduo, mas constata a influência de relações sociais na formação da identidade do ego. Na adolescência, deverá, então, ocorrer a integração e o estabelecimento de uma identidade psicossocial positiva dominante no ego para que se conquiste independência através de trabalho produtivo.

Entre as indispensáveis coordenadas da identidade está o ciclo vital, pois partimos do princípio de que só com a adolescência o indivíduo desenvolve os requisitos preliminares de crescimento fisiológico, amadurecimento mental e responsabilidade social para experimentar e atravessar a crise de identidade. De fato, podemos falar da crise de identidade como o aspecto psicossocial do processo adolescente. Nem essa fase poderia terminar sem que a identidade tivesse encontrado uma forma que determinará, decisivamente, a vida ulterior. (ERIKSON, 1968/1976, p.90, grifos nossos)

O adolescente, segundo esta teoria, sempre buscaria superar a instabilidade da crise em direção a uma identidade mais contínua e uniforme, mas encontraria diversos obstáculos a tal feito no mundo adulto. Devido às diversas transformações sociais e evoluções tecnológicas, que ampliam a duração e a complexidade da escolaridade e formação para o trabalho, tanto quanto à dificuldade de atualizar as crises anteriores e definir para si uma identidade adulta duradoura, por tudo isso, o jovem precisaria de uma moratória. O adolescente, assim, precisaria de um período de espera para, inserindo-se no meio social, e através dessa entrada

na sociedade, superar aquelas crises pelas quais já passara na infância.

Para o autor, caso não se estabeleça uma identidade positiva, se seguirá, na vida do jovem, uma situação de confusão de papéis. Na sua época, aponta, havia grandes dificuldades para a construção desta identidade, em virtude das identidades padronizadas apresentadas pela “democracia industrial”. Seria a impossibilidade de o jovem decidir sua identidade, diante do papel “imposto pela inexorável padronização da adolescência americana” (p.132) o que mais o perturbaria. Em outras palavras, o adolescente tornar-se-ia rebelde conquanto pressentisse que o meio deseja privá-lo do desenvolvimento de uma identidade confiante em si mesma, com possibilidades de oportunidades, de escolhas e de auto-realização.

Seria, por outro lado, nessa fase, que os adolescentes se identificariam com heróis de cinema, líderes de grupo, chegando até a dar a impressão de perderem sua própria identidade. Esta tendência a depositar sua fé em figuras de autoridade representa, na visão de Erikson (1968/1976), um grande perigo, na medida em que podia se converter na adesão massiva a regimes totalitaristas (como ocorrera durante a Segunda Guerra). A adolescência, para o autor, enfim, seria uma fase menos conflituosa para aqueles jovens talentosos e treinados na exploração das tendências tecnológicas em expansão de sua época, os quais seriam, portanto, aptos a se identificar com os novos papéis sociais que surgem e a aceitar uma perspectiva ideológica mais implícita e menos maniqueísta.

Apesar da tentativa de Erikson (1968/1976) de unir fatores psicológicos e sociológicos na explicação da adolescência ou juventude – o autor utiliza indistintamente os termos –, as teorias que se seguiriam à suas publicações recairiam claramente em um ou outro pólo. O que mais nos interessa, entretanto, é que tentando evitar unilateralidades, Erikson acaba por territorializar a adolescência enquanto uma fase necessariamente de conflito, tanto geracional quanto interior, o qual é resolvido pela entrada no mundo adulto, e em particular no mundo do trabalho. Mas haveria sempre um conflito e sempre um mesmo tipo de superação?

A compreensão da adolescência como período conflituoso, pelo menos na América Latina, atingiu seu ápice com Aberastury e Knobel (1970/1981), no início da década de 70, que caracterizaram a puberdade como um momento de desequilíbrio psíquico, contradições, instabilidades emocionais, na qual seria muito difícil reconhecer o limite entre o normal e o patológico. Neste sentido, há aqui grande proximidade com a teoria de Hall (1904/2003), pois, mudando o que deve ser mudado, ainda se atribui a causa das manifestações “externas” conflituosas na adolescência aos conflitos “internos”, agora associados tanto à maturação sexual e quanto ao desenvolvimento da sexualidade genital.

Para estes autores, porém, o conflito não tem origem na emergência de impulsos instintivos, mas se deve ao fato de que as transformações corporais típicas da puberdade refletem-se psiquicamente no esquema que o adolescente faz de seu próprio corpo. Às mudanças orgânicas ocorridas na puberdade, portanto, correspondem mudanças psicológicas que levam os adolescentes a novas relações consigo mesmo, com sua família e com o meio social. Essa teoria procura, desta forma, responder um dilema desconfortante até então: como é possível que a adolescência tenha início com um fenômeno biológico, que é a puberdade, e tenha fim com um fenômeno social, que é a entrada no mundo adulto? A solução encontrada é que a marca inicial da adolescência não é propriamente a puberdade, mas sua repercussão psíquica – transformando assim a adolescência num problema de “representação” de si.

O adolescente, portanto, sofreria o luto pela identidade do corpo infantil perdido, bem como pela identidade imaginária com os pais, que o levariam a contradições, ambivalências e conflitos intrínsecos à condição adolescente. E assim postulam a “síndrome da adolescência normal”, na qual o normal seria adoecer e a qual se caracterizaria pela seguinte sintomatologia:

1) busca de si mesmo e identidade; 2) tendência grupal; 3) necessidade de intelectualizar e fantasiar; 4) crises religiosas; 5) deslocalização temporal, onde o pensamento adquire as características de pensamento primário; 6) evolução sexual manifesta, que vai do auto-erotismo até a heterossexualidade genital adulta; 7) atitude social reivindicatória com tendências anti ou associais de diversa intensidade; 8) contradições sucessivas em todas as manifestações da conduta, dominada pela ação, que constitui a forma de expressão conceitual mais típica deste período de vida; 9) uma separação progressiva dos pais; e 10) constantes flutuações de humor e do estado de ânimo. (ABERASTURY e KNOBEL, 1970/1981, p.29, grifos nossos)

O comportamento externo de contestação, ainda segundo os autores, nada mais é do que uma repercussão dos conflitos interiores com relação à dependência infantil que continuam a existir e que têm origem no sentimento de luto pela representação psicológica do corpo infantil perdido. Este luto, para os autores, poderia ser analisado como uma sucessão de lutos a serem elaborados, que se repetem universalmente e são vividos individualmente por todos os adolescentes. Além do luto pela bissexualidade perdida, haveria mais três formas de desdobramento desse luto. São elas:

a) o luto pelo corpo infantil perdido, base biológica da adolescência, que se impõe ao indivíduo que não poucas vezes tem que sentir suas mudanças como algo externo, frente ao qual se encontra como espectador impotente do que ocorre com seu próprio organismo; b) o luto pelo papel e a identidade infantis, que o obriga a uma renúncia da

dependência e a uma aceitação de responsabilidades que muitas vezes desconhece; c) o luto pelos pais da infância, os quais persistentemente tenta reter na sua personalidade, procurando o refúgio e a proteção que eles significam, situação que se complica pela própria atitude dos pais, que também têm de aceitar o seu envelhecimento e o fato de que seus filhos já não são crianças, mas adultos, ou estão em vias de sê-lo. (ABERASTURY e KNOBEL, 1970/1981, p.10)

A cultura teria importância meramente na determinação das formas de manifestação desses lutos dos adolescentes. Assim, as condições familiares e culturais poderiam favorecer ou obstruir este desenvolvimento, mas não poderiam resolver o conflito.35 Uma vez que é a negação do sofrimento em função do passado perdido que levaria a um comportamento estereotipado, rebelde e patológico, este só poderia ser superado com a elaboração do luto. O problema se reduz, assim, a um ego fraco que precisa ser reforçado em sua nova identidade e a simples ausência de uma crise é capaz de pôr o sujeito em posição de anormalidade.

O conceito mesmo de moratória, forjado por Erikson (1968/1976), é ressignificado por estes autores como esta necessidade de readaptação à sua nova condição e a seu novo corpo, caracterizando-se por grande sofrimento. A moratória viria a ser o doloroso e longo tempo do luto pelo corpo infantil perdido, pelo papel e identidade infantis, pela bissexualidade e pelas figuras paterna e materna, das quais o adolescente é obrigado a se desvencilhar ao assumir sua nova identidade. Essa moratória também seria obstada pela dificuldade dos pais e adultos em aceitar a assunção de um novo papel pelo adolescente.

Percebe-se que tanto a teoria da adolescência de Hall (1904/2003) quanto a de Aberastury e Knobel (1970/1981) concebem a adolescência como um fenômeno universal, por acreditarem que toda a subjetividade adolescente é uma conseqüência inevitável e infalível da puberdade (que, de fato, é um fenômeno biológico e praticamente universal)36.

Mas, ao concebê-la como fenômeno que possui uma causa interna, uma vivência individual e uma solução psicológica, não estariam isolando-a de toda e qualquer instância coletiva?

Mais importante que isso, seriam conflitos de natureza instintiva ou as relações subjetivas (conflituosas) com o corpo que definiriam o adolescente? Afinal, hoje, é quase impraticável falar em um luto pelo corpo infantil perdido, pois o corpo do adolescente é antes

35

Evitamos propositalmente diversos outros problemas que são gerados por essa teoria, como por exemplo, a necessidade de uma sexualidade genital e heterossexual para a solução da crise, pois interessamo-nos aqui exclusivamente pelo princípio explicativo e pela forma como são tratados os processos de identificação. Faz-se necessário, porém, apontar tal noção como uma apropriação equivocada dos conceitos de bissexualidade e sexualidade genital trabalhados por Freud. O que Alberti (1999) trata em seu livro, ao falar da teoria da “grande síntese”, pode ser estentido à produção teórica desses autores.

36 Há exceções. Conforme observa Osório (1992), o pigmeu, por exemplo, passa pela puberdade acerca dos oito

vivido como plenitude de força e, muito mais intensamente, como fonte de sensualidade e como objeto de desejo não apenas para os adolescentes, mas também para os adultos.

Na publicidade visual e audiovisual, os corpos juvenis são explorados diariamente. Quase não podemos passar um dia sem ver adolescentes e jovens “recém-chegados” em seus corpos posando ou ensaiando felicidade para as câmeras. Esses corpos idealizados alcançam um lugar entre os objetos de consumo preferidos, o que é particularmente verdade no caso do corpo feminino, como demonstra cuidadosamente Fischer (1996) em sua tese. Mas estes processos de subjetivação não estão, no cotidiano, isentos de devires diversos, que incluem agenciamentos para além do desejo e do luto, como o estranhamento ou a indiferença. Muito embora o que se sobressaia na contemporaneidade seja o desejo por uma eterna juventude bela e invejável, é possível que diversos agenciamentos, mesmo contraditórios, possam vir a constituir uma polifonia de sentidos do corpo e da sexualidade.

E o que poderíamos dizer sobre a crise de identidade, de que falam Erikson (1968/1976) e Aberastury e Knobel (1970/1981)? Como discutimos no capítulo primeiro, a partir de Guattari e Rölnik (1999), o próprio termo identidade se refere a um ideal de paralisação dos processos de produção da subjetividade e, portanto, de qualquer desconstrução da mesma. Mas também se refere a um isolamento ideal do indivíduo ante à coletividade, o qual, de fato, equivale também a um ideal de paralisação, na medida em que a subjetividade individual é sempre produzida coletivamente. A própria identidade nunca existiu, senão como realidade

Belgede 18 MART 2022 Sayı 4573 (sayfa 13-74)

Benzer Belgeler