O objetivo dessa seção é o de descrever o perfil dos docentes que compõe a instituição e quais características permitem que estes tenham maior aproximação ao ensino participativo perseguido pela Escola.
Desde o início, como já relatado no tópico antecedente, os docentes e pesquisadores contratados pesquisaram e testaram variados métodos de ensino participativos, o que permitiu a criação de uma cultura de predisposição à utilização do método. Hoje em dia, vários desses pesquisadores se tornaram professores da instituição e permanecem até hoje, e mesmo os que não estavam naquela época inicial podem aprender o método participativo, seja a partir da experiência de seus antecessores, seja por meio do apoio oferecido pela Escola. Ademais, a escola possui um quadro bastante estável de professores, e procura levar em consideração, no momento da contratação, o alinhamento do pensamento do professor tipo de modelo de ensino adotado na instituição.
Um dos professores antigos da instituição relatou a importância desse período inicial de discussão sobre os métodos de ensino para se sentir mais capacitado arriscar seu uso em sala de aula. Comentou, no entanto, que a dinâmica atual da instituição, com as mais
variadas demandas, dificulta por parte do professor a pesquisa, o encontro e a discussão colaborativa sobre as dinâmicas e experiência de ensino a ser adotadas.
[no início] você tinha tempo para se dedicar a estudar essas abordagens metodológicas ditas inovadoras. Você arriscava com um pouco mais de conhecimento de causa, vamos dizer assim, mas a verdade é que, como toda e qualquer aula, tinha uma grande aposta, a gente não sabia quantas coisas funcionariam e quanto de ajuste iria ser necessário, por exemplo, as descobertas relativas a dificuldade de avaliar participação, a dificuldade de medir adequadamente conteúdos de leitura prévia. [...] O esforço acho, que desde sempre, uma vez que você tem uma dinâmica cotidiana da instituição é como garantir esses fóruns coletivos eles seguem existindo, mas eles são mais excepcionais do que eram no início. E quando eu falo em início não é uma questão de início idílico, mas é que assim, muito provavelmente, no primeiro ano da escola a gente deveria ter o mesmo número de professores e pesquisadores do que de alunos. O que significa que o grau de dedicação que as pessoas tinham àquela turma era muito maior do que é possível hoje, você não tinha Mestrado, boa parte dos professores não dava aula também no GVlaw, não tinha os índices de publicação, então o volume de dedicação ao projeto graduação era mais intenso. [...] Nem todos os professores conseguem dirigir o mesmo grau de energia para mesma iniciativa e acho que a escola reconhece isso, as pessoas têm perfis diferentes e o que acontece é que você tem fóruns coletivos mais excepcionais. (Professor 1. Entrevista concedida em 12 de dezembro de 2017. Iniciou atuação como professor(a) em 2006 da DIREITO SP. Tratou sobre disciplina do eixo de formação profissional).
Como já mencionado, esse investimento inicial permitiu a criação de uma cultura propensa a reduzir uma possível resistência docente à proposta da Escola. Para isso, foram oferecidas condições que permitiam a familiarização destes com o tema do ensino participativo. Inclusive, os outros professores mais recentes que não participaram desse primeiro momento também são expostos a essa cultura, bem como existe uma estrutura de apoio, a partir do Núcleo de Metodologia do Ensino (NME) para incrementar sua capacitação nesses tipos de métodos. Assim dispôs um dos fundadores quando tratou sobre como foram realizadas as contratações dos professores.
Mas você falou que uma das dificuldades era a contratação de professores que soubessem aplicar essa metodologia, mas no caso da FGV como tem sido essa experiência?
[...] no nosso caso quando nós começamos a faculdade [...] aqueles que foram professores no primeiro semestre eram os que estiveram envolvidos no período anterior na preparação, na discussão, da criação da escola, na preparação do material didático, então pessoas que conquanto não tivessem sido formados naquele método passaram dois anos preparando pra isso ou menos, porque teve gente que entrou no meio do caminho, mas, enfim, estavam preparados por força desse movimento de organizar o material, de discutir etc., então foi assim. Aí depois que você cria um grupo crítico, quando substitui um professor, o que vem é exposto a uma cultura e, vai receber um programa que o seu colega anterior fazia, o material didático e ele vai procurar reproduzir o método, e a gente evidentemente tem alguns eventos que procuram, fazer com que esses professores, potenciais professores novos, sejam treinados então, isso é uma das missões do núcleo, agora centro, da Marina. Ir treinando pessoas para que um dia quem sabe eles virem professores e eles já estão nesse, nessa pegada assim de métodos participativos, e eles recebem o material que já existe e vão melhorando aquilo. Sofrem um pouco no início eventualmente, mas
assim caminha, é assim que a gente tem procurado atender. Então, a existência do centro, agora centro, ele é importante porque ele ajuda a formar pessoas que vão, na hora que entrarem na graduação, já tenham uma emborradura né? Isso tem acontecido nos últimos anos - porque já estamos funcionando há doze anos na graduação - nos últimos anos nas mudanças de professores ou na ampliação, porque a escola aumentou, de 50 para 80 alunos, tem duas turmas agora por ano, muitos professores que eram professores do GVlaw, que é um programa de especialização, alguns professores vieram desse programa do GVlaw e se tornaram professores da graduação. [...] Como eu disse também, o grau de estabilidade é alto, é diferente das grandes escolas que tem uma gestão mais financeira que de repente renova 50% do seu corpo docente, isso nunca acontece na escola. (SUNDFELD, Carlos Ari. Entrevista concedida em 28 de novembro de 2017. membro do corpo de professores fundadores da DIREITO SP).
Na percepção do coordenador da graduação Roberto Silva, a forma como o professor é selecionado e capacitado dentro da escola, bem como o apoio oferecido, atrelado à alta estabilidade do corpo docente, permite que haja menos resistência para o uso do método, ainda que alguns professores sejam mais habilidosos que outros na condução das dinâmicas.
E do ponto de vista dos professores assim, você percebe que há alguma dificuldade, alguma resistência para esse tipo de metodologia, para aplicar este tipo de metodologia?
Resistência propriamente não sinto, porque o professor que é selecionado por nós ou o professor que até mesmo tem o interesse em vir para cá, é um professor que sabe que a gente vai adotar [...] este tipo de metodologia e não tem outra opção, ele não é contratado para dar aula aqui para ser um grande palestrante, não é isso que a gente procura, então há muito pouca resistência dos professores em relação a isso [...] Há professores que tem mais desenvoltura com esse tipo de método outros que têm menos, até porque a gente contrata professores com esse objetivo [...] Tem toda uma teia de apoio, pra isso, com o próprio núcleo de metodologia que é muito ativo até mesmo pra que possam dar apoio aos professores que estão sentindo mais dificuldades em pensar em estratégias metodológicas ativas[...]. (SILVA, Roberto Baptista Dias da. Entrevista concedida em 5 de dezembro de 2017. Coordenador de Graduação da DIREITO SP).
A fim de manter a cultura de aplicação dos métodos participativos, percebe-se uma clara preferência pela contratação de docente com simpatia a esse tipo de ensino, mas, também, é mantido um quadro estável de professores que já possuem experiência com esses métodos, o que dá suporte à possibilidade de existirem disciplinas únicas adaptadas ao perfil de quem a leciona. Uma das professoras entrevistadas comenta que a adoção de tais métodos demanda professores mais estáveis, tornando o papel do professor mais exigente dentro e fora de aula, o que repercute também no papel do aluno.
Há um alto custo com investimento de o professor pensar e preparar todo o curso, mediante seu perfil, e depois aprender como aplicá-lo, e isso faz com que o professor não seja facilmente substituível. E um outro elemento que me parece um desafio, mas que se for um problema para mim é um daqueles problemas que vale a pena a gente ter na vida, que é as estratégias de ensino participativo elas estão muito ligadas ao perfil do próprio professor. O componente “'perfil do professor” conta muito nessa estratégia, me parece. Diferente de uma aula mais conteudista em que, se não der tempo, você consegue fixar um conteúdo e fazer a troca de professores e
o conteúdo de certa forma vai ser ministrado. Isso em estratégias que são diferentes o papel do professor ele acaba sendo mais exigente e dos alunos também. (Professor 2. Entrevista concedida em 8 de dezembro de 2017. Iniciou atuação como professor(a) em 2005 da DIREITO SP. Tratou sobre disciplina do eixo de formação fundamental).
Por ser necessário um maior espaço de dedicação docente, pensou-se inicialmente na contratação de professores de dedicação exclusiva, para que pudessem ser realizadas pesquisas, que também são bastante incentivadas na instituição; bem como que o docente tivesse tempo para realizar atendimento dos alunos em horários extraclasses, e preparando aulas mais elaboradas e atualizadas. Entretanto, logo foram percebidos benefícios também com a atuação de professores que tinham experiência profissional, como comenta Oscar Vilhena Vieira, atual Diretor da instituição:
Logo percebemos que não se faz uma escola apenas com professores em período integral ou apenas com professores em período parcial. É bom para o aluno ter o professor aqui o tempo todo, sempre pronto a atendê-lo da melhor maneira possível. Mas, por outro lado, também é muito bom ter como professor alguém que acabou de sair de uma mesa de negociação e fechou um grande acordo, ou alguém que está defendendo um grande caso. Ainda que esse professor não tenha lido o último artigo que saiu na revista de Yale, ele é o profissional que fechou um grande negócio, que defendeu uma causa de peso, que sabe como o mundo funciona. Isso também é muito importante. [...]. (VIEIRA, 2008 apud ANGARITA; AMBROSINI; SALINAS, 2010, p. 71).
O PPC 2017-2019 (FGV DIREITO SP, 2016), no entanto, é explícito na propensão pela contratação de professores doutores com ampla atuação em atividades acadêmicas, como ensino, pesquisa e extensão, e que desejem trilhar um regime de trabalho integral, mas também abre espaço para profissionais com ampla experiência na sua área de atuação e interesse acadêmico da Escola.
Em seu quadro de professores, consoante disposto no seu site da instituição (FGV DIREITO SP, 2017a), para o segundo semestre de 2017, a instituição contou com 49 professores, dos quais 44 são doutores ou doutoras, e apenas 5 mestres. É de notar, também, que 49% do quadro se dedica em regime integral ou de dedicação exclusiva e 51% exerce tempo parcial, mas podem se dedicar a outras funções de pesquisa na instituição, como ocorreu com um dos entrevistados.
Os dados encontrados estão de acordo com o perfil do docente descrito no projeto pedagógico do curso, que prioriza docentes que se dediquem de modo prioritário ao ensino e à pesquisa, bem como sejam abertos à formação contínua em novas metodologias de ensino. Ademais, percebe-se no projeto pedagógico da Escola uma preocupação institucional explícita com a remuneração de professores por horas extraclasse para o desenvolvimento de pesquisa,
elaboração das aulas e participação em outros projetos. Por fim, o projeto propõe ainda uma atenção à limitação de horas de trabalho em sala de aula pelos docentes (FGV DIREITO SP, 2016).
Tudo isso pode contribuir também para permitir o sucesso do método, que parece exigir um maior tempo de dedicação do professor, como será melhor abordado no tópico relativos aos desafios docentes.
O objetivo aqui foi o de perceber o perfil do docente desejado pela instituição e os meios dos quais a Escola tem se utilizado para possibilitar a dinâmica de um ensino mais participativo, no que se observa toda uma estrutura voltada a assegurar docentes estáveis, bem remunerados, altamente capacitados, alinhados aos objetivos da instituição, e que encontram suporte institucional para o desempenho de suas atividades. Mas como se altera o perfil do aluno dentro desse novo contexto?