AS COMUNIDADES DO ESTUÁRIO DO RIO PARAÍBA
“N
ÃO QUERO IR PRÓ CORTE DA CANA...
É POR ISSO QUE LUTO PELO MANGUE
”
CAPÍTULO III – AS COMUNIDADES DO ESTUÁRIO DO RIO PARAÍBA
No tempo hodierno, cerca da metade da população mundial vive e depende direta ou indiretamente das zonas costeiras (French, 1997), conforme MacNae (1968), das dez maiores cidades do globo, sete localizam-se próximas a estuários. Um percentual significativo das comunidades depende quase que exclusivamente dos recursos oriundos dos estuários, possuindo suas economias vinculadas à produção desses ecossistemas e/ou às atividades desenvolvidas no litoral. Dessa forma, a acuidade da zona costeira perpassa a dimensão biológica, estendendo-se para o econômico e o social. Por exemplo, nos Estados Unidos, estima-se que cerca de 110 milhões de pessoas vivem atualmente em áreas litorâneas, inclusive em costas e estuários, o que representa cerca de 60% da população total americana, estimada em 263 milhões de pessoas (Cicin-Saint & Knecht, 1999).
No Brasil muitas comunidades buscam sua sobrevivência nas áreas ribeirinhas, que culmina em uma realidade global. Os manguezais do litoral brasileiro são os únicos do mundo que são considerados pela legislação como áreas de preservação (Lacerda, et al.; 2006) e mesmo assim continuam sendo explorados sem nenhuma forma de manejo acarretando em sérios problemas de degradação dos recursos naturais destes ecossistemas.
Em estudos realizados nos manguezais do Brasil por Lacerda, et al. (2006) foi detectado um crescimento sutil de suas áreas, sendo na Paraíba o segundo menor. Entretanto segundo este autor o aumento das áreas de manguezais vem sendo provocado pelo aumento no nível da maré devido ao aumento do volume oceânico. Conseqüentemente este aumento tem levado águas salobras mais adentro no canal dos rios, modificando a salinidade dos solos, possibilitando que as plantas de manguezais colonizem essas áreas.
3.1 - O Estuário do Rio Paraíba e sua Formação
O estuário do Rio Paraíba está situado na porção mediana do litoral do Estado da Paraíba (Figura 01). A bacia hidrográfica do rio apresenta uma extensão aproximadamente de 380 Km e intercepta 37 municípios com uma área de 14.397.35 Km e subdivide-se em alto Paraíba com 114.5 Km de extensão, bacia do médio Paraíba com 155.5 Km e bacia do baixo Paraíba com 110 Km (Gualberto, 1977 & Nishida, 2000).
Segundo Nishida (2000) a porção estuarina recebe água de 08 tributários: pela margem esquerda, os rios Portinho, Tiriri, da Ribeira e da Guia e, pela margem direita, os rios Sanhauá, Parapoeira, Tambiá e Mandacaru. O estuário está assentado sobre terrenos do fanerozoico-cenozoico, grupo de areias de mangue, solos tipo salgado e encharcado permanentemente e sob influências de marés (Atlas Geográfico da Paraíba, 1985).
De acordo com Silva (2002), desenvolve-se uma vegetação halófita, característica desse ambiente, que associada ao estuário, constituem um ecossistema produtivo. A calha principal do estuário estende-se desde o rio Sanhauá até o porto de Cabedelo e acompanha paralelamente a margem direita. Mostra profundidades médias em torno de 5,0 m (medidas na preamar), com máximas que ultrapassam os 8,0m na desembocadura dos rios Tambiá (Sassi & Watanabe, 1980).
Na altura da Ilha da Restinga o canal principal se bifurca formando a oeste a referida ilha, que consiste em uma planície flúvio-marinha. Segundo Mendonça (2005), o manuscrito histórico da ilha se dá a partir do descobrimento do Brasil, cujos relatos tratam das relações dos nativos com a terra, e os interesses dos colonizadores portugueses e de outros povos, visto como comerciantes clandestinos (Mendonça, 2005).
Figura 1 – Mapa de Localização do Estuário Rio Paraíba do Norte.
Legenda: 1 – Comunidade do Porto do Moinho (Bayeux), 2 – Comunidade do Porto do João Tota (João Pessoa) e 3 – Comunidade do Renascer (Cabedelo).
Em 1579, a mando do Governador da capital de Pernambuco, sob a ordem do Rei, foi construído um fortim de madeira na Ilha da Restinga considerada lugar estratégico para defesa da Paraíba por estar localizada na Foz do Rio Paraíba. Essa ação deu origem tanto à ocupação como à fundação, em 1585, da capitania da Paraíba, cujo território fazia parte, anteriormente, da capitania de Pernambuco que anos depois se tornou província da Paraíba (Figura 02). O sistema de defesa era formado por três fortes, disposto em forma de triângulo, na entrada do estuário. A leste, o forte Santa Catarina, a Oeste o Forte Velho, que deu nome à região, e no centro, o Fortim da Ilha das Camboas, como era anteriormente chamado. Em 1591 os índios Potiguares, aliados aos franceses, comerciantes de pau-brasil, atacaram o forte Santa Catarina posteriormente o fortim das Camboas, arrasando toda a guarnição, obras e construções existentes (Mendonça, 2005).
Figura 02 – Mapa da Capitania da Paraíba em 1698.
Fonte: (http://wapedia.mobi/pt/Paraíba)
Abrindo um parêntese nesta descrição histórica nos chamou atenção um fato importante para compreensão da localização das comunidades pesqueiras. Na divisão política expressa no mapa de localização das comunidades estudadas (Figura 1), constata-se a importância do estuário no processo de formação das cidades onde a partir de Cabedelo que na atualidade comporta o Porto que representa a principal fonte comercial do Estado da Paraíba, apresenta os seus fios de ligação com os povos
que aprenderam e se apropriaram do ambiente estuariano configurando um elo de intercâmbio muito forte, visto que, as comunidades que até os dias atuais encontram- se instaladas as suas margens ligam-se ao um fator preponderante na estratégia de sobrevivência – o trabalho.
O rio proporcionou a entrada dos seres humanos que dada a necessidade de desbravar o ambiente foram colonizando as margens podendo assim adentrar nas áreas mais remotas do Estado como o Litoral Norte, Brejo, Curimatau, Cariri e ao Sertão Paraibano. O Rio e seus afluentes foram sem dúvida a forma mais efetiva de conquistar os territórios que compõe na contemporaneidade o Estado.
Em 1632, o Fortim foi feito com uma melhor estrutura utilizando pedra e cal e a ilha passou a ser conhecida como Ilha dos Frades de São Bento, em razão da ocupação daquela ordem religiosa. No final de 1634 o fortim caiu em poder dos holandeses, e em 1855 foi construído um lazareto (local de acomodação de pessoas com Hanseníase), que funcionou até 1874, ocasião em que foi abandonado. Houve a partir daí uma sucessão de proprietários até o ano de 1969, quando foi adquirido pela atual proprietária que já a conheceu como Ilha da Restinga. Atualmente a ilha é uma Área de Proteção Permanente (APP) e Zona Turística Especial (ZTE), que é destaque no estuário o que permite o encontro da história, da cultura e do lazer.
O canal de Forte Velho é significantemente influenciado pelas correntes marinhas e apresenta fundo lamoso. A leste da ilha, o canal do Rio Paraíba tem maior profundidade. No período colonial observado em detalhes de desenhos mostrados em azulejos presentes no Forte de Santa Catarina em Cabedelo-PB, o estuário provável possuía profundidades maiores, uma vez que embarcações de guerra de grande porte navegavam para muito além dos limites da cidade de Cabedelo (Nishida, 2000).
Conforme Silva (2002), o assoreamento13 dos leitos dos rios que compõem o
estuário é intenso, principalmente no período de chuvas. Segundo este autor a causa desta inundação de areia no fundo dos rios se deu pelo fato de as matas ciliares das margens dos rios terem sido eliminadas pelas plantações de cana-de-açúcar ou pastagens. Esse processo, altamente dinâmico e predatório tem afetado as
populações de algumas espécies de moluscos de interesse comercial. Atualmente, os processos de deposição de resíduos sólidos poluentes a céu aberto e o despejo de afluentes domésticos sem tratamento sobre as áreas de manguezal têm-se intensificado e despertado não só o interesse da população, como também dos administradores das cidades.
Os principais recursos pesqueiros que têm sido mais explorados da região incluem peixes, que apresentam o maior volume em tamanho e peso, seguidos pelos crustáceos e moluscos (Araújo, 1980).
Não foram encontradas nenhumas espécies de água doce em qualquer área do Estuário Rio Paraíba do Norte. Para os setores localizados próximos a desembocadura, no município de Lucena-PB, que recebem contribuição direta do Rio Paraíba, Nunes (1995), refere-se a 79 espécies de peixes ósseos e quatro espécies de raias, como representantes da ictiofauna acompanhante em arrastos de camarão, coletados durante o ano de 1994.
Os moluscos coletados pelas marisqueiras que serão estudadas nesta pesquisa são encontrados em lugares lodosos, nos bancos de areia, com ou sem influência marinha, vivendo na superfície ou semi-enterrados, no interior dos manguezais e nas croas que ficam descobertas quando as marés baixam (locais onde os sedimentos se acumulam e ficam expostos na baixa–mar, formando pequenas ilhas no leito estuarino).
Segundo Silva (2002) ocorrem no estuário, um total de 38 espécies de moluscos, sendo 23 da classe gastropoda, 13 da classe bivalvia, 1 scaphopoda e 1 cephalopoda, onde as mais importantes do ponto de vista comercial são: Tagelus plebeius (unha de velho, nome do local); Mytella guyanensis (sururu grande, sururu de alagoas, mexilhão), Crassostrea rhizophore (ostra, gureri, ostra-gaiteira, ostra de mangue) e Anomalocardia brasiliana (marisco pedra, berbigão, maçumin, papa-fumo, pedrinhas, sarro-de-peito).
A maior parte dos moluscos comercializados e consumidos é originado dos distritos da Ribeira, Forte Velho e do município de Bayeux-PB, e representam uma importante fonte de renda para as populações dessas localidades, que exploram intensivamente esse recurso do estuário. Segundo o NDIHR/UFPB (1996), em artigo
sobre a história do município de Cabedelo-PB, as marisqueiras (mulheres que trabalham na coleta do marisco) nas croas da Ilha da Restinga eram as figuras comuns em meados da década de 50, e esta espécie teve uma importância fundamental na economia local.
Do ponto de vista hidrológico, os diversos estudos realizados no estuário do Rio Paraíba do Norte têm demonstrado que o ambiente em questão é extremamente dinâmico e predominantemente influenciado pelas águas marinhas costeiras, uma vez que os rios que drenam para a região são, na sua maioria, de baixa vazão. As maiores variações diárias acontecem como resultado das modificações no regime de chuvas da região. Perturbações em parâmetros que refletem a qualidade da água do estuário são freqüentemente ocasionados pela intrusão dos esgotos domésticos dos municípios ribeirinhos, particularmente da cidade de João Pessoa.
3.2 - Município de João Pessoa - PB
A atual cidade de João Pessoa que também tem sua denominação de região metropolitana que envolve os municípios de Cabedelo, Conde, Bayeux e Santa Rita, teve o seu marco zero de fundação a 18 Km acima da embocadura do Rio Paraíba, numa colina que domina todo o atracadouro na margem direita do Rio Sanhauá, afluente do Paraíba. Além do cuidado com a defesa da povoação o local visava facilitar o comércio e o apoio militar à vizinha Capitania de Pernambuco. A povoação, por estar sob domínio da União Ibérica14 desde 1580, teve as primeiras
ruas edificadas dentro de uma geometria de traçados regulares (Figura 3), obedecendo aos padrões encontrados nas demais colônias espanholas do continente americano, o que diferia das povoações fundadas pelos portugueses. A cidade desde
14 D. Sebastião foi o décimo-sexto rei da segunda dinastia de Portugal. Morreu em 1578, aos 24 anos e
não deixou herdeiros. Assumiu seu tio-avô, o Cardeal D. Henrique que morreu em 1580. Sem herdeiro direto à sucessão, havia 3 netos do falecido D. Manoel I concorrendo ao trono português: Catarina (Duquesa de Bragança), Antônio (Prior do Crato) e Filipe de Habsburgo (Filipe II da Espanha). # Graças a muitas conspirações e ao poderio político-militar espanhol, Filipe II da Espanha tornou-se Felipe I de Portugal, unindo os dois reinos sob o Império da União Ibérica (1580-1640).
a sua fundação teve e tem uma ligação forte com o rio garantidor embrionário de seu desenvolvimento (Guimarães, 2000).
Muitas espécies de crustáceos, moluscos, peixes e outros animais marinhos buscam o estuário para procriarem, se alimentarem e se desenvolverem isso aglomerou e promoveu a acomodação das populações humanas em seu entorno, este fato compreende em uma das causas do crescimento da cidade nas suas margens. Sendo assim muitas comunidades foram se instalando ao longo do Estuário do Rio Paraíba fonte de vida e alimento para essas populações.
Conforme, Sposati, et al. (2010), na elaboração da topografia social da cidade de João Pessoa (Figura 3) verifica-se que as transformações urbanas da cidade resultaram na formação de um contingente de massa de trabalhadores, na capital e nas cidades circunvizinhas, formando o conglomerado chamado de Grande João Pessoa com baixos níveis de condições de moradia e de vida. João Pessoa em 1989 contava com 150 comunidades carentes. Esta síntese é reveladora de contradições e desigualdades na ocupação e formação dos territórios intraurbanos de João Pessoa. Esse modelo de desenvolvimento trouxe complexidades à questão social urbana. Os dados demonstram que o crescimento e expansão de João Pessoa não significou melhoria na qualidade de vida de toda sua população (Lavieri & Lavieri: 1999).
O município de João Pessoa em sua contagem populacional em 2007 chega a 674.782 habitantes que em 2010 alcançou o número de 716.042 habitantes obtendo um crescimento de 41.260 habitantes, identificada como a capital mais verde do Brasil onde tal conquista ocorreu na ECO 92 (IBGE, 2010). A capital Paraibana apresenta clara presença de áreas mais protegidas com destaque da Mata do Buraquinho ao centro da mancha urbana. A noroeste e sul a cidade (Figura 4), é bordeada por mangues onde há a instalação precária das comunidades pesqueiras nas quais residem as marisqueiras trabalhadoras da pesca artesanal.
Figura 3 – Cidade de João Pessoa vista aérea do Rio Sanhauá – PB.
Fonte: http://www.cmmcturismo.com.brAcessado em 15/01/2011.
Figura 4 – Vista aérea da cidade de João Pessoa – PB.
3.2.1 – Bairro de Mandacaru (Comunidade do Porto do João Tota)
A comunidade do Porto do João Tota (Figura 5), localiza-se na zona norte da cidade de João Pessoa que faz divisa com os seguintes bairros (Ipês, Estados, Padre Zé, Roger) e com a cidade Portuária de Cabedelo. O bairro é rico em cultura popular, nele existem três tribos indígenas, são elas: Tupinambás fundada na década de 1930, Guanabara (1960) e Tupi Guarani (1985). Na comunidade existe a Associação Comunitária de Educação e Cultura - CACTOS em parceria com o Ministério da Cultura que mantém uma biblioteca comunitária ―Mandacaru‖ que é um "Ponto de Leitura" aberto à comunidade em geral.
Figura 5 – Comunidade Porto João Tota no Bairro de Mandacarú na cidade de João Pessoa – PB, localizada na margem direita do Estuário do Rio Paraíba.
(Emanuel Silva, 2010).
Nesta comunidade existem uma fazenda de cultivo de camarão marinho (carcinicultura) e uma pedreira em plena atividade. O bairro de Mandacaru é composto pelas seguintes comunidades: Baixada, Beira da Linha, Porto João Tota, Beira Molhada, Jardim Coqueiral e Jardim Mangueira. Tem uma estação de trem com três escolas municipais e três estaduais. Uma parte significativa das mulheres está inserida no trabalho de coleta de marisco que reforça a importância do estuário na vida dessas trabalhadoras.
3.3 – Município de Bayeux
O município de Bayeux (Figura 6) banhado por um dos afluentes (Rio Sanhauá) do Estuário do Rio Paraíba localiza-se na planície flúvio-marinha do complexo estuarino do baixo Paraíba, localizado na microrregião da Mata Paraibana, mais precisamente na microrregião de João Pessoa. Sua geomorfologia apresenta basicamente dois compartimentos: o primeiro ao Norte identificado como a parte baixa do município, que consiste a planície flúvio-marinha onde estão localizadas as comunidades pesqueiras Porto do Moinho, Porto da Oficina, Casa Branca, Baralho e Jardim São Severino. O segundo identificado como a parte Sul, o baixo planalto costeiro que também poderá ser denominada de tabuleiros.
Figura 6 – Vista aérea da Cidade de Bayeux – PB.
Fonte: Google Earth, 2011.
A cidade reflete muitos problemas estruturais característicos do sistema capitalista. Ao longo dos últimos 45 anos a população cresceu num ritmo acelerado e passou de 17.338 para 87.561 mil em 2000, tendo assim a maior densidade demográfica registrado do Estado da Paraíba em 2007 que atinge 92.891 hab/km2 que
A comunidade do Porto do Moinho foi escolhida por apresentar maior concentração de mulheres envolvidas com o trabalho da coleta de marisco caracterizada como pesca artesanal e por estar localizada em áreas de soterramento de manguezal. Como Estuários são ―corpos de água costeira semi-fechados, tendo uma livre conexão com o mar aberto e dentro do qual a água do mar é mensuravelmente diluída com a água doce proveniente da drenagem terrestre‖ possibilita assim locomoção humana em toda área de abrangência e que tal fato justifica a localização da comunidade que está distante da embocadura do Estuário do Rio Paraíba (Silva, 2002; Pritchard, 1967a; 1967b).
Silva (2006) afirma que a importância do estuário na vida das marisqueiras das comunidades ribeirinhas está posto para além de um aspecto ecológico; muitas comunidades que vivem no litoral tiram seu sustento dos manguezais através da pesca artesanal e de subsistência; pescadores e catadores de moluscos e crustáceos têm nestas atividades a fonte de renda necessária à sua sobrevivência. Desta forma, a degradação do referido ambiente causa não só modificações no meio ecológico, mas também impactos sociais e econômicos.
3.3.1 - Comunidade do Porto do Moinho
Da população residente na comunidade do Porto do Moinho, mais de 45% moram a mais de 20 anos. São pessoas que formaram famílias, muitas vezes depois que chegaram para morar na comunidade e em vários casos já existe a terceira descendência familiar, ou seja, já nasceram netos dos primeiros moradores dessa comunidade. Muitos vieram do Sertão da Paraíba, observa-se o fenômeno do êxodo rural promovido pela falta de trabalho.
Conforme o constatado a comunidade de Porto do Moinho (Figuras 7 e 8) é, em sua maioria pesqueira, pois, 75% da população sobrevivem da pesca, a qual realiza diversas atividades pesqueiras, conforme os instrumentos utilizados, como: a pesca com a rede de tomada, com a rede de arrasto, a tarrafa e outros. Os dados coletados nas atividades de campo revelam que 16% trabalham em atividades
comerciais e de serviços na capital, haja vista o pouco desenvolvimento dessas atividades em Bayeux; 7% trabalham em indústrias no próprio município e 2% são aposentados.
Desta forma muitos trabalhadores(as) do campo se apropriaram da modalidade de pesca denominada artesanal que exige menos recurso materiais como a captura de mariscos e caranguejos. Assim, o crescimento da população local vem contribuindo para um contínuo aterramento das áreas de mangues, pois as famílias tendem a construir suas casas por trás das casas já existentes. Além deste fator alarmante temos outro que são os aterramentos condicionados pela acumulação das conchas do marisco denominados na literatura cientifica como ―sambaquis‖.
Figura 7 – Comunidade do Porto do Moinho.
Figura 8 – Vista aérea do Porto do Moinho na Cidade de Bayeux – PB.
Fonte: Google Earth, 2011.
3.3.1.1 – As marisqueiras e a problemática ambiental do Porto do Moinho
No cenário atual da comunidade percebe-se claramente que há instauração de revolta por parte das trabalhadoras da pesca artesanal. Nos depoimentos de história de vida elas afirmaram que houve algum tipo de dano ao complexo estuário manguezal, este foi caracterizado pelo despejo de dejetos no estuário. Outro dano foi o desmatamento dos remanescentes que, segundo as marisqueiras, vem diminuindo nos últimos tempos pela força da fiscalização. Além disto, houve relatos de que ainda é freqüente, nos períodos de chuva, a ―lavagem da terra‖, como denominam o carreamento dos resíduos de fertilizantes e agrotóxicos utilizados na lavoura e nas plantações de cana de açúcar.
No contexto de degradação ambiental provocados pela ação direta do homem denominada na literatura científica por ação antrópica, foi apontada pelas marisqueiras a poluição da água, aumento da temperatura, aumento no preço de bens e serviços, e por fim invasão dos pescadores nas áreas de manguezais que incide em uma prática constante. Como anteriormente apontado pelas marisqueiras os danos socioambientais sofridos pela área estuarina do complexo do Rio Paraíba
foram provocados predominantemente por três atividades econômicas: agricultura (canaviais), indústria e carcinicultura.
Podemos afirmar que um dos grandes danos ocasionados na área se deu pelo