Como vimos no tópico anterior, Ana, Cecília, Clara e Marta têm, para a gestão pedagógica da violência em suas escolas, algumas estratégias comuns, as quais sofrem com falhas relativas à falta de habilidades sociais, ao recurso a procedimentos tradicionais baseados no senso comum e a uma representação daquele fenômeno que limita consideravelmente a compreensão sobre o compromisso docente em intervir em situações-problema.
Por isso, e em razão da pergunta orientadora de nossa dissertação – descobrir se as professoras continuam a desenvolver saberes, através do uso da internet em sua formação continuada, para a gestão da violência na escola, e quais são esses conhecimentos – os dados a seguir são muito importantes.
Primeiramente, cabe-nos lembrar que perguntamos sobre o que aprenderam no EqP, ponto de partida para identificarmos nossas entrevistadas e seus conhecimentos sobre a gestão da violência na escola – visto serem objetivos daquele programa promover conhecimentos que permitam o diagnóstico das prováveis causas do fenômeno, demonstrar exemplos de bem-sucedidos programas escolares para a promoção da cultura de paz e estimular que os participantes proponham estratégias de intervenção pedagógica em suas escolas.
A julgar pelas respostas, o principal ganho foi o da informação esclarecedora (em alguns casos introdutória, em outro, aprofundada) sobre manifestações da violência, obtida por exposições (palestras); nesse sentido, o EqP teve para elas um caráter introdutório (com foco na violência física contra a criança e o adolescente), como transparece na resposta de Ana: "[...] e foi muito legal, assim, lógico que já tinha ouvido falar sobre o bulliyng, mas não da forma com que eles explicaram lá [...]". E Cecília, ao falar de sua prática em sala de aula, avalia que aprendeu a reconhecer também aspectos positivos do alunado: "o conhecimento da gente cresceu a um nível de termos demonstrado vários aspectos positivos e negativos que existem dentro de sala de aula, dentro da comunidade carente". Na resposta de Clara – que consegue listar alguns conteúdos relevantes do projeto (“[...] a gente tenha mais consciência do nosso papel e como trazer essas crianças para a escola, quais os artifícios que podemos usar, foi quando vimos a questão de usar mais projetos, apreender mais essas crianças dentro da escola”) – chamou-nos a atenção um elemento que nos pareceu importante: "assim, a gente vai vendo [em] determinadas situações que não estamos sós”.
Considerando-se que, como lembram Teles e Mendonça (2007), a formação continuada de qualidade pauta-se em desafios atuais, e se volta para as intervenções docentes com vistas à promoção do cuidado da criança e do adolescente, o EqP, considerando as respostas aqui analisadas, parece ter cumprido apenas uma parte dos seus objetivos, se tomarmos as falas das entrevistadas, três anos após a conclusão de seu curso.
Ele conseguiu transmitir informações e despertar em algumas (como é o caso de Clara) a consciência da tarefa pedagógica no enfrentamento da violência na escola, sem, todavia, alterar significativamente as representações sobre a violência na escola (em suas causas e possibilidades de intervenção pedagógica), como mostramos nos tópicos anteriores deste capítulo. Foi, então, também ocasião para que docentes se encontrassem e descobrissem não estarem sós: a referência à solidão, vinda de Clara, é significativa e tanto pode explicar-se, à época da entrevista, pela função da gestão assumida (de fato, ocupado por poucos na escola); quanto pelo fato de que, como sugeriu a professora- gestora, poucos são os que se implicam na gestão pedagógica desejável da violência na escola.
É claro que, nesta pesquisa, a participação no EqP foi um critério inicial para identificação e seleção de participantes. Esse critério revelou-se importante por presumirmos que as participantes daquele curso, em princípio, não só saberiam mais sobre a gestão da violência na escola, como teriam recebido formação continuada para promovê-la, podendo, inclusive, continuar a estudar sobre o assunto através da internet – graças ao caráter semipresencial e continuado daquele programa (ainda ativo). As respostas das docentes, porém, não confirmaram essa presunção. Ao menos duas das professoras entrevistadas não prosseguiram estudando sobre o tema e todas revelaram formas de pensar que tendem para tratar a violência como algo extrínseco à escola, que pouco ou nada pode fazer a respeito.
A formação docente, em geral está condicionada aos saberes escolares, por isso em muitas das teorias estudadas, podemos perceber o forte apelo em compreender a escola como próprio campo de formação continuada (PERRENOUD, 1999; PIMENTA, 2005; TARDIF, 2002): concordando com tais autores e ampliando a discussão, pensamos que nos atuais tempos, atravessados pelas propostas de educação continuada a distância, na velocidade da internet, a formação de professores precisa ser repensadas.
São características disso a mudança do espaço físico como condição para a formação continuada, que pode manter-se a distância. Além disso, conceitos e
representações precisam mudar, para incluir questões associadas à desigualdade e à violência, como o racismo, o sexismo, a inclusão de pessoas com deficiência que não leva em conta suas identidades etc.
Lipovetsky e Serroy (2011) parecem otimistas ao afirmarem que as regras da vida social atual não são mais recebidas de fora, a lei e o saber são “construídos livremente pelos homens, únicos autores legítimos de seu modo de ser coletivos (LIPOVETSKY; SERROY, 2011, p.47)”. De todo modo, é importante entender que hoje, cada vez mais, o(a) docente gerencia sua própria formação, nos intercalados diálogos entre suas intencionalidades, seu fazer pedagógico e possibilidades de melhoria.
Nesta perspectiva a internet pode exercer o papel de instrumento mediador da aprendizagem, atuando como ferramenta potencial para novos fazeres educacionais. Como no conceito de virtualização (LÉVY, 2007a), o educar une-se à potencialidade, do vir a ser, do conhecer numa linha quase infinita, pois, os saberes são variados e reconfigurados, novos problemas surgem – como é o caso da violência na escola, associada à ascensão de grupos culturalmente diversos, com identidades diferentes daquelas para as quais a escola tradicional foi preparada.
A motivação para continuamente aprender pela internet sobre a gestão da violência na escola, porém, não foi identificada. Ana responde que "de vez em quando, eu entrava [na internet], dava uma olhada [sobre o assunto]”. Clara faz internet um banco de dados a serem divulgados entre os professores da escola: "Através dos vídeos que fui pesquisando e trazendo para os professores".
A informalidade da resposta de Ana nos faz pensar numa espécie de distanciamento em relação ao assunto, o que, em outro momento de sua entrevista, explicou-se: ela parece ter perdido um pouco a sensibilidade para o sofrimento associado à violência:
Tudo e é o que a gente vê mais hoje em dia a violência doméstica, infantil, quer dizer já está fazendo parte do contexto do nosso dia a dia, que hoje em dia a gente escuta as notícias, mas tá ficando uma coisa tão sem querer, natural do nosso dia-a-dia que às vezes tem gente que nem sensibiliza, tão nem aí, "num é comigo, num é com a minha família", tão nem aí, pra procurar saber as consequências e é uma coisa que precisamos ter cuidado, que é uma coisa que às vezes tá perto da gente.
"Precisamos ter cuidado, que é uma coisa que às vezes tá perto da gente" é uma asserção ambígua: tanto pode sugerir a necessidade de reconhecer-se a proximidade do fenômeno quanto revelar o quanto, na maioria das vezes, em razão da dessensibilização decorrente da banalização da violência, esta já não incomoda, salvo se for pessoal.
Isso ajuda a entender porque Ana apresenta a ideia de violência como fato externo à escola, associada a agressão, crimes, roubos. Acredita que as maiores vítimas e protagonistas dessa violência são aqueles indivíduos que moram em periferias e vivem em situações de risco. Porém, para Itani (1998) esta é somente a parte mais gritante da violência, que também está presente endogenamente, na escola, sendo preciso refinar as representações sobre o fenômeno, a fim de motivar a intervenção pedagógica.
Infelizmente, notamos que as professoras não se mantiveram dispostas a continuarem estudando sobre a temática. Cecília, indagada sobre as motivações que o EqP proporcionou-lhe, mostrou ter entendido que a pedagogia de projetos pode contribuir para o controle da violência, mas não especificou seu papel nesse processo (por tomá-lo como óbvio, talvez, ou por não o relacionar à tarefa de gestão da violência?). Na fala de Marta, notamos que as motivações para o estudo da violência permaneceram, mas graças ao seu trabalho na Pastoral do Menor. Entretanto, estas professoras fizeram outras formações de cursos que abordavam a temática da violência, além do EqP. O curso realizado por elas, o de Prevenção às Drogas16, é uma formação na modalidade a distância, com foco a prevenção ao uso das drogas por crianças e adolescentes17.
Clara relaciona a temática da violência não apenas ao que aprendeu nos cursos realizados, mas ao cotidiano da escola – seja nas atividades e projetos que promove, seja na experiência precoce e evidente de sofrimento a que se refere, para exemplificar a violência na escola:
essa criança [aluno da escola] tem apenas cinco anos de idade e cuida irmãozinho com três anos, é uma violência doméstica e quando essa criança não cuida do irmão direitinho, o pai espanca, o pai bate e nós já comunicamos ao conselho tutelar, às redes pra minimizar, agora é que a gente conseguiu uma creche para a criança de três anos, (...) então é uma violência. Esse pequenininho ele chega espancado na escola, que o pai espanca, então o pai já pediu até ajuda dizendo que não tem condições de pagar ninguém para tomar conta dessas crianças, essas crianças ficam sozinhas e é um dos casos que acontece aqui.
O caso descrito por Clara, mesmo gritante, revela que ela se beneficiou do EqP para identificar situações de violência doméstica, sem mencionar exemplos em que sua intervenção também deve abranger outras situações menos chocantes, mas do mesmo modo importantes. Essa interpretação ressalta que, no caso das entrevistadas, só
16 Obtêm-se mais informações sobre o curso, sua metodologia e conteúdos programáticos em: http://educadores.senad.gov.br/
17
No Youtube há dois vídeos promocionais do curso, feitos por Maurício de Sousa: http://www.youtube.com/watch?v=b8filbBY9sE e http://www.youtube.com/watch?v=dqtfQxjD5m4
indiretamente a internet ajudou a adquirir saberes para a gestão da violência na sala de aula. Em sua resposta, Cecília insiste: “se a gente for estudar isso, se a gente for fazer essa análise deve partir das famílias’". E acrescenta: "busco pesquisar e trazer o melhor para a sala de aula”.
Assim, ainda que se pudesse pensar que a sala de aula é mais do que o currículo formal, na resposta de Cecília parece ser sinônimo de ensino de conteúdos. Isso é claramente mencionado por Marta e, depois, pela própria Cecília: “de uma forma geral, com certeza, de uma forma geral, a internet é ótima pra fortalecer a questão do ensino, né? [...]Pra eu te dizer que eu pesquisei, mas com certeza, com certeza, porque quando a gente dá aula a gente faz uma ponte” (Marta). “Sim, eu busco pesquisar e trazer o melhor para a sala de aula, textos que na realidade falam do testemunho real da vida, de, de, de é... de passar conhecimentos” (Cecília).
Por sua vez, Ana, como vimos, não associa a agressividade infantil à possibilidade da formação precoce de condutas violentas. "No meu caso como eles são crianças, alunos de quatro, cinco anos a gente não vai tão profundo na violência, a gente trabalha mais assim a questão pedagógica com eles, educativa". E Clara, em sua resposta, associa a internet à especialização acadêmica:
Ajudou, muito, aliás, eu tenho especialização em tecnologia, aí a minha primeira especialização foi aí é... onde a gente vê uma abertura muito grande da internet para a nossa... para sediar as nossas vontades quando o tempo é curto. Nós temos muitas vezes pouco tempo e também não há universidades na madrugada. Então eu acho que a questão das tecnologias ela vem abrindo muito para que a gente estudar nos momentos que a gente tem, nos horários que a gente tem condições, as vezes, a gente precisa de determinados horários e isso vem a favorecer, então acredito que a minha monografia sobre tecnologia foi feita mais nas madrugadas, o que eu não poderia fazer presencial se precisasse, então é eu acredito.
Em nenhum dos depoimentos, identificamos uma relação específica entre as aprendizagens pela internet e a gestão da violência na escola. Percebemos nos discursos das docentes, ainda uma concepção simplista da violência e do uso que o computador (como fonte de dados para inovação de ensino em suas aulas e como instrumento para a gestão de sua própria formação continuada). Esses dados evidenciam, em nossa análise, que ainda se torna necessário discutir tais questões e analisar os atuais modalidades que se têm feito do computador, da internet.
A visão das discentes sobre a violência, ainda é muito restrita ao que se passa fora da escola, eivada de traços de preconceito (associação entre violência e pobreza, por exemplo) que vêm do senso comum, o qual ainda isenta a escola de responsabilidades
maiores sobre a gestão do problema e não implica docentes e outros educadores nessa tarefa. Extensão do que foi dito antes, quando se referem à violência, as entrevistadas a associam à violência física, porque é a mais difundida entre as pessoas e pela mídia, além de ter sido o foco do EqP, em que foram preparadas para identificar e intervir quando da ocorrência de violência doméstica.
Por fim, a internet, a despeito de auxiliá-las no que reconhecem ser seu trabalho (a transmissão de conteúdos), ainda não as ajuda significativamente a se manterem em formação continuada para gerirem pedagogicamente a violência na escola. As informações obtidas não alteram as representações prévias sobre o fenômeno e não as implicam em ações nas quais se sintam diretamente responsáveis para intervir.
Para Barberà e Rochera (2010) a aprendizagem autodirigida pelos ambientes virtuais de aprendizagem existe, desde que se tenham motivos para fazê-lo, para aprender. No que concerne a nossas entrevistadas, pareceu-nos não estarem ainda suficientemente motivadas para aprenderem, com a mediação da internet, a intervir em situações de conflito. Supomos que parte desta falta explica-se por tradicionalmente não se associar a gestão dos conflitos à tarefa docente; outra parte, por não terem recebido formação e de suporte tecnológico específicos para tal tarefa.
Reconhecer que a violência também está presente na escola e nos toca a todos é o primeiro passo para a mudança das atitudes e do pensar sobre o fenômeno. Formar a ideia de que na escola também se pratica violência nas relações interpessoais de uns com os outros, nas hierarquias escolares é condição para começarmos a incluir, na formação docente continuada, esse conteúdo.
Isso é possível pois, como Placco (2002), entendemos ser pertinente a prevenção e a gestão da violência dentro do espaço escolar; considerarmos a escola como potente instituição para a sua superação, na constituição de atitudes civilizatórias aos alunos, no sentido do respeito à alteridade, do reconhecimento à legitimidade das diferenças próprias à vida humana em sociedade.
A formação continuada mediada pelo computador pode auxiliar a alterar o cotidiano das escolas nas quais a violência se faz presente. Adquirir saberes para a gestão pacífica e educativa da violência na escola faz-se neste diálogo contínuo com a profissão, com as situações em que ela pode ganhar espaço. Visto que não se pode eliminá-la de vez, trabalhar com a prevenção garante ambientes escolares pacificadores, acolhedores requer ações sistematizadas, planejadas, no intuito de um melhor fazer pedagógico no cumprimento do caráter essencial da função docente objetivando o
ensinamento de valores e atitudes nos alunos. As trocas que tudo isso requer podem, precisam ser aprendidas pela internet, em formação docente continuada.