C. DİL, COĞRAFYA VE EĞİTİM
III. BÖLÜM: GÜÇLENME STRATEJİSİ OLARAK EĞİTİM VE PAÇAN ÖRNEĞİ
Ora, é evidente que os presidentes de província, sem abandonarem suas posições de guardiãs da tradição, 123nas palavras de Giddens (1999, p.12), se propunham a defender a
120PARAHYBA, Cidade da. Instrução Pública, Relatório-Anexo, 1870, p.3.
121Como nos aponta (BOTO,1999,p.3) efetiva marca da idéia de expansão da presença do Estado na instrução.
122Esta como símbolo maior na Europa da presença Estatal desde o processo revolucionário de 1789, em que a França encaminharia reformas no âmbito da ingerência estatal no quadro instrucional. Apesar da defesa feita em prol da instalação do ensino obrigatório entre os presidentes de província existiram os que figurariam como contrários a tais transformações como Joaquim Moreira Lima, diretor da instrução pública.
123 Quando remetemos a estes guardiãs da tradição, podemos inferir o grau de reformas que pudessem ser implementadas sem ferir a estrutura extremamente desigual da ordem escravista tradicional. O que contradizia o referencial de modernização postulado nos discursos.
implantação de diversos atributos que ratificariam alguma transformação no aparato instrucional da Parahyba do Norte.
Ao mesmo tempo, quando tentamos divisar, que mecanismos poderiam ser acionados neste sentido, percebemos o quanto de ambíguo poderiam parecer certos discursos. Senão, vejamos. Silvino Elvidio, que enquanto articulador de alguma mudança, ao esboçar um possível “novo papel” para o comissariado de instrução na Parahyba do Norte124, este como ferramenta modernizadora da instrução, defendeu:
(...) Faz-se preciso que se dê nova organização ao comissariado,que do modo,por que se acha, com raríssimas excepções,nenhuma utilidade presta.Sendo este o mais importante auxiliar do director da instrucção pública em toda província, urge que sobre elle se tome logo e logo a devida providencia.(...)“Entendo que para occupar o lugar de comissário deverá ser preferido o bacharel formado ou clérigo D´ ordens sacras. ( PARAHYBA, Cidade da. Exposição, 1870, p.2, grifos nossos).
No mesmo espaço que se propugna a existência do braço público-estatal, constituindo um comissariado como articulador de alguma reforma, que chegasse a instaurar nova realidade burocrático-fiscal, ordenando a ação de instrução por parte do professorado, estão cristalizadas duas realidades sociais.
A do bacharel que se dispusesse a, qualificado, 125 instruir ou, o já presente padre, resoluto defensor dos interesses clericais que encaminharia a instrução dentro da legalidade específica, respeitando os trâmites do chamado Padroado.
A trama secular e a instância clerical conviviam sob a égide tanto do signo da transformação, quanto da marcha lenta da manutenção da tradição. Algumas pistas podem
124Corpo de funcionários de Estado, então responsáveis pela fiscalização. As funções são estabelecidas pelo artigo 3º do Regulamento de 15 de janeiro de 1837.
125Cursos de Direito como os de Recife, estavam já, em meados do final do século dezenove, sob influência liberal e propagavam idéias diversas de organização política, dentre elas a secular. Segundo Carvalho (2003), uma nova intelectualidade se constituía, a partir de uma formação diversa da Coimbrã. Caracterizada de maneira a possuir uma fundamentação filosófica que detinha forte sentido autonomista e federalista, e que vai fornecer a base, inclusive, para algumas insurreições, tais como Confederação do Equador (1824) e Movimento Praieiro (1848-49) e demais disputas intelectuais ligadas à legitimidade Estatal, como a Questão Religiosa(1872).
servir para que entendamos a que significado atenderia a secularização que se manifestava na província da Parahyba do Norte.126
Passar a constituir um corpo docente capacitado era determinante para que o Estado se fizesse presente, como já inferimos. O grande entrave parecia ser a constituição de bacharéis enquanto lentes, pois os desníveis salariais (PINHEIRO, 2004, p.231) existentes na Parahyba, eram gritantes.
Disparidade em relação aos padres, que desestimulava a presença de grande quantidade dos respectivos profissionais, nos quadros da instrução pública, apesar de sua presença ser identificada até a passagem para o sistema republicano.
De qualquer maneira, toda proposta de transformação da instrução acabou se manifestando dentro da continuidade e da coexistência entre as esferas confessional e secular. Neste âmbito, a presença de bacharéis no funcionalismo, como os padres, continuou a mesma nas décadas seguintes.
Sempre a partir da perspectiva de funcionários da Instrução Pública, dentro da condição de comissários ou lentes. São do final da década de sessenta, outros manuscritos atestando a dupla presença:
Portaria do vice-presidente da província em virtude da qual foi nomeado o cidadão digo o bacharel Manoel Rolim D`Alencar para o cargo de
comissário da instrucção pública na cidade de Pombal.Segunda secção
numero vinte e três Palacio do Governo da Paraíba em treze de janeiro de mil oitocentos e sessenta e seis.Vice presidente da província por proposta da secretaria da instrução pública resolve nomear o bacharel Manoel Rolim D`Alencar para o cargo de comissário de instrucção na cidade de
Pombal.Felizardo Toscano de Brito.Cumpra-se e Registre-se .Directoria da
Instrucção da Parahyba em quinze de janeiro de mil oito centos e sessenta seis.João Leite. (LREM, FUNESC, 1866, p.23, grifos nossos).
No mesmo dia:
Portaria do vice-presidente da província de treze de janeiro de mil oito centos sessenta seis, em virtude da qual foi exonerado do cargo de comissário da instrucção publica na cidade de Pombal o bacharel Benedick Marques da
Silva Acauhã.Segunda secção numero vinte.Palacio do Governo da Paraíba em 126Em uma série de documentos manuscritos, observados em nossa pesquisa. Por volta de 1871, em sucessivas cartas remetidas pelo secretário da instrução pública, são especificadas nomeações tanto de padres quanto de bacharéis para ocupação do cargo de comissários de instrução.
treze de janeiro de mil oito centos e sessenta seis.O vice presidente da província por proposta da directoria da instrucção publica resolve exonerar do cargo de comissário da mesma instrucção na cidade de Pombal o bacharel Benedick Marques da Silva Acauhã.Felizardo Toscano de Brito.Cumpra-se e registre-se.Secretaria da instrução Pública da Parahyba em quinze de janeiro de 1866.João Leite. (LREM-FUNESC-1866, p.34, grifos nossos).
De qualquer maneira, no final do século XIX, os bacharéis vão conseguir praticamente monopolizar os cargos do “funcionalismo” vinculados à instrução, assim como as normalistas127, aspecto que destacaremos no capítulo seguinte. Por hora voltemos à premente disposição dos intelectuais paraibanos na esteira do reformismo.
É Joaquim Moreira Lima, como diretor da instrução pública da província da Parahyba do Norte 128, que, em seu relatório de 1871, faz referência à urgência de reformas estruturais na instrução provincial a partir da organização escolar. Algumas das mesmas idéias atribuem à formação e constituição de um corpo docente uma necessidade cabal para desenvolvimento da instrução local a contento.
São arroladas fortes críticas às condições de ensino e acesso à condição de lentes, aspectos ainda extremamente precários na província. Entre as necessidades prementes, o sentido parecia ser o de construir condições, não tão dependentes, do até então marcante “alistamento clerical” para as funções de professores públicos e demais cargos vinculados à instrução.
Podemos começar a inferir, que já começava a não ser tão factível a projeção dos padres, junto com as demais categorias do funcionalismo, como os únicos a ensinar.
[...] Entendo que convem se tomem as providencias que passo a indicar: estabelecimento de um curso normal nesta cidade, onde se habilitem os candidatos ao magistério. [...] adopção de regras uniformes para a criação de cadeiras [...] regras uniformes para o ensino. [...]. Eis como fundamento e desenvolvo meu pensamento a respeito. O provimento das cadeiras, assumpto da maior transcendência, faz-se entre nós de modo sumaríssimo. Não se exige do candidato título scientífico que o recomende [...]. (PARAHYBA, Província da. Relatório, 1871, p.34,grifos nossos)129.
127Condição atestada pela volumosa documentação constante no códice de ofícios da secretaria de instrução pública a partir do ano de 1875 até meados de 1889.
128No mandato de José Evaristo da Cruz Gouveia e respectivamente de predomínio conservador.
129Sobre os dispositivos que impediam o desenvolvimento da instrução pública a partir de aparatos profissionais, entre eles, os concursos, ver (PINHEIRO, 2004). O autor faz referências à outra dimensão do mesmo documento sob a ótica
Na medida em que pensamos a secularização, também como âmbito de um “transcurso”, nas esferas de interrelacionamentos que incluiriam espaços em que o sagrado poderia ser afetado pela “mundanização da tessitura social”, pode se inquirir de que maneira a conjuntura reformista permeia os relatórios de presidentes provinciais da Paraíba do Norte.
Não parece ser difícil perceber que representação da secularização da educação se manifestava. É identificável, todavia, que durante três décadas, até a República, se identificarão volumosa quantidade de discursos que denotam uma retórica de reformas dispostas como urgentes. Um exemplo é o relatório que José Evaristo da Cruz Gouvêa encaminha:
A investigação dos meios adequados para e effficazes para desenvolver e aperfeiçoar a instrucção e educação da mocidade preocupa com razão os espíritos ilustrados nos paizes mais cultos, porque é convicção que da difusão
das luzes e são princípios da moral depende a felicidade dos povos.
(PARAHYBA, Cidade da.Falla, 1872, p.35,grifos nossos).
É facilmente identificável que os capitais simbólicos da secularização na Paraíba, decididamente, não são os mesmos, que se manifestavam na Europa. Escolhemos, daí, pensar nas vias institucionais em que forte simbolismo secular é manifestado130, e onde a sua representação estaria mais à mostra, numa jaula que ainda não era de aço (WEBER, 1990), mas começava a ser forjada nos quadros instrucionais, políticos e sociais da Paraíba do Norte.