Se nossa proposta consiste em utilizar a noção de sintoma para analisar as imagens e o Movimento Ambiental, faz-se necessário especificarmos o que entendemos por “sintoma”. Primeiramente não se trata, é claro, de trabalhar com a noção de sintoma tout court, mas de fazê-la servir a uma outra, que é a de “sintoma social” ou “sintoma da cultura”. Vejamos como ambas podem ser apresentadas.
Para a medicina, o sintoma é aquilo que indica ou revela uma doença ou um desajuste. Assim, a febre é o sintoma de uma infecção. A dor é o sintoma de que algo está errado, desequilibrado. Para a psicanálise, que de certa maneira herda o termo da medicina, o sintoma aparece como o quadro fenomenológico que, apesar de não estar necessariamente ligado a um desajuste orgânico, revela um conflito psíquico. Na histeria clássica, por exemplo, as paralisias ou outras conversões somáticas eram sintomas de que algum conflito
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Para Žižek, na proposta marxista também é assim. A forma mercadoria revela o que é evidente demais para ser evidenciado, e não se trata do valor específico de uma ou outra mercadoria, mas do próprio “formato” mercadoria que as coisas adquirem.
97 Talvez a comparação com as categorias de Charles Sanders Peirce ajude a compreender o ponto de vista para
o qual chamamos a atenção. A primeiridade não está apenas na base da terceiridade, mas a permeia por completo: a terceiridade pressupõe sempre a primeiridade, em todos os seus pontos (Cf. Peirce, 2008). Assim também o signo pode revelar algo interessante: o caráter icônico manifesta-se justamente na superfície do símbolo, de maneira que, apesar de uma “leitura’ do signo passar rapidamente pela primeiridade ali posta, indo parar na terceiridade, no seu caráter simbólico, é também de qualidade que o signo simbólico é feito. (Estendendo a analogia, seria mais complicado pensar aqui o fato de que, na proposta peirceana, as três categorias estão presentes em cada uma em particular: assim, não apenas a terceiridade está prenhe de primeiridade e de secundidade, como também na primeiridade é possível apreender a dimensão da secundidade e da terceiridade).
psíquico estava sendo travado entre desejos e entre instâncias. No lugar do conflito psíquico, que é mascarado, aparece o sintoma. Também poderíamos dizer que o sintoma é resultado de um retorno do recalcado que, deslocado, condensado e/ou figurativizado, comparece na consciência. O efeito dessa aparição é sintomática, pois indica a existência do desejo recalcado. O processo de deslocamento, condensação e figurativização, também presente no sonho e no ato falho, são as leis segundo as quais um conteúdo inconsciente, recalcado, manifesta-se.
A necessidade de que tais conteúdos encontrem, mais cedo ou mais tarde, sua expressão na “consciência”, na vida desperta das pessoas, é devida ao fato de que desejos inconscientes têm um caráter pulsional, ou seja, são indestrutíveis. Dessa maneira, continuam a produzir seus efeitos a partir do inconsciente. O id e o superego, já que não abrem mão de sua parte de desejo, obrigam o ego a adotar uma “solução de compromisso”. A solução psíquica se dá, então, na formação sintomática que acomoda ou configura os pares do conflito.
Entretanto, essa conceitualização do termo sintoma dá margem apenas à expressão das estruturas neuróticas, pois é apenas nelas que o recalque separa um desejo desagradável que retorna dissimuladamente. Estaríamos, por isso, impedidos de falar em sintoma nas estruturas psicótica e perversa, nas quais não há propriamente recalque, mas outras modalidades de defesa? Entendemos que não, pois mesmo no perverso e no psicótico o conflito se manifesta – daí a necessidade de alguma defesa, de alguma solução de compromisso, que não deixará de produzir seus “efeitos colaterais”, sintomáticos de cada estrutura. É verdade que no psicótico, por exemplo, o sintoma, como uma espécie de pegada deixada pelo conflito, só pode aparecer no delírio: o psicótico faz retornar no real o que foi negado da percepção desagradável. Já o perverso dá mostras de seu conflito de maneira muito particular, pois aí o sintoma deixa de ser, pelo menos à primeira vista, fonte de sofrimento. É comum dizer que o perverso não sofre de “sofrimento psíquico”, sendo esta inclusive uma de suas características marcantes (portanto, um sintoma de sua estrutura). Contudo, a operação da estrutura perversa revela, tanto quanto a neurótica, o conflito – muito embora este esteja “suspenso”, quer dizer, arranjado ou configurado de tal forma que as forças conflitantes deixem de se encontrar: uma delas comparece na consciência prática e a outra, na consciência teórica. Daí Žižek (1996) entender a operação fetichista como uma divisão da consciência em teórica e prática, e Safatle (2010) lembrá-la como clivagem do Eu. Essa divisão vem a ser, então, o próprio sintoma no/do perverso.
Será que com essa noção alargada de sintoma, que atravessa todas as três estruturas, abarcando a especificidade de cada uma, poderíamos conduzir o conceito para que ele abrigue, ainda, outra estrutura, a social? Do que trataria o sintoma social ou sintoma da cultura?
Para Lacan, a noção de sintoma é construída com a ajuda de outros termos, que amarram o sistema teórico e conceitual elaborado por ele e, por isso, ganham novas nuances. Na reflexão lacaniana, as noções de “Outro” e de “discurso” introduzem uma perspectiva que, embora presente em Freud, ganha outro status: trata-se da consideração da cultura de uma maneira central. Lacan não o coloca necessariamente com esse termo, cultura, mas propõe que haja um solo comum para os sujeitos e que tal solo os anteceda enquanto seres e os antecipe enquanto sujeitos. Trata-se de algo como um background, uma plataforma em que há uma dimensão transindividual. É, pois, o sintoma enquanto delimitado, engendrado e significado pelo discurso do Outro que podemos pensá-lo como sintoma social. A reflexão lacaniana entende que a subjetividade, muito diferente de ser formada a partir do que a tradição cartesiana chamaria de eu – um eu consciente, racional –, é uma subjetividade precipitada pelo que antecede o nascimento da pessoa. A alienação à linguagem, que é a trama do desejo do Outro, é a operação que possibilita o nascimento do sujeito, ou do homem dotado de subjetividade. Dessa maneira, não apenas enquanto estrutura, mas também enquanto conteúdo, o sujeito o é a partir da estrutura e do conteúdo da linguagem e do desejo do Outro.
Parece estar posta, assim, a radicalidade do sujeito do inconsciente. Se Freud já havia apontado o destronamento da consciência como controladora tanto da vida íntima do sujeito (pensamentos, sonhos, fantasias e desejos) quanto daquela mais externalizada (personalidade, comportamentos, posturas), indicando o inconsciente como determinante desse destronamento, Lacan talvez acrescente aí um peso a mais: aponta a origem desse inconsciente não numa elaboração ou construção cujas rédeas são governadas pela particularidade de cada um, mas no que em sua teoria recebe o nome de Outro (que é da ordem do universal). Ao levar ao extremo essa proposta, entendendo aí uma certa internalização da cultura, não é difícil formular a questão sobre o sintoma social.
Voltando a Freud, se tomarmos a noção de supereu, ou mesmo as noções de eu ideal e ideal do eu, poderemos entrever uma outra maneira de ver como o social comparece na singularidade e como se torna, então, possível falar em um sintoma da cultura. Enquanto internalização de valores e interdições, o supereu abriga o discurso do Outro no psiquismo individual. A repressão moral sexual denunciada por Freud em Moral sexual civilizada e
doença nervosa moderna (1908) e a infelicidade advinda do próprio processo civilizatório,
com suas renúncias pulsionais, examinada em Mal-estar da civilização (1930), são tidas como fatores geradores de neurose. Eles evidenciam claramente o quanto e como qualquer organização social imprime restrições universais, que são digeridas em sintomatologias no sujeito.
Mas não é essa perspectiva – da reverberação do social no sujeito singular – que nos interessa para entender as imagens enquanto representações de uma cultura. A perspectiva que nos convém destaca não a manifestação do social no singular, mas sim uma certa engrenagem sintomática do próprio social. A própria estrutura social passa, pois, a ser, em si, sintomática. A reflexão zizekiana trabalhada, por exemplo, em “Como Marx inventou o sintoma” (1996), vai justamente nesse sentido, destacando o quanto a ideologia é uma construção que extravasa o campo do saber, alojando-se na fantasia que recobre a efetividade social. Daí ela emergir como realidade social, não sem se comprometer, é claro, com o recalcamento daquilo que a fundamenta98. Embora outros autores, e talvez até mesmo Marx (segundo essa leitura de Žižek), tenham apontado para uma certa fissura própria à estrutura social, inerente a ela, fissura que tende a produzir sintomas sociais – no sentido de conflitos ou mesmo de retorno do recalcado (como é o caso da teoria sobre o fetichismo da mercadoria) – parece-nos que Žižek dá conta de amarrá-los de maneira interessante. Ao trabalhar a teoria marxista e a metapsicologia lacaniana, Žižek elabora a noção de fantasia
ideológica como uma “ilusão desconsiderada e inconsciente” sobre o que estrutura a
realidade social (Žižek, 1996, p. 316). Sua concepção retira grande parte do foco no singular e nos permite entender o sintoma social não mais como um sintoma comum ou disseminado na população, e sim como um sintoma própria ou essencialmente do social, enquanto estrutura discursiva, cultura ou conjunto de valores. Nas palavras de Žižek, isso é possível porque “a interioridade de nosso raciocínio é determinada pela absurda “máquina” externa – o automatismo do significante, da rede simbólica em que os sujeitos são apanhados” (Žižek, 1996, p. 316).
Se um sintoma de época é o que muitas pessoas manifestam, o sintoma da cultura é um sintoma próprio do sistema social. Muito embora um sintoma social venha a aparecer como traço de caráter ou modalidade de sofrimento nas singularidades, ele pode ser entendido independentemente dessa derivação, no próprio cerne da estruturação social. E se
98 Poderíamos lembrar aqui o quanto a dialética hegeliana marca sua pertinência. Segundo essa dialética, aquilo
que é excluído acaba sendo, no processo mesmo de exclusão, introduzido. A fissura comparece, então, naquilo que se encontrava homogêneo. Em outras palavras, aquilo que é combatido é também absorvido.
podemos dizer que a histeria se apresentou como sintoma da época de Freud, ou como hoje vemos o diagnóstico de depressão, também poderíamos dizer que a forma mercadoria fornece a constituição própria ao sintoma social (com alguns remanejamentos, já que tal sintoma poderá, numa certa leitura, falar de renegação e não de recalque, como veremos ao trabalhar o laço fetichista. De todo jeito, a forma mercadoria estaria posta como formação
social, tanto simbólica quanto material, capaz de mascarar o real insimbolizável do desejo)99
. Se hoje parece que a depressão conquista terreno diariamente (seja qual for a definição que lhe dermos), devemos indagar o que a cultura tem a oferecer de caminho para a produção do sofrimento e para sua mitigação. Qual é a contradição sintomática que uma cultura precisa expressar? Quais são os grupos de desejos em embate?
Há autores que defenderiam uma produção sintomática contemporânea deslocada da categoria de desejo. Ou seja, no lugar de desejos contraditórios encontraríamos uma abstenção de obter prazer, ou, o que dá no mesmo, uma modalidade de gozo. Aqui a pulsão de morte parece revelar-se na sociedade moderna. Afinal, é ela que daria conta de um certo tipo de anulação do desejo, em que a posição do narcisista desliza para aquilo que Andre Green chama de narcisismo de morte (Cf. Green, 1988).
Por outro lado, o fetichismo também pode ser tomado como expressão majoritária do social, como temos visto até agora. Enquanto “escolha” de posicionamento frente à castração, o fetichista a renega, a desmente por meio do objeto fetiche. E o que ele nega e desmente é uma alteridade que instaura a hipseidade do eu, sua unidade sob o regime fálico. O fetichista “renega” a diferença sexual: conhece-a, mas mesmo assim age como se ela não existisse. Aí também se engendra um papel importante da pulsão de morte. Como coloca Safatle, “a morte própria à pulsão seria o operador fenomenológico que nomeia a suspensão do regime simbólico e fantasmático de produção de identidades. Ela seria um princípio de dissolução de individualidades presente em todo organismo” (2010, p. 62).
Enquanto motor de suspensão do reconhecimento de diferenças e produção das identidades, a pulsão de morte é chamada a promover a posição do fetichista, do narcisista e do masoquista. Dada essa presença importante e dado que pretendemos defender uma
99 Caberá a nossa leitura das imagens apontar traços dessa construção social ou dessa fantasia ideológica em
que uma fissura revela o fundo traumático sobre o qual ela se ergue, apontando a expressão da forma mercadoria naquilo que ela veicula da representação da natureza. O trauma seria constituído possivelmente pela alteridade do natural. Antes disso, contudo, parece ainda muito interessante deixar indicada outra característica do sintoma. O dualismo que ele encena é sempre identificável, mais ou menos diretamente, ao dualismo essencial da modernidade: entre cultura e natureza, entre liberdade e instinto. Parece, nesse sentido, que o sintoma reproduz um conflito entre o simbólico e o natural. Mas também poderíamos colocá-lo sob a expressão de um conflito entre Eros e Thanatos.
compreensão das imagens da campanha ambiental como exemplares de uma estética da pulsão de morte, assim como da inoperância frente à ameaça ambiental, faz-se necessário pensar as noções de fetichismo e de pulsão de morte com mais vagar. Afinal, nada nos impediria de questionar a convivência incômoda entre, de uma lado, a pulsão de morte e, de outro, as noções de sintoma e de fetichismo, que insistimos até agora em trazer para nossa análise. E isso ocorre por dois motivos. Por um lado, se vínhamos sustentando uma certa modalidade do laço social que é muito mais próximo da perversão ou da psicose, seja por meio do fetichismo ou da foraclusão, há que se definir o que estamos chamando de sintoma, sobretudo no que diz respeito às forças conflitantes e seus arranjamentos. Faz sentido falar em sintoma quando se trata de perversão ou psicose? Que consistência tem um sintoma no fetichista? Por outro lado, como a pulsão de morte comparece no sintoma, seja ele apreendido numa modalidade fetichista ou psicótica?
Essas questões poderiam ser respondidas, como vimos, de uma maneira mais simples do que a princípio parecem demandar. Se o sintoma é uma das manifestações do inconsciente em que entram em jogo forças conflitantes, não é necessário que o recalque tenha se dado para que se fale em sintoma. Ele pode aparecer também nas estruturas que têm outra modalidade de defesa. No fetichismo, o sintoma é justamente a “clivagem do Eu”, essa organização psíquica que procura dar conta de um reconhecimento da castração ao mesmo tempo que a recusa. O fetichista faz uma “escolha de defesa” que é a de manter na consciência as duas forças conflitantes: o reconhecimento da castração e sua recusa. É desse paradoxo que trata o sintoma visualizável no fetichista, muito embora, é verdade, não se possa evidenciar um sofrimento psíquico, já que o conflito para o fetichista não é vivenciado – como no neurótico –, mas sim suspenso. Já no caso da foraclusão, o sintoma aparece do lado da abstenção do sujeito. Na verdade, o desmoronamento do princípio de realidade na vida do psicótico dá as cartas sobre seu sofrimento. A paranóia e o delírio aparecem, então, como seus sintomas. O que é recalcado no neurótico é recusado no psicótico. Se o sintoma se forma no primeiro por uma expressão mascarada do recalcado na vida psíquica, no segundo, o recusado retorna no real quando das alucinações. Em ambos, contudo, há uma sintomatologia da estrutura que pode ser relacionada a um conflito fundante das instâncias psíquicas. Por isso parece interessante entender melhor a noção de fetichismo para que possamos apreender a dimensão sintomática social para a qual chamamos a atenção em nossa hipótese. Vejamos essa noção no próximo item (e deixemos a pulsão de morte para a sequência).