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Um outro aspecto que exerce, estilisticamente, a função de manipular, burilar a informação é o emprego da anáfora ou da catáfora na construção da manchete jornalística.

14 “[...] a variação estilística precisa ser vista como variação de pessoa. Quando nós convergimos

estilisticamente para um interlocutor, podemos encobrir isso como a redução de diferenças (socio)linguísticas [...]. Mas a partir da perspectiva do ator social, o que está sendo reduzida é a divisão cultural e social entre as identidades, as personas sociais que eles podem projetar por meio de suas seleções estilísticas. Estilo e, em particular estilo dialeto, podem, portanto, ser entendidos como um caso especial da apresentação de si mesmo, dentro de determinados contextos relacionais - articulando metas relacionais e metas identitária (Tradução livre).

Os títulos podem referir-se aos textos, ligando-se a eles de modo anafórico ou catafórico, segundo Halliday e Hasan, citados por Koch (1991). Esclareçamos.

Esta é uma questão que nos remete aos cinco mecanismos de coesão15 (conforme Halliday e Hasan, 1976, apud Koch, 1991), fatores que consistem na estrutura sequencial do texto, a saber: referência, substituição, elipse, conjunção e coesão lexical.

Deter-nos-emos na coesão referencial, cujos elementos não oferecem interpretação semântica por eles mesmos, motivo pelo qual fazem referência a outros termos (palavras) presentes no contexto.

Koch (1991) esclarece que é exofórica a referência situacional, ou seja, ocorrida fora do texto. Já a referência endofórica – a que nos interessa elucidar – ocorre no âmbito textual.

Em outras palavras, o título construído anaforicamente remete a alguma informação que não está concretizada no texto – está presente no conhecimento prévio do leitor. Para uma melhor compreensão desse tipo de manchete, é fundamental que o jornalista conheça muito bem seu público-leitor, a ponto de sabê- lo capaz de apreender aquela mensagem anafórica. Vejamos um exemplo dessa natureza de manchete:

15 Não nos aprofundaremos aqui – pois este não é o nosso foco – na discussão quanto à

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Fonte: http://topicos.estadao.com.br/fotos-sobre-capas-historicas/grandes-momentos-do-esporte- registrados-pelo-jornal-da-tarde. Acesso em 18 de março de 2014.

Aquele 5 de julho de 1982 em Barcelona era, sim, do conhecimento prévio do leitor brasileiro: o Brasil havia perdido a Copa do Mundo, tendo sido eliminado pela Itália. Trata-se de uma capa sem texto verbal além da manchete. O único texto além do título é o não-verbal, a imagem da criança, o torcedor triste, frustrado, decepcionado pela derrota do Brasil. Mas o leitor tinha informação de cada detalhe daquela capa: a camisa da criança na foto, o lugar, Barcelona, e a data, registrados no título, o semblante do menino... Capa extremamente eloquente a partir de uma imagem apenas e de um título que, em princípio, poderia não dizer muito – ou mesmo nada. Mas, para o leitor brasileiro, no dia de sua circulação, chegou a gritar.

Guimarães (2007) elucida a relação anafórica entre o título e o texto da seguinte forma:

[...] o título funcionando como lembrete de uma informação conhecida, remetendo a um elemento anterior, não enunciado no texto, mas presente no espírito do leitor (GUIMARÃES, 2007, p. 51).

Ao mencionar ‘elemento anterior presente no espírito do leitor’, a supracitada autora refere-se ao conhecimento de mundo do leitor. Em outras palavras: é anafórico aquele título que não guarda elementos a serem encontrados em breve na leitura do texto, não remetendo diretamente ao conteúdo ao qual ele se refere, mas que é compreensível ao leitor, a partir de seu conhecimento de mundo, do seu background.

A escolha por um título construído mediante este recurso, a anáfora, pode representar uma ação articulada no intuito de programar a reação do leitor ao deparar- se com a manchete. Acreditamos tratar-se de uma forma de manejo desse leitor ao instigar-lhe o interesse em ler a reportagem que recebeu aquele título, remetendo ao que esse interlocutor já conhece, tendo já armazenado na memória.

Por outro lado, o título construído mediante a catáfora remete diretamente ao que será lido logo em seguida. É a construção mais corriqueira que encontramos, por isso, os exemplos são infinitos. O elemento catafórico pode ocorrer na forma de um substantivo, uma oração inteira, uma expressão ... não há um modelo rígido.

É importante ratificar o que se mencionou no subcapítulo referente aos títulos quando da explanação acerca da intrínseca relação do texto com eles: texto e título relacionam-se a tal ponto que mecanismos de coesão encontram-se justamente na base dessa relação.

Vejamos uma ocorrência de catáfora numa manchete:

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O texto relata: “O Supremo Tribunal Federal absolveu por cinco votos a três o ex-presidente Fernando Collor de Mello e seu tesoureiro de campanha eleitoral, Paulo César Farias, acusados por crime de corrupção passiva. Para a maioria dos ministros do STF não houve procedência na denúncia do procurador-geral da República, Aristides Junqueira, em função da inexistência de um ato administrativo de Collor, no exercício da Presidência – o ato de ofício –, vinculado a dinheiro arrecadado por PC Farias. A absolvição poderá bloquear novas denúncias contra Collor no STF. [...]”

Assim, quando a manchete revela que “Collor escapa por falta de provas”, não se tem a expectativa de que o leitor já tenha um conhecimento prévio do que se trata, de quais provas a manchete se refere e de quê Collor teria escapado, uma vez que tudo será relatado logo em seguida, de modo que, ao longo da leitura, o leitor terá retomado cada detalhe que a manchete, em sua construção catafórica, lançou.

Esse recurso da catáfora gera uma expectativa, pois é como se o jornal, o emissor, tivesse iniciado a informação, mas conduzisse o interlocutor a procurar o restante dela, levando-o à leitura do texto em seguida.

Não há uma competição entre os dois recursos – o da anáfora e o da catáfora. Ambos exercem suas funções específicas, gerando, no entanto, resultados semelhantes: convidam o interlocutor a conhecer o conteúdo ali disponível, manejam o leitor no sentido de aprofundarem a leitura, não se limitando ao título.

Benzer Belgeler