4. ARAŞTIRMA BULGULARI ve TARTIŞMA
4.10 Yaprak sıcaklığının saptanması ( O C)
4.18.1 Azot miktarı (%)
Fábio Moon e Gabriel Bá não são os narradores d’O Alienista em quadrinhos. Eles
ocupam, ao mesmo tempo, a instância ergo-textual de autor-escritor. Na instância de autor- indivíduo, eles tomam o dizer. Na instância de autor-escritor, eles trabalham o dizer. São responsáveis, como vimos, por uma série de recursos discursivos que criam a narrativa, que lhe dão forma, que lhe permitem proporcionar certos efeitos de sentido. E um desses recursos é a escolha de um tipo de narrador, seja essa uma escolha consciente ou não.
Nas obras literárias, as muitas tipologias de narradores43 já catalogados estão para o autor-escritor como uma gama de recursos de que ele fará uso para causar o efeito desejado no leitor. Um tipo de narrador se preza aos efeitos de tempo dentro da obra, ou seja, o tempo
ficcional.
42 Cf. Maingueneau (2006) sobre a cenografia de um gênero para ajudar a compreender a posição de leitura
instituída pela narrativa em quadrinhos.
43
As tipologias citadas aqui podem ser conferidas principalmente em Reis e Lopes (1988), D’Onofrio (1999), Genette (1972, 1983).
102
Na “ficção, deve-se distinguir entre a duração cronológica da leitura, a duração
cronológica do escrever, e a duração cronológica do tema do romance [ou da história em
quadrinhos]. Para o último, seria mais simples usar o termo ‘tempo ficcional’”.
(MENDILOW, 1972, p. 71, grifos nossos). Para Costa (2010):
O Tempo Ficcional [v. instância textual] é mais fácil de percepção do que o Tempo Enunciativo [v. instância ergo-textual] – aquele é construído na instância deste. Acerca de uma obra romanesca, o Tempo Ficcional é diferente do Tempo Real [v. instância situacional] e Enunciativo, pois ele todo é um enunciado, não uma
enunciação. (COSTA, 2010, p. 46).
Narradores-personagens precisarão narrar sempre o passado de sua enunciação, narradores-pressupostos-oniscientes poderão narrar o presente ou o futuro sem afetar a verossimilhança. Nos quadrinhos, apesar de carecermos de uma tipologia, notamos que os efeitos causados por um tipo ou outro de focalização são também determinantes do tempo ficcional. Sempre lembrando que o narrador em quadrinhos opera dois recursos para narrar uma história.
Para o narrador, quando situado apenas em seu próprio universo ficcional, sem considerar sua ancoragem ao ser autor-escritor, a narração é o seu ato de linguagem. Mesmo nas histórias em que o narrador demonstra ter consciência da materialidade da obra (como é o caso das obras de McCloud, uma de nossas bases teóricas, ou dos romances que tematizam a atividade de escrita), essa figura será um EUc dentro de seu universo, e os procedimentos de técnica narrativa utilizados (as digressões, as prolepses e analepses, a linguagem e a metalinguagem, dentre outros) passam a ser o seu modus operandi, a sua maneira de transmitir a palavra. Mas para o autor-escritor, o próprio narrador é linguagem, e, portanto, a escolha por algum tipo de narrador (narrador pressuposto, narrador-personagem, etc.) é um elemento determinante de seu discurso que culmina na obra narrativa. Para o autor-escritor, o narrador é a maneira através da qual ele falará. Ele é em si mesmo um procedimento
qualificado de técnica narrativa (NUNES, 1988), e ao mesmo tempo surge por meio desse
procedimento.
N’O Alienista machadiano, há passagens em que o narrador dialoga com o leitor, seu
narratário. Pela categorização literária usual, esse tipo de narrador pode ser um narrador- personagem, visto que:
(1) ele demonstra consciência da materialidade da narrativa: “Vinte e quatro horas depois dos sucessos narrados no capítulo anterior, o barbeiro saiu do palácio do governo...”
103 (ASSIS, 1977, p. 38, grifos nossos);
(2) faz uso de marcas dêiticas que evidenciam sua presença em uma versão fictícia do Rio
de Janeiro: “Foi ter com o marido, disse-lhe ‘que estava com desejos’, um
principalmente, o de vir ao Rio de Janeiro e comer tudo o que a ele lhe parecesse
adequado a certo fim.” (ASSIS, 1977, p. 11, grifos nossos);
(3) não esconde sua subjetividade: “O desfecho deste episódio da crônica itaguaiense é de tal ordem [...] que merecia nada menos de dez capítulos de exposição; mas contento-
me com um, que será o remate da narrativa...” (ASSIS, 1977, p. 50, grifos nossos).
Caracterizar os narradores machadianos é, por vezes, um desafio. Que narrador é esse que conta cenas tão íntimas e solitárias dos personagens, que se direciona ao leitor, que ainda evoca as crônicas de Itaguaí como fonte de seu relato, e tem consciência material da narração? De modo geral, alguns dos narradores machadianos lançam mão de recursos de onisciência e, concomitantemente, de recursos de primeira pessoa. Cabe uma observação sobre este último recurso antes de prosseguirmos: devemos atentar para o fato de que as marcas de primeira pessoa não se restringem ao uso de pronomes específicos.
O locutor se apropria do aparelho formal da língua e enuncia sua posição de locutor. Mas, logo que se declara locutor, assumindo a língua, ele implanta o seu alocutário, qualquer que seja o grau de presença deste. (BENVENISTE, 1989). Se a binomia EU-TU benvenisteana afirma que tomar a palavra por um ato individual (de se colocar como indivíduo) postula um interlocutor, logo, o contrário também é válido: as evocações de um leitor, o narratário, o TU, fazem sobressaltar a primeira pessoa do narrador: “Agora, se
imaginais que o alienista ficou radiante ao ver sair o último hóspede da Casa Verde, mostrais
com isso que ainda não conheceis o nosso homem.” (ASSIS, 1977, p. 53, grifos nossos). Talvez seja pela utilização de uma gama vasta de recursos que o narrador machadiano seja tão
enganoso, como lhe atribuiu Gledson (1991).
Prosseguindo, já n’O Alienista em quadrinhos há uma ilusão de objetividade
processada por um modelo de narração que parece criar um constante “estar aí” sem intervenção de uma voz (mas com a intervenção de um olhar). Pela categorização literária, esse narrador-pressuposto poderia (e apenas poderia) ser um narrador-câmera, portanto, um
narrador pressuposto. Mas daí, dessa categorização, decorreria uma série de inconsistências
que devemos evitar na análise da narrativa quadrinística: se há um narrador pressuposto nos quadrinhos, o tipo de pressuposição presente deve diferir muito da literária.
104 uma encenação em que são empregados recursos que lhes são próprios e que atendem às suas necessidades textuais na criação do universo diegético. Os procedimentos de configuração da
encenação narrativa “dizem respeito à identidade, ao estatuto e aos pontos de vista do narrador textual.” (CHARAUDEAU, 2008, p. 188). Esses procedimentos dão forma a uma
figura que fala no texto. São, portanto, antes de tudo, procedimentos qualificados de técnica narrativa que o autor-escritor emprega para instituir um tipo de narrador.
Ao contrário do que Charaudeau (2008) disse, os procedimentos de configuração da encenação narrativa só passam a depender da figura do narrador em seu universo diegético, ou seja, no tempo ficcional, como postulou Costa (2010). Antes disso, a configuração da encenação narrativa é uma responsabilidade daquele que escreve a obra narrativa, que, no ato de linguagem, sempre acabará por criar uma figura de narrador, seja essa criação consciente ou não. Uma vez instituído um tipo de narrador e as suas condições fictícias de narração,
constatamos que “a cena na qual o leitor vê atribuído a si um lugar é uma cena narrativa construída pelo texto, uma ‘cenografia’.” (MAINGUENEAU, 2006, p. 252). Essa cenografia
é um elemento de sentido da obra, e não sua condição meramente. Ela é criada pelo texto.
A cenografia d’O Alienista machadiano exige do leitor-real recuperar as competências
virtuais do leitor-possível (ou leitor-modelo) e instituir um narratário fictício que lê a história do alienista, transcrita por um narrador que se coloca claramente como escritor. Esse narrador que evoca as crônicas de Itaguaí não é, certamente, o Machado de Assis que conhecemos como escritor. Esse narrador é um ser fictício que escreve para um leitor fictício.
Isto tem por consequência que “reconhecer a fictivisation44 dos papéis de
comunicação do produtor e do receptor leva a não ter que referir os mundos textuais ao quadro de referência dos modelos de realidade válidos para o produtor real e o
receptor real, como é o caso da ‘comunicação não literária’”.45
(PEYTARD, 2007 [1983], web, tradução nossa).
O raciocínio se aplica também ao narrador d’O Alienista em quadrinhos, mas sua identidade, seu estatuto e seus pontos de vista são em tudo diferentes em relação ao narrador
machadiano. E o mesmo pode ser dito em relação ao seu narratário. Esse narrador em
44 Fictivisation: optamos por não traduzir essa expressão por não encontrarmos palavra em português que
expressasse melhor o que aparentemente ela significa: talvez algo como uma mise en scène (encenação) ou
fictionnalisation (ficcionalização). Mas, se com a possibilidade de uso desses termos em francês, o autor optou
por fictivisation, não seria prudente traduzir essa palavra por uma das expressões que citamos.
45
O texto original: Ce qui a pour conséquences que « reconnaître la fictivisation des rôles de communication du
producteur et du récepteur conduit à ne pas devoir réferer les mondes textuels au cadre de référence des modèles de réalité valides pour le producteur réel et le récepteur réel, comme c'est le cas dans la "communication non littéraire" ». Na edição impressa (de 1983) da revista Semen n. 1, o texto consta nas p. 14-
105 quadrinhos não se dirige ao leitor, como faz o narrador machadiano, e não se coloca como quadrinista. Dessa forma, a categorização de cada narrador seria distinta, como aludimos. No entanto, nenhuma das categorizações que citamos acima é satisfatória, e isso se deve ao fato de que os modelos disponíveis – que tentam categorizar objetivamente cada tipo de narrador – não dão conta também de narrativas como as machadianas.
Só sabemos que o narrador d’O Alienista evoca as “crônicas da vila de Itaguaí” para
contar sua história. A evocação das crônicas vem criar um efeito de verismo46 por parte do narrador, efeito esse em contraste com as inúmeras falas ao longo da narração marcadas por um conteúdo não acessível a um narrador intradiegético, que não pode saber tudo. O narrador
d’O Alienista parece ser extradiegético47
, tanto no conto quanto na graphic novel. Sua narração evidencia um saber ilimitado. Neste caso, como categorizar um narrador que sabe tudo, que sabe as nuanças sentimentais dos personagens, que tem noção de sua escrita (visível no caso do conto machadiano), e que se situa (ou tenta se situar) no universo narrado através de marcas dêiticas? A problemática se estende para além da história machadiana (transcrita ou não em quadrinhos), e vai alcançar as marcas formais do gênero. Em todo caso, a solução está longe de nossa alçada.