2.4 Azo Bileşiklerinin Bazı Özellikler
2.4.2 Azo-Hidrazon Tautomeris
Paralelamente ao envio de funcionários, ao estabelecimento de instituições político-administrativas nas colônias e às novas orientações da política indigenista, as Coroas ibéricas, por meio da aproximação com as ordens dominicanas e jesuítas, destacaram a importância da mediação missionária para o fortalecimento de sua política, particularmente na relação entre os colonos e os indígenas. Analisaremos neste item as aproximações e distanciamentos entre essa intenção régia e a perspectiva das políticas missionárias desenvolvidas pelos padres Bartolomeu de las Casas e Manuel da Nóbrega.
A dimensão política dos debates sobre o dominium dos indígenas foi particularmente importante entre as ordens missionárias que atuavam na América – principalmente entre os dominicanos e os jesuítas –, porque elas também dependiam da exploração da terra e do trabalho indígena e africano para a sustentação das missões.354
Essa condição exigia dos missionários e teólogos a diferenciação das relações de
dominium por eles estabelecidas com os indígenas daquelas estabelecidas pelos outros
agentes coloniais, justificando, por essa via, sua preeminência sobre os habitantes do Novo Mundo. Os padres Manuel da Nóbrega e Bartolomeu de las Casas representaram de forma exemplar esse desafio, e a observação de suas trajetórias permite ver as aproximações e distanciamentos entre a questão do dominium sobre os indígenas nas Índias Ocidentais e na América portuguesa.
Bartolomeu de las Casas chegou a América na condição de colono, tornando-se, por volta de 1510, um “clérigo encomendero”.355 As mudanças em seu posicionamento
diante da questão indígena se deram de acordo com os principais marcos do processo de colonização e com sua inserção política na América e nas Espanhas.
Seu primeiro projeto reformador foi delineado no “memorial de remedios para las Indias”, de 1516. Nesse documento, ele sugeria ao cardeal Cisneros a substituição das encomiendas privadas por encomiendas coletivas, o favorecimento à imigração de camponeses espanhóis e ao tráfico de escravos africanos. Definia, assim, uma divisão social tripartite das populações subalternas, que visava ao estabelecimento da autoridade
354 ZERON, Carlos A. de M. R. La Compagnie de Jésus et l’institution de l’esclavage au Brésil, op. cit., p. 207-208.
355 A expressão é de Fernando Ortíz, no prólogo a obra de HANKE, Lewis. Bartolomé de las Casas :
pensador político, historiador, antropólogo. La Habana: Sociedad Económica de Amigos del País, 1949,
p. X. Expressão semelhante, “clérigo-colono”, aparece em BATAILLON, Marcel. Estudios sobre
régia, como exigência das doações papais, e à restauração da aliança entre o poder temporal e o espiritual para a realização da colonização.356
Em uma Petição de 1518 dirigida a Carlos V, Las Casas sugere ao rei a seguinte solução para o estabelecimento e reconhecimento pacífico dos espanhóis em Terra Firme:
“hánles de decir, cómo es venido a España un rey y señor suyo nuevamente, qu’es V. A. (...) y que ha sabido los grandes agravios que han recebido y que se duele dellos y que le ha pesado mucho, y que les quiere hacer mercedes en servirse dellos como de vasallos”.357
Até 1542, Bartolomeu de las Casas parece entender o poder dos reis castelhanos sobre a América e os índios como um poder análogo ao que os reis tinham sobre seus reinos e súditos. Ele afirmava a legitimidade das doações alexandrinas como título de domínio sobre os índios – “concedidos y encomendados por Dios e por su Iglesia a los reyes de Castilla, para que se los regiessen e governassen, convertiessen e prosperasen temporal y espiritualmente”.358
O que estava em questão não era a legitimidade do domínio castelhano, mas a forma como se dava a colonização. Os conquistadores submetiam os indígenas pela lógica privada e senhorial, como tiranos, e ameaçavam a autoridade régia: “se pongan y reduzcan y encorporen en la Corona real de Castilla y León en cabeça de vuestra Magestad, como súbditos y vassallos que son”.359 A reafirmação da autoridade régia era
uma obrigação:
“por tanto los dichos señores reyes de Castilla no pueden abrir mano de la dicha real industria y cuidado y providencia, etc., cometiendo e traspassando a ningún particular jurisdición alguna alta ni baxa, como sus Altezas la tienen sobre aquellas naciones”.360
356 BATAILLON, Marcel; SAINT-LU, André. El padre Las Casas y la defensa de los indios. Barcelona: Editorial Ariel, 1976 [1971], p. 115 e ss.
357 Apud GARCIA-GALLO, Alfonso. Estudios de Historia del Derecho Indiano, op. cit., p. 434 e ss. 358 CASAS, Bartolomeu de las. Brevísima relación de la destrucción de las Índias. Alicante, Biblioteca Virtual Miguel de Cervantes, 2006 (ed. de José Miguel Martínez Torrejón). Disponível em: <URL: http://www.cervantesvirtual.com/FichaObra.html?Ref=12345&portal=244> Acesso em: 23 mar. 2010. 359 CASAS, Bartolomeu de las. Entre los remedios que don fray Bartholome de los Casas ... refirió por
mandado del Emperador ...en los ayuntamientos que mando hacer su magestad de perlados y letrados y personas grandes en Valladolid el año de mil a quinientos y quarenta y dos para reformación de los Indias... Sevilha: Casas de Jacome Cróberger, 1552. Apud GARCIA-GALLO, Alfonso. Estudios de Historia del Derecho Indiano, op. cit., p. 435.
A crítica de Las Casas está inserida na distinção entre o dominium rerum e o
dominium iurisdctionis e reforça a interpretação das bulas alexandrinas estabelecida por
Domingo de Soto e Francisco de Vitória. As doações papais em relação à América e aos índios referiam-se exclusivamente ao domínio de jurisdição e, assim como as doações régias, não implicavam em alienação desses poderes nem da liberdade e direitos dos indígenas. Novamente, a definição dos poderes papal e régio dependia do reconhecimento da liberdade jurídica dos indígenas e de seu estatuto político. No processo de conquista, os agentes ultramarinos subordinaram a população nativa na lógica do domínio privado. Essa apropriação indevida tinha duas consequências políticas graves:
1) Deslegitimava o título da doação papal (relacionada à cláusula da evangelização);
2) E implicava na alienação da soberania régia e do poder apostólico.
A partir de 1531, em carta endereçada ao Conselho de Índias, Las Casas começa a destacar a mediação apostólica como a única capaz de realizar uma colonização justa da América.361 Em 1535, definiu que a evangelização devia preceder a sujeição política
e, contemporaneamente às relecciones de Domingo de Soto e Francisco de Vitória e os documentos do papa Paulo III, iniciou uma nova etapa da política missionária em Guatemala (Vera Paz).362 Essas ideias, esboçadas desde o início da década de 1530 –
momento em que Las Casas atuava diretamente nas Índias –, tomaram forma definitiva no contexto de fortalecimento do pensamento dominicano e sua aproximação dos interesses papais, influenciando também representantes do poder régio. Além disso, a dramaticidade das experiências históricas vividas no Peru corria a Europa e dava argumentos aos críticos do poder imperial, do monopólio ibérico no ultramar e reforçavam a suspeição em relação ao papa e sua interferência nas questões temporais.
Las Casas passou a negar a legitimidade de qualquer guerra movida pela resistência à predicação, à perseguição de cristãos ou pelo sacrifício de inocentes. Reviu também a ideia de um domínio de jurisdição pleno dos reis castelhanos sobre a América e passou a falar em um “soberano e universal império”, como “imperadores sobre
361 “Carta al Consejo de Indias”, 20 de janeiro de 1531. In: BATAILLON, Marcel; SAINT-LU, André.
El padre Las Casas y la defensa de los indios, op. cit., p. 156 e ss.
muitos reis”.363 Na controvérsia com Juan Ginés de Sepúlveda, entre 1550-1551, Las
Casas revelou as últimas consequências dessa nova doutrina:
“Y en caso que después de cristianos no quisiessen el tal supremo señor recebir e obedecer (lo qual en los indios, mayormente los pueblos, no a lugar, porque de su naturaleza son mansísimos, humildes e obedientes), no se sigue por esso que se les puede hazer guerra (como el doctor Sepúlveda dize) mientras ellos permaneciessen en la Fée y en la observación de la Justicia. La razón es porque siempre se ha de tener respecto al fin e causa final por el qual el tal suppremo e universal señor se les pone, que es su bien e utilidad, y a que no se les convierta el tal supremo señorío en daño, pernicie y destruición. Porque si assí fuesse, no ay que dubdar, sino que desde entonces inclusivamente sería injusto, tiránico e iniquo el tal señorío.”364
Mesmo que a observância da lei natural pelos índios favorecesse o reconhecimento da autoridade régia, ela era secundária comparada à finalidade apostólica. O poder espiritual se tornava princípio de legitimidade (relacionado às doações papais), meio para a realização e finalidade da colonização, subordinando a autoridade régia. Como enunciou o cronista de Carlos V:“Apretaua Fray Bartolome de tal manera, que si se hiziera lo que el queria, no fuera España Señora de las Indias”.365
O pensamento de Las Casas atingiu sua radicalização máxima diante do plano de vendas de encomiendas perpétuas no Peru, projeto aprovado por uma junta em 1555 e aceito pelo recém-empossado Felipe II, em 1556. O projeto tinha sentido diametralmente oposto às Leis Novas e às posições jurídicas dos teólogos dominicanos, porque alienava as autoridades régia e apostólica por meio da venda dos súditos e fiéis americanos. (Voltaremos a esse ponto no próximo item). Essa radicalização se depreende, por exemplo, de uma carta escrita a Bartolomeu de Carranza Miranda, em 1555.
363 Essa nova doutrina está expressa em: CASAS, Bartolomeu de las. Aquí si co[n]tiene[n] treynta
propositiones muy juridicas: en las quales sumaria y succintamiente se toca[n] muchas cosas pertenecie[n]tes al derecho q[ue] la yglesia y los principes christianos tienen, o puede[n] tener sobre los infieles de qual quier especie que sean... Alicante: Biblioteca Virtual Miguel de Cervantes, 2008 (ed. fac-
símile da edição de Sevilha, casa de Sebastián Trugillo, 1552). Disponível em: <URL: http://www.cervantesvirtual.com/FichaObra.html?Ref=29816&portal=244>. Acesso em: 23 mar. 2010, ver proposições 17 e 18. Ver também Tratado comprobatorio del imperio soberano y principado
universal que los Reyes de Castilla y León tienen sobre las Índias. Cf. GARCIA-GALLO, Alfonso. Estudios de Historia del Derecho Indiano, op. cit., p. 435-438.
364 CASAS, Bartolomeu de las. Aquí si co[n]tiene[n] treynta propositiones muy juridicas…, op. cit. Apud GARCIA-GALLO, Alfonso. Estudios de Historia del Derecho Indiano, op. cit., p. 217-218. 365 SANDOVAL, Prudêncio de. Historia de la vida y hechos del emperador Carlos V, vol. 2, op. cit., p. 428.
“Al sexto presupuesto de vuestra Paternidad, que contiene que son los españoles por los indios y para su policía necesários, especialmente para la religión, digo (...) que para tener los indios enteros y restaurarse en sus humanas y temporales policías, no habia de quedar hombre español en las Indias (...). Cuanto a lo de la religión, también digo que, si fuera posible distinguir y apartar ésta, repugnar de términos de estar y no estar los españoles en Indias (estar para mantener la superioridad y señorío soberano en ellas de los Reyes de Castilla, y no estar por que no impidan y corrompan la Fée y religión de Christo con sus obras corruptísimas y exemplos mortíferos), echarlos todos de ella, si no fueran algunos escogidos para que rescibieran los indios la Fée y costumbres cristianas y se arraigan en ella, afirmo delante de Jesuchristo ser necesario, y que fuera la cosa mejor proveída que pensarse podía".366
Aqui, o elemento retórico do discurso de Las Casas define-se pela expressão “si fuera posible”, em que a restituição e o abandono das possessões ultramarinas são tópicas367, apresentadas toda vez em que há uma polarização entre projetos de domínio
antagônicos. Nesse caso, representada pela posição apostólica/papal, radicalizada por Las Casas, e pela posição senhorial/privada, naquele momento reconhecida como alternativa político-econômica pelo rei Felipe II através do projeto de encomiendas
perpetuas.
Bartolomeu de las Casas faz, na passagem acima, sua opção política, que coloca o poder apostólico acima da autoridade régia. O reconhecimento radical do direito de domínio dos indígenas sobre seus corpos, coisas e organização política não tem como finalidade o estabelecimento de senhorios indígenas independentes – pelo menos não foi essa a experiência estabelecida em Vera Paz ou em qualquer outra parte da América –, mas sua subordinação a plenitudo potestas do papa e de seus ministros. Mesmo quando seu pensamento atingiu a radicalidade apostólica, ele ainda afirmava o direito de domínio régio, distinguindo agora o ius ad Indias e o ius in Indiis.368
Las Casas, em vez de ser considerado o “protetor dos índios”, precisa ser entendido como defensor de um projeto específico de domínio espanhol sobre a
366 Apud GARCIA-GALLO, Alfonso. Estudios de Historia del Derecho Indiano, op. cit., p. 438. 367 Confirmada pelo fato de que não há nenhum registro histórico de restituição ou abandono, antes ou depois da evangelização ou “polícia” dos índios.
368 Segundo essa distinção, o ius ad Indias era garantido ao rei da Espanha por concessão do papa Alexandre VI, mas para que esse direito fosse operativo, era necessário transformá-lo em ius in Indiis, por meio do livre consentimento dos nativos. Nessa formulação, o dominium sobre os indígenas é o meio de realização do direito espanhol sobre a América e da autoridade régia. A condenação do processo de conquista, como injusta e tirânica, não significava que o rei tivesse que abandonar os territórios conquistados. Las Casas acaba ponderando que esse abandono prejudicaria os próprios índios e pioraria a situação das Índias Ocidentais. Estudo preliminar de Pedro Borges in: PEÑA, Juan de la. De bello contra
insulanos intervencion de España en America. Escuela Española de la Paz. Segunda Generación, 1560- 1585. Posición de la Corona. Vol. X. Madri: CSIC, 1982, p. 40-41.
América. As mudanças em seu posicionamento, teórico e prático, acompanham os diferentes momentos da colonização espanhola na América, das quais podemos destacar três momentos. Em primeiro lugar, o clérigo encomendero, que se converteu diante da violência da conquista, mas reconhecia a necessidade de sujeição e exploração dos indígenas. Em segundo lugar, a ideia de reforma das instituições de dominium sobre os indígenas, sua combinação com o tráfico de escravos africanos e o estabelecimento de um colonato europeu. Nesse momento, a estratégia de Las Casas enfatiza a aliança entre o poder temporal e o espiritual para conter os mecanismos de dominium e poder privado estabelecido pelos colonos. No terceiro momento de sua argumentação, depois de 1542, o domínio régio se transforma em meio para a realização de uma organização político- social mais perfeita, a república cristã. Ou seja, a partir do momento em que o pensamento escolástico, difundido pela Universidade de Salamanca, se torna hegemônico no ambiente doutrinal e nas esferas de governo, Las Casas adota, definitivamente, a perspectiva apostólica de seu pensamento político.369
É possível relacionar esses três momentos da política missionária de Bartolomeu de las Casas com a trajetória do padre Manuel da Nóbrega no Brasil.370 A diferença
fundamental refere-se ao primeiro momento, em que Las Casas esteve diretamente envolvido com o pioneirismo da colonização castelhana, participando, desde o começo, da contradição que envolvia o dominium sobre os indígenas. O padre Manuel da Nóbrega chegou ao Brasil no momento de intervenção régia e devia estabelecer um contraponto em relação às formas de sujeição dos indígenas estabelecidas pelos colonos. Esse fato permitiu construir uma ideia de virtude jesuíta amplificada pela cobiça dos colonos, opondo as formas de sujeição privada dos primeiros à tutela e à perspectiva apostólica da missão jesuíta.
Nos dois outros momentos, as posturas deles se aproximavam. Primeiramente, ao definir a separação entre os poderes temporal e espiritual, eles propunham uma aliança entre a Coroa e a Igreja para o restabelecimento da ordem colonial. Mas, em
369 Na década de 1550, como nos lembra Brufau Prats: “o horizonte doutrinal e o ambiente ideológico eram muito distintos dos que reinavam quando ele [Domingo de Soto] lecionou sua relección De
Dominio: as ideias vitorianas haviam encontrado eco não somente entre os teólogos da Universidade de
Salamanca, senão também em toda Espanha e mesmo na América, no ambiente universitário e nas esferas de governo”. BRUFAU PRATS, J. El pensamiento político de Domingo de Soto, op. cit., p.194.
370 Carlos Zeron identifica três momentos da missionação do padre Manuel da Nóbrega: a primeira, marcada pela oposição aos colonos e pelo otimismo da evangelização dos indígenas; um segundo momento, definido pela descrença com a missionação, que leva a ideia de sujeição militar dessas populações; e, uma última fase, caracterizada pela ideia de poder indireto e de tutela. ZERON, Carlos A. de M. R. La Compagnie de Jésus, op. cit., p. 44-171.
seguida, revelaram uma descrença em relação à capacidade da Coroa de fazer valer as autoridades política e religiosa sobre os interesses econômicos da colonização. Esse estado de coisas exigia a concentração do poder sobre os indígenas nas mãos dos religiosos e define um ponto de distanciamento em relação ao poder temporal.
É importante observar que os momentos do projeto missionário de Nóbrega se sucedem de forma muito mais rápida do que as mudanças na postura de Las Casas. A primeira postura do padre Manuel da Nóbrega define-se em suas primeiras cartas, escritas a partir de seu desembarque no Brasil. A segunda postura já pode ser identificada nas cartas de 1553, e seu posicionamento definitivo é construído a partir de 1555. Acompanhemos em mais detalhes essas mudanças.
Na carta de nove de agosto de 1549, o superior dos jesuítas no Brasil denuncia os assaltos e enganos praticados pelos cristãos para escravizar os indígenas: eles eram responsáveis pelo estado de guerra que havia naquela conquista – “os primeiros escândalos são por causa dos cristãos, e certo que, deixando os maus costumes que eram de seus avós, em muitas coisas fazem vantagem aos cristãos, porque melhor moralmente vivem e guardam melhor a lei da natureza”.371 Essa repreensão reforçava as
críticas contra a escravização indiscriminada dos indígenas presente no regimento de Tomé de Sousa.372
Para combater os excessos praticados pelos cristãos, Nóbrega pedia mais poderes para o papa e dirigia-se ao rei para que intercedesse contra essas ações dos moradores, propondo que os índios, escravizados injustamente, fossem restituídos às suas terras e se colocasse um padre da Companhia em suas aldeias, para sua educação.
A primeira visão de Nóbrega responsabilizava os maus cristãos e convocava a aliança entre o poder temporal e o poder espiritual para o estabelecimento do domínio colonial sobre a América – “debaixo da obediência de um pai que os reja [o rei], e de um Padre nosso que os doutrine”.373 O irmão Pero Correia pede ao padre Simão
Rodrigues que negocie com o rei os meios necessários para a ampliação da missionação e promete, em contrapartida, a sujeição dos índios e a garantia de que prestariam
371 “Carta do p. Manuel da Nóbrega ao p. Simão Rodrigues”. Bahia, 9 de agosto de 1549. In: idem, p. 122.
372 “Informação das terras do Brasil. Do p. Manuel da Nóbrega, aos padres e irmãos de Coimbra”. Bahia, agosto? de 1549. In: CPJB, vol. I, p. 148-150.
373 “Carta do p. Manuel da Nóbrega a D. João III rei de Portugal”. Bahia, princípios de julho de 1552. In: idem, p. 346-347.
serviços aos moradores.374 Daí que o trabalho do colégio jesuíta, como dizia o padre
João de Azpicuelta Navarro, não se restringia à educação e doutrinação das crianças, “mas también para paz y sossiego de la tierra y provecho de la república”.375
Nóbrega criticava o fato de o governador Tomé de Sousa se ausentar de Salvador e favorecer as guerras contra os indígenas, que aparecia como elemento de desestabilização social que impedia a missão religiosa. O superior dos jesuítas não se opunha à escravidão indígena, mas se mostrava preocupado pela guerra contra os índios aliados ou potencialmente aliados.
Nesse primeiro momento, o trabalho catequético se deu por meio das “missões volantes”: os missionários se dirigiam às aldeias indígenas, promovendo uma evangelização em massa, através do batismo e dos ensinamentos da doutrina cristã.376
Os índios eram descritos como o “papel em branco” ou como a “cera virgem”, em que