2.3 İkna Teorileri
2.3.2 Ayrıntılandırma Olasılığı Modeli
2.3.2.2 Ayrıntılandırma Olasılığı Modeli ile İlgili Literatür Taraması
A expressão “trabalho forçado ou obrigatório”, nos termos da Convenção nº 29 da OIT, de 1930, deve ser entendida como “todo trabalho ou serviço exigido de uma pessoa sob ameaça de sanção e para o qual ela não tiver se oferecido
espontaneamente”54 (art. 2º). A definição, conforme se extrai de simples leitura, é
de natureza ampla, o que permite abarcar grande diversidade de condutas. No entanto, a generalidade do conceito pode trazer implicações práticas negativas, na medida em que gera dificuldades quanto à sua aplicação aos casos concretos. O período que sucedeu a Segunda Guerra Mundial foi marcado pela utilização de formas de trabalho forçado, que se justificavam por elementos de natureza política e ideológica. Diante da proliferação do trabalho forçado e das
exceções admitidas pela Convenção nº 2955, a OIT elaborou, em 1957, outra
Convenção, a de nº 105, cuja finalidade expressa é promover a abolição do trabalho forçado e, portanto, veda sua utilização para quaisquer fins. Essa convenção inova em relação à Convenção nº 29 ao coibir expressamente a imposição de trabalho forçado como forma de promoção de desenvolvimento econômico, disciplinamento e educação política ou por motivo de discriminação
ou punição em virtude de participação em greves56.
Ao tratar da temática, necessário se faz mencionar a Declaração sobre os Princípios e Direitos Fundamentais no Trabalho da OIT, documento adotado pela 86ª Conferência Internacional do Trabalho em 1998. Entre suas previsões, destaca-se a de se atribuir a todos os países que tenham ingressado livremente na OIT o dever de concretização dos princípios e direitos fundamentais enunciados desde a sua fundação e que compõem o núcleo normativo constitucional por força da Declaração da Filadélfia de 1944, incorporada ao documento estruturante da Organização em 1946. Dessa forma, ainda que os
54 Convenção nº 29 da Organização Internacional do Trabalho sobre o Trabalho Forçado ou
Obrigatório.
55 Conforme disposto na segunda parte do art. 2º da Convenção nº 29: “2. A expressão ‘trabalho
forçado ou obrigatório’ não compreenderá, entretanto, para os fins desta Convenção: a) qualquer trabalho ou serviço exigido em virtude de leis do serviço militar obrigatório com referência a trabalhos de natureza puramente militar; b) qualquer trabalho ou serviço que faça parte das obrigações cívicas comuns de cidadãos de um país soberano, c) qualquer trabalho ou serviço exigido de uma pessoa em decorrência de condenação judiciária, contanto que o mesmo trabalho ou serviço seja executado sob fiscalização e o controle de uma autoridade pública e que a pessoa não seja contratada por particulares, por empresas ou associações, ou posta à sua disposição; d) qualquer trabalho ou serviço exigido em situações de emergência, ou seja, em caso de guerra ou de calamidade ou de ameaça de calamidade, como incêndio, inundação, fome, tremor de terra, doenças epidêmicas ou epizoóticas, invasões de animais, insetos ou de pragas vegetais, e em qualquer circunstância, em geral, que ponha em risco a vida ou o bem-estar de toda ou parte da população; e) pequenos serviços comunitários que, por serem executados por membros da comunidade, no seu interesse direto, podem ser, por isso, considerados como obrigações cívicas comuns de seus membros, desde que esses membros ou seus representantes diretos tenham o direito de ser consultados com referência à necessidade desses serviços”.
56 Convenção nº 105 da Organização Internacional do Trabalho sobre a Abolição do Trabalho
países não tenham ratificado as convenções e os tratados relativos aos princípios e direitos fundamentais, entre os quais se insere a “eliminação de todas as formas de trabalho forçado ou obrigatório”, têm a obrigação constitucional de os
observarem e implementarem57. Novais (2008, p. 115) comenta:
Nos termos da declaração da OIT sobre os princípios e direitos fundamentais no trabalho, todos os membros, ainda que não tenham ratificado as Convenções nº 29 e nº 105, têm o compromisso, derivado do fato de pertencer à Organização, de respeitar, promover e tornar realidade, de boa-fé e de conformidade com a Constituição, os princípios relativos aos direitos fundamentais, que são objeto dessas convenções. Isto significa a eliminação de todas as formas de trabalho forçado ou obrigatório.
Com base nos referidos instrumentos normativos, pode-se delinear uma estrutura mínima para a configuração do labor forçado: a exigência de trabalho executado sob ameaça de aplicação de penalidade ou com o não oferecimento espontâneo pelo trabalhador. Ainda com mais razão, situações que se manifestem ainda mais graves – hipóteses em que, por exemplo, a sanção deixa de configurar mera ameaça para se transformar em agressão física – também deverão indubitavelmente ser percebidas como hipóteses de trabalho forçado.
Vale tecer algumas considerações sobre esses elementos. Quanto à sanção punitiva, necessário explicitar, conforme salientado, que ela pode se dar apenas como ameaça ou se fazer concreta. Além disso, o objeto da ameaça não consiste necessariamente em coação de ordem física, podendo assumir também conotação moral e psicológica. A propósito, o emprego de fraude e outros ardis não são raros em situações de tráfico.
A respeito de circunstâncias de coação física, moral e psicológica, cita-se excerto descritivo proposto por Luís Antônio Camargo de Melo:
57 De acordo com o texto da Declaração, são os princípios relativos aos direitos fundamentais: “a)
a liberdade sindical e o reconhecimento efetivo do direito de negociação coletiva; b) a eliminação de todas as formas de trabalho forçado ou obrigatório; c) a abolição efetiva do trabalho infantil; e d) a eliminação da discriminação em matéria de emprego e ocupação” (OIT, 2005)
[A coação] Será moral quando o tomador dos serviços, valendo-se da pouca instrução e do elevado senso de honra pessoal dos trabalhadores, geralmente pessoas pobres e sem escolaridade, submete estes a elevadas dívidas, constituídas fraudulentamente com o fito de impossibilitar o desligamento do trabalhador. Será psicológica quando o trabalhador for ameaçado de sofrer violência, a fim de que permaneça trabalhando. Tais ameaças dirigem-se, normalmente, à integridade física do trabalhador, sendo comum, em algumas localidades, a utilização de empregados armados para exercerem esta coação. Ameaças de “surra” e de morte não são raras, estabelecendo-se um clima de terror entre os trabalhadores. A ameaça de abandono do trabalhador à sua própria sorte, em determinados casos, constitui-se em um poderoso instrumento de coação psicológica. Muitas vezes o local da prestação dos serviços é distante e inóspito, centenas de quilômetros da cidade ou do distrito mais próximo, sendo certo que diversos relatos dão conta de trabalhadores desaparecidos ao tentar fugir da exploração (MELO, 2003, p. 13).
A ausência do elemento “voluntariedade” na prestação do labor pode se dar desde o início, quando o trabalhador, de antemão, não deseja participar da relação de trabalho e, então, é coagido a fazê-lo. De outro modo, é possível que o indivíduo inicialmente concorde com a prestação laboral e, assim, a inicie de modo voluntário, mas, posteriormente, decida não mais fazer parte da relação de trabalho – por inúmeras razões, como o não oferecimento pelo empregador das condições combinadas – sem que tenha possibilidade efetiva de optar pela extinção do vínculo.
A inexistência de liberdade para encerrar a prestação laboral, por sua vez, pode se efetuar por meio da retenção de documentos, da manutenção de guarda armada e da situação de endividamento do obreiro, estratégica e irregularmente construída pelo patrão (já que são cobradas despesas com transporte, moradia, alimentação e vestuário em valores que superam em muito o valor de mercado), entre outras possibilidades.
Esses elementos caracterizadores do trabalho forçado são abordados e pormenorizados no QUADRO 1, elaborado pela OIT:
QUADRO 1 - Identificação do trabalho forçado na prática
Falta de consentimento
(natureza involuntária do trabalho (“itinerário” do trabalho forçado)
Ameaça de punição
(meio de manter alguém em regime de trabalho forçado)
Escravidão por nascimento ou por descendência de escravo/ servidão por dívida
Violência física contra o trabalhador ou sua família ou pessoas próximas
Rapto ou sequestro Violência sexual
Venda de pessoa a outra (Ameaça sobrenaturais de) represálias
Confinamento no local de trabalho- em
prisão ou em cárcere privado Prisão ou confinamento
Coação psicológica, isto é, ordem para trabalhar, apoiada em ameaça real de
punição ou desobediência Punições financeiras
Dívida induzida (por falsificação de contas, preços inflacionados, redução do valor de bens ou serviços produzidos, taxas de juros exorbitantes, etc.)
Denúncia a autoridades (polícia autoridades de imigração, etc.) e deportação
Engano ou falsas promessas sobre
tipos de condições de trabalho Demissão do emprego atual
Retenção ou não pagamento de
salários Exclusão de empregos futuros
Retenção de documentos de identidade
ou de pertences pessoais de valor Exclusão da comunidade e da vida social
Supressão de direitos ou privilégios Privação de alimento, habitação ou de outras necessidades
Mudança para condições de trabalho ainda piores
Perda de status social
Fonte: OIT (2005, p. 6).
A OIT, no relatório de 2001 sobre a implementação das convenções sobre trabalho forçado (Convenções nº 29 e 105), indica como formas tradicionais – mas ainda existentes – de trabalho forçado a escravidão e a servidão por dívida; como formas atuais, manifestações de trabalho forçado em conexão com o tráfico de seres humanos, entre outras. De fato, entre as manifestações de trabalho forçado consideradas principais pela Organização, tendo em vista a conjuntura atual, destacam-se a escravidão e os raptos, o trabalho forçado na agricultura e em regiões rurais remotas, o trabalho em servidão por dívida e o trabalho forçado no tráfico de pessoas (OIT, 2001).
A imprecisão conceitual é elemento marcante também nesse ponto. A legislação brasileira, notadamente o art. 149 do CPB, insere o trabalho forçado como uma espécie do gênero trabalho em condição análoga à de escravo. Por outro lado, a definição ampla trazida pela Convenção nº 29 pode servir de subsídio para entendimentos no sentido de inversão dessa relação, na medida em que o trabalho em condição análoga à de escravo seria percebido como uma espécie do gênero trabalho forçado. Parece ser nesse sentido que Miraglia (2011) chega a afirmar que a doutrina e a jurisprudência pátrias apresentam forte tendência a considerar o trabalho forçado como forma de redução do homem à condição análoga à de escravo. Há ainda uma terceira possibilidade de compreensão que identifica as expressões como sinônimas.
Segundo a OIT, para se configurar o trabalho forçado, é essencial a existência de restrição à liberdade, quer em contexto da liberdade de contratação (falta ou vício no consentimento), quer no âmbito da livre execução do contrato de trabalho (execução sob ameaça de punição). Por outro lado, o tipo penal brasileiro é mais abrangente, nem sempre a exigir a lesão ao bem da vida liberdade.
José Claudio Monteiro de Brito Filho (2004a; 2004b) avalia essa concepção de modo mais amplo, porquanto acredita, com o que se concorda neste estudo, que o trabalho forçado não viola tão somente a liberdade, mas também outros valores como a legalidade, a igualdade e a dignidade. Em suas palavras:
Observe-se que, não obstante a nota característica seja a liberdade, não se quer afirmar que somente o princípio da liberdade é ferido. O da legalidade também é, pois a manutenção forçada do trabalho opera contra normas legais expressas. O da igualdade da mesma forma, pois é dado tratamento diverso do concedido a outras pessoas. Por fim, o da dignidade da pessoa humana, de onde derivam todos os demais princípios, pois, ao se retirar o direito de escolha do trabalhador, e às vezes dar a ele o mesmo tratamento que se dá a outros seres e objetos, atenta-se contra sua dignidade, tanto no plano moral como no plano material (BRITO FILHO, 2004a, p. 12).
A privação de liberdade necessária à configuração do trabalho forçado, repise-se, pode se dar nos casos concretos de variadas formas, como a apreensão de documentos, o encaminhamento dos trabalhadores a locais geograficamente isolados e a manutenção de guarda armada para evitar fugas.
A propósito, a OIT, ao associar a noção de trabalho forçado à de ausência de liberdade, utiliza-se dessa peculiaridade para distingui-lo do trabalho degradante. Sendo assim, a Organização concebe que toda forma de trabalho forçado é degradante, mas que a recíproca nem sempre é verdadeira, pois situações de pagamento de baixos salários ou oferecimento de más condições de trabalho dissociadas da falta de liberdade não são suficientes para a configuração do trabalho forçado, apesar de serem bastantes para indicar a existência de trabalho degradante (OIT, 2011).
Corroborando esse entendimento:
Ao se falar em trabalho forçado, é preciso ter muito cuidado com a terminologia utilizada. É comum os meios de comunicação a ele se referirem como “escravidão moderna”, associando o conceito a condições abusivas de trabalho ou a salários muito baixos (OIT, 2001, p. 21).
A OIT ainda não aborda em documento multilateral a questão do tráfico de seres humanos de modo específico, mesmo em suas manifestações que se atrelam à exploração do labor humano. As considerações tecidas pela Organização a respeito do tráfico se deram inicialmente no bojo de análises sobre trabalho forçado. Com o passar dos anos alguns estudos e relatórios foram sendo desenvolvidos considerando essa temática.
A despeito do fato de indicar que, majoritariamente, o trabalho forçado
não está ligado ao tráfico58, a OIT optou, de início, por analisar o tráfico apenas na
perspectiva do trabalho forçado. O enfoque adotado pela Organização acabou acarretando certas dificuldades para a correta apreensão da noção de tráfico de seres humanos, atrelando-o exclusivamente a casos de exploração laboral ou, ainda, a casos de trabalho forçado (vale lembrar que, para a OIT, o trabalho forçado exige necessariamente a privação da liberdade).
Uma leitura superficial e desacompanhada de noções básicas e específicas acerca do tráfico pode dar margem à conclusão de que o tráfico de seres humanos é apenas uma espécie ou forma de manifestação do gênero
58 De acordo com o Relatório de 2005, a OIT esclarece que apenas 20% do trabalho forçado estão
atrelados ao tráfico de seres humanos (OIT, 2005). Contudo, é de se destacar que a interligação das temáticas não é de pouca relevância, pois no Relatório de 2009 o trabalho forçado realizado via tráfico de pessoas está inserido nas três principais formas de trabalho forçado atuais (OIT, 2009).
trabalho forçado, sem levar em consideração todas as suas outras manifestações, que podem até mesmo não estar vinculadas à exploração do trabalho da vítima. Necessário esclarecer que o tráfico de seres humanos contempla uma gama de manifestações e que, em alguns casos, afronta gravemente a noção de trabalho decente e, por essa razão, reclama uma abordagem específica da OIT. A própria OIT ressalta a importância de distinguir os trabalhadores forçados traficados dos não traficados. Parece que, no primeiro caso, cumulam-se duas violações e, assim, a situação se torna inevitavelmente mais grave.
• Restrição da liberdade de locomoção do trabalhador em razão da
contração de dívida perante empregador ou preposto – servidão por dívida A servidão por dívida representa espécie de trabalho forçado na qual a liberdade de locomoção do trabalhador é restringida por meio de coação moral e, por vezes, coação física, em razão de dívida contraída com o empregador ou com preposto seu. Trata-se de realidade ainda fortemente presente no Brasil, que, ao contrário do que muitos pensam, não se restringe ao meio rural e é responsável pela imposição a muitos indivíduos do dever de trabalho por prazo indeterminado a pretensos credores como forma de quitação de dívidas forjadas. Em alguns casos, as dívidas foram, inclusive, “contraídas” por parentes já falecidos, hipótese em que a dívida é transmitida ao longo de gerações.
O processo de colonização do Brasil não se deu tão somente por meio do tradicional escravismo imposto pela força e com base em critérios étnicos. Desde aquela época já eram concomitantemente utilizados mecanismos de trabalho forçado fundado em endividamento. Situações como essas se passaram no colonato implantado nas fazendas de café da região Sudeste, na morada empreendida nos engenhos de açúcar do Nordeste e no sistema de aviamento
adotado nos seringais da Amazônia59. A servidão por dívidas já assumiu e ainda
59 Acerca do colonato, da morada e do regime de aviamento, esclarece Esterci: “Tanto a morada
quanto o colonato tinham em comum o fato de o trabalhador morar e trabalhar dentro da propriedade do patrão (maître) e de ser constrangido a endividar-se com este de diversas formas. Garcia, no caso da morada, chama atenção para o fato de que a imobilização se produzia não só em virtude da dívida material, mas também em função de uma dívida moral, impagável, ritualmente construída no curso da relação. Tanto na morada quanto no colonato, estava envolvida a família do trabalhador através do compromisso contraído pelo pai. Como forma predominante de exploração, o colonato e a morada entraram em declínio nos anos 1950. Na extração da borracha, a imobilização através do sistema de aviamento, tal como vigente nas décadas anteriores, ainda prevalecia no final dos anos 1980. Grosso modo, pode-se dizer que o que aprisionava o
assume contornos peculiares conforme a época, a localidade e o segmento de atividade, porém carrega consigo sempre o elemento de aprisionamento moral do trabalhador por meio do endividamento.
A definição de servidão por dívidas foi delineada pela Convenção Suplementar sobre a Abolição da Escravatura, que data de 1956 (e que suplementa a Convenção sobre a Escravidão de 1926), nos seguintes termos:
A servidão por dívidas, isto é, o estado ou a condição resultante do fato de que um devedor se haja comprometido a fornecer, em garantia de uma dívida, seus serviços pessoais ou os de alguém sobre o qual tenha autoridade, se o valor desses serviços não for equitativamente avaliado no ato da liquidação da dívida ou se a duração desses serviços não for limitada nem sua natureza definida (OIT, 1926, s.p.).
De acordo com a definição trazida pelo texto convencional, a servidão por dívidas existe quando o valor do trabalho não é devidamente avaliado na ocasião da liquidação da dívida, o que acaba mantendo o trabalhador preso a ela. Ademais, a servidão se configura também quando o tempo de duração da prestação laboral não conta com limite ou natureza definidos, submetendo o trabalhador a um período de prestação laboral desproporcionalmente longo e a atividades de natureza diversificada, imprevisível e, em alguns casos, até mesmo incompatível com a avença realizada inicialmente ou com as forças do trabalhador.
O dispositivo convencional supramencionado traz nítida intenção de tutela da liberdade de trabalho e seu conteúdo pode ser sucinta e claramente compreendido como vedação à exploração do trabalho de outrem em quaisquer hipóteses nas quais “os termos precisos do pagamento não tenham sido especificados ou em que o trabalho feito por um devedor não seja remunerado da mesma maneira que o salário recebido por trabalho semelhante” (ANTI-SLAVERY INTERNATIONAL, 1999, p. 51).
É de fundamental relevância a análise da carga simbólica que traz a noção de endividamento. O discurso da dívida permite, a um só tempo, a dominação do trabalhador não era o vínculo com a terra, mas a dependência criada a partir do fornecimento por um patrão, que lhe comprava a borracha e outros produtos da floresta e lhe fornecia produtos que ele precisava e não produzia. No que tange à lógica da contabilidade, nada muito diferente do que se passa em outras situações – ela pendia para o lado do patrão de modo a reproduzir a dependência. Embora conhecidas e denunciadas, estas relações nunca chegaram a ser alvo de denúncias tão contundentes e com repercussões semelhantes àquelas às quais se assiste hoje” (ESTERCI, 1996, p. 126).
trabalhador, a eliminação da resistência e a exigência de um comportamento de lealdade em relação ao patrão. A lógica do aprisionamento moral se revela mais eficiente que o uso da força, que tende a perder seu potencial de submissão com o passar do tempo.
O trabalhador, em tais casos, passa a conceber com naturalidade a existência da dívida, ou seja, a razão de sua submissão e, assim, o fundamento da exploração do seu labor. É por essa razão que a existência da dívida não é comumente questionada, mas sim a arbitrariedade utilizada no cálculo das despesas e a falta de controle das contas. Trata-se de um discurso de apelo a valores pessoais, de modo a incutir e fomentar nos obreiros a lógica de reprovação do devedor. Nesses termos, o pagamento da dívida passa a ser aceito pelo trabalhador como requisito legítimo para que possa abandonar o trabalho.
A esse respeito, esclarece Esterci (1999, p. 102-103):
Instrumento de usurpação da liberdade dos trabalhadores, resultante e indicador da superexploração que lhes é imposta, a dívida está em muitos casos incorporada à percepção que os trabalhadores têm da relação com os patrões. Nesses casos, eles não questionam a ideia de