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Trabalhar com as diferenças na sala de aula sugere que os professores busquem melhor compreender como essas diferenças se constituem e o que elas podem proporcionar nesse ambiente de trabalho. A atenção às diferenças requer a construção de práticas que pressupõe a organização e a gestão da sala de aula sintonizadas para favorecer a aprendizagem efetiva de todos os alunos.

O direito à diferença é defendido por Sousa Santos (2001:10), quando afirma que as pessoas e os grupos sociais têm o direito a ser iguais quando a diferença os inferioriza, e o direito a ser diferentes quando a igualdade os descaracteriza. Segundo Candau (2002), não se deve contrapor igualdade à diferença. De fato, a igualdade não está oposta à diferença, e sim à desigualdade, e diferença não se opõe à igualdade e sim à padronização, à produção em série, à uniformidade, a sempre “o mesmo”, à “mesmice” (2002:128). A consciência dos efeitos sociais gerados pela desigualdade alimenta a luta de muitos educadores contra toda a forma de injustiças e discriminação presentes na sociedade atual, ampliando a luta por uma igualdade de direitos básicos para todos, inclusive pelo direito à educação. Garantir educação implica garantir acesso e permanência de todos os alunos na escola. A permanência do aluno na escola não é suficiente para garantir o acesso ao conhecimento, este deve ser assegurado pela oferta da escola de qualidade. A escola de qualidade passa essencialmente pela transformação das práticas educativas realizadas no seu interior, especialmente no chão da sala de aula.

Quando a premissa da diversidade é assumida e respeitada pelo professor, o ato pedagógico e o espaço da sala de aula passam a ser favoráveis à presença de cada aluno inclusive daqueles que apresentam algum tipo de deficiência.

A valorização dos alunos como sujeitos de aprendizagem oportuniza para que eles aprendam de forma independente, assumindo responsabilidades, desenvolvendo competências e habilidades. Durante muito tempo os alunos com dificuldade de aprendizagem, com deficiência ou aqueles que aprendem em ritmo diferente de aprendizagem, foram excluídos da escola. A escola, caracterizada por práticas excludentes, reflete concepções e preconceitos da sociedade que valoriza as pessoas e as atitudes que se

enquadram no padrão de normalidade. Desse modo, as pessoas com deficiência, na maioria das vezes, são tratadas como pessoas inferiores, incapazes, com limites de possibilidades de realização pessoal, educacional, profissional e afetiva.

As pessoas com deficiência e aquelas que se diferenciam ou utilizam recursos de aprendizagem diferentes dos convencionalmente conhecidos foram historicamente consideradas como problemáticas. A educação das pessoas com deficiência não foi historicamente assumida pelo poder público. O cuidado, a aceitação e a interação com essas pessoas eram (em um passado recente) atribuições exclusivas da família ou de instituições não governamentais, como hospitais, asilos, escolas especiais, dentre outras. As instituições assistencialistas aparecem como acolhedores de pessoas incapazes cujas atividades, na maioria das vezes, eram reduzidas aos atendimentos clínicos ou de terapia ocupacional, não oferecendo a elas possibilidade real de inserção na escola, no mercado de trabalho e na sociedade.

Hoje, o poder público reconhece o direito das pessoas com deficiência serem escolarizadas nos mesmos espaços educativos que seus pares sem deficiência. A nova política do Ministério de Educação e Cultura – (MEC-SEESP-2008) assegura a inclusão escolar dos alunos com deficiência, transtornos gerais de desenvolvimento e altas habilidades – superdotação. Entretanto, para que a inclusão como um direito do cidadão aconteça, é preciso que a sociedade valorize e promova a inserção social, política, cultural e, principalmente, educacional de todos.

Segundo Marques (1997:21), jamais haverá integração se a sociedade se sentir

no direito de escolher quais deficientes poderão ser integrados. Com essa visão, a sociedade limita as possibilidades das pessoas com deficiência, relacionando o que ela determina como normal, favorecendo o êxito apenas de pessoas que se aproximam desses padrões de normalidade. De acordo com Boneti,

o cidadão, para ser cidadão, precisa ser incluído no contexto social através de alguns direitos sociais básicos, como é o caso do trabalho, do saber escolarizado, do atendimento igualitário à saúde e educação etc. O não-atendimento a um desses direitos supõe implicações ao direito da cidadania, o que poderia significar um processo de exclusão (1999:25).

O processo de inclusão não é fácil. A inclusão, no sentido amplo, implica o respeito à diversidade e, para isto, é necessária a transformação dos nossos próprios valores.

Ou seja, para que possamos efetivamente pensar e fazer inclusão, é preciso que sejamos capazes de rever nossos valores, aprender a conviver com a diferença, refletir sobre o direito à igualdade de oportunidade e respeitar a diversidade.

Abrir espaços sociais para as diferenças significa oferecer lugar de interação para todos, favorecendo com isso a quebra de preconceitos, mudando o foco do olhar da deficiência para o sujeito. A presença de pessoas com deficiências em lugares públicos e em espaços coletivos de aprendizagem favorece a transformação desse olhar.

De acordo com Macedo,

O difícil, quando nos relacionamos com uma pessoa com deficiência, é a deficiência em nós, não nela. É claro que ela é deficiente e a deficiência dela está assumida em sua pele, em seu rosto, em sua cabeça. É claro que o deficiente é ela, mas é esse tipo de deficiente na relação que quero sublinhar aqui: o pior em uma deficiência é o gozo em uma superioridade sobre alguém, por alguma razão (...) (2005:27).

Os dispositivos legais4 favoráveis à inclusão não bastam, precisamos de fato assegurar o convívio social, vagas na escola e no mercado de trabalho dentre outras garantias. Para tornar a pessoa com deficiência sujeito de direito e deveres são necessários, além do respeito às peculiaridades de cada um, condições de participação efetiva na escola e na sociedade.

No que se refere à inclusão escolar, Figueiredo (2006:12) afirma que “a escola que inclui é a escola que acolhe e garante o espaço de aprendizagem e de crescimento para todos os alunos.” Incluir na escola regular todos os alunos significa reconhecer a heterogeneidade e a diferença como traços eminentemente humanos; logo, significa abrir o espaço escolar para as diferenças. Nesse caso, a luta pela inclusão não se limita apenas à luta pela inclusão dos alunos com deficiências, mas de todos os alunos. Segundo Figueiredo, é importante compreender que a escola, além de possibilitar a apropriação de valores e saberes socioculturais, é também o lugar que permite ao sujeito fazer um vínculo com a cultura e com o universo simbólico que rege as relações humanas (2006:10).

O trabalho com a diversidade, respeitando as relações humanas, pode contribuir para mudanças de conceitos e valores na escola e na sociedade. A abertura para a diversidade favorece aos alunos e professores a aquisição de habilidades de participação,

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O atual governo pretende, além de assegurar às crianças e aos jovens o direito à escolaridade, assegurar-lhes também o direito à permanência e, sobretudo, à aprendizagem em escolas públicas qualificadas.

colaboração, respeito e adaptação ao novo e ao diferente do seu conhecido.

O desafio da escola hoje é cumprir seus objetivos educacionais, quais sejam, incluir nas salas de aula todos os alunos considerando a organização da gestão e do trabalho pedagógico para a diversidade, especialmente no que concerne à gestão das práticas pedagógicas em sala de aula.

Segundo Macedo (2005), precisamos abraçar essa causa, a da inclusão, que é de todos. Precisamos estudar o que antes estávamos dispensados de estudar; aprender técnicas nas quais não precisávamos pensar; aprender a ver mais devagar, quando estávamos acostumados a ver com uma certa velocidade; aprender a ouvir sem a audição; acompanhar em ritmo mais rápido, quando estávamos acostumando a um ritmo mais lento. Enfim, necessitamos rever as nossas expectativas como professores, as nossas estratégias de avaliação, e desenvolver sensibilidade para enxergar a subjetividade e, principalmente, não deixar de exigir das autoridades responsáveis as condições adequadas ao atendimento de qualidade.

A inclusão representa uma evolução nos princípios e nos valores sociais. Para que essa evolução aconteça, devem-se priorizar as relações estabelecidas por todos que fazem a escola. Essas relações, por sua vez, favorecem significativos avanços no processo de desenvolvimento e de aprendizagem dos alunos, pois, apresentando eles deficiência ou não, todos se beneficiarão de uma convivência com a diversidade. Essa convivência representa também transformações positivas para todos os alunos e para a comunidade escolar, oportunizando a construção de novos conhecimentos, desenvolvendo uma aprendizagem cooperativa e participativa, com experiências desafiadoras, vivências afetivas experimentadas no respeito às diferenças, desafiando limitações no âmbito pessoal e acadêmico.

Segundo Arroyo apud Luft,

a escola somente se constituirá em fronteira avançada dos direitos, se ela, como instituição social, tiver coragem de se redefinir em sua estrutura rígida e seletiva, ser democrática não apenas em sua gestão, mas em seus processos, na organização de seus tempos e espaço. É preciso superar a cultura seletiva que ainda legitima essa estrutura excludente (1997:155).

De acordo com Boneti (1997), a educação de qualidade para todos implica, dentre outros fatores, um redimensionamento da escola no que consiste não somente à aceitação, mas também à valorização das diferenças. Mas, para que tudo isso ocorra com

sucesso, o professor deverá ser um educador comprometido com o processo de aprendizagem de seus alunos, mediando a interação entre os sujeitos, levando em conta as peculiaridades de cada um, e a constituição de seu grupo de classe.

A revisão da literatura relacionada à inclusão escolar, à educação e à diversidade nos permite afirmar que, a partir do momento em que a sociedade considerar todas as pessoas, cidadãos legítimos, com seus direitos garantidos, com justiça social, e que as diferenças singulares entre as pessoas sejam aceitas, pode-se assim observar a efetivação do processo de inclusão escolar.

Nesse sentido, desenvolvemos este estudo visando identificar e desenvolver práticas de leitura que permitam a aprendizagem de alunos com e sem deficiência no contexto da sala de aula, favorecendo a inclusão escolar. No capítulo seguinte, apresentaremos a metodologia que permitiu a realização deste estudo.