6. PİLOT BÖLGEDE ENERJİ TASARRUFU ÇALIŞMALAR
6.2. Aydınlatma Yükleri İle İlgili Öneriler ve Hesaplamalar
De forma semelhante à práxis também o conceito de gênero foi desenvolvido e construído sob condições históricas, sociais e de caráter transformador. A utilização da categoria gênero para análise é bem mais recente e como veremos a seguir, trata de atualizar toda a descrição do ser humano socialmente constituído, em oposição a conceitos anteriormente escritos e biologicamente limitados apenas a falar do sexo humano.
O termo gênero se refere aos aspectos psicológicos, antropológicos e sociais da masculinidade ou feminilidade. Mas, por ele se entende também uma codificação cultural e todas as convenções associadas sobre um ou outro sexo. Hoje em dia o termo sexo vem sendo utilizado para indicações de componentes biológicos e anatômicos dos homens e das mulheres. E gênero, categoria histórica de análise ainda é desconhecida de muita gente, como detectamos nas pesquisas de campo ao perguntarmos se as pessoas entrevistadas tinham ouvido alguma coisa sobre o conceito gênero.
Em seguida, caso soubessem algo sobre o assunto, questionamos o local aonde ouviram e o quê tinham escutado. As respostas não nos surpreenderam, pois já se esperava o resultado: 59,1%nunca tinham ouvido falar em pesquisa de gênero, sem considerar os resultados das respostas não aplicáveis (47%). Detectamos que fica mais fácil as pessoas entender o que é feminismo e machismo do que gênero82.
82 Zaira Ary, Masculino y femenino en el imaginario católico: de la Acción Católica a la Teología de la Liberación, Annablume Editora, São Paulo 2000 afirma que em países católicos como a Espanha, Itália, Portugal e em toda a América Latina, Machismo ou chauvinismo masculino ainda é a crença de que os homens são superiores às mulheres. A palavra "chauvinista" foi originalmente usada para descrever alguém fanaticamente leal ao seu país, mas a partir do movimento de libertação da mulher, nos anos 60, passou a ser usada para descrever os homens que mantém a crença na inferioridade da mulher, especialmente nos países de língua inglesa. No espaço lusófono, a expressão "chauvinista masculino" (ou, simplesmente, "chauvinista") também é utilizada, mas "machista" é muito mais comum. Os machistas são por vezes postos em oposição ao feminismo. No entanto, a crença oposta ao machismo é a da superioridade feminina e, embora alguns masculistas possam pensar que essa é a definição de feminismo, geralmente não se considera esta ideia correta. Alguns machistas tendem ainda a ofender-se por desigualdades de gênero favoráveis às mulheres. Na América Latina, há autores que identificam o machismo com a "outra face do marianismo".
Assim ficaram as respostas:
Tabela 18. Estatística descritiva das classes de resposta (n=83) da pergunta 19, parte 1:
Você já ouviu alguma coisa sobre Gênero ou análise de gênero? Aonde ouviu sobre isso? O que pensou? (Já ouviu?)
Respostas Freqüência % % Válida
Sim 11 13,3 25
Não 26 31,3 59,1
Sim, mas não me lembro ou
não sei o que é 7 8,4 15,9
NA – Não aplicável 39 47
As respostas mostram também que 91,6% das pessoas entrevistadas não responderam a segunda pergunta sobre o assunto, o que nos leva a perceber que nem todas as pessoas sabem os conceitos sobre gênero. As respostas mostram que gênero é uma palavra ainda não inserida no vocabulário ‘popular’, ficando mais restrita ao meio acadêmico.
Tabela 19. Estatística descritiva das classes de resposta (n=83) da pergunta 19, parte 2:
Você já ouviu alguma coisa sobre Gênero ou análise de gênero? Aonde ouviu sobre isso? O que pensou? (Onde ouviu?)
Respostas Frequência % % válida
Onde convivo 1 1,2 14,3
Reuniões 1 1,2 14,3
Na faculdade 3 3,6 42,9
Livros e internet 1 1,2 14,3
Nas aulas de religião 1 1,2 14,3
Não respondeu 76 91,6
O que vemos na tabela demonstra que o pensamento sobre o conceito gênero, portanto, ainda é muito limitado. Coerentemente com as perguntas anteriores, a resposta à terceira parte desta pergunta mostra uma não compreensão do termo (91,6%). Nem todas as pessoas conseguiram identificar gênero como categoria histórica de análise, e isso mostra que trata-se de um conceito que deveria ser mais estudado nos meios populares e religiosos. Com isso nota- se que ainda há muita incompreensão quanto a essa temática por ser discussão ainda restrita aos ambientes acadêmicos (3,6%), o que nem sempre favorece as políticas publicas e os movimentos populares. Vejamos as perguntas:
Tabela 20. Estatística descritiva das classes de resposta (n=83) da pergunta 19, parte 3:
Você já ouviu alguma coisa sobre Gênero ou análise de gênero? Aonde ouviu sobre isso? O que pensou? (O que pensou?)
Respostas Frequencia % % válida
Na capacidade de desenvolvimento de conhecimento 1 1,2 8,3 Que a questão de gênero é vista de forma exagerada 1 1,2 8,3 É algo que precisamos refletir melhor/estudar 4 4,8 33,3 Que existem diferenças entre homens e mulheres 2 2,4 16,7
Que é uma relação positiva 1 1,2 8,3
NA - Não aplicável 3 3,6 25
Não respondeu 71 85,5
Por isso quem pretende estudar as exclusões e discriminações nas estruturas das instituições religiosas deve aprender a codificar os sentidos das palavras que embasarão as análises, pois como o de gênero, neste caso, deve levar a pensar de maneira mais abrangente a possibilidade de reinterpretações ainda inexploradas. Assim, se fosse apenas pelo uso gramatical ou pela utilização proposta por dicionários tradicionais, poderia se afirmar que
gênero implica simplesmente em afirmar se uma pessoa é homem ou mulher e do qual não se
conhece seus sentimentos e suas histórias.
A utilização mais recente da análise de categoria de gênero segundo SCOTT83 parece que surgiu entre as feministas americanas que insistiam sobre o caráter fundamental das diversas distinções apresentadas sobre o sexo. O conceito rejeitava o determinismo biológico utilizado nos termos como “sexo”, e enfatizava o caráter relacional das definições normativas da feminilidade. As mulheres e os homens eram estudados e os conceitos definidos numa compreensão conjunta, jamais um separado do outro.
Assim, o objetivo dos estudos de NATALIE DAVIS foi o de interessar pela história de homens e mulheres, pelos grupos de pessoas que diferentemente viviam em períodos e sociedades diferentes, encontrando o sentido que ambos achavam para viver a ordem social e transformá-la. Além disso, gênero era um termo proposto por pesquisadoras que transformariam paradigmas e teorias nas disciplinas acadêmicas, pois refletir as mulheres na história é reviver as suas experiências subjetivas e aplica-las objetivamente com alargamentos numa nova história. Aqui as analogias são perfeitas entre ambas, pois elas reinterpretam o sentido e por meio de conscientização promovem uma nova história. Vemos que os autores e autoras não são unânimes nos conceitos quanto a gênero, mas grande parte de historiadores
sempre utilizou como oposição ao sexo ou ao corpo84. NICHOLSON85 afirma da seguinte
forma:
Gênero e sexo são, portanto, compreendidos como distintos (...) tem sido cada vez mais usado como referência a qualquer construção social que tenha a ver a distinção masculino/feminino, incluindo as construções que separam corpos. Esse último uso apareceu quando muitos perceberam que a sociedade forma não só a personalidade e o comportamento, mas também as maneiras como o corpo aparece(...).O corpo é sempre visto por meio de uma interpretação social. (NICHOLSON, 2005)
Já para SCOTT fica clara a definição de gênero sob a forma abrangente e distinta entre categorias. Para ela,
Gênero é a organização social da diferença sexual. Mas isso não significa que o gênero reflita ou produza diferenças físicas e naturais entre mulheres e homens: mais propriamente, o gênero é o conhecimento que estabelece significados para as diferenças corporais. (SCOTT, 2002)
Portanto, se gênero ganha suas definições a partir da junção de idéias importantes do pensamento ocidental moderno, pode-se afirmar que a base da identidade religiosa do cristianismo é formada por essas idéias. E essa noção histórica de gênero pode ajudar na epistemologia para algumas reflexões sobre as mulheres na práxis cristã, e por isso pesquisadoras feministas tomaram-na como parâmetro para análise hermenêutica em seus estudos. Sabe-se que houve muitas controvérsias sobre isso, entre os anos 60 e 70, pois o conceito de gênero foi muitas vezes utilizado para substituir a palavra sexo ou como também
sexo foi usado para dar noção de gênero.
Para nós, de qualquer forma, tanto a práxis como o gênero não se institucionaliza e a fundamentação se dá pela interpretação histórica que ganha caráter de atividade reflexiva e transformadora nas relações que de fato acontecem. Nessa busca de significados das relações subjetivas e objetivas acontece um exercício de poder por meio da subjetividade e da objetividade das especificidades funcionais de cada pessoa e entra aqui a reciprocidade, nos quais a práxis e o gênero de toda a pessoa humana interpretam a história de homens e mulheres. Para alguns autores, os fundamentos sobre gênero podem se dar a partir de vários tipos de abordagens, e todos eles são muito significativos para se elaborar reflexões sobre as atividades das mulheres. Eis brevemente algumas dessas abordagens86:
1.1.1 Cultural: significa identificar o ser homem e o ser mulher em nossa sociedade e o como
esse conceito se formou;
84 NICHOLSON, Linda. Interpretando o gênero. Estudos feministas. Ano 8. p 9. 85 Idem. Ibidem. in Interpretando o gênero. Estudos feministas. Ano 8. p 12
1.1.2 Pessoal: significa que a pessoa tem certa identidade de gênero e não outra que é
identificar quais são suas implicações na vida atual.
1.1.3 Científico: significa que a biologia aponta fatores genéticos, hereditários na formação
das pessoas, o que já pode ser questionado por cientistas por não trazerem definições sobre os trans-sexuais.
1.1.4 Psico-Social: Com a sociologia se vê a sociedade em geral ou a cultura como
responsável da formação numa determinada época, de determinados modelos de gênero. Na psicologia dá-se ênfase no ambiente familiar, nos grupos de convivência ou porque se formam diferentes identidades numa mesma cultura e nessas, se estabelecem diferentes relações de poder.
Uma observação atenta a textos teológicos das últimas décadas não deixa dúvidas que GEBARA87 é uma das correntes importantes do pensamento feminista e de gênero
contemporâneo na América Latina. Acontecimentos diferentes marcaram suas reflexões e revelam a sua preocupação diante do gênero e da “fenomenologia do mal” que acomete as mulheres.
Quando GEBARA se viu limitada diante de seus direitos e invadida por expressões históricas patriarcalistas, recorreu a pensadores clássicos, sobretudo filósofos, e fez observações atentas ao se apropriar de categorias que abarcam as condições vividas pelas mulheres na Igreja, ao que ela denominou de “fenomenologia do mal no feminino”88.
Assim, para pensar o gênero feminino na eclesiologia ela se apropria desse discurso filosófico e encara a existência concreta e particular das mulheres, especialmente as “más”, como cita.89 A fenomenologia não explicita fatos e coisas a partir de fora como o cartesianismo, mas tenta entendê-los a partir do seu interior, mesmo que nunca se chegue a ideias transparentes ou distintas. Por isso a análise de GEBARA sobre o mal das mulheres trata de responsabilidade de todas as pessoas e do íntimo da vivência das mulheres. Sob a perspectiva de gênero, esse mal é produzido pelo masculino ao feminino e interpelações são desenvolvidas com bases antropológicas e teológicas. Daí a importância para ela de conhecer-
87 IVONE GEBARA, doutora em filosofia pela PUC-SP e em Ciências Religiosas pela Universidade Católica de Louvain. Desde 1967 pertence à Congregação das Irmãs de Santo Agostinho. Exerce papéis diferentes e complementares no magistério teológico. A partir de 1973 lecionou no Instituto de Teologia de Recife (ITER) até que foi fechado; a partir de 1977 atuou no Departamento de Pesquisas e Assessoria (DEPA) numa equipe interdisciplinar, a pedido de D. Helder Câmara. Teóloga da Libertação, foi a primeira mulher a dar aulas de Teologia no ITER. Identificou-se mais tarde com o feminismo e, a pedido, ministra aulas em diversas universidades. Nascida em São Paulo, vive no Nordeste do Brasil.
88 Desenvolvido pela autora, a partir da história da filosofia e o desenvolvimento da teoria fenomenológica, de Edmund Husserl, Paul Ricoeur e outros.
se as experiências de ambos os sexos em seus contextos sociais e religiosos, com suas expectativas e realizações vividas no cotidiano.
Tanto para ela como para SCHUSSLER-FIORENZA a perspectiva de análise de
gênero revela que é preciso pensar o ser humano de forma social, plural, relacional e
dinâmica, indo além de uma simples oposição entre ambos, homens e mulheres. A mediação de gênero ultrapassa os modelos fixados pelas hierarquias e instituições, por exemplo, nos textos sagrados das religiões onde homem e mulher se opõem em dois modelos plurais e por vezes contraditórios.
Nessa perspectiva GEBARA passa a compreensão de que gênero e a teoria
fenomenologia do mal nos abre para uma compreensão da complexidade da construção de
modelos simbólicos das Sagradas Escrituras, legitimados pelas instituições. Esses paradigmas remetem a uma recodificação inspirada nos mecanismos sociais onde entra em jogo não apenas a liberdade, mas o poder entre as partes, homens e mulheres. Nesse jogo, pode-se constatar que a cultura, política, a economia e a religião constroem o gênero e vice-versa. Assim, para ela gênero (gender) fica sendo um instrumento hermenêutico que orienta homens e mulheres para além do sexismo90. Onde o feminino e o masculino têm a ver com relações que não são apenas de poder exercidas em propriedades privadas, mas trata-se de caráter biológico que quando ganha a dimensão pública estabelece noção relacional, de poder recíproco, seja de liberdade ou condenação, de inclusão ou exclusão, de maioria ou minoria.
Para GEBARA é no próprio interior da particularidade feminina inserida nessa estrutura global que está a vivência da sua liberdade, que de certa forma não pode ser vivida plenamente, ou seja, há produções de injustiças nesses sistemas que só as mulheres vivem, porque fazem a experiência desde o nascer. Isso não acontece com os homens que segundo ela, possui também um mal masculino, mas que é um fazer e que pode ser desfeito a qualquer hora.
Por isso, para ela os movimentos feministas conseguem questionar leis e costumes, introduzindo novas legislações e novas formas de linguagem e símbolos, assim como tentam abrir novas referências teóricas e práticas91. Suas reflexões trazem novidades para os
90 O sexismo é a discriminação ou tratamento indigno a um determinado gênero, ou ainda a determinada identidade sexual,e orientação sexual. Existem diferentes formas de exercício do sexismo, o heterossexismo e o homossexismo. Para a psicologia, o sexismo é um ideário,construído social, cultural e político onde um gênero, orientação sexual tenta se sobrepor ao outro. Existem assunções diferentes sobre as quais se assenta o sexismo: Um gênero é superior a outro; uma orientação sexual é superior a outra; Mulher e homem são profundamente diferentes (mesmo além de diferenças biológicas), e essas diferenças devem se refletir em aspectos sociais como o direito e a linguagem. Em relação ao preconceito contra mulheres, diferencia-se do machismo por ser mais consciente e pretensamente racionalizado, ao passo que o machismo é um muitas vezes um comportamento de imitação social. Nesse caso o sexismo muitas vezes está ligado à misoginia (ódio às mulheres). 91 SOTER (Org). Gênero e Teologia. Interpelações e perspectivas. p. 153
conceitos de gênero e práxis religiosa das mulheres, pois mesmo que ainda não tinham sido assimiladas e aceitas por teólogos latino-americanos de nosso tempo, fazem repensar conceitos tradicionais gerados pela teologia e filosofia masculinas.
Para tanto, deve-se conseguir-se estabelecer novos diálogos entre conceitos filosóficos e os das ciências sociais e humanas a fim de que se possam articular análises e abordagens relativas às questões de gênero92 nas Igrejas. Essa junção também se torna necessária para que encontremos as reais condições das mulheres que foram construídas pelas más influências estabelecidas por fundamentos teológicos vividos nas relações de poder excludentes. Assim, MOORE (2000) afirma:
a identidade de gênero é construída e vivida. Uma observação fácil de fazer, mas muito difícil de desenvolver analiticamente; e sobre a qual é também muito difícil de saber como agir politicamente. A questão, é claro, se põe na relação entre estrutura e práxis, entre o indivíduo e o social. Boa parte de toda a teoria social contemporânea se volta para essa questão.93
Ao dizer isso, ela aponta aos limites em que estamos expostos na nossa condição humana, quer sejamos homens ou mulheres, e daí aos limites de nosso gênero em meio ao nosso contexto de Igreja Católica.