V. ANONİM ŞİRKETLERDE GENEL KURUL VE GENEL KURUL
1. Anonim Şirketlerin Zorunlu Organları
Das 10 justificativas explicitamente apresentadas pelo EIA/RIMA, pelo menos 5 são diretamente ligadas ao desenvolvimento do turismo, tanto o dos municípios próximos à capital, como obviamente também, o da própria região da Sabiaguaba e Fortaleza, o que traria crescimento econômico para o bairro.
Quanto a isso, pelas características diferenciadas desse bairro em relação ao restante da cidade, dos pontos de vista ambiental e social, é importante ser questionado qual o tipo de turismo pretendido com essa obra e o seu consequente desenvolvimento (muitas vezes confundido com crescimento) econômico.
Turismo no Ceará: o turismo de massa e alto padrão
No Ceará, onde a formação e ocupação das cidades aconteceram do sertão em direção às áreas litorâneas, o turismo e o lazer relacionam-se, a partir da década de 1980, “ao desenvolvimento das atividades produtivas do litoral, delineadas pelo capital” (CORIOLANO; VASCONCELOS, 2007, p. 57). A partir daí, o turismo passa a ser tratado pelo Estado “como vetor estratégico de sua política de planejamento regional” (MONTENEGRO JÚNIOR, 2004, p. 32). É no início desse período que surgem, segundo Lima (2002, p. 60), “os grileiros e especuladores imobiliários nas praias; casas de nativos, que foram e ainda são compradas e, em seguida, transformadas em segundas-residências”.
No início da década de 1990, ocorre então um “processo de urbanização (turística) e ‘incorporação produtiva’ do litoral cearense à economia nacional e internacional” (LIMA, 2002, p. 60). Isso ocorre, pois, conforme Sousa (2005) o
Governo do Estado, dando continuidade, reorganizando e ampliando a política de turismo, passa a ter como uma missão transformar o Ceará em um destino turístico consolidado, através de uma forte publicidade, implantação de infra-estrutura, qualificação de mão-de-obra e captação de investimentos.
Para isto, concorreu a criação do novo imaginário cearense, diferente do existente até então. O sol, antes das inclementes secas que causavam sérios transtornos à população, passa a ser o sol do verão que não tem fim nas praias cearenses, o sol da “Terra da Luz”. Com efeito, esta nova “metáfora do sol” alcançou êxito e colocou Fortaleza, associada a um turismo de “sol e mar”, como uma das cidades mais visitadas no Brasil. O sucesso da mudança de paradigma, criada em relação ao sol, e as conseqüências advindas para o incremento do número de turistas promovidas pelo Governo, são bastante associados à imagem desta administração e ao seu “marketing” (...). (SOUSA, 2005, p. 37)
Assim, desde essa época, cresce cada vez mais em nosso estado e torna-se objeto de políticas e obras governamentais e privadas o turismo de massa ou de alto
padrão. O Ceará segue dessa forma o exemplo dos países do Caribe e do
Mediterrâneo, onde em algumas regiões do litoral o nível de urbanização chegou a 95% (MUÑOZ, 1994, apud CORIOLANO; VASCONCELOS, 2007, p. 31). Esses espaços são transformados por essa espécie de turismo em espetáculos, trabalhando a realidade pela fantasia e projeção de imagens que idealizam um lugar desejável (DEBORD, 1997).
Para a realização desse espetáculo, através do progresso tecnológico que remodela os espaços naturais, esse tipo de turismo de massa associado às águas produz um fenômeno conhecido com water fronts, que são “porções de terras valorizadas por suas localizações em acidentes geográficos que margeiam oceanos, mares e rios, como baías, enseadas, cachoeiras ou outro fenômeno qualquer”, que através de “investimento fixo em infra-estrutura, (...) passa a servir ao lazer e ao turismo” (CORIOLANO; VASCONCELOS, 2007, p. 23).
O Parque Aquático Beach Park, citado explicitamente pelo Estudo e Relatório de Impacto Ambiental da ponte sobre o rio Cocó, é um exemplo de water
front em nosso estado – provavelmente o principal e mais conhecido nacionalmente e internacionalmente. Outros exemplos, também no município de Aquiraz e com investimentos estrangeiros, são o Aquaville Resort CE, que fica a poucos metros daquele parque aquático; e o Aquiraz Riviera (ainda em fase de construção, mas com hotel internacional já em funcionamento), que propaga, em sua publicidade, a
construção do primeiro campo de golfe do Ceará – estabilizando com gramados os campos de dunas.
Confirmando isso, escreve Coriolano (2007, p. 24) que
os portos, os parques aquáticos, resorts, são belos water fronts em muitos países. Os promotores se definem por produzirem ícones de beleza, renovação e modernidade, veiculados por discursos promocionais que justificam os recursos públicos imobilizados pelo suposto de serem alavancadores de desenvolvimento.
Realmente, com a implantação desse turismo, há por algum período, um aumento da renda circulante na região, sendo a esse fato econômico ligados os impactos considerados positivos. Na prática, porém, “o discurso de que todos ganham com o turismo é superficial, pois mascara contradições e as diversas formas de exploração do trabalho” (CORIOLANO, 2007, p. 50). Há reconhecidamente vários impactos negativos, que chegam a ser em maior número e, frequentemente, em maior intensidade.
Montenegro Júnior (2004, p. 80) elenca vários desses impactos:
Estes impactos podem ser positivamente expressos e avaliados mediante quatro manifestações sobre os agregados econômicos:
- aumento de renda do lugar visitado, pela entrada líquida das divisas; - estímulo aos investimentos e à geração de empregos;
- expansão da massa de salários na economia local e transferência de riquezas; e
- aumento das receitas governamentais, pelos impostos gerados no setor. Outros impactos podem ter efeitos negativos, como:
- pressão inflacionária ocasionada pelo aumento da procura;
- especulação imobiliária, em razão do aumento do valor da terra, motivado pela pressão de novas demandas;
- dependência da economia, em virtude do caráter sazonal das estações turísticas;
- questões socioculturais e ambientais que emergem da falta de controle efetivo sobre o processo, produzindo controvérsias e conflitos;
- exploração dos recursos naturais com tendência à degradação, em consequência da falta de instrumentos efetivos de controle sobre o espaço. - descaracterização e homogeneização de culturas tradicionais locais, que são alvos dos efeitos modernizantes do turismo de massa.
- mudanças dos costumes e da moral tradicional do local, levando à mercantilização do prazer e do lazer proporcionando práticas de prostituição; e
- risco de colonialismo cultural pela valorização do que é de fora.
Caracristi (CORIOLANO, 1998, p. 408) aponta a especulação imobiliária, o aumento do custo de vida, a degradação do patrimônio natural e cultural como os principais problemas gerados por esse turismo e seus water fronts. A autora escreve que pelos impactos negativos existe uma aparente contradição nesse turismo, pois essa degradação recai (in)justamente sobre aquilo que deveria ser o principal foco de desejo do turista: a cultura e o ambiente. Se esses dois forem degradados, acaba a fonte e a atração da renda. Acontece, porém que “a lógica desse tipo de turismo é a do ‘grande lucro, com pequenos gastos e a curto prazo: Esgotou o local, parte-se para outro’” (CORIOLANO, 1998, p. 408).
Os efeitos desse esgotamento já são bastante perceptíveis em várias praias do Ceará, inclusive nas que são citadas como área de influência indireta da construção da ponte da Sabiaguaba.
Na praia do Cumbuco, por exemplo, a interrupção do fluxo sedimentar que alimenta com areia a zona de praia – provocada pela fixação de dunas, consequência da construção de empreendimentos e casas de veraneio – aumentou o processo de erosão pelas ondas, havendo um avanço do mar, que já causa estragos à infra-estrutura à beira-mar e ameaça derrubar empreendimentos e casas. A prefeitura do município, na tentativa de conter o poder do mar, constrói espigões e põe várias pedras, que, além de retirarem a beleza natural do local, dificultam e até tornam perigoso o acesso à praia. Assim, o turismo, outrora bastante promissor, entrou em declínio, com restaurantes e pousadas fechando e casas sendo vendidas por preço bastante inferior ao de compra ou mesmo sendo abandonadas.
Esse é apenas um exemplo. Tal como já vem ocorrendo em várias praias do Mediterrâneo5, esses problemas assolam vários outros municípios cearenses, onde o mar, segundo Meireles (apud O POVO, 2011b), tem avançado entre 150 e 130 metros desde a década de 1990, tendendo agravar a situação ainda pelos próximos
5 Um dos exemplos mais claros da degradação provocada por turismo de massa é o caso da Costa Del Sol na Espanha. Desde a década de 1950, essa praia produz um turismo de massa que gera na atualidade diversos problemas socioambientais. Dentre 133 destinos, por duas vezes, foi a pior avaliada em sustentabilidade pelo Centro Para Destinos Sustentáveis (Center for Sustainables Destinations) da National Geographic Society, que a apelidou de “Costa del Concreto”, apontando-a como “um exemplo clássico da loucura do turismo de massa, com altos hotéis, praias abarrotadas, escassez de água, poluição e indiferença para com a cultura local” (NATIONAL GEOGRAPHIC TRAVELER, 2009, p. 70) (tradução minha).
30 anos. Municípios como Cascavel e Icapuí decretaram, há poucos meses, estado de emergência, requisitando milhões de reais ao Governo Federal para obras de contenção nas praias. Com relação a Fortaleza, estima-se, segundo recente pesquisa realizada por técnicos da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, um prejuízo de R$ 12,1 bilhões até 2050 apenas em patrimônio urbano, sem incluir as perdas de ambientes naturais (O POVO, 2011c).
Com essas informações, nota-se que esse é um turismo que ao invés de integrar-se ao espaço; tenta dominá-lo.