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D. Avrupa Birliği Ulaştırma Politikasının İşlevselcilik ve Yeni

IV. AVRUPA BİRLİĞİ ULAŞTIRMA POLİTİKASI MEVZUATI VE

As relações sociais são importantes para que o ser humano consiga de desenvolver satisfatoriamente (CASTANHEIRA, 2014). As amizades são significativas para a construção da personalidade dos sujeitos. Em algumas falas, pode-se constatar que o relacionamento com os colegas da escola comum é marcado por momentos de exclusão e preconceito. Além disso, em algumas narrativas foi possível perceber dificuldades nas relações interpessoais. Por outro lado, também evidenciamos relatos em que as amizades foram tratadas e vivenciadas através do companheirismo e respeito.

- Aqui às vezes, é, tem vezes que a gente briga (...) tem vezes que eu vou pra Diretoria. A questão é assim, você pode falar de mim o que quiser, mas se falar da minha mãe é briga na certa. Xingam minha mãe, as pessoas de uma sala aqui. Eles não são meus amigos. Eu fui pra Diretoria nove vezes. Foi sem querer eu quebrei o maxilar do garoto.

- Foi sem querer?

- Não, foi querendo; porque ele xingou a minha família. A Direção resolveu (...). - Na minha sala eu tenho amigos... praticamente a sala inteira, tenho colegas...amiga só tem só dois... seu pai e sua mãe, o resto é colega. Porque amigo é aquele que sempre to teu lado. Agora, colega, tipo isso... ele brinca com você, mas quando você precisa dele, ele nem dá confiança pra você. Aí tem diferença de amigo e colega. Ninguém aqui na escola é meu amigo, só colega.

- (...)Eu converso com meus amigos pelo facebook

- Eu já encontrei os meus amigos, lá em Copacabana. Tipo, um encontro (encontros promovidos pela a igreja), mas só que foi na praia. Só os colegas... A gente ficou lá até 7 horas da noite. Foi legal.

- (...) eles implicam comigo (está se referindo aos colegas da escola), eles ficam xingando... eu nem sei o motivo ... não posso falar do que eles xingam, eu sou cristão não posso falar. (Emanuel, 18 anos, 8° ano do ensino fundamental).

(...) outros estudantes lá, são meus amigos. - Eles vão para a aula de noite?

- Vão, todos eles. Eu encontro com eles aqui. -(...) Eu gosto de ficar na rua.

-Com quem? -Eu fico sozinho.

- (...) Gosto de olhar no facebook - O que você faz no facebook? - Só olho.

- Conversa com alguém?

- Não só olho. (Marcos, 17 anos, 8° ano do ensino fundamental).

- Lá (está se referindo a lugares perto da sua casa) eu faço muitas coisas. Mas não conheço muita gente lá não.

- Em que lugares você conhece mais gente?

- Aqui no CIAD, eu tenho a professora e coleguinhas. - E você encontra esses amigos fora daqui?

- Não, até que eu queria né, mas só quando ela (a professora) programa uma atividade pra gente sair daqui, pra ir visitar outros lugares. (Iris, 46 anos, 9º ano do ensino fundamental).

Pelo relato, nota-se que Emanuel possui bastante dificuldade em relacionar-se com colegas do ambiente escolar. Dentro de qualquer grupo social, as relações estabelecidas nem sempre podem ser amistosas. O estudo de Glat (2009) revelou que muitos relacionamentos narrados pelas mulheres com deficiência intelectual que entrevistou eram marcados por dificuldades, agressões verbais e até físicas. Como é o caso de Emanuel que chegou a brigar fisicamente com seus colegas da escola. Contudo, em outro ambiente, como a igreja essas situações não aconteceram. Isso nos mostra que as características de uma relação social não dependem exclusivamente dos sujeitos envolvidos, o ambiente em que estas relações acontecem também podem influenciar. Nessa linha, acreditamos que essa dificuldade sentida por Emanuel poderia ser vivida por qualquer outro adolescente em ambientes escolares.

Quantos casos de brigas não são evidenciados na escola sem que, necessariamente, essas pessoas tenham alguma deficiência. Ou seja, o ambiente é um fator de grande influência sob as relações.

Outro aspecto que chamou a atenção na fala de Emanuel é quando ele afirma que amigos são seu pai e sua mãe, e que na escola ele só tem colegas. Sabemos que pessoas na faixa etária de Emanuel, 18 anos, estão em uma fase da vida de muitas descobertas, e que a independência passa ser vivida na escolha das amizades, nos passeios do final de semana e até na escolha de uma profissão. De certa maneira, as pessoas fora do âmbito familiar começam a ter um lugar privilegiado como forma de autonomia. Essas questões não parecem ser uma realidade para Emanuel, já que ele não identifica os colegas da escola como sendo seus amigos. Seus pais parecem ser as únicas pessoas em que ele confia. Castanheira (2012, p. 84) comenta que

No caso dos alunos que estão incluídos em escolas regulares, esse círculo se amplia, pois há o convívio com outros estudantes que não apresentam nenhuma deficiência. Porém o fato de estar junto por si só não garante que o contato possa se tornar uma relação de troca e confiança.

Marcos afirma ter amigos na escola, contudo não há indícios que ele os encontre fora dela. Já que em outros ambientes, como em sua casa e na rua, ele costuma ficar sozinho. Até mesmo quando ele comenta ficar no facebook, que é um espaço virtual possível para amizades, ele não conversa com ninguém. A era digital é uma realidade vivida por todos nós. De certa maneira, a disseminação da internet permitiu novas possibilidades de relacionamento e acesso as informações. Essa liberdade pode significar para pessoas com deficiência um elo de comunicação e uma forma de inclusão social, principalmente nos casos em que os pais não permitem que seus filhos saem sozinhos, dificultando assim, seus relacionamentos (SANTAROSA, 2002; CASTANHEIRA, 2012). No caso de Marcos isso não parece acontecer. Ao mesmo tempo que ele diz ter amigos na escola, ele não nos contou nenhuma relação ou atividade realizada com esses amigos. Nos parece que Marcos é muito solitário.

Ao contrário de Marcos, Emanuel nos contou conversar com os seus amigos pelo o

facebook. Para ele essa ferramenta se tornou um espaço de socialização. Iris, por sua vez, não

encontra seus amigos fora do CIAD, mesmo querendo que esses encontros aconteçam. Essas narrativas nos mostram como as relações de pessoas com deficiência podem ficar restritas a família ou as instituições (escola, igreja, centros de esportes) que eles frequentam.

Como discutido nos capítulos anteriores, a pessoa com deficiência leva consigo a marca do estigma (GLAT, 2006; GOFFMAN, 2013; REDIG, 2016). Assim, pessoas que são consideradas “ anormais” (que possuem alguma característica que as diferencie do resto do grupo em que fazem parte) são rejeitadas e marginalizadas do convívio social (GLAT, 2009). Antunes (2012), entrevistando alunos com deficiência intelectual incluídos em turmas comuns, verificou, entre outros aspectos, que eles acabam não sendo escolhidos ou deixados como última opção. Vale ressaltar que essa condição não é exclusividade desse grupo específico, já que muitas pessoas podem ser tímidas e terem dificuldades em relacionar-se, todavia, em pessoas com deficiência, a exclusão fica mais evidente em função do estigma que lhes é atribuído (ANTUNES, 2012).

Nas falas de Maria e Camila as marcas do estigma ficam evidentes na medida em que elas são excluídas e afetadas pelo o preconceito de seus colegas de turma.

- Eu sofria preconceito. Porque eu era diferente. Aí eu sofria muito com isso. - Mas quem fazia isso?

- Eram os colegas de outra sala. Os professores sabiam. Foram até a Diretoria. E não foi só nessa escola (Camila passou por diversas escolas com ensino comum). - Que coisas que aconteciam?

- Eles falavam palavras para zombar de mim, e eu sofria muito com isso.

- (...) eu tenho uma relação de amizade com esses novos colegas dessa escola (escola especial). A gente sempre brinca um pouco. Isso é sensacional. (Camila, 21 anos, 7° ano do ensino fundamental).

- (...) só que eu não conseguia aprender a ler, aí muita gente me zoava. Tinha uma menina lá que cismava comigo e uma vez ela tentou me pegar; aí só agarrei ela, não machuquei, só agarrei ela, dei um leão...como é que é... mata leão o nela assim, aí ela parou de me implicar. (...)E onde eu moro também. Mas só que quando vejo que tá abusando xiiii. Corto logo o papo...abusando...assim querendo abusar da pessoa. Querendo falar alguma coisa, tem gente que brinca, que zoa. Eu também gosto de zoar, tem gente que não aceita as brincadeiras.

- (...) no começo a escola foi ruim, mas depois de um tempo foi bom. - Por quê?

- Todo mundo judiava de mim. Eles ficavam me zoava, queria me bater. Mas depois que eu fiz aquilo com a garota eles pararam de querer me bater.

- Você sabe porque eles faziam isso?

- Por causa disso mesmo, porque eu não sabia ler, aí no colégio chamavam a gente de burro, disso ou daquilo, um monte de coisas.

- Quem chamava você assim?

- Os colegas da turma, aí eu me sentia muito mal. (Maria, 44 anos, 3º ano do ensino fundamental).

As narrativas de Maria e Camila trazem consigo muito ressentimento ao narrarem suas relações em seu convívio social na escola. Um misto de tristeza com um sentimento de menos valia em relação aos seus colegas. Notamos, que mesmo com a diferença de idade, ambas, sofreram e sofrem o preconceito dentro das escolas. É o que podemos ver nas falas de Camila que relata sofrer com as brincadeiras inadequadas que os colegas de turma faziam. Maria,

também relata situações similares de preconceito. Além disso, Maria demonstra ficar na defensiva com relação as outras amizades, podemos perceber isso no trecho em que ela afirma que não deixa ninguém abusar dela.

Antunes (2012) destaca que essas atitudes discriminatórias vão contribuir negativamente nas trajetórias escolares e na vida social desses sujeitos. Ou seja, o estigma, a marginalização e o preconceito fazem parte das histórias de vida desses grupos (ANTUNES, 2012). Analisando mais a fundo a fala de Camila, foi possível perceber que ao sair da escola comum e passar a frequentar a escola especial, ela passou a ter amigos e ficou muito feliz com isso. Sabemos que muitas pessoas se sentem pouco a vontade de se relacionarem com sujeitos com deficiências, deste modo, a tendência é o afastamento daqueles que são diferentes. Glat (2009) explica que esse afastamento ocorre devido ao medo que a deficiência pode causar. Em outras palavras, tudo o que é considerado diferente, que foge dos padrões conhecidos, que quebra com a norma (daí a expressão anormalidade), traz consigo o desconhecido, exigindo assim, situações novas e singulares. Nessa linha, quando as pessoas se relacionam e se deparam com situações novas e desconhecidas, pessoas estigmatizadas acabam sendo excluídas e marginalizadas socialmente.

Talvez, mais até do que as barreiras objetivas, as barreiras subjetivas ou atitudinaís são o que emperra o processo de inclusão. Isso porque integração e inclusão social é, antes de mais nada, um processo subjetivo e espontâneo que envolve, diretamente, o relacionamento entre seres humanos: entre uma maioria hegemônica, constituída pelos “normais” (considerados o modelo do ser humano “perfeito”, aquele criado à imagem e semelhança de Deus), e uma minoria estigmatizada constituída dos “deficientes” (os imperfeitos, defeituosos, os descartáveis). (GLAT, 2004, p. 3 e 4).

Nesta lógica, pessoas com deficiência são sistematicamente condenadas a relacionar- se entre si ou se isolarem socialmente. Nas palavras de Telford e Sawrey (1984) apud Glat, 2009, p. 98: “ ... as pessoas incapacitadas, sentindo a descriminação social, gravitam em direção aos seus próprios pares, que podem aceita-las sem reservas”. Goffman (2013) também corrobora para essa questão ao denominar esse fenômeno de “alinhamento intragrupal”, isto é, quando pessoas com o mesmo estigma se limitam a se relacionar entre elas, evitando assim a não aceitação.

Entretanto, nem só preconceito e exclusão foi evidenciado nos relatos que os sujeitos desta pesquisa fizeram sobre seus relacionamentos sociais. É o que ouvimos nas narrativas de Lara, abaixo, que conta, com entusiasmo, sua relação com os seus amigos, tanto da época da escola, como os amigos que ela conheceu em suas atividades de esporte.

- O que você costuma fazer no celular?

- Eu gosto de entrar no WhatsApp, entrar no facebook, falar com meus amigos, familiares e professores. Meus amigos são do meu esporte.

- Como é a sua relação com os seus amigos?

- Eu adoro encontrar com eles no shopping, passear, conversar.

- Os meus amigos, eu converso com todos e todos eles gostavam de mim assim. Eu ainda tenho todos no “face”. Às vezes eu encontrei com alguns deles onde eu faço dança. Encontrei um também na Pavuna. Eu falo com eles até hoje. (Lara, 25, ensino médio).

Lara demostrou entusiasmo e ao falar dos seus amigos da escola e dos esportes. Além disso, é possível perceber a autonomia de Lara ao relatar que sai com seus amigos para o shopping. Essas atitudes não se distanciam das ações que outras pessoas poderiam ter com sua idade. Ela é a única dos entrevistados que revela ter autonomia para sair com seus amigos em programas que não sejam promovidos pela a escola ou instituições que ela frequenta. Além disso, Lara também faz o uso das redes sociais para se comunicar com seus amigos. A experiência social dela parece ser diferente de Igor, que disse ter amigos, mas não tem o hábito de encontra-los fora do espaço escolar.

- Mas e sobre os seus amigos?

- Não encontro com eles não. Uma vez eu vi um... mas...só na escola. - E agora que você está estudando a noite? Como está sendo?

- a tem uns....mas eu não costumo sair com eles não. (Igor, 23 anos, 1° ano do ensino médio).

Goffman (2013) elucida que a maneira como o indivíduo se identifica na sociedade é afetado pela a relação que ele vai estabelecer com os outros. Ou seja, a identidade social vai sendo construída de acordo com a maneira que esses indivíduos se relacionam. Pois é no encontro com os demais que vamos construindo quem nós somos. Sendo assim, é importante que se valorize a construção da identidade de sujeitos com deficiência intelectual, na medida em que, eles não podem ser compreendidos sob estigma de sua deficiência. Nas palavras de Antunes (2012, p. 119), “ ... por isso, a necessidade de conhecer quem é a pessoa com deficiência, deixar que ela se mostre como ela efetivamente é e não como a sociedade acredita que ela seja, como professores acreditam que o aluno com deficiência seja. ”.