As três famílias acompanhadas apresentavam um cotidiano que era moldado pelas suas condições de vida. As três mulheres beneficiárias tinham em comum as atribuições do cuidado com a casa e os filhos e, como moradoras da mesma comunidade, compartilhavam dos códigos que remetiam à moral e à honra feminina relacionada ao espaço da casa, em contraponto à imagem masculina de que o homem deveria ser o principal provedor da família. Tal questão também é percebida
por Fonseca (2000) em uma vila de Porto Alegre, na qual a honra familiar entre os homens se expressava por meio da procriação e da forma de provimento da sua família (proteção). A honra feminina, segundo a autora, contemplava quase que exclusivamente a vida doméstica, isto é, cuidar bem dos filhos e ter a sua família, motivo pelo qual ser mãe era um atributo importante. A imagem do homem e da mulher fortemente ligada à família demonstra as dificuldades que ambos possuem de afirmação individual, uma vez que as obrigações em relação a seus familiares devem prevalecer sobre os projetos individuais (SARTI, 1996)119.
A família de Maria era a que mais sofria por não corresponder à imagem de família esperada por quem vivia no Pavão-Pavãozinho. O marido não trabalhava e tinha envolvimento com drogas, estando, portanto, distante da figura do homem trabalhador e provedor, enquanto que ela era constantemente acusada de negligenciar o cuidado com os filhos. Sandra, por sua vez, possuía a “blindagem” da imagem do marido trabalhador e provedor da família, mas seu passado como prostituta e o problema do filho com as “más companhias” tornavam sua figura de “boa dona de casa e mãe” instável perante os vizinhos. Já a família de Kátia era a única que não recebia qualquer repreensão sobre seu comportamento. Kátia era considerada “boa” mãe e esposa, e seu marido era “bem visto”, uma vez que sustentava a casa e cuidava da família.
As demandas quanto ao papel de mães e esposas ocupavam um grande espaço na vida dessas mulheres. Os momentos com atividades de lazer raramente estavam desvinculados dos filhos e companheiros, e o “tempo livre” dos afazeres domésticos era desfrutado geralmente à tarde, já que pela manhã o almoço
119
Sarti (1996) pesquisa famílias de baixa renda em São Paulo, procurando descobrir com base em que categorias morais elas se organizam, interpretam e dão sentindo a seu lugar no mundo. A esse respeito, ver também Fonseca (2000).
precisava ser preparado.
No horário do almoço, o movimento na favela era de crianças voltando da escola ou indo para lá e de pessoas transitando em função do almoço120. Os bares
que serviam almoço ficavam movimentados, assim como os locais que vendiam lanches.
Na parte da tarde, o mais comum entre as mulheres que não trabalhavam fora de casa era visitar ou receber amigas e familiares para conversar; além disso, algumas vezes, iam à praia. As idas à praia ocorriam em dias muito quentes, momentos em que as beneficiárias estavam sempre acompanhadas dos filhos, dos familiares e/ou das amigas. Uma das preocupações nessas ocasiões era levar o lanche para as crianças e ter algum dinheiro para gastar – “Ah, quando a gente vai à praia, tem que ter um dinheiro. As crianças sempre pedem um picolé, um milho e pra gente uma cervejinha né. Ir com criança sem dinheiro prefiro ficar em casa” (Sandra).
Em um dia quente de verão, pude acompanhar Kátia e duas amigas com os filhos em sua ida à praia de Copacabana. As duas amigas, Cristiane e Maria José, moravam no Cantagalo. Kátia e eu fomos à praia antes e esperamos por elas em um ponto combinado. Kátia, com a ajuda do marido (que estava trabalhando próximo dali), preparou o local na areia com duas barracas e toalhas para as crianças. As duas amigas chegaram em torno das 15 horas com os filhos e sacolas com comidas para o lanche (havia biscoitos, bolo e suco). Maria José era a mais velha das três, estava no segundo casamento e tinha quatro filhos com idades distintas. O atual
120 Havia uma circulação de pessoas que voltavam para almoçar em casa, de forma que alguns estabelecimentos fechavam para o almoço, como é o caso do salão de beleza, que fechava das 12h às 13h30min para que as mulheres que lá trabalhavam pudessem ir para casa “cuidar” do almoço da família. Também havia nesse momento do dia vendedores de “quentinhas” (porções de comida armazenadas em embalagens de alumínio ou isopor) realizando entregas pela comunidade.
companheiro trabalhava na construção civil e era pai de um dos seus filhos. Ela comenta que esperou receber o Bolsa Família para trazer os filhos à praia:
Na próxima semana, vai começar as aulas, e eles não saíram de casa para passear. Aí começa a aula e não tem nada para contar para os coleguinhas e professora. Resolvi vir com eles para a praia, por isso te liguei Kátia [...]. Recebi ontem o dinheiro do Bolsa, aí dá para vir e pagar alguma vontade deles [filhos], sabe como é criança e para gente também (Maria José).
A outra amiga de Kátia, Cristiane, tinha dois filhos e trabalhava realizando faxinas. Seu companheiro era vendedor em uma farmácia. Cristiane não era beneficiária do PBF, mas relata que fez a solicitação, não tendo sido contemplada − “Eu solicitei lá no CRAS, mas não veio ainda. A assistente disse para eu aguardar”. Durante toda a tarde na praia, apesar dos vários pedidos das crianças, Maria José comprou apenas dois picolés que foram divididos entre os seus quatro filhos, enquanto que Kátia e Cristiane compraram duas latas de cerveja cada uma e dividiram entre todas nós121, além de sorvete para seus filhos. Durante a tarde, as
crianças pediram para que as mães comprassem refrigerante, milho, mate etc., ouvindo sempre “não”, “não dá”, “vocês têm lanche na sacola”. Em um momento, seus pedidos tornaram-se uma brincadeira entre elas, que solicitavam a compra e, rindo, corriam até o mar.
As outras duas beneficiárias, Maria e Sandra, iam pouco à praia; porém, como eram muito amigas, constantemente se reuniam na casa de Sandra. Lá passavam algumas tardes conversando, e às vezes apareciam outras amigas e vizinhas. No período em que Sandra esteve empregada, as idas de Maria aconteciam pela manhã. Quando Sandra comprou o notebook, este se tornou um
121 Nesse dia, fui como “convidada” e não queriam que eu pagasse nada. O lanche foi trazido para as crianças, mas era suficiente para os adultos também.
atrativo não apenas para a família de Sandra, mas também para as amigas. Algumas, entre elas Maria, criaram perfis na rede social (Facebook) e pediam para ver o e-mail no computador. Sandra atendia a todas e solicitava a ajuda do filho mais velho quando não sabiam alguma informação. O computador, por um tempo, ganhou centralidade nas conversas, uma vez que comentavam sobre os perfis e as postagens nas redes sociais.
Enquanto beneficiárias do PBF, algo comum às três famílias era serem consideradas pobres segundo os critérios do programa. Mesmo com diferenças de renda e de acesso a bens e serviços, em se tratando da busca pelo benefício, o fato de ser moradora da favela, em um primeiro momento, já credenciava a “solicitante” a ser cadastrada no CadÚnico. A relação entre favela e pobreza era construída quase que automaticamente pelos agentes que trabalhavam no CRAS. Entretanto, os moradores da favela Pavão-Pavãozinho nem sempre tinham essa percepção, ou seja, ser morador da favela não era sinônimo de “pobreza” nem os credenciava a serem beneficiários do PBF, o que demonstra haver uma pluralidade de percepções e critérios a respeito do tema da pobreza, assim como diferenças sobre quem “precisava” e “merecia” ser beneficiário do PBF.
3.3 “POBREZA”: CRITÉRIOS E SIGNIFICADOS
No que se refere ao PBF, desde a sua criação, os termos “pobreza” e “extrema pobreza” são citados e certamente não são termos novos. Ao analisar estudos e programas de transferências de renda, realizados em outros contextos e, por vezes, com objetivos distintos, percebe-se que esses termos aparecem sempre como fazendo referência a algo a ser superado. Dessa forma, verifica-se a produção de grande massa de dados estatísticos que buscam identificar e medir os índices de
pobreza (NEDER, 2006; NERI, 2011). Essa realidade construída a partir dos números é importante e necessária, mas representa também poder, pois estes podem legitimar acessos e intervenções nas áreas das políticas públicas (DESROSIERES, 2010). Por isso, é preciso considerar que o olhar sobre o problema da pobreza não é neutro: existem conflitos, disputas (inclusive pelos termos e conceitos) e jogos. Isso fica evidente ao buscar na literatura os vários índices utilizados para medir a pobreza. Neri (2010) salienta, por exemplo, que há medidas de pobreza, com muitas dimensões, que levam em conta elementos como saneamento básico e eletricidade e outras medidas mais simples, com uma única dimensão, formada quase sempre pela renda.
Para autores como Rocha (2007), não existe uma definição “inequívoca” de pobreza − o ponto de partida para a discussão sobre o tema seria uma explicação conceitual, que depende basicamente do padrão de vida e do modo como as várias necessidades do ser humano são atendidas em determinadas sociedades. Nesse sentido, segundo a autora, “determinar quem é pobre numa dada sociedade é definir uma lista de bens e serviços básicos necessários à sobrevivência” (ROCHA, 2007, p. 45).
A Organização das Nações Unidas (ONU) e o Banco Mundial relacionam a pobreza à renda e fixam como linha da pobreza o valor de U$ 1 por pessoa ao dia. Apesar da vantagem de simplicidade da medida de U$ 1 por dia, argumenta-se que, ao focar somente a renda, estaríamos reduzindo o debate sobre a pobreza. Certamente, o nível de renda é relevante, porque determina o poder de compra das pessoas e se elas dispõem do suficiente para se alimentarem. Entretanto, a elevação da renda nem sempre implica melhor acesso a serviços básicos como saúde, educação, entre outros. Sendo assim, há ampla margem para definir os
critérios de pobreza, o que cria, segundo Sen (2000), a necessidade de uma visão multidimensional sobre pobreza e privações. Com base nessa perspectiva, um grupo de pesquisadores, intitulado The Oxford Poverty and Human Development Initiative (OPHI), com o apoio das Nações Unidas, após uma pesquisa em mais de 100 países, criou um indicador chamado Indicador Multidimensional de Pobreza (IMP). Esse indicador, segundo Rattner (2010), procura construir um retrato da pobreza baseado na fração de lares familiares que carecem de certos bens e serviços básicos (avaliando, por exemplo, se o piso da casa é feito de cimento, terra batida; se há banheiro privativo; se há eletricidade etc.). Tal indicador é, também, formado de perguntas que se referem à educação e à situação de saúde. Rattner (2010, p. 76) salienta, ainda, que não há uma unanimidade quanto às formas e aos resultados de determinar a pobreza e que uma definição simples seria “pessoas que não têm o ‘suficiente’ para levar uma vida digna” (grifo do autor). Diante disso, é preciso estabelecer, também, o que é esse suficiente, quais são os bens e serviços que o caracterizam e quem deve definir essas questões − pesquisadores, governos ou agências internacionais. Nesse sentido, de acordo com o autor, essas são questões bem mais complexas, motivo pelo qual talvez os próprios pobres devessem ter a última palavra sobre suas condições e suas expectativas acerca da pobreza.
3.3.1 “Ser pobre”, “precisar” e “merecer” o Bolsa Família: significados e critérios presentes no Pavão-Pavãozinho
Nas observações realizadas no CRAS, na convivência com as famílias e na circulação pela favela, tornou-se perceptível que os significados sobre “ser pobre” eram, em parte, distintos dos critérios estabelecidos pelo PBF. Ao falarmos sobre as favelas e seus moradores, é preciso ter ciência de que este não é um local
homogêneo, pois possui diferenças internas (SILVA, 2011). Valladares (2005) critica uma visão excessivamente homogeneizadora das favelas e salienta que, em um estudo realizado a partir dos dados do censo, percebe-se uma heterogeneidade nas favelas e em seus moradores que poucas vezes é visualizada pela sociedade carioca. Algumas dessas diferenças são notadas nos significados e critérios que os moradores atribuíam à pobreza e ao que é ser pobre.
No Pavão-Pavãozinho, os relatos sobre “ser pobre” passavam pela renda, mas iam além desse critério. A distinção entre os moradores com “mais condições” e os “pobres” era relacionada à posse de certos bens, como carro e eletrodomésticos, mas também às condições da moradia e de vida, às características do trabalho, à escolaridade e ao recebimento de alguma forma de assistência social. A esse respeito, Silva (2011) descreve a existência de uma “burguesia favelada”, quando se refere ao acesso a recursos internos – econômicos e políticos. No Pavão- Pavãozinho, era mais evidente certa “burguesia favelada” associada principalmente ao consumo de bens e serviços, sendo estes entendidos conforme propõem Douglas e Isherwood (2004), para os quais os bens são usados como marcadores sociais e categorias de classificação122. Miller (2012) auxilia na compreensão sobre a
posse de certos bens e seus significados ao afirmar que as pessoas se expressam por meio das suas posses e que, por extensão, essas posses “falam” sobre as vidas das pessoas.
Em reuniões da Associação de Moradores, nas quais eram discutidas as mais variadas demandas da comunidade, surgiam algumas distinções entre os moradores que determinavam quem eram os “pobres” da favela. Entre essas, pode-se citar a
122Segundo Douglas e Isherwood (2004, p. 123), “Os bens são dotados de valores pela concordância dos consumidores”. Ou seja, cada indivíduo é uma fonte e está no esquema de classificação cujas discriminações ou inclusões está ajudando a estabelecer.
necessidade de um estacionamento para que os moradores pudessem estacionar seus carros. Estes justificavam a sua solicitação afirmando que a favela havia mudado e que seus moradores podiam comprar um carro, por exemplo. Para Jussara, que trabalhava em dois hospitais e havia comprado um carro123, o
estacionamento era importante:
Antes era possível deixar na rua [...], mas agora está proibido e não temos mais como estacionar. É preciso utilizar um dos espaços disponíveis na entrada para construir um estacionamento. Aqui tem várias pessoas que têm carro. Eles [referindo-se à prefeitura do Rio de Janeiro] acham que aqui todo mundo é pobre e ninguém tem carro; temos que ter os mesmos direitos dos moradores do asfalto (Jussara).
Em outra ocasião, um grupo reivindicou nova prioridade para a comunidade, uma solução para o descarte do lixo, já que existia uma grande quantidade espalhada pelas ladeiras − “Precisamos achar uma solução para o descarte do lixo em toda a comunidade. Quem mora mais no alto, precisa ter o serviço e se educar. Pobreza igual a lixo não deve existir”. A culpa pelo excesso de lixo na comunidade foi atribuída à falta de educação dos “outros” moradores, principalmente dos que residiam nas partes mais altas da favela, ou seja, “dos pobres da favela”124.
Outra moradora, Antônia, acrescentou que, além do lixo espalhado em partes da favela, não ter um banheiro “decente” em casa era um sinal de muita pobreza e colaborava para a sujeira:
Olha, gente, comida sempre se dá um jeito, mas moradia sem banheiro e água é complicado. Como faz com a higiene e cuidado e limpeza da casa? Não dá, fica que nem bicho. Tenho vizinho que pede para usar o
123 A moradora justificava que havia comprado o carro para poder se deslocar entre seus dois empregos e que o mesmo tinha sido adquirido à prestação.
124 Valladares (2005) discorre como, ao longo do século XX, foi sendo percebido e construído um saber sobre a favela, além de uma imagem negativa associando o local e seus moradores à pobreza, à sujeira, à malandragem etc.
banheiro lá de casa, eu deixo, mas é triste ver essa pobreza, não ter um “teto” decente (Antônia).
O que foi descrito pela moradora se passava com a família de Maria (Silva) no primeiro domicílio em que residiram. O banheiro era precário e sem chuveiro, de modo que a família realizava a higiene pessoal com um balde de água no pequeno espaço em que seria o banheiro ou, no caso das crianças, na parte externa da casa. Algumas vezes, Maria pedia para usar o chuveiro da casa de Sandra. Tal realidade se modificou somente quando a família se mudou para o outro domicílio.
No que tange aos moradores das favelas, as questões relacionadas à moradia precisam ser destacadas, por ser este um indicador de pobreza. Para os moradores do Pavão-Pavãozinho (beneficiários ou não do Bolsa Família), as características da construção da casa e do local em que esta se situa na favela indicavam quem eram os “pobres”. A partir de relatos e observando a geografia da favela, ficava evidente que as famílias mais pobres possuíam moradias de madeira localizadas nas áreas mais altas e de difícil acesso, conhecidas como “Caranguejo” e “Vietnã”. Além das construções precárias, o acesso às casas pelas escadas estreitas e íngremes, por vezes, impedia a entrega de compras e correspondência. Segundo Nádia, moradora adjacente ao “Caranguejo” e beneficiária do Bolsa Família, quanto mais próximo do “asfalto”, mais caro ficava a casa: “Quem é pobre como eu não tem condições de descer; estou esperando me chamarem para um apartamento do PAC. Aqui é área de risco, então devo ir morar nos apartamentos. Por enquanto vou ficando por aqui”.
Os moradores que teriam o direito a ocupar os apartamentos construídos PAC eram os que estavam em áreas de risco ou que foram removidos de suas casas para o alargamento da rua principal de acesso às favelas do Pavão-Pavãozinho e
Cantagalo. Entretanto, como não havia unidades habitacionais para todos os moradores das áreas de risco, as casas marcadas pela Defesa Civil continuavam sendo ocupadas pelos moradores. Outra possibilidade, para quem residia em área de risco no Pavão-Pavãozinho, era ser contemplado com unidades do PAC em regiões mais distantes da Zona Sul. Porém, a maioria não aceitava e preferia permanecer como moradora da Zona Sul. Ser morador de uma favela da Zona Sul, além de manter os laços afetivos já formados, implicava facilidade de acesso a serviços (água, luz e coleta de lixo), a políticas sociais e ao transporte, proximidade da praia, o que propiciava lazer, e, em alguns casos, melhores condições de trabalho e renda125. Estes foram os argumentos usados por Kátia para convencer o
companheiro a permanecer no Pavão-Pavãozinho, mesmo que a moradia da família fosse menor e o aluguel mais caro que em outra região da cidade. Ir morar em outro local era algo que Kátia não queria − “Eu vou ficar aqui para sempre, não saio”. Outra moradora, Raimunda, descreveu as motivações para permanecer na Zona Sul: “[...] minha vida está aqui, trabalho perto, desço e logo estou na praia no final de semana. Como vou trabalhar morando longe? Prefiro pagar aluguel e, enquanto der, fico”. Seu Bento, também morador do Pavão-Pavãozinho relatou,
Moro aqui mais de 20 anos, já morei um tempo na Zona Norte. Para lá não volto não, aqui [Zona Sul] é tudo melhor e mais seguro. Sou ajudante em uma barraca na praia, se morasse na Zona Norte nunca que iam me dar trabalho, tem custo. Imagina ficar um dia todo trabalhando na praia e depois ter que pegar ônibus e metrô e ir para Zona Norte.
Para os moradores (beneficiários ou não do PBF), o fato de terem a sua rede
125 Lefebvre (2001) auxilia na compreensão da relação dos moradores com o local de domicílio e da resistência em se mudar. Segundo o autor, o espaço é construído pelas pessoas; estas são sujeitos da sua história, atuando como alguém que reproduz, mas também que produz. Ou seja, as relações sociais não são uniformes no tempo e espaço, pois dependem da realidade a que são submetidas. Nesse sentido, o espaço contém as relações sociais e nelas está contido (LEFEBVRE, 2001).
de proteção e certas facilidades tornava difícil a mudança para locais mais distantes, mesmo que seu domicílio fosse precário, pequeno ou localizado em áreas de risco. Os mais pobres tinham, assim, maior dificuldade de continuar residindo na Zona Sul, principalmente em função dos preços das moradias e dos aluguéis terem subido nos últimos tempos126. A origem do aumento foi atribuída pelos moradores à
implementação da UPP e ao evento da Copa do Mundo de 2014, que teria atraído outro “tipo de morador” para a favela e excluído seus moradores “antigos”127.
Maria e sua família eram um exemplo da dificuldade de permanecer na favela.