A entrevista constitui um gênero discursivo que emerge como “força poderosa” nas sociedades modernas. Nesse sentido, parece-nos pertinente caracterizá-la como “uma constelação de eventos possíveis” que se manifesta em diferentes configurações, conforme o propósito a que se destina (Hoffnagel, 2005: 180). Assim, entendemos que as entrevistas analisadas, no âmbito deste estudo, configurariam uma das muitas possibilidades de manifestação desse gênero.
Em muitas circunstâncias específicas do dia a dia, vemo-nos todos envolvidos pela entrevista, quer como entrevistados quer como entrevistadores. É o que podemos observar, por exemplo, quando necessitamos de financiamento bancário ou concorremos a um posto de trabalho. Do mesmo modo, envolvemo-nos com a entrevista quando concordamos em colaborar com algum tipo de pesquisa, inclusive a acadêmica. Essa realidade supõe a existência de uma variedade de profissionais que trabalham diretamente com esse evento comunicativo, tais como assistentes sociais, psicólogos, cientistas, pesquisadores, entre outros.
Além dessas entrevistas, das quais participam tanto especialistas quanto pessoas comuns, há, ainda, aquela da qual fazem uso intenso os meios de comunicação. Trata-se das entrevistas jornalísticas. Na mídia (impressa, televisiva ou radiofônica), o papel do entrevistador é quase sempre desempenhado por um especialista, via de regra, um jornalista. Mas há também os famosos apresentadores, especialmente os de televisão, exímios comunicadores capazes de arrancar de seus entrevistados verdadeiras confissões.
Nos meios de comunicação, os entrevistados são, na maioria das vezes, pessoas de prestígio social – políticos, cientistas, celebridades, autoridades religiosas, etc. Entretanto o homem comum pode também ser interpelado pelo repórter com o microfone nas mãos em busca da opinião da rua ou, ainda, ocupar um espaço privilegiado em programas de entrevistas de televisão. Pela entrevista jornalística somos todos atraídos como público.
Diante do exposto, poderíamos supor que o estudo da entrevista tem interessado a diferentes áreas do conhecimento, especialmente aquelas ligadas à Comunicação e à Sociologia. Morin (1973), ao debruçar-se sobre esse tema, classifica a entrevista em dois grandes grupos: a entrevista em ciências sociais e a entrevista jornalística. A busca permanente pela informação é o traço que aproxima as entrevistas dessas duas esferas. A natureza da informação, bem como o tratamento que se dá a ela pode, entretanto, variar consideravelmente. Para o autor (1973: 115), “a informação em ciências sociais enquadra-se num sistema metodológico, hipotético e verificador”, ao passo que, nos meios de comunicação de massa (rádio, televisão e cinema), a informação submete-se “às normas jornalísticas, e, muito frequentemente, tem um fim espetacular.”
Ao comparar essas duas formas de entrevista, Morin (1973: 127) salienta, ainda, que a maior oposição entre as entrevistas científicas e as jornalísticas encontra-se no modo como cada uma delas se dirige ao público. No primeiro caso, esse público é restrito. Há, nesse sentido, um “caráter não público, até mesmo secreto; se existe exibição de sentimentos, ela é feita
diante unicamente do investigador, e é de seu uso exclusivo. A segunda se dirige a todos; situa-se no fórum comunicativo moderno.”
Ao tratar da entrevista jornalística, o mesmo autor (1973: 125) assevera que “a entrevista é um modo de informação que surgiu na imprensa”, passando do jornal para o rádio, deste para a televisão e posteriormente para o cinema. No jornalismo, a fonte de informação tende a ser individualizada, na medida em que a entrevista pode dirigir-se a uma única personalidade. Para Medina (2002), não poucas vezes, o crédito é conferido apenas às fontes oficiais do poder (político, econômico, cultural). Contudo, conforme já assinalamos, a entrevista poderá também dar a palavra ao homem comum. Vale lembrar ainda que, no seu limite, de acordo com Morin (1973), a entrevista jornalística pode configurar-se como um debate entre várias pessoas. Trata-se das entrevistas coletivas mediadas por um entrevistador, nas quais se busca um modelo dialético por meio do confronto de opiniões contrárias sobre um dado tema.
Na esfera científica, a entrevista surge nos Estados Unidos em psicoterapia e psicotécnica. Nesses dois segmentos, o tratamento da informação tem uma finalidade prática. Assim, em psicoterapia a informação poderá fornecer a cura ao entrevistado, enquanto em psicotécnica a informação terá maior utilidade para o entrevistador. Seu progresso está estreitamente ligado ao desenvolvimento das pesquisas de opinião, de um lado, e da psicologia social, de outro.
Grosso modo, a classificação de Morin (1973) para a entrevista científica engloba uma gama de gêneros e subgêneros, agrupados segundo as técnicas empregadas no evento e inclui desde a conversação clínica de caráter terapêutico até o questionário fechado que permite a simplificação extrema das respostas dadas em forma de um sim ou não. Vale ressaltar que o autor, ao discorrer sobre esse grupo de entrevistas, centra seu estudo na tipificação dos eventos realizados notavelmente em Psicologia Social.
O fato é que tanto numa esfera quanto na outra, manifesta-se uma variedade de gêneros (ou subgêneros) de entrevistas para os quais há também
variadas classificações7
. No âmbito do jornalismo, poderíamos mencionar, a título de exemplo, as entrevistas de televisão e de rádio, bem como aquelas veiculadas em jornais e revistas. Na esfera científica, poderíamos acrescentar, aos casos já brevemente tratados, a entrevista sociolinguística como as do Projeto NURC.
Medina (2002: 5) reconhece que o ato de entrevistar pode requerer o domínio de uma “eficaz técnica para obter respostas pré-pautadas por um questionário”. Mas a autora ressalta que, se vista como mera técnica, a entrevista deixa de ser um ramo da comunicação humana e acrescenta:
A entrevista, nas suas diferentes aplicações, é uma técnica de interação social, de interpenetração informativa, quebrando assim
isolamentos grupais, individuais, sociais; pode também servir à pluralização de vozes e à distribuição democrática da
informação. Em todos estes ou outros usos das Ciências humanas, constitui sempre um meio cujo fim é o inter-relacionamento humano.
Morin (1973:116) também salienta a importância da entrevista na comunicação humana. Nesse sentido, o autor assim se pronuncia:
A entrevista é uma intervenção sempre orientada para uma comunicação de informações. Mas este processo informativo, sempre presente, pode não ser o processo nem o fim essencial da entrevista; é o processo psicoafetivo ligado à comunicação que pode ser o mais importante, embora de maneira diferente, tanto no domínio das ciências humanas quanto no domínio dos veículos de massa. Para esses dois autores, portanto, a entrevista apresenta, ao lado de uma finalidade prática, um fim social e interacional, na medida em que serve de meio para aprofundar o inter-relacionamento humano, quer no âmbito do jornalismo, quer no científico. É esse aspecto interacional da entrevista que queremos focalizar no presente estudo.
7 Uma classificação mais ou menos detalhada da entrevista em Ciências Sociais e no
jornalismo (rádio, cinema e televisão) encontra-se em Morin (1973.). Medina (2002: 14-18), por sua vez, baseando-se nesse autor, classifica a entrevista jornalística em dois subgêneros: o da
espetacularização e o da compreensão (ou aprofundamento). A autora faz a descrição de
quatro perfis que comporiam o primeiro subgênero e de cinco tipos de entrevistas que configurariam o segundo. Vale (1999: 29-32), com base em estudos de Cohen, apresenta uma classificação detalhada da entrevista de televisão. Hoffnagel (2005: 183) faz uma sucinta classificação dos três tipos gerais de entrevistas em revistas.