• Sonuç bulunamadı

Atatürk’ün Yaşamında Öne Çıkan Kültür ve Eğitim Odaklı Deneyimler

2. ATATÜRK’ÜN EĞİTİMCİ KİŞİLİĞİ VE EĞİTİMSEL BENLİĞİNİN DEĞERLENDİRİLMESİ

2.1. Atatürk’ün Yaşamında Öne Çıkan Kültür ve Eğitim Odaklı Deneyimler

Entendendo que a tecnologia se relaciona intrinsicamente aos processos de trabalho essa sessão busca, sumariamente, caracterizar a transição do artesanato à

manufatura, por meio de pertinentes referências que elucidam a transformação das

relações de trabalho nos canteiros da Idade Média. Realiza-se uma breve contextualização para que se desenvolva posteriormente o tema na produção brasileira.

“A dissolução dos ofícios da construção é a história do desenvolvimento do capitalismo na indústria” (BALL, 1992,14). Os ofícios, ou o que se caracteriza como processo artesanal, é base do trabalho da construção civil na Idade Média. As guildas, constituídas de um mestre, oficiais e aprendizes, representam espaços destinados ao exercício de um ofício específico. Os mestres possuiriam o controle dos métodos, qualidade e preço do serviço prestado, enquanto os aprendizes, em troca do conhecimento, sequer receberiam remuneração (BALL, 1992). Em relação às construções desse período:

Qualquer pessoa que quisesse construir tinha que fazer contratos em separado com cada um dos ofícios. Este tipo de organização da construção não necessitava especificações detalhadas nem desenhos como hoje em dia [...]. Ao invés disso, os clientes especificavam seus requisitos básicos, materiais e o estilo no qual a edificação seria construída. Cada ofício imprimia então, ao longo do processo construtivo, suas práticas tradicionais, suas técnicas de trabalho e detalhes de projeto. (BALL, 1992, p.13).

Ferro (2012) identifica que já no século XV, fim do período gótico, haveria uma reestruturação do processo construtivo artesanal. O autor aponta Brunelleschi como o precursor dessa mudança, na produção em que o desenho passa a ser um instrumento de alienação. O desenho deixa de ser aberto e incorporado diretamente à prática e passa a ser prescritivo e, por consequência, determinante na modificação

das relações do trabalho16. Em seu envolvimento com a construção da cúpula da

Igreja de Santa Maria del Fiore (1420-1436), também conhecida como o Duomo de Florença, Brunelleschi inaugura uma nova articulação do arranjo produtivo no canteiro de obras, que deixa de se conformar por guildas, ou pelo que Ferro (2012) denomina corporações de ofícios, iniciando-se o processo de separação entre concepção e execução. De um lado, instaura-se uma nova linguagem de representação (o projeto) não compreendida pelo operário, resultando na desvalorização de seu trabalho para que os salários se reduzam e, assim, instale-se o lucro (mais-valia), e de outro, há a perda do saber fazer pelo profissional que assume a ideia de autoria da obra (o desenhista, o arquiteto), já que se separa do canteiro e, consequentemente, das decisões ali tomadas para a composição da construção. Condição atual de um processo com início há mais de cinco séculos:

O canteiro é heterônomo, sua determinação vem de fora. O objeto a realizar, o modo de realização, o tempo de realização, são impostos à produção imediata. Consequência, entre outras, da separação entre meios e força de trabalho, entre vontade e ação, entre finalidade aparente e a eficaz (FERRO, 2006, p.30).

Para que se estabeleça a subordinação dos trabalhadores àqueles que dominam os códigos representados no papel, o desenho se torna cada vez mais abstrato em relação ao processo de construção. Mas a introdução do desenho não modifica apenas as relações de trabalho, ela também impõe uma alteração nos estilos, como uma estratégia para desmobilizar os trabalhadores. O estilo, assim como o desenho, é também um novo conhecimento do qual o trabalhador pouco ou nada sabe. Brunelleschi, por exemplo, para conseguir introduzir uma nova linguagem de representação não apreendida pelos operários, recorre às ordens clássicas da Renascença e, com isso, “bota coluninha, bota capitel, bota coluna grega” (FERRO, 2002, p.14), isto é, altera a conformação da edificação com o único objetivo de retirar a condição de autonomia do operário dos canteiros, explorando ao máximo sua força de trabalho.

16 O trabalho das corporações de ofício se constitui de soluções de projeto e execução realizadas na

locação das obras com decisões compartilhadas entre a maioria dos trabalhadores. Nesse arranjo produtivo há um grande domínio da técnica utilizada, visto que são construídas inúmeras catedrais de complexa composição.

Contudo, Ball (1992) aponta a estreita relação entre capital e força de trabalho dos canteiros de obras em um período posterior ao que Ferro (2012) assinala. O autor descreve que a situação econômica da época impõe determinadas ações na produção das construções, o que contribui para demonstrar que Brunelleschi não realiza uma ação previamente deliberada para a acumulação primitiva, por meio do processo de manufatura (que incorpora muitos trabalhadores), mas sim, age segundo as condições de seu período. Isso contribui para a sua “desidealização” como o principal agente responsável por esse processo, episódio que pertence a uma espécie de senso comum culto17.

Ball indica o fim do século XVIII e início do século XIX na Inglaterra, na consolidação do capitalismo sobre o regime feudal, como o período de modificação da estrutura do trabalho artesanal, e destaca a introdução do profissional “construtor de casas para o mercado”18, como o principal fator de modificação nos processos de trabalho

empregados na construção. A figura desse profissional representaria uma importante modificação no valor das habitações e, como consequência, o fim das guildas. Para o autor, no período feudal grande parte das edificações não é reconhecida como mercadoria, já que possui estritamente valor de uso, no entanto, “para que houvesse o desenvolvimento das relações capitalistas na provisão de habitações seria necessário [...] que o consumo de moradias se generalizasse [...] através da compra ou do aluguel” (BALL, 1992, p.14). Entretanto, a ideia de consumo da habitação só seria possível ao instituir a separação do espaço da moradia do espaço trabalho, já que, de forma generalizada, essas atividades se integram em grande parte do período feudal (BALL, 1992).

Com a ideia de separação dessas atividades, o construtor especulativo atua inicialmente na provisão de habitações tanto para os grupos de “pobres urbanos”, que necessitam espaços formais para residir nos centros urbanos, já que aparatos legislativos seriam impeditivos de construções informais, como os cortiços que, até então, representam suas acomodações; como para a corte inglesa, que necessita de

17 Considera-se tal passagem como senso comum culto, pois é muito usual nos discursos de

profissionais formais da área da construção civil e, inclusive, tema de aulas nos cursos de arquitetura e urbanismo.

edificações para acomodar seus funcionários e parte da nobreza menos representativa. Observa-se que já ocorre nesse período uma ação política, por meio da legislação, como confirmação do apoio do Estado ao capital. No entanto, “a construção de casas para o mercado sob relações capitalistas só se daria finalmente quando passa a existir a provisão em massa de habitações” (BALL, 1992, p.23). Com a necessidade de reduzir os custos das habitações, já que a maioria dos proprietários teria o intuito de alugar os imóveis para os trabalhadores e, não propriamente neles residir, a qualidade das construções estaria comprometida. A redução dos custos na produção dessas habitações se justificaria pela “imposição de relações de produção capitalistas”, ou seja, pelo domínio do artesão e da proletarização da sua força de trabalho, por meio do pagamento aos construtores especulativos que contratam mão de obra por baixos salários. (BALL, 1992, p.20-23). Nesse contexto, ainda se mantêm os processos de construção baseados no trabalho manual, porém já se estabelece um rígido controle dos capitalistas sobre as atividades desenvolvidas, à custa da divisão do trabalho.

As tarefas repartidas permitem que cada trabalhador exerça um único tipo de atividade na qual ele se mostra mais apto, ou seja, mais produtivo e rentável ao capital, como se verifica nos preceitos de Taylor e Gilbreth, mencionados no item 2.1 A ideia de

racionalização da construção civil. Assim, o artesão dá lugar ao “trabalhador

coletivo”, conjunto de operários que trabalham em cooperação para a conformação da habitação (VARGAS, 1987). Há uma desqualificação estrutural, que permite que qualquer operário se incorpore ao processo de trabalho e, com isso, se mantenham baixos salários que, por sua vez, possibilitam a acumulação de capital pela produção habitacional. Na atual realidade brasileira isso se replica por meio do processo construtivo manufaturado (trabalho-intensivo), como se apresentará adiante.

A introdução de novos materiais construtivos é também fator fundamental para as transformações no arranjo produtivo. No fim do século XIX, na Europa, a ameaça do controle produtivo pelos operários impõe que a pedra e a madeira, representativos dos sindicatos mais fortes do período, sejam substituídas pelo ferro e pelo concreto. A utilização desses materiais permite explorar novas formas arquitetônicas e, com isso, inicia-se uma “gloriosa arquitetura contemporânea, mudando de linguagem,

mudando fundamentalmente a decoração no momento em que os operários estão fortes” (FERRO, 2002, p.9-10). Portanto, as “inovações tecnológicas” e as mudanças estilísticas são intrinsicamente relacionadas aos conflitos sociais presentes nos canteiros de obras e à necessidade de subordinação dos trabalhadores para manutenção do modelo de acumulação capitalista.