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4. M.Ö II BİNE AİT YAZILI BELGELERDE ADI GEÇEN AV HAYVANLARI

4.1. Aslan

No que tange aos elementos que pressionam negativamente a cobertura fl ores- tal no Brasil, podemos considerar pelo menos três de grande relevo tanto no cenário interno como no internacional.

Primeiramente, destaca -se o setor produtivo, especialmente a produção ru- ral. Responsável por grande parte das exportações brasileiras quando se fala em agronegócio, e pela alimentação de mais de ¾ da cesta básica dos brasileiros, quando o assunto é agricultura familiar, a produção rural se destaca no país como atividade econômica de inegável importância.

Ocorre que há, em particular no presente momento, difícil convivência entre parte do setor agropecuário e as normas e políticas públicas atinentes à gestão fl orestal, tendo em vista o que já foi delineado em sede introdutória, vale dizer, a proposta de modifi cação do Código Florestal de 1965.

Essa proposta não visa, de forma alguma, a insculpir a sustentabilidade na produção agropecuária nacional, visto como promove a redução das áreas pro- tegidas, sejam elas de preservação permanente ou de reserva legal — chegando, mesmo, a isentar de RL as propriedades rurais com até quatro módulos fi scais — além de, ainda mais retrogradamente, anistiar de qualquer punição os que já desmataram e nunca optaram pela recuperação trintenária de suas áreas de RL. As discussões na Câmara dos Deputados ensejaram, com base em critérios políticos, que o Governo Federal prorrogasse por mais seis meses o decreto que anistia multas ambientais pelo descumprimento do Código de 1965.41

Reformar o código na forma e nos termos atuais signifi ca ignorar a impor- tância dessa norma para o futuro do país. Principalmente se considerado o fato de que o Código de 1965 faz as vezes de norma federal que ordena o território, na ausência de lei que trate da política nacional de ordenamento territorial.42

E, ainda, vale lembrar que o projeto de Código Florestal que se discute não 41 Note -se, nesse sentido, que a nota ofi cial do Palácio do Planalto para justifi car essa prorrogação se apre-

senta da seguinte forma: “A defi nição da nova data atende a uma solicitação dos líderes partidários no Senado Federal, onde está em análise o projeto do Novo Código Florestal”.

42 Existe apenas projeto de política nacional de ordenamento territorial que se encontra em discussão no Ministério da Integração Nacional. Como marco normativo, vige o decreto n. 4297/2002, publicado no

conta com a participação do povo brasileiro, já que não se realizam audiências públicas nas unidades federativas, tampouco no Congresso Nacional.

Uma vez aprovada no Congresso Nacional, essa proposta por certo repre- sentará, num futuro não muito distante, problemas, tanto para os agricultores e pecuaristas individualmente considerados, como para o Brasil, enquanto Es- tado na ordem internacional. Para os primeiros, tendo em vista a importância de um mínimo equilíbrio ecológico, dado pelas fl orestas, para as suas atividades econômicas. Para o país, quando se consideram os compromissos internacionais em matéria de redução de emissões de gases de efeito estufa, além do comércio internacional, que exige cada vez mais produtos certifi cados.

Em segundo lugar, vale ressaltar outro elemento de pressão conhecido não apenas no Brasil, como em vários outros países: a expansão urbana. Desde 2006 o mundo ultrapassou a barreira dos 50% de habitantes vivendo em áreas ur- banas. Essa realidade é ainda mais impactante em países considerados “emer- gentes” — caso do Brasil — onde o índice de população urbana é de mais de 80%43 e o acesso aos serviços públicos essenciais é precário, pela falta de inves-

timentos e planejamento. O que também enseja um avanço descontrolado da zona urbana — seja ela formal ou não — sobre o meio natural.

Especifi camente no caso brasileiro, merece destaque o fato de que instru- mentos previstos pela lei fl orestal — as APPs e as áreas de RL — estabelecem um estreito ponto de contato entre zona urbana e rural. Por certo, mesmo que o Código de 1965 não se aplique às zonas urbanas, ele acaba defi nindo as áreas não edifi cáveis numa cidade, assim como impõe às áreas de expansão urbana a acolhida da RL das propriedades rurais de outrora. E faz isso certamente numa preocupação com a proteção e a ocupação sustentável do meio natural, mas, sobretudo, buscando garantir a segurança das populações urbanas, impedindo a ocupação de áreas de risco.

A realidade em meio urbano, entretanto, é bem distinta, tendo em vista que as cidades brasileiras comportam, segundo MARICATO (2000:9), verda- deiras “bombas socioecológicas”, que se devem à ausência do Estado no plane- jamento e no fornecimento de infraestrutura mínima para garantir a dignidade das populações urbanas carentes no país44 que se veem, conforme a autora,

imbuídas de um “direito à invasão”, mas não de um “direito à cidade”.

DOU de 11 de julho de 2002, que Regulamenta o art. 9º, inciso II, da Lei nº 6.938, de 31 de agosto de 1981,

estabelecendo critérios para o Zoneamento Ecológico -Econômico do Brasil — ZEE, e dá outras providências.

43 Neste país, o último recenseamento mostra um número de 84% de urbanos.

44 Nesse sentido, segundo a autora: “Concentração territorial homogeneamente pobre (ou segregação es- pacial), ociosidade e ausência de atividades culturais e esportivas, falta de regulação social e ambiental, precariedade urbanística, mobilidade restrita ao bairro, e, além dessas características todas, o desemprego

APONTAMENTOS SOBRE A GESTÃO FLORESTAL NO BRASIL 195

Temos, portanto, na ocupação urbana do território uma grande ameaça à gestão fl orestal sustentável no Brasil, e isso apesar do Estatuto da Cidade, nor- ma que veio em 2001 para disciplinar minimamente a ocupação dos espaços urbanos no país, mas que, ao inserir a regularização fundiária e a urbanização de áreas ocupadas por populações de baixa renda como diretrizes da política urbana, estimula o uso nocivo da propriedade e incentiva a indústria dos lotea- mentos clandestinos ou irregulares (CUSTÓDIO, 2002:215).

Por fi m, cabe -nos destacar como as grandes obras de infraestrutura in- fl uenciam negativamente na gestão fl orestal brasileira. Em especial quando o tema sustentabilidade está em pauta.

Atualmente contam -se alguns canteiros de obras no Brasil que se inserem no chamado Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) do Governo Fe- deral. Este programa, lançado ainda no segundo mandato do então presidente Luís Inácio Lula da Silva, tem por mote reverter o défi cit de infraestrutura que acompanha o brasileiro desde muitos anos. Nesse âmbito, podem -se enumerar, para o setor de transporte, as concessões de estradas e de aeroportos à iniciativa privada, assim como a diversifi cação dos meios de transporte, com a retomada da via férrea. Para o setor energético, o relançamento do programa nuclear brasileiro e a construção de novas usinas hidrelétricas, caso de Santo Antônio, Jirau e Belo Monte. Em relação ao Nordeste do país, a resposta vem com a transposição do rio São Francisco.

Ora, à parte o caráter político -eleitoreiro do PAC e do anúncio da reali- zação dessas grandes obras de infraestrutura, seus efeitos nocivos sob todos os aspectos do desenvolvimento sustentável são evidentes. Assim como evidente é a avidez dos setores público e privado em realizar essas obras, ainda que os estu- dos de impacto ambiental evidenciem custos socioambientais altíssimos ou que a análise fria do investimento demonstre a inconsistência dos subsídios gover- namentais, sob o ponto de vista do custo benefício. Há, portanto, em cada uma dessas obras, graves lesões ao meio natural — e claramente às fl orestas — que vêm sendo ofi cialmente minimizadas, até mesmo pela previsão legal expressa.45

Merece destaque, nesse âmbito, o caso da usina hidrelétrica de Belo Mon- te, no Pará, que é objeto de constantes críticas da população local e de persona- lidades, de ações do Ministério Público Federal visando a paralisação das obras

crescente que, entre outras consequências, tende a desorganizar núcleos familiares e enfraquecer a au- toridade do país: essa é a fórmula das bombas socioecológicas. É impossível dissociar o território das condições socioeconômicas e da violência”.

45 Não é demais ressaltar que, tanto no Código de 1965 como na lei da Mata Atlântica, o interesse social de que se revestem por presunção legal as grandes obras de infraestrutura, é sufi ciente para autorizar o desmate, inclusive de APPs.

e, recentemente, de denúncia de violação de direitos humanos, pelo Brasil, à Comissão Interamericana de Direitos Humanos.

Considerações finais

Diante do que foi aqui abordado, resta claro que, se em nível internacional falta um quadro normativo global específi co para a proteção das fl orestas, em nível brasileiro esse arcabouço existe. Entretanto, ressalve -se que os dois ordenamen- tos caminham em sentido inverso: em nível internacional, as fl orestas tendem a receber amparo efetivo do direito, enquanto em nível brasileiro, esse amparo tende a se esmaecer, com as reformas propostas ao Código Florestal de 1965.

Ao nos indagarmos sobre o que motiva tais elementos, podemos pensar, em nível internacional, na efetivação do princípio da integração, pela própria horizontalidade da temática ambiental que, claro, se deve às características do meio ambiente — natural e humano — que não se pode fragmentar. Note -se, ademais, não em tom alarmista, mas de progressiva conscientização, que os fóruns internacionais têm discutido de maneira cada vez mais intensa a temáti- ca ambiental e, especifi camente, os impactos negativos do desmatamento e da má gestão fl orestal sobre o clima, seu papel na criação e incremento dos riscos naturais e tecnológicos, sua relação com o ciclo hidrológico, enfi m, seus efeitos sobre o meio e a saúde humana.

Demais disso, na Conferência Rio + 20, está evidente o papel da gestão sustentável das fl orestas, a partir de temas como a economia verde em prol da eliminação da pobreza e da promoção do desenvolvimento sustentável.

Ainda não chegou, contudo, o momento da adoção de texto cogente em relação à proteção fl orestal. Cremos, entretanto, que tal documento não tarde a ser adotado em nível internacional, ainda que de forma indireta.

Em nível brasileiro, o retrocesso na legislação ambiental se deve, sobretudo, à histórica renitência em se cumprir com as regras, característica que faz do Có- digo de 1965, como de várias outras normas, letras mortas. Alie -se essa caracte- rística à visão estreita, individualista e acéfala de parte do setor do agronegócio, e temos a aprovação — por enquanto na Câmara dos Deputados — de projeto de lei que reduz a proteção fl orestal e anistia os que desmataram ilegalmente.

Essa fl exibilização na legislação brasileira vai de encontro às tendências do cenário internacional e, por conseguinte, representará problemas futuros para o Brasil em vários temas da agenda internacional, como é o caso da seara co- mercial, das discussões sobre mudanças climáticas, do meio ambiente em geral e das fl orestas, especifi camente. Retroceder na legislação ambiental interna é,

APONTAMENTOS SOBRE A GESTÃO FLORESTAL NO BRASIL 197

portanto, malferir compromissos, ainda que voluntários, assumidos em nível internacional, além de minar o desenvolvimento sustentável.

O que se fez em nível internacional, com a adoção de princípios expressa- mente voluntários, talvez não tenha sido apenas um mau acordo entre países, mas uma estratégia inteligente: em não sendo obrigatória a Declaração sobre as Florestas, não se poderia exigir sua efetividade, tampouco sua efi cácia. Essa decla- ração, entretanto, acabou por se mostrar efi caz, integrando -se aos ordenamentos jurídicos e às políticas públicas fl orestais de vários países. E a conferência Rio + 20 será, talvez, o momento propício para que esses princípios se tornem cogentes.

Nas discussões de verdadeiras políticas públicas mundiais de meio ambien- te, os Estados não podem seguir se escondendo atrás da velha noção de sobe- rania — capaz de acobertar os mais variados tipos de interesses e pressões — deixando que a vontade política de cada um determine a efetividade do direito internacional ambiental. O mesmo vale para o que ocorre em direito interno.

O intercâmbio, ou o diálogo, entre as duas esferas de governança — a local e a global — se faz, portanto, necessário para buscar uma proteção otimizada do meio ambiente, seja ele humano ou natural. Em todo caso, há que se considerar como pano de fundo o princípio da não regressividade das normas ambientais, tendo em vista ser o direito ao meio ambiente um verdadeiro direito humano.

Benzer Belgeler