A visão tradicional e extraída de uma interpretação literal da palavra vê no direito à moradia apenas a garantia de um teto para o cidadão. Entretanto, trata-se de uma visão ultrapassada. Isto porque, conforme já ressaltado, existe uma umbilical ligação entre o direito à moradia e o princípio da dignidade da pessoa humana, com reflexos na conceituação e delimitação do âmbito deste direito. Neste sentido, não apenas morar e possuir um teto está incluso no direito à moradia, mas, em especial, viver em condições satisfatórias, incluindo a casa em que mora o cidadão até as estruturas urbanas disponíveis, água disponibilizada, lazer, dentre outras características. Sergio Iglesias Nunes discorreu sobre a abrangência do direito à moradia:
A moradia consiste em um bem irrenunciável da pessoa natural, indissociável de sua vontade e indisponível, que permite a fixação em lugar determinado, não só físico, como també a fixação dos seus interesses naturais da vida cotidiana, exercendo-se de forma definitiva pelo indivíduo, e, secundariamente, recai o seu exercício em qualquer pouso ou local, mas sendo objeto de direito e protegido juridicamente. O bem da moradia é inerente à pessoa e independe de objeto físico para sua existência e proteção jurídica. Para nós, moradia é elemento essencial do ser humano e bem extrapatrimonial.70
O texto que melhor expõe a amplitude do conceito de direito à moradia é o Comentário Geral71 nº 4 sobre o Direito à moradia adequada, produzido pelo Comitê de Direitos Econômicos Sociais e Culturais72 da ONU, em interpretação ao parágrafo 1º do
70
SOUZA, Sérgio Iglesias Nunes de. Direito à moradia e de habitação: análise comparativa e suas
implicações teóricas e práticas com os direitos da personalidade. 2 ed. São Paulo: Editora Revistas dos
Tribunais, 2008, p.45.
71 Apenas a título ilustrativo, interessante citar que há traduções para o português que utilizam o termo
observação geral ao invés de comentário geral. A tíitulo de exemplo, consultar http://www.gddc.pt/direitos- humanos/onu-proteccao-dh/orgaos-onu-dir-econ-soc-culturais.html.
72 O CDESC (Comitê de Direitos Econômicos, Sociais e Culturais) é órgão das Nações Unidas criado em 1985,
com a finalidade de avaliar o cumprimento do Pacto Internacional sobre Direitos Econômicos, Sociais e Culturais (PIDESC) pelos países signatários. Constituído por 18 expertos em matéria de direitos humanos, tem por função primordial analisar os relatórios remetidos pelos Estados e emitir orientações, observações finais e
artigo 1173 do Pacto Internacional dos Direitos Econômicos Sociais e Culturais. Tal texto, por exemplo, dispõe que:
7. Segundo o ponto de vista do Comitê, o direito à habitação não deveria ser interpretado em um sentido estreito ou restrito que o equipara com, por exemplo, o abrigo provido meramente de um teto sobre a cabeça dos indivíduos ou julga o abrigo exclusivamente como uma mercadoria. Diferentemente, isso deveria ser visto mais propriamente como um direito a viver, onde quer que seja, com segurança, paz e dignidade. Isto é apropriado por, pelo menos, duas razões. Em primeiro lugar, o direito à habitação é integralmente vinculado a outros direitos humanos e a princípios fundamentais sobre os quais a Convenção é baseada. Esta “inerente dignidade da pessoa humana”, de que os direitos na Convenção são ditos derivar, exige que o termo “habitação” seja interpretado de forma que leve em conta uma variedade de outras considerações, fundamentalmente que o direito à habitação deveria ser assegurado a todas as pessoas independentemente da renda ou acesso a recursos econômicos. Segundamente, a referência no artigo 11(1) deve ser lida, referindo-se não apenas à habitação, mas à habitação adequada. Como a Comissão sobre Assentamentos Humanos e a Estratégia Global para Habitação para o ano 2000 afirmaram, “habitação adequada significa privacidade adequada, espaço adequado, segurança, iluminação e ventilação adequadas, infra-estrutura básica adequada e localização adequada em relação ao trabalho e facilidades básicas, tudo a um custo razoável”.74
Ao discorrer sobre o citado Comentário, Nelson Saule Junior afirma que:
O direito a moradia não deve ser interpretado em sentido estreito ou restritivo que o iguale, por exemplo, ao abrigo fornecido meramente como um telhado sobre a cabeça ou o considere exclusivamente como um produto. Deve-se considera-lo como um direito a viver com segurança, paz e dignidade em algum lugar. Devendo assim ser, pelo menos por duas razões. Em primeiro lugar, o direito à moradia é vinculado integralmente a outros direitos humanos e aos princípios fundamentais que servem de premissa ao Pacto. Assim pois, a dignidade inerente a pessoa humana, da qual os direitos contidos no Pacto derivam, requer que o termo moradia seja interpretado levando em conta outras diversas considerações, das quais o mais importante é que o direito à moradia deva ser assegurado a todas as pessoas, seja qual for sua renda ou acesso a recursos econômicos. Em segundo lugar, a referência ao parágrafo 1º do artigo 11 deve ser entendido não apenas como o direito à moradia, mas à moradia adequada.75
Continua o autor afirmando que:
Assim, o conceito de adequação é particularmente significativo com relação ao direito à moradia, posto que serve para sublinha uma série de fatores, a serem verificados quando da avaliação se determinada forma de moradia pode ser observações gerais. Estas cumprem o papel de uma "jurisprudência" do órgão, conquanto nenhuma das ações do Comitê tenha efeito vinculante para os Estados.
73 Artigo 11, parágrafo 1º: Os estados-partes no presente Pacto reconhecem o direito de toda pessoa a um nível
de vida adequado para si próprio e para sua família, inclusive à alimentação, vestimenta e moradia adequadas, assim como uma melhoria contínua de suas condições de vida. Os Estados-partes tomarão medidas apropriadas para assegurar a consecução desse direito, reconhecendo, nesse sentido, a importância essencial da cooperação internacional fundada no livre consentimento.
74 Comentário Geral nº 4 do Comitê de Direitos Econômicos Sociais e Culturais da ONU. Disponível em
http://www.dhnet.org.br/direitos/sos/moradia/trabalhohabitacaopronto.html#7. Acesso em 10.02.2014.
75
SAULE JUNIOR, Nelson. A proteção jurídica da moradia nos assentamentos irregulares. Porto Alegre: Sergio Antonio Fabris Editor, 2004, p. 102.
considerada ou não moradia adequada, segundo as finalidades do pacto. Ainda quanto à adequação for determinada em parte por fatores sociais econômicos, culturais, climáticos, ecológicos e outros, o Comitê acredita que, assim mesmo, é possível identificar determinados aspectos deste direito, que devem ser levados em consideração para esta finalidade, em qualquer contexto particular.76
Neste sentido, o Pacto citado elege algumas figuras essenciais para determinação da concretização do direito à moradia, como, por exemplo, a segurança jurídica da posse, a disponibilidade de serviços, materiais, benefícios e infraestrutura, gastos suportáveis, habitabilidade, acessibilidade, localização e adequação cultural. De fato, todos estes elementos se interligam e, juntos, se efetivados, concretizam de forma plena o direito à moradia adequada. E tal visão condiz plenamente com os dispositivos constitucionais e legais previstos no Brasil em relação ao direito à moradia e a outros princípios a ele interligados, pois, não há como se falar, por exemplo, em moradia adequada sem o respeito à dignidade da pessoa humana, que inclui o respeito a todos os elementos citados pela interpretação dada ao Pacto Internacional.
Vê-se, portanto, nesta definição um amplo espectro de conceituação do direito à moradia, condizente com todos os princípios e regras extraídas do ordenamento jurídico brasileiro, motivo pelo qual não há como defender a proteção jurídica da moradia dentro de demarcações limitadas ao local de habitação.