Referir-se à agricultura familiar permite inferi-la de imediato a um setor da economia – a agricultura – bem porque, apresenta uma dinâmica de produção com fatores na esfera econômica, que interfere diretamente na produção, tais como mão- de-obra utilizada, área plantada, a relação com o mercado e a ação da tecnologia sobre este conjunto de fatores. (CARNEIRO, 2008). Quanto ao adjetivo familiar na designação de agricultura familiar aciona-se a ideia da equipe de trabalho em que o caráter familiar se reduz ao trabalho familiar em oposição ao que é entendido como não familiar, isto é, o trabalho assalariado.
A família passa a ser o fenômeno que irá responder tanto pela organização técnica da produção quanto pela execução das atividades, inclusive define os rumos a serem dados pelos resultados obtidos que residem na especificidade da própria exploração familiar. Considera-se assim, que há uma combinação entre propriedade e trabalho na agricultura familiar em que a família assume no tempo e no espaço uma grande diversidade de formas sociais.
A condição de laço familiar evidencia que a atividade econômica não pode esgotar o conteúdo da relação, porque envolve atividades de reprodução biológica dos indivíduos, além do social, por meio da transmissão de conhecimentos e de patrimônio. Como salienta Garcia Jr. e Heredia (2009), os quais utilizam a expressão grupo doméstico, enfatizam que além deste grupo apresentar um quadro das atividades produtivas também define o horizonte onde o consumo individual e coletivo ganha significado, pois, estabelece uma rede de relações que permite o surgimento de novas gerações e assegura a transmissão de saberes e do patrimônio material acumulado pelas gerações que os precederam.
Assim, ao falar de família nos espaços rurais é impossível dissociar a unidade de produção da unidade de consumo, já que tais unidades econômicas apresentam a particularidade de serem compostas por relações de parentesco que delimitam os membros que podem ser mobilizados para as mais variadas tarefas.
Sobre esta forma de vida e de trabalho Garcia Jr. e Heredia, afirmam que há diferenças substancias da empresa capitalista,
Tais unidades são contrapostas às empresas capitalistas, compostas por assalariados recrutados, segundo as necessidades de rentabilidade monetária do montante de dinheiro investido – princípios bem diferentes dos que regem relações entre indivíduos que também fazem parte das mesmas unidades de consumo (2009, p. 225).
Diferentemente do trabalhador assalariado, a unidade familiar de produção por ser sustentada pela íntima relação entre trabalho e parentesco, apresenta maior margem de negociação interna na elaboração de caminhos alternativos de reprodução social, como as práticas pluriativas.
Cabe reforçar que a unidade familiar na agricultura tem a capacidade de elaborar estratégias que se adaptam às condições econômicas e sociais, pois, seus agentes de escolhas optam por como e o que produzir, além de como comercializar; tudo é decidido e proposto pelo núcleo familiar que após um planejamento e uma organização da produção, opta pelo plantio que o núcleo possa suportar.
Estes rearranjos, como denomina Carneiro (2008), dialogam com a tradição, seja rejeitando ou valorizando, e se tornam frutos de uma deliberação coletiva em que novos valores podem ser formulados ou antigos valores serem resgatados na busca de repostas, em caso de haver crises familiares. Sob este argumento, afirma- se que os fatores de ordem cultural e muitas vezes subjetivos interferem diretamente na trajetória econômica dessas unidades produtivas.
O caráter familiar da exploração familiar não reside apenas no tipo de relações de trabalho acionadas na produção, mas na integração deste fator como um conjunto de variáveis de ordem cultural e social que tornam uma dada unidade produtiva específica. (CARNEIRO, 2008, p. 260).
Para compreender a dinâmica da reprodução das unidades familiares, torna- se necessário levar em conta a diversidade de interesses em jogo decorrente das diferentes posições ocupadas por seus membros na hierarquia familiar e na atribuição de gênero, nas diferentes esferas das relações sociais. Sob esta
argumentação compreende-se que o trabalho agrícola exercido pela família materializa-se na unidade de produção, enquanto a unidade de consumo tem na casa o eixo de suas atividades.
Nesta divisão do trabalho da família o homem, pai de família centraliza as decisões nas atividades agrícolas ao passo que à mulher, mãe de família cabe a responsabilidade pela organização do consumo; já que o trabalho agrícola seja no sítio ou na roça fornece os elementos e as condições de existência da casa, atribui- se à exploração agrícola a condição do polo dominante. A oposição casa ou roça serve para demarcar o lugar de cada membro da família, segundo o reconhecimento social das atividades produtivas que realiza.
Atribui-se assim, que a casa fica associada ao repouso ou a restauração das forças, enquanto as atividades agrícolas dão as condições para que o consumo doméstico se efetue, sendo o controle dessas atividades definidas como prerrogativas do pai da família. Em contraposição à organização do consumo e do descanso, na casa, passa a ser uma atribuição feminina e de responsabilidade da mãe de família. Dessa forma, a oposição masculino/feminino inscreve-se na ordenação das tarefas cotidianas, tanto agrícolas como de criação de animais, negócios e artesanatos ou de preparo do necessário para o consumo e a restauração da vitalidade dos membros da família. (GARCIA Jr. e HEREDIA, 2009).
Assim, o trabalho familiar e a divisão interna de trabalho aparecem nos escritos de Marx e Engels (1996) na obra Ideologia Alemã, refere-se que,
(...) com a divisão do trabalho, na qual todas estas contradições estão dadas e que repousa por sua vez, na divisão natural do trabalho na família e na separação da sociedade em diversas famílias opostas umas às outras, dá-se ao mesmo tempo a distribuição e, com efeito, a distribuição desigual tanto quantitativamente como qualitativamente, do trabalho e de seus produtos; ou seja, a propriedade que já tem seu núcleo, sua primeira forma na família, onde a mulher e os filhos são escravos do marido. (1996, p. 46).
O caráter indissociável entre unidade de produção e unidade de consumo se apresenta pela distinção de domínios complementares e pensados como mundo das mulheres e mundo dos homens. Como geralmente o responsável pela manutenção e ampliação da propriedade familiar é o pai, o homem, também este é responsável pela transmissão da herança que afeta as trajetórias individuais, já que lhe é permitido através de regras costumeiras excluir e privilegiar herdeiros.
Verificou-se na história brasileira que os filhos de agricultores mantenedores das intergerações e que residem na casa dos pais vivos, independente da idade, conservam-se sob o domínio paterno e seus esforços produtivos não são classificados como trabalho, mas como ajuda. Como os filhos buscam realizar o desejo em adquirirem bens para seu gozo pessoal como vestuário e adereços, o esforço dispendido com atividade agrícolas ou de criação de animais é que vai proporcionar uma renda para adquiri-los; porém, este dinheiro não passa pelas suas mãos, mas para o chefe da família. Geralmente, os filhos nesta condição buscam rendas extras através de atividades fora do estabelecimento e complementam na propriedade a ajuda aos pais nas horas de folga.
Sobre o trabalho da mulher nesta conjuntura, também é qualificado como uma ajuda e não como trabalho, segundo Garcia Jr. e Heredia (2009). Isto porque o trabalho feminino, em um contexto dominado pela ideologia patriarcal, encontra-se subordinado às regras do contrato conjugal, entendido como parte de obrigações recíprocas estabelecidas pelos cônjuges o que faz com que isso impeça ou dificulte a formalização jurídica de um contrato de trabalho. Assim, Carneiro complementa que na agricultura “quando a mulher passa a ser casada assume várias obrigações ao marido entre elas, participar dos trabalhos da lavoura.” (2008, p. 261).
A mulher que desempenha diferentes papéis na agricultura, permanece fundamentalmente definida a partir de sua posição como esposa e, mesmo que ela exerça uma atividade produtiva que derive de rendimentos próprios, não são apropriados individualmente por ela, mas sim, incorporados ao conjunto da renda familiar.
Na organização familiar em que há uma íntima relação entre unidade doméstica e unidade de produção, cabe ao homem, na posição de chefe e mantenedor da família e da unidade produtiva, controlar os recursos familiares, em muitos casos, a renda da mulher passa a ser controlada também pelo marido, ainda que indiretamente. (CARNEIRO, 2008, p. 263). Diante do contexto da agricultura familiar, a mulher está inserida em uma estrutura familiar que integra ao mesmo tempo as relações de parentesco e as relações de produção e que se levar em conta, além dos bens materiais, outros tipos de bens como os simbólicos, que são transmitidos de uma geração a outra, verifica- se o papel-chave desempenhado pela mulher na dinâmica dessas famílias; contudo,
a mulher transcende o elemento da produção, do trabalho, para ser guardiã e transmissora de valores os quais garantem-na via da reprodução.
Assim, Carneiro (2008), amplia o debate ao afirmar que as especificidades atribuídas às explorações agrícolas pelo caráter familiar não deve levar em consideração os fatores que se restringem apenas ao funcionamento econômico das mesmas para sua reprodução social. É importante considerar os fenômenos culturais que estão presentes, tais como a transmissão do patrimônio familiar, as estratégias matrimoniais, as posições diferentes dos membros na estrutura familiar e na sociedade.
A mulher encontra-se como subordinada à estrutura familiar e à sociedade local, onde não há um reconhecimento e valorização de sua contribuição na esfera produtiva e reprodutiva, com pouca ou quase nada de opções; por isso, a mulher que permanecer na atividade agrícola, passa a ter uma forte resistência. Do contrário, causaria o êxodo rural feminino e consequentemente uma masculinização40 no campo.
Pode-se apontar como outra causa de migração do campo da mulher e também do jovem, a questão da individualização que ocorre no interior da família. Segundo a afirmação de Carneiro (2008), este termo provém do recebimento individual de um determinado membro da família que recebe salário como forma de remuneração fora da agricultura, o que se torna um elemento de ruptura da identidade entre família e unidade de produção; uma vez que a remuneração individualizada do trabalho acaba com os princípios fundados entre parentesco.
Assim, os filhos não se sentem mais estimulados a permanecer trabalhando com e para a família porque a renda obtida na unidade de produção é indivisível, não remunera individualmente cada membro da família; até porque a renda não seria suficiente para pagar um salário equivalente ao mercado de trabalho, seria preciso recorrer necessariamente a outras alternativas.
Em consequência, a agricultura não é mais vista pelos jovens como uma mera continuidade da atividade paterna, em virtude disso, ocorre uma ruptura com os laços de afiliação no qual se garante que quem nasce agricultor deve ser agricultor. Esta relação passa a ser rompida quando há um processo de
40 Sobre a questão do êxodo rural, envelhecimento e masculinização no Brasil: panorama dos últimos
cinquenta anos, há um estudo realizado por ABRAMOVAY, R. e CAMARANO, A. A., que foi apresentado no XXI Encontro Anual da ANPOCS, Caxambu, 1997 (Mimeo).
individualização que permite ao filho do agricultor a liberdade de escolha. O valor passa a orientar a atitude dos jovens e as suas estratégias profissionais, além de que direciona o jovem ao investimento profissional no espaço urbano.
Atualmente, a permanência no campo do segmento jovem não pressupõe mais assumir a atividade agrícola e neste sentido, ela será mais frequente quanto maiores as alternativas de trabalho e de sociabilidade nas regiões rurais. Esse movimento permite dizer que a terra deixa aos poucos de ser meio de produção para se transformar em bens de consumo e ocupa outro lugar nos projetos da juventude rural de origem agrícola; isto é, a terra poderá ser utilizada como capital inicial de outros investimentos ou explorada com serviços turísticos.
Sobre esta questão Martins (2008), complementa com a citação de Carneiro (2008), e esclarece que mesmo que haja um grande índice de migração do jovem e do envelhecimento no campo, não quer dizer que vá ocorrer a extinção do pequeno produtor familiar,
A saída dos jovens e o envelhecimento dos pais repercutem diretamente no modo como essa agricultura é organizada e funciona. Decadências familiares não significam, por isso, declínio e extinção do mundo camponês não significam necessariamente uma tendência histórica. São apenas expressões de uma oscilação cíclica própria deste mundo, embora nessa oscilação, em ritmo mais lento, possa estar contida uma tendência histórica. Obrigações cerimonias podem afetar esse equilíbrio e produzir consequências irremediáveis: um casamento, um funeral, um batizado podem comprometer esse equilíbrio por longo tempo. (MARTINS, 2008, p. 70).
Por isso, a família tem muitas vezes que recorrer a adaptações sociais e mudar seus costumes com a finalidade de ajustar a sociabilidade àquilo que comporta a economia da unidade familiar; precisa organizar-se com cuidadoso balanço de suas possibilidades para visualizar a existência de recursos que vão além da mera remuneração da força de trabalho que ocorre de forma coletiva e familiar. Neste sentido, Carneiro reforça que para garantir a reprodução da juventude neste espaço rural, é imprescindível que,
Sejam dadas aos jovens condições para o desenvolvimento de atividades alternativas a agricultura e ampliadas e melhoradas as condições de acesso e bens (materiais e simbólicos) por eles valorizados em que a vida no campo passa a oferecer alternativas bem mais atraentes [...] a valorização da atividade agrícola é acompanhada pelo desejo de nela permanecer, desde que as condições de trabalho não sejam mais desgastantes e sem retorno financeiro como têm sido. (CARNEIRO, 2008, p. 265).
Isto demonstra que a existência da família na agricultura decorre da forma como ela se organiza, por isso, é importante para a família deter combinações e redistribuições dos papéis tradicionais vinculados tanto ao sexo como à idade. Este aspecto permite que as estratégias que as famílias definem sejam estabelecidas para além e exclusivamente da lógica econômica em direção a outras possibilidades41, favorecidas muitas vezes pela forte mobilidade geográfica, característica deste segmento social.
Desta maneira a família consegue garantir suas características próprias como grupo social e ao mesmo tempo, vivencia sua transformação em relação às suas características sócio profissionais original. É como se as unidades familiares rurais através do dinamismo pluriativo42 e familiar aproximassem-se das unidades familiares urbanas.
Existem diferentes possibilidades de se associar a atividade não agrícola no interior da unidade familiar agrícola e que implica uma diversidade de significados para a reprodução social da família. A pluriatividade nesta perspectiva, é uma noção que designa um processo social plural, o que significa reconhecer processo pluriativos incorporadores de atividades não- agrícolas como constitutivos da própria dinâmica social da agricultura familiar. (CARNEIRO,2008, p. 267).
Ainda em concordância com a autora acima, é necessário entender a complexidade das relações sociais que definem e redefinem a família, uma vez que se deve privilegiar a família como unidade social e não apenas como unidade de produção.
Assim, a reprodução da família é articulada com a sua inserção na sociedade capitalista unificando as dimensões econômicas, de parentesco e de propriedade, sendo uma estratégia de reprodução que passa pelo mundo do trabalho e que, por sua vez, significa uma naturalização das relações familiares.
41 Estas possibilidades se referem à pluriatividade, em que a família ou alguns membros podem
cuidar de sua propriedade agrícola e complementar com atividades não agrícolas fora de sua unidade econômica, inclusive trabalhos na área urbana.
42 A pluriatividade refere-se a situações sociais em que os indivíduos que compõem uma família com
domicílio rural passam a se dedicar ao exercício de um conjunto variado de atividades econômicas e produtivas, não necessariamente ligadas à agricultura ou ao cultivo da terra, e cada vez menos executada dentro da unidade de produção. A dinâmica da própria agricultura no espaço rural condiciona e determina outras atividades, percebidas como uma das dimensões estabelecidas entre a sociedade e o espaço ou entre o homem a natureza. Esta concepção não deixa de reconhecer a agricultura como atividade produtiva e integrante do mundo rural, mas em algumas regiões tem-se observado a diminuição de sua importância no que se refere à geração de emprego e a ocupação, como demonstra os estudos de Schneider (2003).
Esta naturalização funciona através de um instrumento cognitivo que permite traçar outras estratégias que possam culminar com a reprodução da família; dito de outra forma, esta compreensão deve permitir o conhecimento das lógicas sociais e não somente econômicas para dar conta da variedade de formas da produção e reprodução agrícola. (VILELA, 1997).
1 O DESENVOLVIMENTO E A EXPANSÃO CAPITALISTA NA AGRICULTURA