O significado do trabalho tem sido objeto de estudo de áreas diversas do conhecimento - Filosofia, Sociologia, Economia, Administração, Psicologia, Saúde, entre outras. Essa visão multirreferencial do trabalho evidencia a natureza plural dessa atividade humana, e a diversidade de olhares de que é objeto reflete a heterogeneidade cultural da sociedade relativa às representações sociais do trabalho ao longo da história. Além do mais, essa diversidade de interpretações também reflete sua importância na vida das pessoas e na sociedade em geral.
O trabalho é designado por diferentes conotações implícitas em seu significado, que vão além do vínculo imediato que lê mantém na realidade social. Ao mesmo tempo, é acompanhado de um campo semântico amplo e fluido que oscila entre seu aspecto penoso, ignóbil e hostil, até aspectos positivos como atividade gratificante, honrosa, ética e criativa. Tais conotações, em geral, estão ligadas à tradição, à fantasia, aos mitos e utopias. Assim, na “idade de ouro” é evocado o ideal de um mundo de indolência, um mundo sem trabalho, em que todos os ociosos são alimentados, vestidos e cumulados de todos os bens sem precisar trabalhar.
Já a mitologia grega confere ao trabalho uma conotação ética. Em “ Os trabalhos e os dias” – ERGA – , de Hesíodo, os trabalhos estão associados ao florir da natureza, ao crescimento das plantas, ao amadurecer de seus frutos, à beleza e harmonia da natureza. Os dias, momentos ou circunstâncias em que os trabalhos acontecem (ERGA), ganham uma conotação ética associada ao cumprimento da tarefa com responsabilidade e justiça (LESKY, 1995). Nessa cultura, o trabalho é uma dádiva enviada ao homem pelos deuses, e o suor imposto na labuta diária, em vez de ser interpretado como castigo passa a ser considerado como um valor que enobrece o homem.
Na terminologia relativa ao trabalho, três noções distintas estão associadas aos termos que lhe emprestam significados, a noção de pena ou sofrimento, a noção de atividade que enobrece, e à noção de criação. A primeira liga-se ao termo labor, labóris, que significa pena, sofrimento, fadiga, mal estar, dor, enfermidade; laborare era ser vítima de algum ou de todos esses males, e laborator era aquele que sofria. O segundo termo é outra palavra latina: ars, artis, e significa arte; daí artífex – artífice, artesão. Aqui nos aproximamos da idéia de um trabalho como algo que enobrece e nos traz beleza e harmonia. O terceiro termo é a palavra opus, que significa obra; de opus derivam operari (cria uma obra) e operarius: aquele que cria a obra, portanto, o operário.
O termo trabalho vem do baixo latim tripalium – três paus, um instrumento utilizado para subjugar os animais e forçar os escravos a aumentar a produção. Esse instrumento era um objeto de tortura, semelhante à cruz que os cristãos acreditam ter sido o símbolo da morte de Cristo. Temos assim uma outra acepção em que o trabalho, contrapondo-se à visão dos gregos, está associado à exploração e ao sofrimento.
A tradição judaico-cristã encarregou-se de perpetuar em nosso imaginário a idéia do trabalho como um castigo divino, conseqüência do pecado original e da desobediência humana às ordens divinas. Desde então, o trabalho que era uma dádiva dos deuses para os gregos, começa a ganhar conotação bem diferenciada: castigo e sofrimento, necessários à sobrevivência.
Ainda nos apoiando nas divergências entre a visão grega e a visão judaico-cristã, convém ressaltar que há uma diversidade de motivos que nos impelem a trabalhar, múltiplas necessidades a serem satisfeitas, entretanto, o fator nocivo ou o agente causador de sofrimento associado ao trabalho não está no trabalho em si mesmo, mas nos modos ou condições sob os quais é realizado.
No caso do trabalho docente, poderíamos enumerar diversos agentes causadores do sofrimento, visto que são submetidos a uma série de exigências, e, utilizando-nos de uma linguagem da matemática, inversamente proporcionais ao que é oferecido como recompensa ou reconhecimento.
Convém, portanto, destacar a idéia de trabalho como ação do homem, que foi interferindo na natureza, moldando ou organizando a sociedade, o que lhe possibilitou a sobrevivência e também a vida de outros seres da mesma espécie. Assim agindo, passou a experimentar variadas formas de organização intermediadas pelo trabalho. De acordo com Yamamoto e Borges (2004), passou do socialismo característico da comunidade
primitiva, para formas menos evoluídas, como o escravismo, o feudalismo e o capitalismo contemporâneo. No capitalismo, o trabalho é considerado como servidão, exploração; o esforço, a energia, o tempo e capacidade de produzir são considerados e tratados como mercadoria a ser vendida.
O caráter degradante de muitos trabalhos, especialmente nas sociedades capitalistas, sem dúvida alguma, tornou-se um mal, ensejando grande sofrimento para o homem. Esse aspecto foi exaustivamente contemplado por Marx, em O Capital (1983), mas aqui nos valemos do que ressaltou nos seus Manuscritos de Economia y filosofia, quando tratou do caráter alienante do trabalho.
¿Em qué consiste, entonces, la enajanación del trabajo?
Primeramente en que el trabajo es externo al trabajador, es decir, no pertence a su ser; en que en su trabajo, el trabajador no se afirma, sino que si niega; no se siente feliz, sino desgraciado; no desarrolla una libre energía física y espiritual, sino que mortifica su cuerpo y arruina su espírito. Por eso el trabajador sólo se siente en sí fuera del trabajo, y en el trabajo fuera de si.2 (MARX,1985, p. 108-109).
Sem podermos dissociar o professor da condição de trabalhador, embora diferente do assalariado que trabalha diretamente na produção fabril ou agrícola, situado nesta sociedade capitalista, convém ressaltar o fato de que, como muitos outros trabalhadores, terá suas atribuições estabelecidas num contrato de trabalho, cumprindo regras e exigências estabelecidas, na maioria das vezes sem a sua participação. Suas ações estarão direcionadas, principalmente, para atender os interesses das escolas, faculdades ou universidades em que leciona, não importando suas necessidades, aspirações ou interesses pessoais. Exercer o ofício nestas condições, sem dúvida alguma, pode desencadear muita insatisfação, desgaste energético, estresse e adoecimento do professor.
Sem termos a pretensão de negar os males que a falta de condições adequadas de trabalho pode causar aos trabalhadores, e levando em conta a alienação de que nos fala Marx (1985) e da qual somos vítimas, ao ponto de só estarmos bem quando fora do trabalho, neste estudo julgamos importante dialogar com outros significados do trabalho, especialmente da perspectiva psicológica.
2 Em que consiste, então, a alienação do trabalho?
Primeiramente em que o trabalho é externo ao trabalhador, quer dizer, não pertence ao seu ser. E que em seu trabalho, o trabalhador não se afirma, senão que se nega; não se sente feliz, senão desgraçado; não desenvolve uma livre energia física e espiritual, senão que mortifica o seu corpo e arruína seu espírito. Por isso, o trabalhador só se sente em si fora do trabalho, e no trabalho fora de si.
Realçando a dimensão psicológica do trabalho, Codo (1999) menciona a importância da percepção que o trabalhador tem do seu trabalho, ou seja, o significado atribuído por quem desempenha a ação. Alega que tal percepção contribui para o fortalecimento da auto-estima e estruturação da identidade pessoal. A sensação de realizar um trabalho inútil confere ao trabalhador uma sensação de inutilidade e ausência de motivação. Dentro ainda de uma abordagem psicológica, porém, o trabalho é considerado um dos principais vínculos de união da pessoa com a realidade. As investigações realizadas pelo autor ainda revelam que a preocupação decorrente da falta de trabalho remunerado é associada a uma redução do bem-estar psicológico, falta de independência e de controle emocional.
Também Erikson (2000), quando descreve as várias fases psicológicas na vida dos humanos, associa a importância do trabalho na formação da identidade e reafirma ser um elo de ligação da pessoa com o mundo que a cerca. Dentro dessa mesma visão, Vala (1988) reforça a idéia de ser o trabalho um fator importante na conquista da identidade do jovem. Fazendo uma relação entre o trabalho e o estabelecimento de relações interpessoais, Estramiana (1992) refere que a maioria dos trabalhos necessita, para sua realização, de que o trabalhador interaja com outras pessoas; daí deduzirmos que ficar sem trabalhar também implica uma situação de isolamento e afastamento social.
Aprofundando a vertente psicológica, agora com base em princípios psicanalíticos, merecem destaque as considerações elaboradas por Vroom (1964), que associa o trabalho a uma necessidade inata de desenvolvimento corporal e intelectual. O trabalho é, simbolicamente, uma forma de controlar o meio ambiente. O desejo de controle é posto como uma necessidade inata, portanto, manter-se ativo e ocupado passa a constituir uma fonte de motivação para viver e a inatividade, conseqüentemente, produzirá uma sensação de mal-estar psicológico e inutilidade social.
Investigando sobre as funções e o significado do trabalho e do emprego na vida das pessoas, Morse e Weiss (1995) acentuam que o significado vai muito além da visão como meio de sobrevivência. Essa afirmação foi comprovada, após desenvolverem uma pesquisa para averiguar o significado do trabalho na vida das pessoas. Entrevistaram 401 trabalhadores e perguntaram se eles continuariam trabalhando, caso viessem a receber uma herança, grande quantia em dinheiro que lhes permitisse ter vida confortável e sem precisar trabalhar. Do grupo entrevistado, 80% declararam que continuariam trabalhando. Esse dado serviu para reafirmar o trabalho como necessidade
de realização humana, uma ação essencial, e não uma mera condição para a sobrevivência.
Reforçando o caráter de ação essencial ao ser humano, é reveladora a investigação realizada, no final da década de 80, por Mow (1987), a respeito do significado do trabalho. A pesquisa foi realizada em oito países e questionava profissionais das mais diversificadas áreas de atuação. A questão proposta, bastante semelhante à da pesquisa anterior, investigava se eles desejariam continuar trabalhando, mesmo tendo condições financeiras para viver sem trabalhar. Como resultado, e numa amostra aproximada de 15 mil pessoas, 80% dos entrevistados afirmaram continuar trabalhando, embora sem precisar preencher necessidades econômicas. Esse resultado, outra vez, nos remete ao entendimento do trabalho como ação capaz de preencher necessidades diversificadas no ser humano.
A despeito dessa vertente psicológica que atribui significados tão positivos ao trabalho - necessidade inata, fonte de motivação e realização humana - na sociedade capitalista, esses significados se completam e se repelem, num dinamismo permanente, já que o trabalhador - e nesse estudo nos referimos ao professor - se percebe dentro e fora da ação docente, pois, quase sempre, não é chamado a pensar ou conceber seu trabalho, restando-lhe apenas vender sua força de trabalho para realizar o que já fora decidido e determinado por outrem.
Isto, em parte, se explica pela significativa correlação entre o trabalho sadio e a carga mental envolvida na significação dada ao trabalho; segundo a qual:
Trabalhar não faz mal a ninguém. As pessoas gostam de trabalhar, de se sentirem produtivas, participando de alguma coisa, oferecendo um serviço para alguém. É a sensação de estar sendo útil, de dar sentido à própria existência, de se fazer necessário. Trabalho se liga a reconhecimento social, à identidade e a auto-estima. Basta ver o sofrimento de um desempregado, ou mesmo as dificuldades de um recém-aposentado (SORATTO; PINTO, 1999, p. 282).
Saindo do enfoque psicológico, entretanto, e adentrando o campo social, temos o trabalho como possibilidade de transformação da natureza, tornando-se, portanto, um elemento significativo na socialização. Pode ser interpretado como veículo de relacionamento do ser humano com a sociedade, porquanto é o trabalho que permite o provimento do necessário à subsistência. De acordo com Estramiana (1992), a primeira função do trabalho é prover os meios necessários para que uma pessoa subsista; desta
forma, ficar sem trabalhar afeta diretamente a qualidade de vida nos aspectos mais primários para garantir a sobrevivência humana.
O problema da falta de trabalho ou o desemprego também aparece nos trabalhos de Enguita (1989), quando questiona a imagem que se difunde na sociedade quanto à oportunidade de trabalho para todos. Quando essa imagem se torna crença, infunde naqueles que não conseguem trabalho a sensação de fracasso, culpa e falta de confiança em si mesmo.
Tendo em mente essa diversidade de significados e formas de conceber o trabalho, torna-se possível a convivência dos antagonismos, pois, embora estando submetidos às péssimas condições salariais e de trabalho, vendendo sua força de trabalho sem participar da concepção, muitos professores ainda se sentem realizados nesse ofício. Na ação docente convivem os elementos antagônicos, a despeito da degradação experimentada no trabalho, pequenos avanços e contribuições que conseguem oferecer na vida dos alunos proporcionam a experiência do prazer, sentimentos de realização e desejo de continuar sua ação.
A esse respeito, Domingo (2003, p.16), tratando da proletarização da classe docente, assinala que a docência não pode ser definida apenas pelo que se espera ou deseja, mas pela sua materialização e condições em que é praticada.
A tese básica da proletarização da classe docente é que o seu trabalho foi sofrendo uma subtração progressiva de uma série de qualidades que acabou por conduzir os professores à perda de controle e sentido sobre o seu próprio trabalho, ou seja, a perda de autonomia.
Esse autor defende a idéia de que as transformações sofridas pelos docentes, tanto nas condições de trabalho, como no tipo de tarefas que realizam, acabam aproximando-os, sempre mais, dos interesses da classe operária. É o que ele denomina de proletarização da classe docente, ou seja, uma nítida separação que se pode perceber entre concepção e execução do processo de ensinar, além da perda gradativa do exercício reflexivo e troca de experiências.
Descompasso é a expressão, que melhor se aplica, quando focamos a atenção nas condições de trabalho impostas aos docentes. Desconsiderando sua trajetória de formação e a complexidade da profissão, igualmente a tantos outros trabalhadores, experimenta a exploração e a sobrecarga de atribuições e cobranças.