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Aos 8 de setembro de 2000, a Assembleia Geral da ONU adotou a Resolução A/RES/55/2, conhecida como Declaração do Milênio. Nesta declaração, os Estados reafirmam

sua fé na ONU e em sua Carta Constitutiva, e os objetivos de um mundo mais pacífico, mais próspero e mais justo.

Ainda, reconhecem sua responsabilidade coletiva de defender, a nível mundial, a dignidade, a igualdade e a não-discriminação. Reafirmam o fundamento e os princípios do Direito Internacional Público, como a igualdade soberana, a integridade territorial, a independência politica, a solução pacífica de conflitos, a não-intervenção, a autodeterminação dos povos, a cooperação, o respeito aos direitos humanos e às liberdades fundamentais.

Os Estados ressaltaram os seguintes valores a permearem as relações internacionais no século que se iniciava: a igualdade (não discriminação), a solidariedade, a tolerância, o respeito à natureza, o compartilhamento de responsabilidades e a liberdade, que significaria que “[l]es hommes et les femmes ont le droit de vivre et d’élever leurs enfants dans la dignité, à l’abri de la faim et sans craindre la violence, l’oppression ou l’injustice.” (ONU, 2000, par. 6) (grifos nossos).

Esta declaração tem uma grande importância e valor na esfera internacional, pois não somente reafirma o compromisso da sociedade internacional com a paz e o desenvolvimento para todos, mas também porque os Estados se comprometem a alcançar objetivos determinados, com metas estabelecidas.

Fazer do desenvolvimento uma realidade para todos e eliminar a pobreza é um dos objetivos a serem alcançados em decorrência desse compromisso (ONU, 2000, parte III). Para tal, a Declaração do Milênio coloca como metas o seguinte:

Em seu parágrafo 19

19. Nous décidons également:

• De réduire de moitié, d’ici à 2015, la proportion de la population mondiale dont le revenu est inférieur à un dollar par jour et celle des personnes qui souffrent de la faim et de réduire de moitié, d’ici à la même date, la proportion des personnes qui n’ont pas accès à l’eau potable ou qui n’ont pas les moyens de s’en procurer. (grifos nossos)

Os dois objetivos acordados no parágrafo 19 são diretamente relacionados com o direito à alimentação, pois determinam como metas a redução à metade do número de pessoas que sofrem pela fome e também a proporção das pessoas que não têm acesso a água potável ou os meios de atender a essas necessidades até o ano de 201520.

Em seu parágrafo 20,

20. Nous décidons en outre: [...]

D’établir des partenariats solides avec le secteur privé et les organisations de la société civile en vue de promouvoir le développement et d’éliminer la pauvreté. (grifos nossos)

Nos parágrafos 24 e 25,

24. Nous n’épargnerons aucun effort pour promouvoir la démocratie et renforcer l’état de droit, ainsi que le respect de tous les droits de l’homme et libertés fondamentales reconnus sur le plan international, y compris le droit au développement.

25. Nous décidons par conséquent:

• De respecter et de faire appliquer intégralement la Déclaration universelle des droits de l’homme.

• De chercher à assurer, dans tous les pays, la promotion et la protection intégrale des droits civils et des droits politiques, économiques, sociaux et culturels de chacun.

• De renforcer, dans tous les pays, les capacités nécessaires pour appliquer les principes et pratiques de la démocratie et du respect des droits de l’homme, y compris les droits des minorités. (grifos nossos)

Em seus parágrafos 29 e 30,

29. Nous n’épargnerons aucun effort pour faire de l’Organisation des Nations Unies un instrument plus efficace aux fins de la réalisation des objectifs prioritaires suivants: la lutte pour le développement de tous les peuples du monde, la lutte contre la pauvreté, l’ignorance et la maladie, la lutte contre l’injustice, la lutte contre la violence, la terreur et la criminalité et la lutte contre la dégradation et la destruction de notre planète.

30. Nous décidons par conséquent: [...]

• De renforcer encore le Conseil économique et social, en faisant fond sur ses récents succès, afin qu’il puisse être en mesure de remplir le rôle qui lui est confié dans la Charte. (grifos nossos)

A Declaração do Milênio é um compromisso firmado entre os Estados-membros da ONU no sentido de diminuir o sofrimento pela fome, de eliminar a pobreza, de respeitar os direitos humanos, de respeitar e efetivar integralmente a Declaração Universal dos Direitos Humanos de 1948 (DUDH), de promover e proteger o conjunto indivisível dos direitos civis, políticos, econômicos, sociais e culturais de toda pessoa, de reforçar o Conselho Econômico e Social nas atividades de sua competência.

Esse compromisso firmado gera oponibilidade com relação a todos esses objetivos a todos os Estados que o firmaram, em razão do consentimento que deram e em decorrência da regra pacta sunt servanda. Com o alcance de cada um desses objetivos, estaria mais próxima a efetividade do direito à alimentação.

Entretanto, o ano já é 2015 e muitos desses objetivos não foram alcançados por grande parte desses Estados.

Segundo a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), no Relatório sobre a insegurança alimentar de 2015 (FAO; IFAD ;WFP, 2015), muitos progressos foram feitos, no entanto, muitos países ainda não conseguiram atingir a meta de redução dos dois indicadores relacionados à Declaração do Milênio: a prevalência da subnutrição e o número de crianças menores de 5 anos abaixo do peso adequado. Hoje ainda temos cerca de 795 milhões de pessoas subnutridas no planeta.

Segundo o Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF), no Relatório sobre a situação das crianças no mundo de 2015 (UNICEF, 2014), em 2013, 6.3 milhões de crianças morreram antes de completarem 5 anos. Cerca de 17000 crianças de até 5 anos morrem todos os dias. Em 2013, 15% das crianças de até 5 anos estavam com moderada ou severa subnutrição; 25% das crianças de até 5 anos apresentavam duas medidas de desvio abaixo do padrão médio para altura; 8 % das crianças de até 5 anos apresentavam duas medidas de desvio abaixo do padrão médio para a medida peso por altura; e 6 % das crianças de até 5 anos apresentavam duas medidas de desvio acima do padrão médio para a medida peso por altura (sobrepeso).

Golay apresenta os efeitos da falta de alimentação adequada às crianças menores de 5 anos: “Un enfant manquant d’aliments adéquats em quantité suffisante, de sa naissance à l’âge de 5 ans, en supportera les séquelles à vie. Privées de nourriture, ses cellules cérébrales auront subi des domages irréparables." (GOLAY, 2011, p. XX)

Percebe-se que a alimentação é a necessidade mais básica de todos os seres. Os efeitos da fome, da subnutrição ou da alimentação insuficiente em quantidade ou em qualidade tanto para as crianças quanto para os adultos são incapacitadores.

A fome, a subnutrição e a má-nutrição geram efeitos em todos os estágios da vida do indivíduo (GOLAY, 2011, p. 59) Ainda segundo Golay, a fome é a principal causa de morte no nosso planeta (GOLAY, 2011, p. XVII). Este autor nos traz vários exemplos de como tais carências podem ter efeitos nocivos: a carência de iodo é a principal causa de atraso mental, que afeta 43 milhões de pessoas no mundo (GOLAY, 2011, p. 59, nota 237), a subnutrição e a má-nutrição que se transmitem de mãe para filhos gera um círculo vicioso. Uma grávida subnutrida ou má-nutrida dará a luz a um bebê com baixo peso e que estará sujeito a diversos graus de atraso mental. Se esse bebê sobreviver e continuar sofrendo de subnutrição até os 5 anos seu corpo não se desenvolverá adequadamente e ele pode acabar ficando inválido. Ainda, as crianças de baixo peso ao nascer têm quociente intelectual cerca de 5 pontos inferior à média das crianças com boa saúde. Se esses bebês não forem amamentados no seio

essa diferença no quociente intelectual será de até 8 pontos (GOLAY, 2011, p. 60 – texto e nota 241).

No início do século XXI, “[...] perto de dois bilhões sofrem de graves carências de ferro, iodo, vitamina A, de outras vitaminas ou minerais. Mais de um bilhão de pessoas não têm acesso a água potável e por volta de 840 milhões são vítimas de subnutrição [...].” (MAZOYER; ROUDART, 2010, p. 25).

Sem a efetividade do direito à alimentação, ou seja, sem que todo ser humano tenha acesso a uma alimentação suficiente, sadia e nutritiva, não há que se falar em efetividade de qualquer direito humano, já que todo ser humano depende da alimentação para se desenvolver física e intelectualmente.

Sem uma alimentação suficiente, sadia e nutritiva, o corpo não se desenvolve ao máximo de sua possibilidade, o cérebro tem seu desenvolvimento comprometido, a pessoa não tem energia suficiente para suas atividades diárias, comprometendo sua saúde. Sem alimentação não há saúde, não há vida com dignidade, não há capacidade para educação ou para o trabalho. Não há exercício de cidadania, não há fruição de liberdade.

Adicionalmente, a falta da alimentação suficiente gera conflitos que podem escalonar até disputas por terra, pelo alimento em si, por vagas em programas governamentais, para citar alguns. Em países com condições mais precárias de vida até mesmo mata-se pelo alimento.

Em um estudo publicado pela revista Nature em Agosto de 2011 as mudanças climáticas que afetam a produção agrícola e aumentam a fome e a pobreza, somadas à desigualdade e à instabilidade política foram relacionadas diretamente à eclosão de guerras civis no Peru em 1982, quando após a destruição de plantações o movimento do Sendero Luminoso iniciou seus ataques revolucionários; no Sudão em 1963, 1976 e, ainda, em 1983, culminando em um dos piores conflitos armados desde a Segunda Guerra Mundial. Outros exemplos de conflitos gerados pela combinação da fome, pobreza, desigualdade e instabilidade política são El Salvador, Filipinas e Uganda em 1972; Angola, Haiti e Myanmar em 1991 e Congo, Eritreia, Indonésia e Ruanda em 1997.21

Entendemos que garantir a efetividade do direito à alimentação a toda pessoa é imprescindível para que se possa ter a efetividade do direito a uma vida digna.

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Estudo conduzido por Solomon M. Hsiang no Earth Institute da Universidade de Columbia, disponível em

1.4.3 O conteúdo dos direitos e garantias fundamentais não é somente o que formalmente

Benzer Belgeler