As informações divulgadas pela TV são subdivididas basicamente em informações de diversão, em que seu conteúdo não contém qualquer valor cultural e as formativas, que auxiliam na construção do conhecimento e que propiciam à população repertório para desenvolverem opinião crítica.
Desde 1967, com a fundação da TV Educativa, por meio do Decreto-Lei 236, há a obrigatoriedade das emissoras comerciais transmitirem cinco horas de programação educativa por semana. Com a revisão da Constituição, em 1988, as emissoras de rádio e TV tiveram reforçadas suas finalidades culturais e informativas, priorizando também a produção regional. Essa mudança teve origem na necessidade de se atender a uma expectativa da sociedade em ver contemplado nos espaços jornalísticos assuntos pertinentes à sua realidade e ao contexto social, ou seja, temas mais próximos do seu cotidiano, que realmente expressassem suas preocupações e necessidades e que apresentassem uma abordagem mais clara e objetiva.
No entanto, por ainda não ter sido regulamentada, essa formatação não foi inteiramente adotada pela mídia eletrônica, mas cumprindo uma exigência da legislação brasileira, as emissoras de TV vêm destinando cerca de 5% do total de tempo de sua programação ao jornalismo, algumas delas com percentual bem superior a isso. Contudo, essa legislação não versa sobre a qualidade da programação jornalística, logo, muitos dos programas classificados como jornalísticos apresentam conteúdos que melhor se classificariam como entretenimento do que de cunho formativo.
Fernandes (2003, p. 241) aponta os danos causados quando a mídia não cumpre seu papel de mediadora de cultura e conhecimento:
“Os meios de comunicação têm a função de socializar o conhecimento. Se a comunicação não contribuir para a educação dos indivíduos, a própria sociedade humana tem sua estrutura ameaçada. No mundo moderno, já há uma tendência à concentração da mídia nas mãos de alguns grupos poderosos, com prejuízos para a maioria dos receptores passivos.”
No Brasil, o jornalismo público demorou muito a ser implantado. Só a partir de 2000, algumas emissoras públicas de TV tomaram a iniciativa de concretizar uma proposta que denominaram de jornalismo público, como pode ser verificado nas TVs dos Estados de São Paulo, Rio Grande do Sul, Palmas, Ceará e Minas Gerais.
Os telejornais dessas emissoras passaram a abordar os temas de interesse da população em maior profundidade, buscando esclarecer os assuntos e complementá-los com outras informações, ou fazer paralelos com outras questões de forma a torná-los mais compreensíveis.
Pelo que se tem visto, para os canais comerciais abdicarem, mesmo que parcialmente, do controle sobre os temas a serem discutidos ou veiculados não é uma tarefa fácil – principalmente para a imprensa brasileira. Costa (2004) aponta algumas características que dificultam a adoção das características do jornalismo público (ou cívico) pela imprensa brasileira:
“A imprensa brasileira nada tem em comum com os princípios do jornalismo cívico. É uma instituição conservadora, avessa a qualquer insinuação de abertura para ingerências externas. Confunde crítica com limitação de liberdade e reage, com todo peso da influência que ainda lhe resta, contra qualquer reclamo de mais transparência em seus procedimentos. A simples leitura de cartas de leitores descontentes provoca dores de barriga em muitos editores.”
O trabalho de Martins da Silva (2002) já apontava essa dificuldade da implantação de um efetivo jornalismo público no Brasil.
“Como gênero, o jornalismo público ainda não adquiriu o status de outras especializações, a exemplo da crônica policial, do jornalismo esportivo, do jornalismo político, do jornalismo econômico e do jornalismo científico. Identificado em suas origens ora como civic journalism, ora como public
journalism, o jornalismo público ainda não encontrou no Brasil nem uma
tradução definitiva nem uma compreensão do que ele representa enquanto função, área de cobertura e campo profissional. Há indicadores, no entanto, de que algumas práticas jornalísticas da chamada “grande imprensa” brasileira começam a assentar as bases para o que, entre nós, poderia vir a se chamar de jornalismo público.”
A Rede Globo, por exemplo, buscando se aproximar dos consumidores e conseguir um diferencial competitivo em relação aos concorrentes, vem fazendo reformulações em
seus jornais regionais (SPTV, RJTV e de outras praças), denominando essa formatação de jornalismo comunitário. Esses programas vão ao ar duas vezes ao dia, às 12h00 e às 19h00. As reformulações efetuadas na programação envolveram a agregação de prestação de serviço de forma mais enfática, além de incorporar campanhas sociais e comunitárias e debates ao vivo com temas que envolvam os problemas atuais da cidade, na tentativa de buscar e/ou apontar soluções.
Porém, outras emissoras comerciais continuam focando grande parte de seus telejornais mais para a comoção pública do que para a informação e formação. No entanto, algumas emissoras comerciais em alguns momentos podem desenvolver um jornalismo que se enquadre mais no conceito de público do que efetivamente as emissoras públicas.
Albino Castro, que foi diretor de jornalismo da TV Cultura e também já trabalhou em outras emissoras comerciais, como SBT, Gazeta e etc. afirmou em 2006, em entrevista para este trabalho, que a TV Gazeta é que efetivamente praticava o jornalismo público.
Michelle Dufour (2011), também em entrevista para este trabalho, ao ser questionada sobre a maior diferença entre o jornalismo público e o jornalismo praticado pelas emissoras comerciais ressaltou:
“Depende da emissora. Sempre primei muito pela qualidade do meu trabalho e os lugares por onde passei refletem esse cuidado. Mesmo nas emissoras privadas em que atuei, o jornalismo nunca foi sensacionalista. Mas ressalto que, na minha opinião, a diferença maior entre as TVs públicas e as comercias está na preocupação com o retorno da audiência.”
De qualquer forma, por já terem em seus direcionamentos a meta de buscar mais a qualidade de sua programação do que quantidade de telespectadores e a preocupação com a cultura, informação e educação sem se submeterem tão diretamente às imposições mercadológicas, as TVs públicas possivelmente tenham mais condições de atenderem ao que é proposto na formulação do civic journalism, ou jornalismo público.
Rincón (2002, p. 340) aponta que as emissoras públicas devem ter realmente um papel diferenciado em relação às demais estações:
“... a televisão pública deve ser um lugar de interação local com o regional, do nacional e do internacional, assim como um cenário de intercâmbio das diferentes sociedades e culturas que compõem a cultura local, nacional e mundial. Isso significa um intercâmbio de sensibilidades e identidades moldadas nos produtos televisivos na circulação de informação e na atualização da memória
A descrição de Martín-Barbero (1997) do potencial da TV Pública latino-americana já indicava para a necessidade de se criar propostas de qualidade para a programação que mantivessem a relação de cultura com a TV e que possibilitassem a reinvenção do caráter público. Essas características parecem ser preenchidas na proposição desse novo jornalismo, já que algumas das premissas que norteiam o jornalismo público são as priorizações de temas próximos ao telespectador, seja pela localidade geográfica ou por elos que o liguem a grupos sociais ou eventos, o uso da informação como instrumento de cidadania e de cultura por meio do estímulo ao questionamento e formação de espírito crítico.
Em contrapartida, repudia a exploração de cenas ou mensagens que incitem ou banalizem a violência, o sexo, a nudez e qualquer forma de humilhação aos seres humanos. No entanto, o jornalismo público no Brasil, pelo que se tem visto, ainda é um campo que não está bem conceituado e cujas dimensões ainda não foram delimitadas. Há necessidade que se crie e enraíze esses conceitos nos profissionais que atuam na área e também nos empresários do setor para que os preceitos do jornalismo público possam efetivamente ocupar espaço de destaque na mídia.
Um ponto importante a se ressaltar aqui é a necessidade de isenção que se requer de um veículo ao praticar o jornalismo público, já que para formar cidadãos, o importante é discutir assuntos relevantes com total liberdade, sem que qualquer pressão possa intervir na construção das pautas.
Jorge Cunha Lima, em 11 de junho de 2001, quando ainda era presidente da TV Cultura, apontou, durante o 1º Seminário Latino-Americano de Jornalismo de TV Pública e IV Reunião da Comissão América Latina da AITED, onde o tema discutido era O que é jornalismo público?, que um dos melhores exemplos de jornalismo público era o praticado pela emissora britânica BBC e justificou esse destaque “Ela possuiu uma programação de extrema qualidade e imparcialidade. Mas isso só é possível porque conta com uma ótima verba e independência”.
Este trabalho se propõe a analisar mais especificamente a proposta de jornalismo público da TV Cultura, o que será realizado nos próximos capítulos.