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V. BÖLÜM

5. SONUÇ, TARTIŞMA VE ÖNERİLER

5.4 Araştırmacılara Yönelik Öneriler

Na última etapa de nosso percurso analítico, utilizaremos os conceitos operacionais da ideologia estabelecidos por Thompson (2002) para identificar, nos aspectos estudados até agora, as relações ideológicas e hegemônicas presentes no corpus.

Durante esse percurso, ficou bastante evidente uma estratégia do Bom Dia Bauru de colocar os agentes públicos em uma situação de enfrentamento (fragmentação por expurgo, segundo a terminologia de THOMPSON, 2002) com a população – e mesmo com o próprio jornal, que procura se mostrar ―do lado‖ do cidadão comum. Nessa lógica, o Executivo e o Legislativo sempre estariam ―contra‖ o interesse público por não cumprirem devidamente suas obrigações e se dedicarem mais a causas próprias. O resultado disso pôde ser visto em várias manifestações de indignação, revolta e cobrança por uma gestão mais condizente com as necessidades da cidade.

Essas manifestações frequentemente exibiram níveis altos de tensão, carregados de palavras fortes, emotividade e sinais de desapreço pela classe política bauruense. Cria-se,

assim, uma relação tumultuada e conflituosa entre os sujeitos dessa cadeia discursiva, pontuada pelos extremos população vitimizada X poder público incompetente.

Percebe-se aí o papel fundamental dos elementos léxico-gramaticais na construção de posicionamentos ideológicos. Fowler (1991) disse outrora que a simples opção por um determinado elemento no lugar de outro já denota essa escolha, especialmente no que tange a construções com nítida carga valorativa – tanto os adjetivos, os exemplos mais evidentes, como advérbios, verbos modais, verbos dicendi, ironias, expressões temporais, entre várias outras que destacamos em nosso estudo.

A utilização dessas estruturas já apontava, mesmo a partir de uma leitura mais superficial, uma tendência do enunciador em posicionar-se negativamente em relação à prefeitura e aos vereadores de Bauru. Não somente isso, esse posicionamento negativo se revelaria fortemente crítico, beirando à implacabilidade e, não raro, revelando indícios claros de hostilidade – as análises dos editoriais de Saúde ilustraram isso muito bem.

Em conjunto com esse enquadre adversarial dado aos políticos bauruenses, de acordo com a estratégia de fragmentação apontada anteriormente (ver THOMPSON, 2002), vemos outras estratégias importantes na construção desse contraponto políticos X munícipes criado pelo Bom Dia Bauru. Tomemos como exemplo disso um excerto de Ed26. O trecho ―Os números são expressivos e mostram que o poder público, em uma visão mais ampla sobre o setor, não é negligente ou omisso e, ao contrário presente‖ mostra um juízo aparentemente positivo sobre a prefeitura. Entretanto, o período ―O que, no caso, merece destaque, embora seja mera obrigação‖ vem logo em seguida, desfazendo a conotação positiva do primeiro período. Isso ocorre de duas formas:

Em primeiro lugar, a frase que inicia o período (―O que, no caso, merece destaque‖) indica um pressuposto que coloca a administração bauruense como leniente, omissa e ausente já que, se nesse caso a presença do poder público merece destaque (por ser evidente, conforme os números), entende-se que a conduta administrativa normal seria o oposto. Em segundo lugar, a frase seguinte (―... embora seja mera obrigação‖) desdenha e banaliza o que foi exposto acima, já que essa presença da prefeitura, apesar de relevante, não mereceria tal destaque por se tratar apenas do cumprimento de uma obrigação.

Minimizar ações positivas da prefeitura e destacar os problemas é adotar uma postura de criticidade desproporcional, já que, em termos conjunturais, a maior parte da demanda de transporte escolar vem sendo atendida. Contudo, os grupos minoritários, como o exposto no texto, por não terem esse atendimento ou, quando o tem, ocorre ainda de forma precária, justificariam um teor crítico incisivo e emotivo por parte do enunciador. A situação instável

desse grupo minoritário (grupo de assentados), a qual torna seu atendimento mais complicado, não é levada em consideração nas análises do jornal. Logo, há aqui um desequilíbrio no trato dessas informações – contrariando um princípio básico, defendido por Beltrão (1980), que deve permear os textos jornalísticos, sobretudo os opinativos.

As minimizações das quais falamos combinam-se também com outros recursos já comentados – as nominalizações e passivizações, já tratados por Fairclough (2001a), Fowler (1991) e Thompson (2002) no terceiro capítulo. Já dissemos que elas reduzem ou ocultam o papel do agente na estrutura da frase, colocando em evidência o fato em si. Com isso, parece que esses acontecimentos acontecem ―espontaneamente‖, sem que exista um sujeito responsável. Daí, podemos dizer que todas essas estratégias visam a reduzir a importância desses agentes (no caso, o Executivo e o Legislativo bauruenses) ou mesmo mitigá-los quando, por exemplo, se fala na apresentação de projetos para reduzir o período de férias dos parlamentares sem mencionar de forma destacada o autor desse projeto.

Dessa forma, os fatos tratados nos editoriais são colocados em evidência e servem como base na construção de uma lógica de confronto nos textos – tomando por base o modo de operação ideológico de fragmentação descrito por Thompson (2002). Se a intenção é pressionar os políticos da cidade, a ênfase nos agentes responsáveis pelos acontecimentos relatados, como ocorreria se as orações estivessem na voz ativa, reduziria o impacto das críticas e, portanto, mostrar-se-ia incoerente com o propósito do enunciador. Ao omiti-los ou minimizá-los, reforça-se o teor das críticas e a impressão de que o trabalho dos agentes públicos é insuficiente ou sequer existe.

Vemos, aqui, uma estratégia de reificação do Bom Dia Bauru no sentido de naturalizar a condição de inoperância e descaso do Executivo e Legislativo da cidade e firmá-la como sendo a atitude natural desses agentes. Logo, ao transmitir e reforçar essa imagem negativa a partir das estratégias ideológicas já citadas (conforme a classificação de THOMPSON, 2002), o jornal fomenta reações indignadas ou mesmo hostis a esses políticos como forma de chamar a atenção destes e fazê-los trabalhar – pela e para a população.

Essa atitude mais combativa perante o poder público se justificaria não apenas pela avaliação negativa à gestão da época, mas por se tratar de um hábito recorrente, histórico da política do município. Com isso, procura-se criar o juízo de que a relação do poder público com o cidadão é historicamente turbulenta e contraproducente, marcada por uma postura de descaso diante daqueles que os elegeram.

Essa constatação exigiria condutas mais firmes por parte dos eleitores-contribuintes para fazer valer os seus direitos, ainda que o modo como se deve fazê-lo provoque o

acirramento dessas relações – como de fato tem sido mostrado nos editoriais do Bom Dia

Bauru. Se retomarmos as palavras de Fairclough (2001a) no que tange à função do discurso

como prática social, podemos dizer que o jornal adotaria, então, uma estratégia de mobilização social (ou melhor, de unificação) em torno de causas, a princípio, inequivocamente justas e diretamente relacionadas ao exercício da cidadania – no caso, o acesso aos serviços públicos.

E qual seria o papel do periódico nesse cenário construído? Diante de uma classe política tida como egocêntrica e uma população alçada à condição de vítima, o Bom Dia

Bauru posiciona-se como uma espécie de ―porta-voz‖ das causas populares, empenhado em defender o cidadão e interpelar os administradores públicos a cumprir suas obrigações. Ao fazer isso, a partir dessa estratégia unificadora, a instituição procura reforçar o caráter

identitário e utilitário de sua relação com o leitor e com o seu local de atuação, buscando

assim, legitimar seu status de veículo comprometido não apenas com a informação, mas com seu público – como já preconizou Traquina (2008a; 2008b) no primeiro capítulo. Em contrapartida, procura consolidar um papel fiscalizador do jornal, cuja função é vigiar as falhas dos políticos e denunciá-las, exigindo-lhes um comportamento condizente com a função e, ainda, apontar as balizas que constituiriam tal comportamento.

Entretanto, da mesma forma que o Bom Dia cria um cenário conflituoso em defesa de um suposto ―interesse popular‖, colocando a prefeitura e os vereadores na condição de ―algozes‖, vemos outros momentos em que o jornal evita posicionar-se mais incisivamente, optando por estratégias mais sutis e, por que não, evasivas. Vejamos como isso ocorre em Ed29, texto que trata do Plano Diretor do município.

O texto arrola uma série de apreciações positivas a respeito de entes públicos, um caso único no corpus estudado (―A Câmara dos Vereadores respeitou o Estatuto das Cidades...‖, ―A administração municipal, com o apoio da Seplan (…) tomou o cuidado de seguir o que determina o Estatuto das Cidades...‖, ―[A prefeitura] Procurou as associações de moradores...‖, ―Foram realizadas plenárias...‖, ―[O projeto do Plano Diretor foi] encaminhado pelo prefeito Tuga Angerami (…) à Câmara‖). A partir de uma sucessão de fatos, apresentados cronologicamente como uma narrativa, evidencia-se que a prefeitura, nesse assunto, trabalhou com empenho, coesão e agilidade adequados – em contrariedade a outras ocasiões relatadas, em que se cobrou do Executivo justamente essas qualidades.

No entanto, o cerne do texto gira em torno das alterações feitas no Plano Diretor pela Câmara de Vereadores. O que o enunciador procura é reivindicar o ―direito‖ de a população manifestar-se sobre essas mudanças, sem arriscar-se a questionar as prerrogativas legais

asseguradas aos parlamentares em assuntos desse tipo. Dessa forma, o jornal pressiona os vereadores para assegurar essa participação popular, mas o faz de forma diluída, sutil, como se quisesse prevenir um possível embate – diferentemente do que ocorreu na maioria dos editoriais estudados.

Apesar de algumas construções mais incisivas, em tom imperativo e com adjetivações (―Os vereadores têm a obrigação moral e ética de reabrirem os debates com a população e, num ato de transparência exemplar, mostrar quais são os pontos que foram modificados e suas justificativas‖), o tom do discurso foge à emotividade e procura buscar o consenso, uma solução dialogada entre as partes envolvidas no caso. Essa proposta é tida como a ideal pelo jornal (―É desta forma que se chegará a um consenso...‖) – embora este, na prática, tenha adotado a postura do confronto na maioria das vezes.

Portanto, vemos aqui uma incongruência entre uma postura que vinha sendo adotada pelo jornal em praticamente todo o corpus e o excerto que acabamos de destacar. É como se a instituição procurasse mitigar parte de sua estratégia de enfrentamento e criar brechas com o intuito de mostrar-se mais flexível e comedida em sua interlocução com o poder público municipal – na terminologia de Thompson (2002), caracteriza-se aí uma dissimulação por

eufemização. Assim, dá a entender que a ―defesa intransigente‖ do Bom Dia Bauru dos direitos e necessidades da cidade não é tão enfática quanto se diz, podendo ser relativizada conforme as circunstâncias e, com isso, o conflito discursivo se abranda – embora permaneça.