5.1 Bilimsel Araştırma İşlevine Verilen Önem ve Değer
5.1.1 Araştırma Ortamı
Ao final da era Moderna, o antropomorfismo estava tanto em voga como instrumento de caricatura e deboche, como era também aceito e estudado em academias reais europeias. Além do já mencionado Charles le Brun, o proeminente
pintor espanhol Francisco de Goya e Lucientes também tinha empregado o antropomorfismo em sua série de gravuras os Caprichos. A partir do século XIX, o antropomorfismo se tornara ainda mais recorrente e apreciado. Nomes como o do francês J.J. Grandville consolidaram esta moda, sendo inclusive plagiado na época por outros artistas. O artista alcançou o sucesso justamente por uma série intitulada Scènes de la vie privée et publique des animaux, em que ele retratava personagens antropomórficos em situações que mesclavam o humano com o animal. Por exemplo, na Figura 9, vemos bombeiros representados como elefantes, empregando suas trombas como mangueiras.
Figura 9: Litogravura para a seguradora Le Phénix – 1847
Os avanços tecnológicos e industriais permitiram o desenvolvimento de novas técnicas de impressão e gravura, como, por exemplo, a litogravura, que permitiu a publicação de jornais ilustrados com certa regularidade em diferentes partes do mundo, dando nascimento à caricatura política moderna (GUÉDRON, 2011).
Se, por um lado, a imprensa satírica se desenvolveu utilizando traços animalescos para ridicularizar ou para realçar alguma característica de figuras públicas, por outro, a literatura juvenil empregou os animais para reforçar os laços entre o leitor e a obra. Muito presente nos contos de tradição oral, o animal passa quase que automaticamente para a literatura destinada aos mais jovens. Como mencionado anteriormente, os contos de Charles Perrault e as fábulas de Jean de La Fontaine consagraram essa transição ao final do século XVII (FANO, 1987). A
segunda metade do século XIX encontra no animal uma nova simbologia, que se opõe ao ritmo frenético da revolução industrial:
Durante a segunda metade do século XIX, o animal deixa de ser o objeto de um interesse puramente científico, reencontrando um valor simbólico em sintonia com uma idealização romântica: a sinceridade das relações entre os animais é oposta a inautenticidade das relações humanas, os ritmos do natural são opostos a cadência infernal da industrialização. (FANO, 1987, p. 14, tradução nossa2)
Durante esse período surgiram os primeiros ilustradores dedicados ao mundo antropomórfico, que seriam vistos por muitos estudiosos como os precursores das histórias em quadrinhos com temática animalesca. Dentre eles, podemos citar o francês Benjamin Rabier e o norte-americano James Swinnerton, que, de certa forma, inauguraram, em seus respectivos países, o antropomorfismo nas histórias em quadrinhos (FANO, 1987).
No Brasil, a história da representação gráfica de personagens animalescos se inicia poucos anos depois da vinda da família real portuguesa ao país, em 1808 (RAMOS, 2008). A partir de 1822, começam a surgir no Recife publicações com xilogravuras, como é o caso de O Marimbondo. Já em 1831 é publicada a primeira ilustração satírica no jornal pernambucano, o Carcundão. A ilustração, anônima, que vemos na Figura 10, representa um asno corcunda sendo esmagado por uma coluna. Segundo, Lailson de Holanda Cavalcanti, há uma simbologia política por trás da imagem, já que o corcunda simboliza o apelido dado pelos Liberais aos membros do Partido Restaurador que, junto com a Sociedade Colunas do Trono, clamava pela volta do imperador D. Pedro I ao Brasil (CAVALCANTI, 2007).
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“Dans la seconde partie du XIXème siècle, l’animal cesse d’être l’objet d’un interêt exclusivement scientifique, il retrouve une valeur symbolique à la faveur de certaine idéalisation romantique: la sincérité des rapports entre animaux est opposée à l’inauthencité des relations humaines, les rythmes naturels sont opposés aux cadences infernales de l’industrialisation.”
Figura 10. Xilogravura anônima na publicação pernambucana O Carcundão. 1831.
Sendo a publicação favorável ao Partido Liberal, a representação dos adversários políticos como asnos deixa clara a intenção de deboche. Vale notar que a última página do jornal apresenta outra ilustração com escombros sugerindo uma sequencialidade entre os desenhos, elemento essencial na linguagem dos quadrinhos. Nos anos seguintes, outros jornais e panfletos utilizaram personagens zoomórficos para compor as suas páginas. Entre eles, podemos citar O Marmota, Arára e o Bezerro de Pera, todas publicações pernambucanas que utilizaram a hibridização para escarnecer e debochar de adversários políticos (RAMOS, 2008).
Os liberais de Recife utilizaram frequentemente esse artifício, figurando seus inimigos conservadores sob a forma de seres híbridos, com características meio humanas e meio animais, segundo um gênero de caricatura litografada muito em voga na época. (RAMOS, 2008, p. 292)
Entretanto, uma das publicações que mais merece atenção nesse sentido é o jornal domingueiro paulistano O Diabo Coxo. Ilustrado por Angelo Agostini, que viria a se reconhecido por muitos pesquisadores, entre eles Antônio Luiz Cagnin, como precursor das histórias em quadrinhos no Brasil. A publicação se estendeu ao longo de dois anos (1864-1865), em 24 números. O tom da publicação era de sátira,
defendia o fim da escravidão e contava com textos dos abolicionistas Luiz Gama e Sizenando Barreto Nabuco de Araújo (CAGNIN, 2005).
O jornal se destaca a partir da edição n. 9 de sua segunda série na utilização e na construção de um personagem antropomórfico destinado aos adultos. Familiarizando-se com recursos que ele empregaria nos anos seguintes com as Aventuras de Nhô Quim, ou Impressões de uma viagem à Corte (1869), obra reconhecida como a gênese das histórias em quadrinhos no Brasil (CAGNIN, 2005), Agostini cria um personagem antropomórfico que acompanha o leitor por três edições do jornal (n. 9 ao n. 11 / Série II). Trata-se de um asno que aos poucos se afasta de sua condição natural e se transforma cada vez mais em humano graças à malícia do diabo (Figuras 11, 12, 13 e 14), o que vai contra os demais jornais da época, que muitas vezes utilizavam os animais para ridicularizar; aqui, são as características humanas que mancham a integridade do animal, como o fez anos mais tarde George Orwell em A revolução dos bichos.
Além da recorrência do personagem e de sua localização (no caso, a taberna), a palavra “continua” confirma que se trata de uma história seriada, algo que se tornaria uma característica, alguns anos mais tarde, das histórias em quadrinhos publicadas em jornais.
Figuras 11 e 12. Metamorphoses. Angelo Agostini. Diabo Coxo n. 9 serie II – 1865.
Figura 13. Metamophoseses (continuação). Angelo Agostini. Diabo Coxo n. 10 serie II – 1865.
Além de ser reconhecido como o pioneiro das histórias em quadrinhos no Brasil, Angelo Agostini também participou de uma importante publicação, O Tico- Tico. A revista foi a primeira publicação brasileira destinada a um público infantojuvenil a ter histórias em quadrinhos, conhecendo poucos concorrentes até os anos de 1930. Lançada em 1905 pelo jornalista Luís Bartolomeu de Souza e Silva, proprietário do jornal O Malho, a publicação contou com a participação de artistas importantes, como o já mencionado Angelo Agostini, J. Carlos e Luiz Sá. A publicação se destacou por sua imensa variedade de histórias e a sua perenidade, já que a revista compôs o imaginário infantil até o começo dos anos 60 (VERGUEIRO, SANTOS, 2005). Entretanto, vale ressaltar que a revista não publicava apenas quadrinhos, mas toda uma gama de produtos literários e artísticos destinados aos mais jovens. Entre eles, podemos citar contos, fábulas, poesias, reportagens, como também um material explicitamente didático abordando temas como história do Brasil, matemática e português (MERLO, 2003). No entanto, como afirma Vergueiro, os quadrinhos são, talvez, o principal motivo da permanente popularidade da revista ao longo de mais de cinco décadas (VERGUEIRO, 1999).