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4.1.5.1 Constituição: marco regulatório do Estado e segurança jurídica

A Constituição, como marco regulatório do Estado, além de criar a própria figura do Estado, delimita os campos nos quais permearão o público e o privado. Partindo-se dessa premissa, já se sabe que não se pode impingir ao princípio da segurança jurídica rigidez ou tecnicismo matemático que lhe transforme num repressor de mudanças no Direito Positivo.

Não cabe ao princípio da segurança jurídica preservar o status quo legislativo, mas sim garantir ao cidadão que o Estado reger-sé-á segundo as regras fundamentais de sua formatação constitucional, daí porque tem sua representação máxima nas limitações impostas aos Poderes Constituídos. Estes deverão interpretar e aplicar o ordenamento jurídico com base na Constituição Social e Democrática vigente, fruto de embates ideológicos diferenciados, que gerou um texto com alta carga axiológica e programática.

A adoção de expressões com conteúdo variável, porém determinável, com alta carga principiológica e programática, denuncia um período histórico de transição de um regime autoritário para uma nascente democracia, na qual a adoção do princípio da segurança jurídica como estagnador dos comandos normativos e preservação da estrita legalidade não é mais aceitável.

... nos Estados em que os direitos sociais têm, ainda, sua extensão indefinida, a atuação prática por parte do Governo visando sua concretização faz-se na forma de um verdadeiro embate entre a necessidade de efetivar as mudanças sociais consagradas na Constituição, e, paradoxalmente, a quebra da segurança jurídica, ameaçando a existência dos direitos fundamentais. 314

314 GOMES, Ana Maria Isar dos Santos. Os limites do direito adquirido: o princípio da segurança jurídica

Não obstante, alguns dos aspectos do princípio da segurança jurídica estejam consolidados como direito fundamental e, portanto, cláusula pétrea, a Constituição de 1988 privilegia, em seu preâmbulo, o exercício de uma série de direitos e começa a listá-los pelos direitos sociais, seguindo-se dos individuais, da liberdade para então falar da segurança. Vê-se que a coletividade, a sociedade, assumiu papel de destaque na Constituição.

Os arts. 1° e 3° deixam claro que toda aplicação do texto normativo constitucional deverá ser norteada por valores sociais, e não meramente individuais, de liberdade, justiça, solidariedade, desenvolvimento nacional, erradicação da pobreza e da marginalização, redução de desigualdades e promoção do bem de todos. No âmbito internacional, também evita o individualismo nacionalista quando propugna pela formação da comunidade latino-americana das nações e preserva a igualdade entre todos os Estados.

Quem enxerga o princípio da segurança jurídica como legalidade estrita e previsibilidade incondicional dos atos públicos, de fato, tornou-se órfão jurídico de sua premissa com a promulgação da Constituição de 1988, que não recepcionou a exclusividade de tal entendimento.

O princípio da segurança jurídica deverá garantir a realização das mudanças requeridas pelo texto constitucional, consolidando a transformação de um Estado Individualista e Democrático num Estado Social e Democrático. Para tanto, inevitável a utilização da hermenêutica constitucional e legal ordinária em favor de tais princípios.315

Fundação Escola Superior do Ministério Público do Distrito Federal e Territórios, Brasília, v. 6, n.

11, p. 104, jan./jun. 1998.

315

Não se defende aqui que o Direito se subordinou ao casuísmo ou a correntes sociológicas. O Direito positivo deverá ser interpretado com base na técnica hermenêutica316, devendo, apenas nos seus preceitos programáticos e de conteúdo variável, soprar para o entendimento condizente com os anseios sociais vigentes, atendendo sempre ao conteúdo sistêmico da Constituição. “Não cabe interpretar o direito pelas razões da economia ou de contingências episódicas da vida social”, pois já se definiu isso como meio torpe de superação dos direitos fundamentais. 317

Fantoni Jr. (1997) resumiu de forma clara o que aqui se quer dispor, quando disse:

Nesse contexto, a falta de segurança jurídica acaba por neutralizar a consciência constitucional, transformando os preceitos da CF em ‘especial promessa para não destinatários’, acarretando, no plano prático e vivencial, três graves conseqüências: a) desinteresse, desestímulo e descrença em relação ao mínimo existencial assegurado pela CF; b) cunho meramente retórico dos direitos e garantias fundamentais, especialmente do ato jurídico perfeito e do direito adquirido, desconsiderando-se sua finalidade estabilizadora, seqüencial e construtiva, em nível de (sic) cotidiano, deformando o sentido das denominadas cláusulas pétreas; c) o jurista se transforma em ‘arquiteto de ruínas’ e não consegue limitar a atuação do poder, nem eliminar ou neutralizar o desempenho dos oportunistas. 318

Cabe ao aplicador do direito compatibilizar os princípios sociais e democráticos presentes no texto constitucional de forma a equilibrar direitos e interesses que se encontram em permanente tensão, sem que isso “implique em institucionalizar mecanismos de dominação disfarçada ou destruição das garantias fundamentais da pessoa humana”.319

316

“Do mesmo modo que contingências econômicas não podem contaminar julgamentos, tampouco o conhecimento da técnica pode ser abandonado ou cuidado em superficialidades, sem que algum princípio fundamental do ordenamento seja prejudicado, pela tipicidade ou motivação das decisões afetadas". (TORRES, 2004, p. 155)

317

TORRES, 2004, p. 155.

Para Canotilho (1987)320, a noção de segurança jurídica está ligada intimamente ao vocábulo “garantia”, e esse princípio é resultante de uma série de outros como a determinabilidade das leis e a proteção da confiança do cidadão. Há uma série de regras formadas por princípios com graus de concreção distintos, que se articulam e compõem uma unidade material.

O mesmo autor classifica os princípios constitucionais em: a) princípios

jurídicos fundamentais – pertencem à ordem jurídica positiva e constituem um

importante fundamento para a interpretação, a integração, o conhecimento e a aplicação do direito positivo (supremacia da constituição, legalidade, igualdade, segurança jurídica, etc.;); b) princípios políticos constitucionalmente conformadores – explicitam as valorações políticas fundamentais do legislador constituinte, a ideologia inspiradora da Constituição (princípio federativo, republicano, democrático, soberania popular, cidadania, etc.); c) princípios constitucionais impositivos – impõem aos órgãos do Estado, sobretudo ao legislador, a realização de fins e a execução de tarefas, é a parte programática da Constituição (artigo 3º da CF/88); d) Princípios-garantia – estabelecem direta e imediatamente uma garantia ao cidadão (juiz natural, proteção judiciária, segurança jurídica, intimidade, etc.). 321

Essa divisão parece adequada para a qualificação do princípio da segurança jurídica nas distintas esferas do Direito constitucional e internacional.

319

CAMPANILE, Vinicius Tadeu. O instituto da compensação de tributos à luz dos princípios constitucionais, tributários e processuais. Caderno de direito tributário e finanças públicas, v. 4, n. 14, p. 137-172, jan./fev. 1996.

320

CANOTILHO, J. J. Gomes. Direito constitucional e teoria da constituição. 3ª edição. Coimbra: Almedina, 1987, p. 309.

4.2 Limites constitucionais impostos aos Poderes constituídos e segurança

Benzer Belgeler