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AraĢtırmanın Sınırlılıkları ve Zorlukları

Durante séculos, como explica Miceli, a representação do mundo foi um desafio para o pensamento religioso e o pensamento filosófico,

[...] até pôr-se, com toda a evidência, nas imprecisas e dilatadas fronteiras que separam a Idade Média dos tempos modernos, quando o encontro com o Novo Mundo, com todo o seu significado histórico-cultural, foi acrescentado ao conhecimento geográfico europeu.27

Durante a Idade Média, mais especificamente entre os séculos XIII e XV, houve um grande esforço de síntese que buscava conciliar “[...] a ideia bíblica de uma Terra plana, no que se referia à ecúmena habitável, às concepções gregas de uma Terra esférica, do ponto de vista astronômico. ”28 A experiência das navegações ibéricas pelo Atlântico e o estudo dos geógrafos da Antiguidade – passando por Homero29, Crates de Mallos, Estrabão e Ptolomeu – influenciou fortemente a visão que se terá do orbe, a ponto de a consideração de Homero, “[...] de que o mundo habitado era uma ilha, cercada por um oceano contínuo” ser “[...] uma ideia que estará presente na principal forma de representação medieval do mundo”30, o mapa T-O, “[...] um T dentro de um O mostra o desenho/Como em três partes foi dividido o mundo”31, como explica Leonardo Dati (c.1420), a quem se atribui o nome dado ao mapa, em La sfera.

27 MICELI, Paulo. A vista da terra. In: ______. O desenho do Brasil no teatro do mundo. Campinas,

SP: Editora da Unicamp, 2012. p. 33.

28 Ibidem, p. 33.

29 Ao considerar Homero entre os geógrafos antigos, Miceli faz algumas ressalvas: “Isso não quer

dizer que se deva considerar a Ilíada e a Odisseia, cuja influência assinalou fortememente a formação da juventude grega, como livros de geografia propriamente ditos, mas as guerras de Troia, e especialmente as viagens de Ulisses, permitem uma leitura que ultrapassa a compreensão menor de que nesses livros, especialmente no segundo, nada se encontra além do relato de um périplo imagináro, realizado pelo herói mítico, a percorrer caminhos abertos, exclusivamente, nos espaços da elaboração poética. [...]; entretanto, no que se refere diretamente à cosmografia, existem no texto de Homero – especialmente relacionadas ao Egito, à Líbia e à Sicília – inúmeras informações de caráter geográfico, etnográfico, botânico” (MICELI, op. cit., p. 34). Essas informações “‘[...] não saíram apenas do cérebro dos mitólogos gregos, tal como Atenas da cabeça de Zeus’” (BALLABRIGA, Allain.

Les fictions d’Homére – L’invention mythologique et cosmographique dans l’Odisée. Paris:

Presses Universitaires de France, 1998. p. 91 apud MICELI, op. cit., p. 34)

30 MICELI, op. cit., p. 34.

Figura 12 – Isidoro de Sevilha, Mapa T-O, 1472. Miceli explica o significado da disposição do orbe nos mapas T-O:

Circulares, em sua quase totalidade, ou ovais, os mapas T-O eram emoldurados por um grande oceano, representando a sobrevivência de uma ideia que remonta aos tempos de Homero. O “T” também simbolizava a cruz e as três partes formadas por sua colocação dentro do círculo – a forma perfeita, testemunha da perfeição divina – relacionam-se ao dogma da Trindade. Finalmente, no ponto de junção entre a vertical e a transversal, ficava Jerusalém – o centro do mundo.32

Refletindo uma cosmologia cristã, o mapa T-O divide o mundo em três continentes – Ásia, Europa e África – povoados pelos três filhos de Noé – Sem, Jafé e Cam –, refletindo, na representação do mundo, uma leitura literal da Bíblia, que acreditava na tese monogenética de acordo com a qual toda humanidade é descendente dos filhos de Noé. A descoberta do Novo Mundo, separado do Antigo pelo Oceano, levantaria a hipótese da tese poligenética, que, por ir de encontro aos conhecimentos bíblicos, tratava-se de uma ideia proscrita, pois, como explica Benassar:

Todos os povos do mundo deviam receber, um pouco mais cedo ou um pouco mais tarde, a revelação bíblica e a evangelização. Por conseguinte, era preciso que as comunicações tivessem podido estabelecer-se pelo Mundo Antigo e que a Bíblia, de uma maneira ou de outra, fizesse referência a isso. A tal ponto que muito tarde, em 1590, o jesuíta José de Acosta escreve: “Em uma questão tão considerável quanto a descoberta e a conversão do Novo Mundo à fé de Cristo, é muito razoável pensar que há alguma menção dela nas Santas Escrituras”. E, antes dessa data mas depois da descoberta e da exploração do Novo Mundo, durante muito tempo os novos mapas e mapas-múndi, que integram a descoberta, julgam indispensável unir a América ao resto do mundo, por exemplo, por intermédio de um continente austral, como na série dos

32 MICELI, Paulo. O tesouro dos mapas – A cartografia na formação do Brasil. 3. ed. São Paulo:

mapas portugueses dos anos 1515-19 (ditos Atlas Miller, do nome do último proprietário antes da compra pela Biblioteca Nacional de Paris) e, especialmente, no mapa-múndi de Lopo Homem, “mestre de mapas marinhos”, feito em Lisboa em 1517, ou ainda no mapa-múndi de Orence Finé, professor de matemáticas no Collège de France, realizado em projeção cordiforme.33

Se, por um lado, as navegações indicavam que o Novo Mundo era separado do antigo pelo grande mar oceano, por outro, a leitura literal da Bília não permitia a possibilidade poligenética, a de existirem homens que não fossem descendentes de Noé. Nesse sentido, é muito cara a observação da cartografia dos quinhentos, em que é extremamente comum a representação de um continente austral, muitas vezes, como no caso de Le Nouueau Monde Descouuert et Ilustre de Nostre Temps, de André Thevet, em que tal continente aparece habitado por diversos homens e com certa organização social.

Figura 13 – Sebastien Münster, Novus Orbis (Die Nüw Welt), Basileia, 1540.

33 BENASSAR, Bartolomé. Dos mundos fechados à abertura do mundo. In: NOVAES, Adauto (Org.). A descoberta do homem e do mundo. São Paulo: Companhia das Letras, 1998. p. 88.

Figura 14 – André Thevet, Le Nouveau Monde Descouvert et ilustre de nostre temps, 1557.

O mapa de Sebastien Müster vem à luz no ano de 1550, e tem por título

Tabula nouarum insularum, quas diuersis respectibus Occidentales & Indianas uocant. Nele, a divisão do Novo Mundo entre Espanha e Portugal aparece

destacada pelo brasão espanhol presente na América Central e pelo português na “Insula Atlantica quan uocant Brasiln & Americam”, mais especificamente, no litoral, onde se vê uma cabana feita de troncos de árvores com uma perna pendente, indicada pela palavra “Canibali”34. A terra dos portugueses, seria a do país dos

34 A respeito desse mapa de Münster, e comparando-o ao Nouus Orbis Regionun de Holbein,

publicado em 1532, Chincangana-Bayona explica que “Sebastien Münster realiza a prancha Nouuus

Orbis, Die Nüw Welt, xilogravura com data de 1540, feita em Basileia e incluída na sua versão

reeditada da Geografia. Esse mapa seria muito popular na Europa, ainda que para um público não especializado em cartografia. Esse mapa vai situar um abrigo de galhos e folhas onde estão enduradas partes humanas no Brasil e é reforçado pelo texto canibali. Da mesma forma que o mapa de Holbein, a cabana ou abrigo de galhos substitui a árvore com membros retalhados das

canibais. O rio Amazonas e o rio da Prata, fronteiras naturais entre as colônias de Espanha e Portugal, merecem destaque, e, abaixo deste último, lê-se “Regio Gigantum”, região da Patagônia, que se acreditava ser habitada por gigantes. Mais abaixo, o estreito de Magalhães é apresentado como uma pequena separação entre a América, o Novo Mundo, e o continente austral.

No caso do mapa de André Thevet, publicado dezessete anos depois do de Münster, observa-se, além de maior conhecimento da América do Norte, uma maior riqueza de detalhes, o que provém do fato de se tratar de uma carta ilustrada e que observa “les degrez de longitude & latitude, selon l’ordre Cosmographique”, como se lê no texto explicativo no canto inferior esquerdo35. Atendo-nos aos detalhes ilustrativos, que nos interessam mais particularmente, observam-se as naus, que indicam as rotas comerciais marítimas, os monstros marinhos e os peixes-voadores, estes, também aqui, figurados em grandes proporções, quase do mesmo tamanho das naus que atravessam o oceano. Abaixo, depois da “Patagona region des Geants”, um enorme continente austral não só colonizado, mas com extensiva atividade humana. Os topônimos, sobretudo na região mais próxima à Patagônia, marcam o conhecimento e a possessão da terra; a ilustração de homens realizando diversas atividades – seja extraindo madeira no canto inferior direito, seja fazendo uma fogueira sobre na região dos 260º de longitude, seja caçando próximo ao texto explicativo – demonstram a sua vida ativa. Abaixo da região povoada do continente austral, escreve-se “Partie de la Terra Antartique Incongue”, indicando, portanto, que a parte de cima seria conhecida. Assim como no mapa de Münster, a proximidade do Novo Mundo de um continente austral – no caso de Thevet, bastante povoado – reforça a tese monogenética e a possibilidade do povo de Deus ter se expandido cosmografias. [...] Assim, os mapas de Holbein e Münster identificam porções do Novo Mundo (habitado pelos Caribes e Tupis) com as práticas canibais. Inicialmente, pode se afirmar que os episódios estão representando índios, já que ao lado da cena, sobre os abrigos, aparece a palavra “canibali”. A isto deve se somar que, na cosmografia de Münster, aparece a cabana de galhos situada na área do Brasil, enquanto que na Nouus Orbis REgionum de Holbein aparecem na América do Sul legendas como “Terra Nouua”, “América”, “parias”, “Brisilia” e “Canibali”. (CHINCANGANA-BAYONA, Yobenj Aucardo. Canibais do Brasil: os açougues de Fries, Holbeins e Münster (Século XVI). Tempo [online], v. 14, n. 28, p. 165-192, 2010. p. 175-176)

35 Segue o texto explicativo da carta de Thevet na íntegra: “[...] Ie sçay bien, Amy lecteur, que

quelques hõmes três-doctes parcideuant ont mis en lumiere la Carte de ceste Quatriesme partie de l’vniuers: mais pour ne l’auoir veuë, & icelle illustrée comme i’ay faict, pourroyent pareillement errer: ce qui m’a bon droict incité de te la representer plus correcte que les precedentes, y observãt les degrez de longitude & latitude, selon l’ordre Cosmographique: ensemble tu y verras plusieurs riuieres, goulfes, mõtaignes, plages & promontoires, desquelz ie t’ay faict assez ample description dans mon Histoire, à fin que ti aues dequoy te contenter” (THEVET, André. Le Nouueau Monde Descouuert et Ilustre de Nostre Temps apud MICELI, Paulo. A vista da terra. In: ______. O desenho do Brasil no

mundo à fora por terra36. Assim, retomando Benassar, se há uma parte do mundo que é conhecida pela lição dos clássicos e pela experiência, há, por outro lado, “[...] uma visão mítica elaborada a uma só vez por um conjunto de legendas, de relatos fantásticos, de tradições, que constituíam uma chave de leitura do mundo.” No caso, o mundo só poderia ser concebido a partir da tese monogenética. Caberia à cosmografia, portanto, justificá-la37.

Um “Dom Quixote atrasado de vários séculos”, nas palavras de Todorov, Colombo será um caso exemplar em que se conformam os recursos científicos necessários ao empreendimento das navegações, aos interesses mercantilistas da colonização e às motivações religiosas de ordem salvacionista. Todorov reúne trechos de diversas cartas de Colombo que permitem entrever algumas de suas motivações às viagens à América38, dos quais destacamos o de uma carta, de fevereiro de 1502, dirigida ao papa, em que escreve:

36 O mito de São Tomé, assim como a tese monogenética, foi tido como uma das provas da

universalidade da humanidade cristã. De acordo com Navarro, pesquisas apontam para a origem jesuítica do mito de São Tomé no Brasil. As “cartas ânuas”, “[...] que eram narradas periodicamente aos superiores gerais de Roma”, tinham como função relatar as ações da Companhia de Jesus pelo Oriente, pela África ou pela América. Nelas surgiram esse mito, possivelmente tendo como principal fonte de informação as cartas de Francisco Xavier, apóstolo do Oriente. (NAVARRO, Eduardo de Almeida. A origem indiana de um mito do Brasil Colonial. Disponível em: <www.tupi.fflch.usp.br/sites/tupi.fflch.usp.br/files/A%20ORIGEM%INDIANA%20DE_0.pdf>. Acesso em: 14 out. 2014. p. 10). As principais provas da passagem de São Tomé na América, assim como na Índia, seriam as marcas de suas pegadas no chão quando, acuado por homens que não queriam se converter, tomando impulso, o apóstolo fugia com um salto, alçando voo. Navarro cita a seguinte passagem de Manuel da Nóbrega que alude à presença do mito: “Dizem eles que S. Tomé, a quem eles chamam Zomé, passou por aqui, e isto lhes ficou por dito de seus antepassados e que suas pisadas estão sinaladas junto de um rio; as quais eu fui ver por mais certeza da verdade e vi com os próprios olhos quatro pisadas mui sinaladas com seus dedos, as quais algumas vezes cobre o rio quando enche; dizem também que, quando deixou estas pisadas, ia fugindo dos índios, que o queriam flechar, e chegando ali se lhe abrira o rio e passara por meio dele a outra parte sem se molhar, e dali foi para a Índia. [...] Assim mesmo contam que, quando o queriam flechar os índios, as flechas se tornavam para eles, e os matos lhe faziam por onde passasse: outros contam isso como por escárnio. Dizem também que lhes prometeu que havia de tornar outra vez a vê-los. [...] Dele contam que lhe dera os alimentos que ainda hoje usam, que são raízes e ervas e com isso vivem bem; não obstante, dizem mal de seu companheiro” (NÓBREGA, Manuel. In: LEITE, Serafim. Cartas

dos primeiros jesuítas do Brasil apud NAVARRO, op. cit., p. 10-11.). Ver também “A origem de um mito luso-brasileiro”. In: HOLANDA, Sérgio Buarque de. Visão do paraíso: os motivos edênicos no descobrimento e colonização do Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 2010. p.171-201.

37 BENASSAR, Bartolomé. Dos mundos fechados à abertura do mundo. In: NOVAES, Adauto (Org.). A descoberta do homem e do mundo. São Paulo: Companhia das Letras, 1998. p. 86.

38 Entre outras passagens em que Colombo apresenta a expansão do cristianismo e o milenarismo

como justificativas para as suas suas viagens, destacam-se as seguintes: “Nosso Senhor bem sabe que eu não suporto todas estas penas para acumular tesouros nem para descobri-los para mim; pois [...] bem sei que tudo o que se faz neste mundo é vão, se não tiver sido feito para a honra e o serviço de Deus” (LAS CASAS, Historia de las Índias. México: Fondo de Cultura Económica, 1951. v. I. apud TODOROV, Tzetan. A conquista da América – A questão do outro. Tradução Beatriz Perrone

Moisés. 3. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2014. p. 12). Ou ainda: “Não fiz esta viagem para nela obter ouro e fortuna; é a verdade, pois disso toda esperança já estava morta. Vim até Vossas Altezas com uma intenção pura e um grande zelo, e não minto” (COLOMBO, Cristóvão. Carta Raríssima, 7

Esta empresa (a das navegações) foi feita no intuito de empregar o que dela se obtivesse na devolução da Terra Santa à Santa Igreja. Depois de lá ter estado, escrevi ao Rei e à Rainha, meus senhores, dizendo-lhes que dentro de sete anos disporia de cinquenta mil homens a pé e cinco mil cavaleiros, para a conquista da Terra Santa e, durante os cinco anos seguintes, mais cinquenta mil pedestres e outros cinco mil cavaleiros, o que totalizaria dez mil cavaleiros e cem mil pedestres para a dita conquista.39

A colonização da América, para Colombo, justifica-se pela busca por reunir um contingente militar capaz de empreender uma cruzada que permitisse a reconquista da terra santa. Observa-se, desse modo, a união de dois ideários: um muito próximo ao das cruzadas medievais, que visava à reconquista da terra Santa, e outro moderno, motivado pela conquista do desconhecido. A motivação salvacionista de Colombo, baseada nas teses milenaristas de Joaquim de Fiori, era tal que, para garantir que mesmo após a sua morte a reconquista da terra Santa fosse empreendida, o almirante “[...] instituiu um morgado e dá instruções a seu filho (ou a seus herdeiros): juntar o máximo de dinheiro possível para, no caso de os Reis renunciarem ao projeto, poder ‘ir lá só e tão poderoso quanto lhe for possível’ (22.2.1498)”40.

Qual seria, portanto, a principal motivação de Colombo para realizar suas viagens? Todorov explica que a “vitória universal do cristianismo” certamente é o que anima Colombo. No diário da primeira viagem, o genovês afirma querer encontrar o Grande Can, imperador da China, cuja notícia tinha sido recolhida por Marco Polo, segundo o qual “[...] há muito tempo o imperador de Catai [China] pediu sábios para instruí-lo na fé de Cristo.”41 Em carta destinada ao papa Alexandre VI, em fevereiro de 1502, Colombo explica que “[...] sua próxima viagem será ‘para a glória da Santíssima Trindade e da santa religião cristã’”, pois “Espero em Nosso Senhor poder propagar seu santo nome e seu Evangelho no universo.”42 Para Colombo, possivelmente inspirado pelas profecias de Joaquim de Fiori, a descoberta da América será tida como um elemento que prenuncia a reconquista de terra santa e a vitória universal do cristianismo. Confirmando o projeto salvacionista de Colombo, Todorov assevera:

jul. 1503 apud TODOROV, Tzetan. A conquista da América – A questão do outro. Tradução

Beatriz Perrone Moisés. 3. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2014. p. 12).

39 COLOMBO, Cristóvão. Carta, 22 fev. 1502. In: TODOROV, op. cit., p. 14-15. 40 TODOROV, op. cit., p. 15.

41 Ibidem, p. 12.

A realidade deste projeto está amplamente comprovada. No dia 26 de dezembro de 1492, durante a primeira viagem, ele [Colombo] revela em seu diário que espera encontrar ouro, e “em quantidade suficiente para que os Reis possam, em menos de três anos, preparar e empreender a conquista da Terra Santa. Foi assim”, continua ele, “que manifestei a Vossas Altezas o desejo de ver os benefícios de minha atual empresa consagrados à conquista de Jerusalém, o que fez Vossas altezas sorrirem, dizendo que isto lhes agradava, e que mesmo sem este benefício este era o seu desejo”. Mais tarde, ele relembra este episódio: “No momento em que tomei as providências para ir descobrir as índias, era na intenção de suplicar ao Rei e à Rainha, nossos senhores, que eles se decidissem a gastar a renda que poderiam obter das Índias na conquista de Jerusalém; e foi de fato o que eu lhes pedi”. (Instituição de morgado, 22.2.1498). Era pois esse o projeto que Colombo tinha apresentado à corte real, procurando obter o auxílio de que precisava para a primeira expedição. Quanto a Suas Altezas, não levavam isso muito a sério, e deviam reservar-se o direito de empregar o lucro do empreendimento, se lucro houvesse, com outras finalidades.43

Seja por meio da cartografia quinhentista, como a carta de Thevet com seu grande continente austral como prova da tese monogenética, seja por meio das motivações que levaram Colombo a empreender as suas viagens, a descoberta do Novo Mundo deve ser remetida à universalidade das Escrituras e da Revelação, sendo compreendida símbolo que deve ser interpretado à luz das profecias.

A visão do tempo e da história, para Colombo, será uma visão profética, ou seja, a história apresenta-se como um símbolo a ser interpretado de modo que se realizem as profecias das Escrituras. Chauí cita trechos de diversas cartas do viajante que nos permitem constatar tal perspectiva. Na “Carta a los Reyes”, de 1502, por exemplo, afirma-se:

Grande parte das profecias e das Sagradas Escrituras está acabada [...] muito resta a cumprir das profecias e são coisas grandes no mundo e há sinais de que Nosso Senhor tem pressa delas. [...] O cardeal Pedro de Ailíaco escreve muito sobre o fim da seita de Maomé e do advento do anticristo [...] o abade Joaquim Calabrês disse que haveria de sair da Espanha quem iria reedificar a cada do Monte Sião [...]. Para a execução da empresa das Índias não me aproveitou razão nem matemática nem mapa-múndi; plenamente cumpriu-se o que disse Isaías.44

Embora a busca por descobertas e riquezas motivassem, senão Colombo, certamente os financiadores e as tripulações de suas viagens, o salvacionismo inspirado pelas teses milenaristas sempre esteve no horizonte do almirante genovês. Além disso, a busca por riquezas e o desejo de converter todos os povos ao catolicismo não se excluem, pelo contrário, complementam-se. Motivado pelas profecias de Joaquim de Fiori – segundo as quais após a dispersão de Israel e a

43 TODOROV, Tzetan. A conquista da América – A questão do outro. Tradução Beatriz Perrone

Moisés. 3. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2014. p. 14.

44 COLOMBO, Cristóvão. Carta a los reyes, 1502 apud CHAUÍ, Marilena. Profecias e tempo do fim. In: