DÖRDÜNCÜ BÖLÜM UYGULAMA
4.2. ARAġTIRMANIN VERĠ SETĠ
A “teoria do posicionamento” se interessa pelas formas como as pessoas administram a posição delas mesmas e dos outros na “paisagem” da interação e cultura. O conceito de posicionamento, de acordo com Harré (op.cit.), ajuda a focar nos aspectos dinâmicos do encontro, em contraste com a forma na qual o uso de “papel” serve para destacar aspectos estáticos, formais e ritualísticos.
A teoria do posicionamento, apesar de recente, tem sido utilizada em uma ampla variedade de estudos, situações sociais, trabalhos literários e processos políticos. Serão citados o mais recentes:
Sua aplicação no campo institucional: Boxer e John (2000) propõem a teoria do posicionamento como possibilidade de explicação para o sucesso ou fracasso das mudanças em instituições públicas. Boxer (2001, 2002) trabalha a melhoria da qualidade em educação com aporte da teoria do posicionamento.
Das relações interpessoais e poder: Ling (1998) usa a teoria do posicionamento para compreender como as pessoas usam várias ordens de posicionamento para conseguir seu balanço desejado de paridade e poder. Ritchie et al. (2000) estudam a relação de poder entre alunos e estudantes usando a referência da teoria do posicionamento. Esse estudo contribui com uma visão de poder mais dinâmica e mais fluida. Tholander e Aronsson (2003) trabalham com a questão das relações entre alunos e monitores. Demonstram a assimetria na relação entre alunos, em que “monitor” e “aluno” revalidam a relação de assimetria que eles mesmos constituem ao assumirem as posições alta e baixa, respectivamente. Bullough Jr. e Draper (2004) utilizam a teoria do posicionamento num estudo das relações interpessoais entre estudantes, mentores e professores.
Reflexões metodológicas: Linehan e McCarthy (2000) fazem uma análise comparativa entre “comunidade da prática” de Jean Lave (1991) e da teoria do posicionamento, com o intuito de avaliar a possibilidade de a ferramenta proporcionar respostas ao que não foi respondido ou que foi suscitado na teoria da prática. McKenzie (2004) utiliza a teoria do posicionamento como ferramenta útil na análise da relação médico/paciente. Reventlow e Tulinius (2004) estudam como a posição do moderador em um grupo focal influencia a coleta dos dados em saúde quando este moderador é um médico. Cook et al. (2004) fazem uma análise da utilização de teoria do posicionamento na análise de modelos probabilísticos voltados à construção de sistemas interativos. Boxer (2005) introduz alguns tipos- chave de posicionamento na análise do discurso de mudança na educação.
Estudos de gênero: Mckenzie e Carey (2000) trabalham a questão do gênero e a teoria do posicionamento. Nogueira (2001, 2001a) faz uma análise sobre a contribuição da teoria do posicionamento no desenvolvimento das abordagens teóricas e metodológicas ligadas à questão de gênero, utilizando a análise do discurso e a psicologia discursiva dentro da psicologia social.
Processo ensino-aprendizagem: Enciso (2001) utiliza a teoria do posicionamento como ferramenta para compreender a forma como os alunos interpretam os textos escolares. Para a autora, as crianças se posicionam no texto e esta posição pode tanto ser confortável como também desconfortável, humilhante. A teoria do posicionamento ajuda a refletir sobre os testes padronizados de leitura. Barnes (2004) faz uso da teoria do posicionamento no estudo da participação dos estudantes nas atividades de aprendizagem colaborativa.
Phillips et al. (2002) estudam a constituição da identidade profissional em cirurgiões utilizando a teoria do posicionamento como ferramenta para a análise de situações de aprendizagem profissional e propõem o desenvolvimento de um modelo transformacional da educação profissional.
Especificamente no campo das organizações, Boxer (2003) é pioneiro na utilização da teoria do posicionamento. Baseando-se nesta teoria, propõe como primeiro passo para a compreensão das mudanças descartar a ligação com os papéis estáticos
para definir organizações. Assume o fato de que as pessoas continuamente adotam e defendem suas posições, aceitam ou confrontam as posições dos outros; a compreensão da constituição dos fatos sociais - neste caso das organizações -, torna-se mais clara.
Boxer (op.cit.) utiliza a teoria do posicionamento para explicar por que os processos organizacionais desenvolvidos em empresas ou dentro de uma mesma empresa, a princípio da mesma forma, têm êxito em alguns casos e em outros não. Para Boxer (op.cit.), a resposta está na percepção das organizações enquanto constituídas pelas relações de “posicionamento” de seus sujeitos agentes. Em sua tese de doutoramento (2003), ele explica o comportamento dos chefes de empresa ao lidar com as demandas de sustentabilidade, por meio da abordagem da teoria do posicionamento.
Como Flahault, Davies e Harré (1989) se opõem ao conceito de papel, também pela questão da identidade, mas principalmente devido ao seu caráter estático e redutor. Antes que desempenhar “papéis pré-fabricados”, eles dizem, “nós criamos ‘posições’ para nós mesmos e outros dentro de múltiplas “story lines”21 que estão presentes na interação. Para os autores, as posições são construídas pelos sujeitos na relação com as outras pessoas.
O reconhecimento da força das “práticas discursivas”, as formas como as pessoas são posicionadas por meio destas práticas e a maneira com a subjetividade do indivíduo é gerada por meio da aprendizagem e do uso de determinadas práticas discursivas, da "indexicalidade" e da importância do "contexto" são conceitos-chave na teoria do posicionamento.
As posições, como compreendidas na teoria do posicionamento, tendem a ser “situação-específica”, ou seja, posição e situação estão interligadas. Para cada posição ocupada ou que se pretende ocupar, existem normas, regras e expectativas individuais ou sociais, que os autores denominam direitos relevantes e aceitação das
21
Na ausência de uma palavra em português que contemplasse o seu significado, optamos por manter a palavra em inglês. Story line: é uma descrição narrativa de um cenário (ou de uma família de cenários), destacando a dinâmica das principais características do cenário, e a relação entre as principais forças que as conduzem.
obrigações relevantes. Por exemplo, um anfitrião numa recepção formal não tem os mesmos direitos e deveres de um anfitrião num churrasco de família; esse caráter situacional-específico é o que denominam “story line”. Em cada “story line” as posições são distintas e as normas e deveres também. Seguindo o exemplo da recepção, se ela é uma reunião formal, as regras (os rituais) que permeiam as relações entre as pessoas serão distintas daquelas do churrasco familiar.
Em síntese, as idéias centrais abarcadas pela teoria do posicionamento são: (1) No decorrer das ações dos indivíduos uns sobre os outros, eles constroem uma história em que cada indivíduo ocupa uma posição, e eles tornam estas histórias explícitas pelos processos discursivos. (2) Nas histórias, os oradores se localizam e são localizados pelos outros; cada mudança na posição é acompanhada de uma mudança no arranjo e na ação. (3) A força social de uma ação, a posição do sujeito e as interações determinam mutuamente um ao outro. (4) O posicionamento tem lugar em contextos de significação e de ordens morais específicos. (5) Como as pessoas são posicionadas e como elas posicionam os outros refletem seu sentido de ordem moral e seu lugar dentro dela.
A teoria do posicionamento é, portanto, o estudo da natureza, formação, influência e das formas de mudanças do sistema local de direitos e deveres e de como suposições compartilhadas relativa a esses fatores influenciam as interações. Ao contrário dos papéis descritos como relativamente fixos, formalmente definidos e de longa duração, para a teoria do posicionamento as convenções da fala e ação são instáveis, contestáveis e efêmeras (HARRÉ; VAN LANGENHOVE, 1999). “Posição” é uma forma de explicar as relações considerando a dinâmica das interações. É esse fator dinâmico das relações que é proposto como parâmetro qualitativo no contínuo permissão/obstrução à mudança.
2.3.4. “Sistemática de posicionamento” – “Relações de posicionamentos”
O termo “sistemática de posicionamento” não se refere a uma proposição teórica específica, mas ao conjunto das proposições apresentadas nas várias abordagens, discutidas à luz de sua possível utilização em conjunto com a proposição do “agir organizacional”.
Entre os pesquisadores que trabalham com a idéia de “posição” não há consenso sobre três pontos específicos: o que se denomina efetivamente “relação de posicionamento”; a utilização de “posições” em conjunto ou não com as idéias de “papéis” e “estatutos” e a questão da existência de estruturas e, por conseguinte, da determinação a priori das posições.