As organizações não operam, como preferem transparecer, em uma perspectiva puramente racional e seus membros não atuam sempre no sentido de alcançar os objetivos organizacionais. Ao contrário, sua realidade está permeada pela diversidade de interesses, pela ocorrência de conflitos, por processos de barganha e pela formação de coalizões, de modo que, para se alcançar uma maior compreensão da conduta humana no contexto organizacional, torna-se necessário adotar uma perspectiva política.
A política na organização se constitui em um processo complexo, que tangencia muitos outros elementos do campo do comportamento organizacional como poder, influência, legitimidade e interesse, porém é essa combinação que o torna singular. Mais importante é aceitar que todos esses aspectos não são estranhos, mas propriedades naturais da dinâmica organizacional. Vale lembrar também que aqueles que se envolvem em atividades políticas dentro da organização não são apenas pessoas astutas e diabólicas. Nesse jogo, todos participam.
Mesmo sendo a política uma atividade corriqueira na vida das organizações, isso não significa que possamos prescindir de uma avaliação sob o ponto de vista ético. A dificuldade reside no fato de que os atores, que geralmente qualificam os comportamentos políticos, são justamente os detentores de poder dentro da organização. Logo, cabe o cuidado de não caracterizar os comportamentos políticos como se fossem negativos, ilegítimos, inaceitáveis ou disfuncionais por natureza. A análise desse fenômeno é mais rica (e difícil) quando reconhecemos que há outras nuances.
A política nas organizações pode ser mesmo inevitável, mas nem sempre indesejável. É possível obter a partir de comportamentos políticos resultados favoráveis para a organização e principalmente para o indivíduo. Caso contrário, como se justificaria tanta adesão à política? Se os comportamentos políticos envolvessem apenas aspectos reprováveis como jogos, manipulações e ações auto-interessadas, normalmente se esperaria que essas atividades não fossem tão profusas. Porém, dependendo da habilidade política do indivíduo e da cultura organizacional, a ocorrência de comportamentos políticos pode ser bastante significativa.
Ainda que a literatura empreenda esforços no sentido de definir e delimitar os elementos que caracterizam um comportamento como político, trata-se de um fenômeno subjetivo que dependem mais da percepção individual do que da realidade objetiva. Como sugerem Andrews e Kacmar (2001), a política está nos olhos de quem vê.
Como vimos ao longo desse trabalho, as pesquisas empíricas demonstram que há uma forte relação entre a percepção dos comportamentos políticos e uma série de efeitos no contexto organizacional. Interessante também é lembrar que quanto maior a percepção da política organizacional, maior é a inclinação dos indivíduos de se envolverem com ela.
Entendendo que os comportamentos políticos podem não ser sempre e necessariamente auto- interessados, que suas táticas podem se valer até mesmo de meios sancionados e que seus fins nem sempre são ilegítimos, esse trabalho buscou realizar a investigação sobre os comportamentos políticos a partir de uma leitura do referencial analítico que não estivesse balizada por tabus. O objetivo da pesquisa foi de examinar os efeitos dos comportamentos políticos na percepção dos indivíduos sobre o ambiente organizacional, particularmente em relação à percepção de justiça e de confiança nas organizações. E, como resultado, verificou- se que a política está, de fato, negativamente relacionada a ambos os constructos.
Considerando as percepções como interpretações subjetivas da caracterização do ambiente de trabalho e dos comportamentos como políticos, cabe admitir ainda a existência de diferenças perceptivas entre os indivíduos. Ao procurar compreendê-las, a presente pesquisa também indicou fatores que influenciam a percepção das atividades políticas como a idade, o tempo de experiência profissional e o nível hierárquico no qual o indivíduo se situa na organização.
A análise dos resultados destacou que esses fatores não funcionam por si só como promotores ou inibidores de comportamentos políticos. Por exemplo, uma pessoa não está mais sujeita à política apenas porque ocupa determinado cargo ou tem determinada idade. Esses fatores não modificam a ocorrência, mas a percepção, o modo como os indivíduos processam as informações do ambiente e lidam com as relações.
Ao mesmo tempo em que o acesso à realidade dos comportamentos políticos na organização acontece de modo mais enriquecedor através dos indivíduos, também traz à pesquisa certa
limitação. Por adotar como estratégia metodológica a pesquisa desses construtos a partir da percepção dos indivíduos, faz-se necessário alertar para o risco dos resultados sofrerem possíveis distorções, devido ao fato de os indivíduos tenderem a dar respostas socialmente aceitáveis, evitando maior exposição sobre si.
Outra limitação diz respeito à falta de alcance de validade externa, isto é, da possibilidade de generalizar os resultados obtidos na pesquisa para toda a população, uma vez que se trata de uma amostra não-probabilística, escolhida com base no julgamento pessoal e na conveniência da pesquisadora. Portanto, como agenda de pesquisa, sugere-se a realização de outros estudos com amostras nacionais envolvendo o constructo do comportamento político, principalmente porque tem sido um tema escassamente explorado no país, tanto teórica quanto empiricamente.
Embora tenha limitações, essa pesquisa também apresenta implicações teóricas e práticas. O desenvolvimento do campo do comportamento organizacional não pode se furtar de discutir a política nas organizações e esse trabalho espera ter contribuído para estimular uma análise desses comportamentos que não precisa ter necessariamente um tom negativo ou mesmo pejorativo. Como lembra Cunha et al. (2006), o tema dos comportamentos políticos nas organizações é complexo e não comporta apenas interpretações lineares e do tipo receituário.
Em uma perspectiva prática, esse estudo contribui para se obter uma compreensão mais completa do fenômeno da política a partir dos fatores que influenciam sua percepção, bem como a partir dos seus efeitos sobre as percepções de justiça e confiança. Tanto os comportamentos políticos quanto a justiça e a confiança têm forte influência sobre os resultados da organização, sobre o desempenho laboral dos indivíduos, bem como sobre a satisfação pessoal dos mesmos. Espera-se, assim, instigar o desenvolvimento de novas práticas de gestão que considerem a realidade dos comportamentos políticos a fim de que, de um lado, seja possível minimizar os seus efeitos negativos e, do outro, utilizá-los em favor da eficácia organizacional.
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APÊNDICE - Modelo do instrumento de coleta de dados
Prezado(a) Sr.(a),
O questionário a seguir é parte de uma pesquisa acadêmica visando à conclusão do curso de Mestrado Acadêmico em Administração Pública pela Fundação Getúlio Vargas (FGV/RJ).
Para responder o questionário não é necessário identificar-se, tampouco identificar a empresa onde trabalha. Sua participação é muito importante e levará cerca de dez minutos.
Todos os dados fornecidos serão utilizados única e exclusivamente para o escopo desta pesquisa acadêmica. Portanto, o questionário não prevê identificação e a análise dos dados será feita de forma agregada (em conjunto com todos os questionários), assegurando o sigilo das respostas e o anonimato dos respondentes.
Ao analisar as questões, procure indicar a alternativa que melhor representa a sua percepção da realidade, mesmo que essa resposta não pareça ser socialmente aceitável. Por favor, responda todas as questões sem deixar nenhuma em branco. Lembre-se de que para esse tipo de pesquisa não há repostas certas ou erradas.
Caso tenha interesse em receber os resultados da pesquisa, favor enviar e-mail para [email protected].
Agradeço, desde já, a sua valiosa colaboração. Atenciosamente,
Favor informar:
Sexo: ( ) Masculino ( ) Feminino
Idade: _______ anos
Escolaridade: ( ) Fundamental ( ) Médio ( ) Superior ( ) Pós-Graduação
Tempo de experiência: _________ anos (desde o início da sua trajetória profissional)
Está trabalhando no momento? ( ) Sim ( ) Não
Caso a resposta seja positiva, favor informar os dados relativos à organização onde trabalha atualmente:
Organização: ( ) Pública ( ) Privada
Nº. funcionários: ( ) até 50 ( ) 501 a 1000 ( ) 51 a 500 ( ) acima de 1000
Tempo de experiência: _________ anos (na organização atual)
Cargo/Função: ( ) Técnico / Operacional ( ) Supervisão ( ) Administrativo ( ) Gerência
( ) Analista/Técnico (Nível Superior) ( ) Direção DADOS BIOGRÁFICOS
Em seguida, são apresentados comportamentos típicos do cotidiano de qualquer organização. Considerando a realidade da empresa onde trabalha atualmente, indique o quanto você concorda ou discorda de cada uma das frases abaixo.
1 2 3 4 5 Discordo totalmente Discordo parcialmente Nem concordo nem discordo Concordo parcialmente Concordo totalmente
1. As pessoas nesta empresa tentam crescer derrubando os outros. 1 2 3 4 5 2. Há sempre um grupo com influência neste departamento que ninguém consegue
se opor. 1 2 3 4 5
3. Os funcionários são encorajados a darem suas opiniões abertamente mesmo
quando criticam as idéias estabelecidas. 1 2 3 4 5