4. ARAŞTIRMA SONUÇLARI
4.3. Antiviral Aktivite Deney Sonuçları
No que se refere a realidade brasileira podemos afirmar que a nossa curta experiência de políticas culturais foi influenciada por constrangimentos coloniais e militar e instabilidade política. Segundo Rubim (2007), a história das políticas culturais brasileira é marcada pelo autoritarismo, caráter tardio, descontinuidade, desatenção, paradoxos, impasses e desafios.
Podemos destacar duas ações inaugurais das políticas culturais no Brasil: a passagem de Mario de Andrade pelo Departamento de Cultura da Prefeitura de São Paulo (1935-1938), que apesar de ser uma instituição local, suas práticas a época transcenderam as fronteiras paulistanas, e a implantação do Ministério da Educação e Saúde (1930), ou mais especificamente, a direção de Gustavo Capanema entre os anos de 1934 e 1935. Será nesse período que se constroem a tradicional relação entre governos autoritários e políticas culturais no país. (ARRUDA, 2004)
Após 1964 essa relação se torna mais proeminente com o governo militar construindo uma integração simbólica e midiatizada através da indústria cultural. Vale destacar que durante esse período também foram criadas importantes instituições culturais, principalmente no período mais brando da ditadura (1974-1985) que se caracterizou pela tentativa por parte do Estado de cooptação dos intelectuais e agentes culturais através do aumento de recursos e a abertura para o diálogo internacional. (RUBIM, 2007)
Com o fim da ditadura inicia-se um longo processo de transição, marcado pela implantação do Ministério da Cultura e a constante alternância de ministros. O resultado desse processo foi a criação da Lei Sarney, que quebrando a tradição de financiamento cultural estatal, repassa para o mercado, através das isenções fiscais, os rumos da política cultural nacional. Essa lei durou pouco mais de cinco anos e foi reformada e usada como base para a criação de
uma nova lei. A lei Rouanet, seguindo os mesmos moldes da anterior, oferece as empresas que desejam investir na cultura abatimento em seus impostos no patamar de até 100%.
A Lei Rouanet irá se transformar em paradigma e molde para as políticas culturais nas esferas estaduais e municipais, contribuindo para a construção de uma intervenção estatal que não gere, mas financia e contempla inerte o mercado ditar os rumos da cultura nacional. As críticas a esse modelo se pautam na concentração de recursos, ausência de contrapartida por parte das empresas, incapacidade de alavancar novos recursos e deliberação das políticas culturais pelo mercado.
Vale destacar que essa lei foi idealizada em um período que o país saía de uma ditadura militar e momento de ascensão do paradigma neoliberal. Apesar de alguns autores considerarem exclusivamente o impacto neoliberal na elaboração dessa política cultural (OLIVIERI, 2004), podemos perceber claramente o cuidado do idealizador da Lei Sarney18, Celso Furtado19, em
evitar todos os vícios que existia na política cultural das forças armadas. Contudo, independentemente do arcabouço teórico-político da Lei, a verdade é que sua lógica ditou o rumo da política cultural nacional, estadual e municipal. Em outras palavras, as políticas culturais nas três esferas da federação foram guiadas pela lógica do uso da burocracia e do dinheiro público para as empresas decidirem o rumo da cultura nacional. Dessa forma as Leis de incentivo à cultura via isenções fiscais se confundiram com políticas públicas culturais no Brasil, aonde não se discutia modelos alternativos apenas meios para aprimoramento da mesma.
O quadro de concentração econômica do setor cultural corroborado por tal modelo se torna preocupante na medida em que grande parte da população brasileira possui baixo ou nenhum acesso à cultura. Boa parte dos equipamentos culturais está na região sudeste, e aqueles que se encontram fora dessa região concentram-se nas capitais dos estados. No setor cultural brasileiro 0,4% das empresas concentram mais de 70% do total dos rendimentos20.
18 A Lei Sarney (1988) foi o primeiro esboço do mecanismo de isenção fiscal para as empresas que desejassem investir na cultura e acabou se transformando, após alguns anos de discussão e mudanças, no que conhecemos hoje como Lei Rouanet
19 FURTADO, 2012
20 Ministério da Cultura (2010)
Diante desse cenário o principal instrumento de política cultural no país, Lei Rouanet, poderia trabalhar no sentido de corrigir tal falha de mercado. Contudo o que acontece na realidade é que o arcabouço e a execução dessa lei agem corroborando tal concentração.
Através da lei Rouanet o Estado concede isenções fiscais para empresas que desejem investir na cultura, sendo, portanto, um mecanismo de parceria público privada. Nessa lógica o governo brasileiro transfere o poder de escolha daquilo que vai ser financiado para o departamento de marketing das empresas, contribuindo para a concentração do dinheiro público nos projetos e artistas já renomados e que possuem grande apelo comercial. Além disso, até 2010, ou seja, em quase quinze anos de atuação, 80% dos recursos da Lei Rouanet se concentrou na região sudeste, principalmente nos estados de São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais. (MINISTÉRIO DA CULTURA, IBGE 2010)
Outro instrumento que ganhou bastante destaque no terreno político nacional foi o “Vale Cultura”, que basicamente consiste em um benefício no valor de R$ 50,00 para o trabalhador utilizar no setor cultural. A empresa que adotar ao sistema terá isenção fiscal no valor do benefício concedido, ou seja, é a transferência da “seleção cultural” para o consumidor em um mercado altamente concentrado. Esse modelo de política vai contra um dos principais consensos da economia da cultura21, o de que o consumo cultural está condicionado pela
educação ou “capital cultural” e o preço não costumo ser uma grande barreira. No Brasil, por exemplo, o consumo cultural per capta das regiões não segue a mesma hierarquia do PIB per capta regional22, ou seja, não é porque uma região é mais rica que ela vai consumir mais cultura.
Assim, esse novo instrumento político pode trazer resultados bastante perversos, similares a Lei Rouanet, ou seja, o reforço da concentração do mercado cultural brasileiro.
Em Natal, especificamente, além dos incentivos federais, os atores culturais têm a opção de trabalharem com a Lei Djalma Maranhão (estadual) e a Lei Câmara Cascudo (municipal), ambas, como destacado anteriormente, seguem a lógica da renúncia fiscal, inspirada na Lei Rouanet. O rol de políticas culturais presentes na cidade, bem como a sua configuração,
21 Throsby, 2010, Asuaga, 2013
22 MINISTÉRIO DA CULTURA,IBGE, 2010.
corrobora o quadro desolador em que se encontra o setor cultural em Natal. É importante lembrarmos que a esfera da federação com maior representatividade nos gastos em cultura é o município23, porém os valores da prefeitura de Natal no que se refere a cultura são
desanimadores: de acordo com o Portal da Transparência do município de Natal, a média de investimento em cultura dos últimos três anos gira em torno de 0,57% do orçamento municipal. Abaixo temos dois quadros que sintetiza a realidade do setor cultural no estado e em Natal. O primeiro mostra os números sobre alguns equipamentos culturais e atividades relacionadas e o segundo traz algumas informações sobre a gestão cultural no estado. Pode-se perceber no quadro 5 que existe no Rio Grande do Norte 16 teatros, com cinco estados no nordeste e quinze no Brasil superando esse valor, e há um teatro para cada 68.000 habitantes em Natal. Além disso, mais da metade (56,25%) dos teatros existentes no estado estão concentrados em Natal. O estado disponibiliza de 16 salas de cinema, ficando na sexta e décima sexta colocação na região e no país, respectivamente. Existe uma sala de cinema para cada 56.000 habitantes em Natal24, que concentra 88% das unidades de todo o Estado No que diz
respeito aos Museus, o estado aparece na quarta posição no Nordeste, com 52 unidades, e na décima segunda a nível nacional. Com relação a presença de centros culturais nos municípios do estado, os números também não são bons, com apenas 16,77% dos municípios com esse equipamento e o vigésimo pior índice no país e o quinto no Nordeste. Já a quantidade de Bibliotecas públicas no estado alcança valores louváveis, 181 unidades, sendo o segundo e o oitavo estado com maior número desse equipamento na região e no país, respectivamente.
23 Ministério da Cultura, IBGE (2010)
24 Esses valores hoje devem estar menores devido a inauguração de salas de cinema no Natal Shopping e no Norte Shopping.
Quadro 5 – Equipamentos Culturais e atividades relacionadas - RN
CINEMA BIBLIOTECA PÚBLICA
Número de salas de cinema 16 Número de bibliotecas pública 181 Índice de concentração na Capital 88% Índice de concentração na capital 2,21
Porcentual de Munícipios com
Cinema 1,8 Curso graduação biblioteconomia 1
Curso Graduação em cinema 1 Índice de habitante/biblioteca
pública na capital 1,97 TEATRO
Número de teatros 16 Porcentual de municípios com
biblioteca pública 94,61 Índice de concentração na capital 56,3
Porcentual de municípios com
escolas, oficinas ou curso de teatro 15
MUSEUS
Número de museUs 52
Porcentual de municípios com
grupos artísticos de teatro 47,9
Porcentual de municípios com
museus 14,97
Porcentual de municípios com teatro ou salas de teatro 12,6
Curso graduação em museologia 0 CENTRO CULTURAL
Cursos de Graduação de Teatro e
Artes cênicas 1
Porcentual de municípios com
centros culturais 16,77
Fonte: MINISTÉRIO DA CULTURA, IBGE (2010)
Quando olhamos para as informações da gestão cultural no Rio Grande do Norte (Quadro 6) podemos perceber uma das causas do fraco desempenho desse setor dentro da economia, bem como o baixo número de equipamentos culturais no estado e na cidade. Para sintetizar a situação podemos destacar que apenas 0,6% dos municípios possuem recursos estaduais destinado a cultura, já os recursos federais chegam a apenas 19,16% das cidades. A adesão dos municípios potiguar ao Sistema Nacional de Cultura é irrisória, não chegando a 20%, não existe qualquer tipo de planejamento metropolitano ou intermunicipal na área da cultura no estado e apenas 2,4% dos municípios possuem legislação própria de fomento a cultura. Em Natal, como podemos observar na Tabela 1, há uma crescente concentração de recursos em apenas dois programas. Em 2011 os mesmos eram responsáveis por 42,4% do total de recursos da FUNCARTE, em 2014 a estimativa é que os programas Natal em Natal e Festejos Populares se beneficiem de 72,3% do recurso global dessa fundação.
Quadro 6 – Informações sobre a gestão cultural no RN GESTÃO CULTURAL – RN Porcentual de municípios que
possuem Conselho Municipal de Cultura
3,59
Proporção de municípios que aderiram ao Sistema Nacional
de Cultura
18,6
Porcentual de municípios que possuem recursos estaduais
destinados a cultura
0,6
Proporção dos municípios com existência de plano municipal
ou intermunicipal de cultura
5,99
Porcentual de municípios que possuem Fundo Municipal de
Cultura
1,2
Proporção de municípios com legislação municipal de
fomento à cultura
2,4 Porcentual de municípios com
políticas municipais de Cultura 41,92
Porcentual de municípios com recursos da União destinado à
Cultura
19,16 Porcentual de municípios com
consórcios intermunicipais de Cultura
0
Porcentual de municípios com legislação municipal de proteção ao patrimônio cultural
7,78 Porcentual de municípios com
Secretaria Municipal exclusiva de Cultura
3,59
Fonte: MINISTÉRIO DA CULTURA, IBGE (2010)
Tabela 1 – Despesa total da FUNCARTE e principais programas em Mil R$
ORÇAMENTO FUNCARTE 2011 2012 2013 2014
Total FUNCARTE 12.812 10.861 18.019 20.567
Festejos Populares 2.502 1.410 460 3.963
Natal em Natal 2.932 4.956 11.051 10.912
% dos dois programas no total FUNCARTE 42,4134 58,6134 63,8826 72,3246 Fonte: Portal da transparência de Natal/RN
Para embasarmos ainda mais nossa análise da política cultural da cidade entrevistamos Henrique Fontes25. Henrique é figura marcante na cena cultural natalense e um dos líderes do
espaço cultural Casa da Ribeira, trabalha como ator, diretor teatral e gestor cultural, além de exercer o cargo de Coordenador de articulação do RN Criativo, programa vinculado à Secretaria da Economia Criativa, desenvolvida em 12 estados.
Na opinião de Henrique a falta de entendimento dos gestores das secretarias e fundações de cultura locais sobre as funções dessas instituições é um dos principais problemas enfrentado pelos artistas potiguares. As mesmas esquecem seu papel de fomentadora cultural e atuam basicamente como produtoras de eventos, concentrando seus recursos em poucos programas, além do pagamento do seu corpo administrativo. Esse depoimento casa com os dados discutidos acima e presentes na tabela 1.