A importância do desenvolvimento de um projeto de mobiliza- ção ultrapassa o cumprimento de determinadas funções por parte do público envolvido. Faz-se necessária a deinição de estratégias que promovam a visibilidade do movimento e provoquem repercussão nos meios de comunicação. É fundamental o planejamento da co- municação estratégica, considerando-se os públicos, objetivos e o cenário social que envolve o movimento. Nesse sentido, o proissio- nal de relações públicas, gestor de relacionamentos, quando inserido no âmbito dos movimentos sociais, possui competências para pla- nejar, gerir e executar ações que integrem o projeto de mobilização social a im de obter os objetivos propostos.
Com a necessidade de uma proposta de comunicação mobilizado- ra no contexto dos movimentos sociais, ressaltamos o papel do prois- sional de relações públicas como importante mediador desse processo. A partir dos estudos pioneiros de Cicilia Peruzzo, os quais tecem crí- ticas às relações públicas tradicionais que, sob sua análise, se restrin-
giam aos interesses do capital, um novo paradigma surgiu e, assim, novas formas de atuação incorporaram-se às atividades de relações públicas. Essas novas formas foram classiicadas pela autora como “Relações Públicas Comunitárias”, “populares” e ainda “na contra- mão”, porém, na contemporaneidade, independentemente da área de atuação, é importante que o proissional de relações públicas, como gestor de relacionamentos, incentive e promova a prática da cidadania.
O planejamento da comunicação nos projetos de mobilização social apresenta um dilema básico, tendo em vista que o excesso de preocupação com o planejamento pode acarretar um risco de enges- samento do movimento, o que o torna um processo complexo. Por outro lado, a comunicação é imprescindível e deve ser lexível para não prejudicar a participação democrática dos atores sociais que compõem os movimentos (Henriques et al., 2007). Nesse sentido, é importante salientar o papel de gestor da comunicação, com foco nas lutas da cidadania, do proissional de relações públicas, inserido nesses projetos de mobilização social, pois
é nesse quadro de referências que o proissional de Relações Públicas deve prever sua ação. Os fundamentos de seu trabalho, diretamente dirigidos à construção do relacionamento entre instituições e públicos, podem garantir a livre expressão dos atores e a continuidade de um processo dialógico que deve compor um projeto mobilizador verdadeiramente democrático. Seu objetivo maior será a abertura de um campo de possibilidades, que será tão mais vasto quanto mais se amplie o horizonte ético da mobilização pretendida (Henriques et al., 2007, p.30).
Rennan Mafra atribui à área de relações públicas o papel de pla- nejar e gerenciar a comunicação estratégica, pois ela surgiu ante a ne- cessidade de um proissional apto a gerenciar o relacionamento entre instituições e públicos. Não se trata de um instrumental a serviço do capital, mas um instrumento instaurador de processos comunicati- vos com ins de transformação social. Esse autor elucida que:
a atividade de Relações Públicas pode inserir, a partir da formulação de estratégias comunicativas, argumentos na cena pública, estimulando um processo de discussão e debate. É relevante notar que esse processo estratégico vai apontar ou desembocar sempre numa dimensão política, ética e valorativa, revelando as motivações que norteiam todo o processo de envolvimento dos públicos (Mafra, 2006, p.46).
Esse processo proposto por Rennan Mafra vai ao encontro da concepção de comunicação comunitária deinida por Regina Escu- dero César como “uma via de mão dupla, pautada na comunhão en- tre sujeitos iguais que participam de seu contexto e o transformam dialeticamente” (César, 2007, p.86). Nesse sentido, ganha impor- tância a comunicação face a face, que requer um contexto de copre- sença e, ainda, deve possuir um caráter dialógico, não hierarquizado. A área de relações públicas, criticada por ter suas raízes no funcio- nalismo, que acabava por restringi-la aos interesses das organiza- ções capitalistas, encontra inúmeras possibilidades para ampliar o universo de atuação proissional, uma vez que ações de relações pú- blicas tornam-se necessárias ao propósito de transformação social.
A partir do modelo proposto por José Bernardo Toro e Nísia Werneck para a mobilização social, o qual insere atores sociais fun- damentais para iniciar o processo de mobilização social, atribuindo- -lhes papéis, Antonio Teixeira de Barros atribui às relações públicas importante contribuição. O proissional de relações públicas, com- preendido como um mediador político, econômico, cultural ou co- munitário, pode atuar como “editor social”, na medida em que pos- sui competências para intermediar as relações entre um “produtor social” e uma comunidade (Barros, 2007).
Segundo Murade (2007), cabe ao relações-públicas ser agente precursor de transformação social, incentivando a inquietação das pessoas para o desejo de modiicar a realidade e construir outra, dife- rente da instituída pelo poder hegemônico. Para José Felício Gous- sain Murade, “a harmonia social só pode ser concebida pela dispo- sição de conquistar novos direitos ou de efetivar os direitos sociais existentes” (Murade, 2007, p.162).
Em uma retomada das cinco funções básicas das relações públi- cas, sob a ótica dos movimentos sociais nas lutas da cidadania, ob- servamos novas formas de aplicabilidade dessas funções, com o ob- jetivo de participar efetivamente da transformação social. Portanto,
Trata-se de oferecer às comunidades informações e ferramentas de co- municação (assessoria) que possibilitem a leitura de mundo (pesquisa- -diagnóstico da realidade), a articulação em torno de polos e de projetos reivindicativos (planejamento e organização), a ação transformadora da realidade (execução), para, uma vez superada a situação geradora da controvérsia, chegar ao consenso e estimular novas reivindicações – dis- senso – , com base na releitura do mundo (avaliação) (Murade, 2007, p.159).
No presente estudo procuramos nos ater à função de execu- ção, segmentada em subáreas, entre as quais está nosso objeto de estudo: os eventos. No âmbito dos movimentos sociais, os eventos constituem importantes espaços na estratégia de comunicação e vi- sibilidade das lutas pelas quais se mobilizam. Entendemos, assim, a necessidade de uma discussão conceitual e da logística que envolve a realização dessas ações, para então compreender a relevância dos eventos como forma de dar voz e visibilidade aos cidadãos nos mo- vimentos sociais.