A partir da década de 1960, surgem legislações importantes para a área da educação, entre elas a lei 4.024/1961, a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB) aprovada em 20 de dezembro de 1961. Esta lei garantiu certa autonomia para os estados e seus estabelecimentos de ensinos adaptarem seu currículo mínimo66 ou adotarem o desenho curricular prescrito, conforme art. 80 da respectiva lei: “As Universidades gozarão de autonomia didática, administrativa, financeira e disciplinar, que será exercida na forma de seus estatutos” (BRASIL, 1961). Para Romanelli (1986, p. 181), na essência a lei nada mudou. Na sua análise a única vantagem está relacionada a quebra da rigidez e um certo grau de descentralização, tendo em vista que não foi prescrito um currículo fixo e rígido para todo o território nacional (a exemplo da legislação do Estado Novo, a partir de 1937, que teve uma política centralizadora para a educação em todos os níveis), deixando aos estados e seus sistemas de ensino a possibilidade de adaptarem e anexarem disciplinas optativas ao currículo mínimo. Contudo, isso já foi um avanço para décadas de legislação autoritária e centralizadora.
Na análise de Curi (2000, p. 11), os cursos de licenciaturas estiveram historicamente atrelados ao dos bacharelados, na medida em que “...foi o Parecer 292/62, após a LDB 4024, que estabeleceu os currículos mínimos dos cursos de licenciatura com base nas disciplinas do bacharelado”. Desse modo, o parecer 292/62 do Conselho Federal de Educação (CFE) estabeleceu os currículos mínimos para os cursos de licenciatura com base nas disciplinas básicas do curso de bacharelado. E nele são propostas três disciplinas pedagógicas obrigatórias para todos os cursos de licenciatura, a saber:
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66 A lei 4.024/1961 criou os currículos mínimos, mas a ampliação de sua exigência se deu pela lei nº 5.540/1968. O currículo mínimo para o ensino superior vigorou até 1995, quando a Lei nº 9.131, de 24 de novembro de 1995, que extinguiu o Conselho Federal de Educação (CFE) substituindo pelo Conselho Nacional de Educação (CNE). Assim a competência para “deliberar sobre as diretrizes curriculares propostas pelo Ministério da Educação e do Desporto, para os cursos de graduação ficou sob a responsabilidade da Câmara de Educação Superior do CNE. Para Frauches (2011) “era o fim dos ‘currículos mínimos’. Em seu lugar, foram instituídas as ‘diretrizes curriculares nacionais’ para os cursos de graduação. A atual Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (9.394/1996) ao assegurar às instituições de ensino superior a autonomia didático-científica e prescrever diretrizes curriculares para os cursos de graduação abandonou a obrigatoriedade do currículo mínimo.
... Psicologia da Educação (incluindo estudos como adolescência, aprendizagem), Didática e Elementos da Administração Escolar, além de Prática de Ensino e das disciplinas que sejam objetos da formação profissional, sob a forma de Estágio Supervisionado. (CURI, 2000, p. 7). (grifo nosso).
Segundo Curi (2000) é esta estrutura curricular, relacionada às disciplinas pedagógicas, que perdura até os dias atuais na maioria dos cursos de Licenciatura.
Em relação ao curso de Ciências Sociais, concordando com Maggie, Alves, Villas Bôas et. al. (1997) os currículos dos cursos de Ciências Sociais no país a partir de 1962 assumiram como diretriz curricular o parecer do CEF de n.º 293/62 de 23/10/1962, pois nesta época ele é o
... Parecer que fixa a duração e o currículo mínimo da habilitação em licenciatura. A duração do curso é 2.200 horas de atividades, com integralização a ser feita no prazo mínimo de três anos e máximo de sete anos. O currículo mínimo é composto das seguintes matérias: (1) História Econômica, Política e Social, Geral e do Brasil, (2) Geografia Humana e Econômica, (3) Sociologia, (4) Antropologia, (5) Política, (6) Economia, (7) Estatística, (8) Metodologia e técnicas de pesquisa e (9) as matérias pedagógicas. (MAGGIE; ALVES; VILLAS BÔAS et. al. 1997, p. 15).
Assim, é neste período que surge o segundo desenho curricular do curso de Ciências Sociais da UFPA, que vigorou no período de 1963 a 1971. O parecer nº 293/62 do Conselho Federal de Educação (CFE) recomenda que as matérias básicas (e obrigatórias) do currículo mínimo sejam: Sociologia, Antropologia,
Política e Economia.
No Parecer 293/62, a comissão que o elaborou recomenda: “qualquer curso de Ciências Sociais deve ter por objetivo preparar o aluno para a análise crítica à realidade, como condição indispensável para uma atuação eficaz no processo social”. Todavia, a mesma comissão excetua as Escolas de Sociologia e Política e recomenda que a resolução seja aplicada somente “aos cursos de Ciências Sociais das Faculdades de Filosofia, em ordem à formação para o magistério de Ciências Sociais no ensino médio”. (grifo nosso). Este parecer (293/62) serve de base para a resolução S/N de 23/10/1962 do CFE que fixou os conteúdos mínimos e a duração do curso de Ciências Sociais para o Brasil. Em relação à duração do curso, a referida resolução estabeleceu que o curso devesse ter no mínimo 2.200 horas de atividades e ser integralizado no mínimo em três e no
máximo em sete anos letivos. Esta resolução entrou em vigor em 1963, ano que na UFPA passou a existir apenas a Licenciatura Plena em Ciências Sociais, já que o Bacharelado em Ciências Sociais foi extinto em 196267.
O referido parecer deixa a cargo das instituições de ensino superior a complementação do currículo mínimo com outras disciplinas para construírem o currículo pleno, que atendesse as particularidades locais de cada região. Segundo Souza (1991) os currículos mínimos prescritos pelo CEF
... deverão revestir a dupla característica de sobriedade e flexibilidade, para que constituam um delineamento realmente nuclear do conteúdo de cada curso e possam adaptar-se a condições locais e a projetos escolares específicos (SOUZA, 1991, p. 116). (grifo no original).
Em termos gerais, a concepção de Currículo Mínimo prescritas pelo CFE para a elaboração dos currículos plenos de graduação no Brasil de acordo com Camargo e Pinto (2005)
Tinha como idéia central facilitar a transferência entre as instituições, além de procurar garantir qualidade e uniformidade aos cursos de graduação, direcionados para a obtenção de um diploma profissional. Além disso, sua concepção teve como referencia o modelo de formação profissional que predominou em grande parte do século XX, apoiado [...] nos padrões taylorista-fordista de produção. [...] esse modelo baseava-se no entendimento de que havia um relativo consenso acerca das funções exercidas pelo profissional bem como do conjunto de saberes que definiram uma determinada profissão (CAMARGO e PINTO, 2005, p. 326).
Entre as principais críticas à concepção de currículo mínimo, podemos elencar: a fixação do currículo mínimo pelo CFE fere a autonomia das universidades; o currículo mínimo em alguns casos são tão minuciosos que deixam de ser mínimos para serem máximos, o que elevou o tempo de duração dos cursos, e por possuir certa rigidez curricular no desenvolvimento do curso (Cf. SOUZA, 1991 e CAMARGO e PINTO, 2008).
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67 Segundo Cortez (2007), no ano de 1962 houve uma reunião no MEC com todos os diretores das Faculdades de Filosofia e os gestores do MEC chegaram a conclusão que as Faculdades de Filosofia não tinham condições de ministrar o Bacharelado e a Licenciatura Plena ao mesmo tempo e recomendou as Faculdades que optassem pela Licenciatura Plena. Com exceção do curso de Matemática da UFPA, a maioria optou pela Licenciatura Plena. Assim, a partir do ano de 1963 só havia uma habilitação no Curso de Ciências Sociais da UFPA, a Licenciatura. Então, não foi o golpe militar de 1964 que excluiu o Bacharelado do curso, já que esta decisão se deu em 1962, todavia com a ditadura, para Cortez (2007) tornou-se impossível lutar, de imediato, pelo retorno do Bacharelado. Como exposto adiante, o Bacharelado retornou somente em 1978.
É importante ressaltar que os conteúdos do currículo mínimo foram denominados de matérias, Souza (1991) esclarece a distinção entre matérias e disciplinas, vejamos:
Cada elemento integrante do currículo mínimo denomina-se matéria. A matéria abrange um determinado campo do saber e pode ser seccionada em subcampos a que se dá o nome de disciplina. [...] no currículo mínimo é a matéria que comparece, mas no currículo pleno, quando a matéria se desdobra em especificidades a serem estudadas nas diferentes séries do curso, figuram as disciplinas (SOUZA, 1991, p. 116).
Segundo Nunes (2012, p. 484) os conteúdos do currículo mínimo “são apresentados sob a forma de matérias e não de cadeiras ou disciplinas, com o sentido de matéria-prima a ser trabalhada em cada plano particular”. Basicamente o currículo Mínimo se dividia em duas partes: a parte fixa do currículo constituída pelas matérias básicas (obrigatórias) e uma parte variável representada por matérias preferenciais a ser definidas pelos estabelecimentos de ensino (NUNES, 2012).
Então o que verificamos no quadro 3 (na página seguinte) são as matérias básicas (obrigatórias) do currículo mínimo para os cursos de Ciências Sociais, não as disciplinas, tendo em vista que nos documentos pesquisados do curso de Ciências Sociais da UFPA não localizamos as disciplinas que foram incluídas para a definição do currículo pleno (1963-1971) do mesmo, devido a documentação encontrar-se fragmentada com lacunas em vários anos.
Assim, o que conseguimos foi “elaborar” um desenho curricular do curso de Ciências Sociais (quadro 4) listando as disciplinas e professores que a lecionaram feito a partir de artigos de Cortez (2007) e Abelém (2007) e com base nos Pareceres CEF de nºs. 293/1962, 292/1962 e Resolução do CFE S/N de 23/10/1962. Vale ressaltar que o profº. Roberto Cortez foi aluno do curso no período de 1962-1964 e a Profª. Auriléa Abelém foi aluna no período de 1963-1966.
Quadro 3 – Currículo Mínimo do Curso de Ciências Sociais (1963-1971)