BÖLÜM III: BULGULAR VE YORUM
2. Boşanmış Annelerin Çocuklarının Boşanma Sürecine İlişkin Yaşantılarına Ait
2.4. Çocukların Boşanma Sonrası Arkadaşlarıyla Paylaşımı
2.4.3. Arkadaşlarla Paylaşma
Ao proclamar que “todos os homens nascem livres e iguais em dignidade e direitos. São dotados de razão e consciência e devem agir em relação uns aos outros com espírito de fraternidade”420, o Artigo 1º, da Declaração Universal dos Direitos Humanos, consagra os valores da liberdade, da igualdade e da fraternidade421, tríade da república francesa pós- revolucionária. Esses axiomas tiveram sua primeira menção em conjunto na Constituição francesa de 1791422, ocasião em que a fraternidade foi tratada como uma “virtude cívica”. Só na segunda república francesa, de 1848, é que a fraternidade foi consagrada como princípio
418 SÃO JOÃO PAULO II. Carta Encíclica Laborem exercens sobre o trabalho humano, de 14 de setembro de
1981. Disponível em: <http://w2.vatican.va/content/john-paul-ii/pt/encyclicals/documents/hf_jp- ii_enc_14091981_laborem-exercens.html>. Acesso em: 23 set. 2014, ponto 19.
419Ibid., pontos 21 a 23.
420 BALERA, Wagner. Comentários à declaração universal dos direitos humanos. 2ª edição revista e ampliada.
São Paulo: Conceito, 2011, p. 15.
421 COMPARATO, Fábio Konder. Rumo à justiça. 2ª edição. São Paulo: Saraiva, 2013, p. 66.
422 FRANCE. Conseil Constitutionnel. Constitution de 1791. Disponível em: <http://www.conseil-
constitutionnel.fr/conseil-constitutionnel/francais/la-constitution/les-constitutions-de-la-france/constitution-de- 1791.5082.html>, conforme consulta em 8 de outubro de 2015: “Il sera créé et organisé une Instruction publique commune à tous les citoyens, gratuite à l'égard des parties d'enseignement indispensables pour tous les hommes et dont les établissements seront distribués graduellement, dans un rapport combiné avec la division du royaume. - Il sera établi des fêtes nationales pour conserver le souvenir de la Révolution française, entretenir la fraternité entre les citoyens, et les attacher à la Constitution, à la Patrie et aux lois”.
republicano423, época em que o protagonismo da solidariedade já começava a despontar, conforme veremos adiante424.
Michel Borgetto, na publicação de sua tese “La notion de fraternité en droit public
français”, apresentada à Universidade Paris II, Panthéon-Assas, explica que “fraternidade” vem do latim fraternitas, uma palavra-chave do cristianismo425 e que, mesmo sendo considerada uma ideia de conteúdo impreciso426, a fraternidade é essencialmente ligada aos sentimentos de amor e amizade pelo outro427.
No mesmo caminho, o Professor Fábio Konder Comparato constata que a noção de fraternidade na mensagem apostólica de São Francisco de Assis baseia-se na concepção de que somos todos filhos do mesmo Deus e partilhamos de uma fraternidade divina com todas as criaturas, inclusive as que não pertencem à espécie humana428. Em São Francisco de Assis,
a fraternidade tinha por pressuposto a lição evangélica do espírito de serviço, tanto que a Ordem dos Irmãos Menores, por ele fundada, baseava-se na “mais absoluta igualdade de condição pessoal”429 já praticada na sua “comunidade de pobres pregadores de Cristo Jesus”, onde todos eram considerados irmãos, sem que as responsabilidades assumidas por seus membros desse ensejo a títulos particulares430.
423 FRANCE. Conseil Constitutionnel. Constitution de 1848. Disponível em: <http://www.conseil-
constitutionnel.fr/conseil-constitutionnel/francais/la-constitution/les-constitutions-de-la-france/constitution-de- 1848-iie-republique.5106.html>, conforme consulta em 8 de outubro de 2015: “Préambule - […] - IV. - Elle a pour principe la Liberté, l'Egalité et la Fraternité. Elle a pour base la Famille, le Travail, la Propriété, l'Ordre public.”.
424 COMPARATO, Fábio Konder. Rumo à justiça. 2ª edição. São Paulo: Saraiva, 2013, p. 69.
425 BORGETTO, Michel. La notion de fraternité en droit public français: le passé, le présent et l’avenir de la solidarité. Bibliothèque de Droit Publique. Tome 170. Paris: Librairie Générale de Droit et de Jurisprudence, 1993, p. 3.
426 Ibid., p. 5.
427 Ibid., p. 7: “Sur le plan conceptuel, tout d’abord, les choses sont claires: alors que la fraternité postule et
implique nécessairement, dans son sens dérivé et figuré, un sentiment f’amour et d’amitié envers autrui ou, ce qui revient au même, se trouve dotée d’une charge affective et sentimentale qui lui est consubstantielle, on ne retrouve rien de tel, en revanche, dans de concept de solidarité”.
428 COMPARATO, Fábio Konder. Ética: direito, moral e religião no mundo moderno. 2ª edição revista pelo
autor. 3ª reimpressão. São Paulo: Companhia das Letras, 2006, p. 135: “Ainda aí, São Francisco levou a palavra evangélica, praticamente e não apenas em teoria, às últimas consequências. Para ele, nós, humanos, não somente somos todos filhos do mesmo Pai, mas partilhamos igualmente essa fraternidade divina com todas as criaturas de Deus, viventes ou não, e com o nosso próprio corpo, como elemento da natureza. As expressões ‘irmão corpo’ ou ‘irmã doença’, na boca do Pobre de Assis, não eram simples figuras de retórica, mas expressões autênticas de um fortíssimo sentimento de fraternidade universal”.
429 Ibid., p. 138. 430 Ibid., p. 137/138.
Comparato analisa que a fraternidade em São Francisco de Assis era baseada no amor universal e na alegria, diferentemente da desconsolada piedade religiosa, manifestação de sentimentos predominante em sua época431.
Com efeito, Jacques Maritain assevera que a fraternidade é um valor essencialmente cristão e, que assim como os demais preceitos cristãos, deve ser praticada e fomentada pelo Estado sem que este se transforme em clerical: não se trata de impor uma determinada crença religiosa – o que certamente, como o fora reconhecido por Maritain, traria malefícios –, mas trata-se de efetivamente agir empregando os valores do cristianismo432.
No pensamento de Maritain, a amizade cívica é sinônimo de fraternidade433, único ingrediente possível para, ao lado da justiça, elevar-se a consciência coletiva da humanidade a melhores patamares434. O pensador aponta que, por meio dessa virtude, a igualdade será
realizada, não como nivelamento de todos e eliminação do mérito ou das diferenças positivas, mas sim como a chance de cada um ser tratado com dignidade pelo simples fato de ser pessoa
431 COMPARATO, Fábio Konder. Ética: direito, moral e religião no mundo moderno. 2ª edição revista pelo
autor. 3ª reimpressão. São Paulo: Companhia das Letras, 2006, p. 139.
432 MARITAIN, Jacques. Os direitos do homem e a lei natural. 3ª edição. Rio de Janeiro: Livraria José Olympio
Editora, 1967, p. 34.
433 Ibid., p. 40/41: “Só é progressivamente realizável pelo desenvolvimento do direito, e de um senso de algum
modo sagrado da justiça e da honra, e pelo desenvolvimento da amizade cívica. Pois a justiça e o direito, impondo sua lei ao homem como a um agente moral, e dirigindo-se à razão e ao livre arbítrio, dizem respeito à personalidade, e transformam numa relação entre dois todos – o todo da pessoa individual e o todo social – o que, de outra maneira, seria apenas uma subordinação da parte ao todo; e ao amor, aceitando voluntariamente o que seria opressão, transfigura-o em liberdade e livre dádiva. Se a estrutura da sociedade depende antes de tudo da justiça, é da amizade cívica que decorrem o seu dinamismo vital e a sua força criadora interna. A amizade faz consentimento das vontades, pedido pela natureza mas livremente realizado, e que está na origem da comunidade social. A amizade é a causa própria da paz civil. É a forma animadora da sociedade – Aristóteles sabia-o muito bem, pois distinguia as espécies de comunidade segundo os tipos de amizade. A justiça e o direito não bastam, são condições pré-requeridas indispensáveis. A sociedade não pode viver sem a perpétua oferta e o perpétuo aumento que as pessoas lhe proporcionam, sem a fonte de generosidade, escondida nas profundezas da vida e da liberdade das pessoas, e que o amor faz jorrar”.
434 Ibid., p. 41: “Ao mesmo tempo a justiça, as instituições de direito, o desenvolvimento das estruturas jurídicas,
e a amizade cívica, encarnada também ela em instituições, representam este princípio de unificação pelas forças
internas a que fizemos referência há pouco, e são única via para a humanidade passar a graus mais elevados de organização e unificação, correspondentes a graus mais elevados de consciência coletiva”.
humana435. Caminhando juntas, a justiça e a fraternidade conduzirão a humanidade à igualdade de oportunidades como expressão do bem comum ao alcance de todos436.
Com a sentença: “em uma palavra, a obra política é essencialmente uma obra de civilização e de cultura. São as aspirações íntimas e essenciais da pessoa humana que iluminam e descobrem a natureza dessa obra, e a mais profunda aspiração da pessoa é a
liberdade de expansão”437, Maritain ensina que a fraternidade é o complemento das ideias de liberdade e igualdade.
Segundo o pensador francês:
A verdade da imagem de Deus, naturalmente impressa em nós, a liberdade e a fraternidade não estão absolutamente mortas. Se nossa civilização agoniza, não é porque ela ouse demasiado, é porque propõe demais aos homens. É porque não ousa, nem lhes propõe suficientemente. Ela reviverá, uma nova civilização viverá, sob a condição de esperar e querer, e amar verdadeira e heroicamente a verdade, e a fraternidade438.
Como vemos, a fraternidade, no pensamento de Maritain, tem o nobre sentido de amor agápico, necessário para realização do bem comum: “[...] tendendo para a instauração de uma cidade fraternal em que o ser humano seja libertado da escravidão e da miséria, tal ideal sendo como que seu objetivo maior”439.
Assim, Maritain afirma que, pela via da fraternidade é que o homem viverá a plenitude de seus direitos, quais sejam: aqueles de pessoa humana como tal – que se expressam no direito à existência e no direito de ser livre material e espiritualmente (constituir família,
435 MARITAIN, Jacques. Os direitos do homem e a lei natural. 3ª edição. Rio de Janeiro: Livraria José Olympio
Editora, 1967, p. 41: “Enfim esse próprio desenvolvimento da justiça e da amizade é ligado a um processo de igualdade entre os homem; não penso com isso em uma igualdade aritmética, isenta de toda diferenciação e de toda desigualdade, que reduziria todas as pessoas humanas ao mesmo nível. Penso no progresso da consciência, em cada um de nós, de nossa igualdade fundamental e de nossa comunhão na natureza humana, penso na proporção que realiza a justiça, tratando cada um segundo o que lhe é devido, e, antes de tudo, todo homem como homem”.
436 Ibid., p. 42/43: “Esta concepção afirma o movimento progressivo da humanidade, não como um movimento
automático e necessário, mas como um movimento contrariado, comprado ao preço de uma tensão histórica das energias espirituais e das energias físicas. Ela reconhece a justiça e a amizade cívica como os fundamentos essenciais dessa comunidade de pessoas humanas que é a sociedade política; e em consenquência insiste também sobre o papel fundamental da igualdade, não somente da igualdade da natureza, que está na raiz, mas da igualdade a conquistar como fruto da justiça e como um fruto do bem comum revertido sobre todos”.
437 Ibid., p. 47.
438 Ibid., p. 50.
alimentar fé religiosa de sua própria escolha)440; aqueles de pessoa cívica – que é o direito de ser cidadão, de participar em igualdade de condições com todos os demais da vida política do Estado441; e, por fim, aqueles direitos de pessoa social e operária – que, para além do direito ao trabalho, traduzem-se no “direito à assistência da comunidade na miséria e no desemprego, na doença e na velhice. Direito a usufruir gratuitamente, segundo as possibilidades da comunidade, os benefícios elementares, materiais e espirituais, da civilização”442.
Em outras palavras, a promoção da fraternidade implica a realização da justiça social, que caminham juntas. Tanto o é assim, que Eros Roberto Grau, em “A ordem econômica na constituição de 1988 (interpretação e crítica)”, sustenta que a fraternidade não pode ser alcançada em uma sociedade em que o egoísmo e a competição funcionam como motores da ordem econômica443. Eros Grau explica os efeitos do liberalismo e a “incapacidade de
autorregulação dos mercados”, apontando, em conclusão, que “à idealização de liberdade,
igualdade e fraternidade se contrapôs a realidade do poder econômico”444.