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2.1. OKUDUĞUNU ANLAMA ve GÖRSEL OKUMA İLE İLGİLİ KAVRAMSAL

2.1.3. Anlama (Alıcı Dil) Becerileri

2.1.3.2. Okuma

Ele evolui segundo os autores de que trata, progressivamente. O objeto indutor não é entretanto o autor de que falo, mas antes aquilo que ele me leva a dizer dele; eu me influencio a mim mesmo com sua permissão: o que digo dele me obriga a pensá-lo de mim (ou a não pensá-lo). É preciso pois distinguir os autores sobre os quais se escreve e cuja influência não é nem exterior nem anterior àquilo que deles se diz, e (concepção mais clássica) os autores que a gente lê; mas estes, o que é que me vem deles? Uma espécie de música, uma sonoridade pensativa, um jogo mais ou menos denso de anagramas.

Roland Barthes, RB por RB

Ao longo das últimas décadas, alguns teóricos da literatura têm se reportado à afirmativa de Walter Benjamin: “a arte de narrar está em vias de extinção”,384

pois, com o advento do romance moderno, estabeleceram-se novas formas de representação literária e novos regimes de leitura. É válido proferir o seguinte questionamento: o que narrar então, quando já não mais se narra? Ou ainda, o que se lê quando se lê um texto contemporâneo? O que é apresentado ao leitor? Há algum sentido? Essas interrogações tornam-se pertinentes quando se entra em contato com as formas e conteúdos literários desenvolvidos por Noll. Na tentativa de respondê-las, ao menos provisoriamente, faz-se necessária uma ligeira digressão, reportando-se ao que Benjamin denomina romance, ou seja, os textos que, a partir do surgimento da imprensa e do marco histórico na literatura – a publicação do romance Dom Quixote (1615), de Cervantes –, começam a diferir da narrativa oral. Para Benjamin,

o que distingue o romance de todas as outras formas de prosa – contos de fada, lendas e mesmo novelas – é que ele nem procede da tradição oral nem a alimenta. Ele se distingue, especialmente, da narrativa. O narrador retira da experiência o que ele conta: sua própria experiência

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ou a relatada pelos outros. E incorpora as coisas narradas à experiência dos seus ouvintes.385

O que Benjamin postula como experiência está ligado, entre outros, a dois fatores integrantes à definição de narrativa. Primeiramente, o fato de que havia na transmissão oral ou escrita um compartilhamento de vida e de discurso, ou seja, um saber compartilhado pelo narrador e pelo ouvinte – geralmente, é um ancião que transmite suas experiências, ou aquelas relatadas por outros, aos mais jovens. Tal transmissão se dava especialmente na hora da morte, na qual “o saber e a sabedoria do homem e sobretudo sua existência (...) assumem pela primeira vez uma forma transmissível”.386 Como se pode perceber nos diálogos finais de Édipo

em Colono, de Sófocles, onde o personagem Édipo à beira da morte chama Teseu

para contar um segredo que só poderá ser contado quando também estiver à beira da morte:

Agora vou mostrar-te sem guia nenhum o pedaço de terra onde devo morrer. Em tempo algum, porém, poderás revelar a qualquer outro homem o lugar oculto, nem mesmo a região onde ele se situa, se queres que eu te envie no futuro ajuda igual à de escudos e lanças incontáveis mandados por vizinhos para socorrer-te. (...) Terás de guardá-lo

por toda a vida, e na hora de tua morte confia-o somente ao súdito mais digno, para que por seu turno ele o revele um dia a um sucessor fiel e assim se faça sempre. (...) Partamos já para o lugar a que aludi, sem mais hesitações, pois o deus me compele.387

Concomitante a esse fator segue o segundo, que explora a experiência na sua dimensão prática, utilitária. Essa forma de transmissão “pode consistir seja num ensinamento moral, seja numa sugestão prática, seja num provérbio ou numa norma de vida – de qualquer maneira, o narrador é um homem que sabe dar conselhos”,388 ele possui uma sabedoria. Portanto, essa forma de narrar está ligada

385 BENJAMIN.O narrador. Magia e técnica, arte e política, p. 201. 386 BENJAMIN.O narrador. Magia e técnica, arte e política, p. 207. 387 SÓFOCLES. Édipo em Colono. Trilogia Tebana, p. 179-80. 388 BENJAMIN.O narrador. Magia e técnica, arte e política, p. 200.

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à verdade, a um único sentido ou à moral da história, definhando-se “porque a sabedoria – o lado épico da verdade – está em extinção”.389

As obras de João Gilberto Noll nos convidam a pensar sobre esse fracasso e sobre a impossibilidade de transmissão da experiência. A ideia benjaminiana da experiência enquanto impossibilidade de relatar a si mesma, enquanto incapacidade de se constituir como narrativa parece aqui materializada de forma definitiva. A isso se soma os inúmeros cenários sem historicidade e locais transitórios na literatura contemporânea, aliados a um recorrente esvaziamento ou até mesmo supressão do nome em seus personagens identificados por vezes apenas por sua condição humana – o menino mudo, a mulher – ou sua profissão – o engenheiro, o pianista, o soldado –; ou narradores sem nome, reforçam ainda mais o caráter de mudez da literatura contemporânea.

É como se perante a aceleração da vida e a decorrente rarefação dos marcos da tradição coletiva, nos quais a experiência e a memória individuais se ancorariam, os narradores contemporâneos também se vissem diante das fragilidades das identidades humanas e, mais ainda, diante da impossibilidade da palavra e do nome darem conta dessa realidade. É dessa impossibilidade que nasce não somente o caráter circular do relato, a narrativa do impasse – que “narra” apenas a própria incapacidade de narrar – mas, também, a linguagem factual, desprovida de psicologismos, julgamentos morais e quase que até de sentimentos, que age como se fosse uma câmera registrando o movimento do mundo.390

No conto de abertura de seu livro de estreia, “Alguma coisa urgentemente”, o autor brasileiro coloca em derrocada o sentido da aprendizagem a partir da trama na qual dois personagens, pai e filho, são protagonistas: “O meu pai dizia não saber bem o porquê da existência e vivia mudando de trabalho, de mulher e de cidade”.391Ou ainda: “Meu pai me olhou sem surpresas e disse que eu procurasse

fazer outra história da minha vida”.392 Assim, insere o filho no paradoxo: o pai

ensina que não se deve aprender.

389 BENJAMIN.O narrador. Magia e técnica, arte e política, p. 200-1. 390 GOMES. “Fade in”. Imagens, esquinas e confluências,p. 16. 391 NOLL. Alguma coisa urgentemente. O cego e a dançarina, p. 11.

392 NOLL. Alguma coisa urgentemente. O cego e a dançarina, p. 15. Para um maior aprofundamento

a respeito deste tema: Cf. VASCONCELOS. Escrita de ação. Rimbaud da América e outras iluminações, p. 226-53.

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Portanto, pode-se começar a inferir que as obras dos autores contemporâneos de modo geral, sem dúvida colocam em colapso a questão da aprendizagem e do sentido, por não haver mais a crença nas grandes ideologias e por possuir em sua matriz “o indivíduo em sua solidão”, pois o Homem “não pode mais falar exemplarmente sobre suas preocupações, a quem ninguém pode dar conselhos, e que não sabe dar conselhos a ninguém. Escrever um romance significa descrever a existência humana, levando o incomensurável ao paroxismo”.393 Além

disso, levam também os leitores do romance, no ato da recepção, a um deslocamento, pois são convidados a ponderar sobre o sentido da existência e também de sua própria solidão, uma vez que

o leitor do romance se apodera ciosamente da matéria de sua leitura. Quer transformá-la em coisa sua, devorá-la, de certo modo. Sim, ele destrói, devora a substância lida, como o fogo devora lenha na lareira. A tensão que atravessa o romance se assemelha muito à corrente de ar que alimenta e reanima a chama.394

Vale ressaltar que para Roland Barthes a leitura se dá “não pela intensificação da projeção do leitor sobre a obra, mas ligando-os a ambos numa só e mesma prática”.395

A respeito da obra de João Gilberto Noll, o pesquisador César Guimarães diz que o protagonista-narrador “é incapaz de sintetizar e reunificar num conjunto organizado e dotado de sentido, os acontecimentos que lhe definem o percurso”, e afirma ainda que nesse universo “já não há sentido algum (isto é, um sentido orientador, guia das ações e do pensamento do narrador), mas apenas o sofrimento que a sua ausência gera”.396

Assim, ao se tomar Noll como objeto de estudo, a leitura também se torna errante, devido à intensa fragmentação de suas obras, nas quais se encontram personagens esfacelados, solitários e deambulantes, que quase nada sabem a respeito do sentido do mundo que os rodeia:

Perguntei-me se o mundo daqui agora era esse, embaçado. Se nele não havia matéria palpável, se dele eu não podia esperar nada de contornos

393 BENJAMIN.A crise do romance. Magia e técnica, arte e política, p. 54. 394 BENJAMIN.O narrador. Magia e técnica, arte e política, p. 213. 395 BARTHES. Da obra ao texto. O rumor da língua, p. 72-3.

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fixos, se tudo aquilo que eu tinha me permitido aspirar de Liverpool

havia se desintegrado nesse reino de formas imprecisas, sem que eu nem ninguém, do lado de cá, pudesse ter acesso à sua história (nessas alturas a parasitar no vazio em nuances de cinza).397

A busca de sentido para a vida contada pelos protagonistas dá, paradoxalmente, um caráter de não-sentido à obra, que segundo os teóricos da Estética da Recepção ou Teoria do Efeito Estético – em particular, Wolfgang Iser, e o disseminador de sua obra no Brasil, Luiz Costa Lima –, é derivado do próprio caráter ficcional da literatura, pois “como nenhuma história pode ser contada na íntegra, o próprio texto é pontuado por lacunas e hiatos que têm de ser negociados no ato da leitura”.398 A literatura, nesse sentido, é feita de vazios e indeterminações

– “corrente de ar” que alimenta o fogo, para Benjamin. Dessa forma, “não somente os lugares sobre os quais se relata, mas também os lugares da escrita e os lugares da leitura se encontram em movimentos autônomos e relacionados. Muito raramente percebemos (...) que também nós, como leitores, estamos em movimento permanente”.399 Para tal efeito, a literatura se efetiva em nós através

da voz do narrador, do sujeito que, por vezes, se desdobra em outras vozes. Assim, propõe-se a pensar que esse campo estético ao engendrar um discurso, também filosófico, como já dito, igualmente propulsiona a pensar acerca desse sujeito, bem como a nós mesmos.

397 NOLL. Lorde, p. 108, grifo meu.

398 ISER. Teoria da recepção. In: ROCHA. Teoria da ficção, p. 28.

399 ETTE apudVEJMELKA. ‘Mínimos, múltiplos, comuns’: a ordem do mundo segundo João Gilberto

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Benzer Belgeler