6. ARAŞTIRMA SONUÇLARI VE TARTIŞMA
6.1.6. Anisidin ve totoks sayılarının spektroskopik tayini
O pensamento jurídico-político medieval que se desenvolve até o século XIII se confunde com aquilo que se convencionou chamar, não sem alguma ambiguidade, de Agostinismo Político. Na lição de Belchior Monteiro Lima Neto e Carolline da Silva Soares:
O que era, para Agostinho, nada mais que uma inclinação política, vai se transformando em doutrina por seus herdeiros, numa forma de pensamento que desempenhou um papel importante, seja na formação da Cristandade Medieval, seja no crescimento do Poder Pontifício, seja na transformação da antiga noção romana de Estado.329
Como Lima Neto e Soares salientam, o Agostinismo Político é uma simplicação do pensamento de Santo Agostinho em matéria político-religiosa, não podendo ser identificado plenamente, pois, com os nuançados posicionamentos que o Bispo de Hipona efetivamente tomou, em seu tempo.330 É a partir do pontificado de Gregório Magno que vemos ser aplicado, de forma sistemática, o Agostinismo Político, como modelo para a atitude da Igreja face ao Império e aos jovens reinos bárbaros. Lima Neto e Soares destacam seis características do Agostinismo Político:
1. Poder secular como parte do corpo místico de Cristo; 2. Poder espiritual se sobressai sobre o temporal;
3. O poder secular como um ofício, um ministério real (regale ministerium); 4. O soberano não cristão é um tirano;
5. Legitimação do Estado ligado à missão apostólica da realeza; 6. O rei que não governa para a paz cristã perderá o seu título.331
329LIMA NETO, Belchior Monteiro; SOARES, Carolline da Silva. O Agostinismo Político como discurso. Revista Ágora. Vitória, nº. 14, julho a dezembro de 2011, p. 5 e 6.
330Um estudo percuciente do pensamento jurídico-político de Agostinho, baseado no cotejo entre a Cidade de Deus e as epístolas do Bispo de Hipona, foi desenvolvido em RAMOS, Francisco Manfredo Tomás. A idéia de Estado na doutrina ético-política de Santo Agostinho: um estudo do Epistolário comparado com o “De Civitate Dei”. São Paulo: Loyola, 1984.
A esses elementos, acrescentaríamos dois, que, de forma mais radical, distinguirão o Agostinismo Político das doutrinas encampadas em períodos posteriores: 7. A descentralização administrativa no interior da Igreja, que faz das relações construídas por bispos e abades com autoridades locais um vínculo mais forte que aquele advindo da relação desses mesmos bispos e abades com a Santa Sé; e 8. A tendência a rejeitar o século, descartando a idéia, greco-romana, segundo a qual a pólis representaria um espaço de efetiva realização da eudaimonia. É aqui que se dissemina o ideal de vida monástica, cenobítica ou solitária, como um distanciamento à rotina de geração e corrupção da cidade. Sobre referido ideal, vale a observação de Miriam Lourdes Impellizieri da Silva:
Desta forma, ao longo dos séculos, vai-se forjando a imagem dos mosteiros como uma ilha, ao largo de toda problemática humana, como um centro de santidade que, por caridade, ora pelos vivos. Os mosteiros são os “castelos de Deus”, fortaleza que resiste aos ataques das hostes demoníacas, tornando os seus moradores os agentes da redenção coletiva [...]332
Agostinho e seus seguidores pressupõem a existência de uma “reta ordem” dos valores, no mundo. Essa ordem natural é a “vontade divina”, sendo o mal uma transgressão culposa de sua hierarquia intrínseca. Em texto escrito por John Marenbon e D. E. Luscombe, encontramos: “A idéia de hierarquia sustentava as visões medievais de ordem no universo, ao assegurar algumas ou mesmo a todas as formas de ente – transcendente, inteligível, material – uma posição particular e uma função apropriada”.333
Durante sua existência mortal, o ser humano precisa respeitar a “reta ordem” dos valores, mantendo a consciência de que, em última instância, nenhuma criatura possui valor por si mesma, sendo investida de dignidade na medida em que se aproxima do Criador. A desordem surge no momento em que amamos mais a entes menos próximos de Deus. Os bens da realidade temporal só tem importância enquanto instrumentos para que alcancemos os bens eternos – e isso inclui a pólis. Ante a decadência do Império Romano, o Agostinismo Político substitui o mito da Roma eterna pela esperança na Cidade Celeste. Não é a pátria terrena, mas a Pátria Celeste, a dimensão da verdadeira felicidade. Nesse sentido, Marcos Roberto Nunes Costa afirma:
332SILVA, Miriam Lourdes Impellizieri. Monaquismo e poder na Idade Média: o exemplo de São Bernardo de Claraval. Em BONI (Org.). Idade Média..., cit., p. 137.
333MARENBON, John; Luscombe, D. E. Duas idéias medievais: Eternidade e hierarquia. Em MCGRADE, A. S. (Org.) Filosofia medieval. Tradução de André Oídes. Aparecida: Idéias & Letras, 2008, p. 84.
Com isso, Agostinho transforma, radicalmente, a perspectiva ético-pólítica da Civitas em relação à filosofia política clássica greco-romana, de quem é herdeiro, na qual se depositava a felicidade última do homem na Polis, enquanto instrumento estritamente humano. Em Agostinho, a finalidade última do homem, e conseqüentemente da Civitas, adquire uma dimensão teleológico-sobrenatural, a qual se encontra em Deus. A Civitas terrena deixa de ser o fim último do homem e passa a ser um meio, um instrumento ético-político que conduza os homens a Deus.334
Não é outro o significado da passagem do Sermão 296 de Agostinho, transcrita por Costa:
Diz-se que o corpo de são Pedro jas em Roma, que o corpo de são Paulo jaz em Roma [...]. Que importância tem onde jaz o corpo de Pedro? Seu testemunho ensina- nos a não nos apegarmos à terra, mas sim procurarmos aquilo que permanece [...]. De que servem, então, os túmulos dos apóstolos? Eles estão lá, mas eles não estão em ti. Quisera o céu que estivessem e tu não divagarias desse modo [...]. Choras e te lamentas porque vigas e pedras caíram e porque os mortais estão destinados à morte. Corações ao alto, se é que tens coração! O que morreu? O que foi que caiu? Se o teu coração está no alto, lá está o teu tesouro, lá se encontra o teu coração. Para baixo a tua carne! Se a tua carcaça treme, que pelo menos o teu coração esteja fora do alcance! [...] Tu não haverias de querer que Pedro fosse morto e sepultado em Roma para salvar os templos e manter no lugar as pedras dos teatros! A basílica de São Pedro é belíssima; mas a carta de Pedro é melhor!335
A contraposição da Pátria Celeste à pátria terrena não implica, no entanto, em uma postura dualista, que seria característica das doutrinas maniquéias e neoplatônicas que Agostinho rejeitou. O corpo (soma) não é um túmulo (sema), e o mundo material não é uma prisão, feita por demônios, à qual a alma eterna, por alguns momentos, é lançada. As leis temporâneas, positivas, criadas pelos homens, formam uma unidade com as leis eternas, naturais (inscritas na ordem física e nas tendências morais) e as leis divinas. Logo, o pertencimento a uma pátria ou outra deve-se ao bom ou mau uso do livre-arbítrio, e, não, às ingerências de Deus e de demônios. Nesse sentido, Costa afirma:
Para tal, com visão grandiosa, de forma invertida, na busca das causas primeiras, reconduz a história da humanidade a “duas Cidades”, as “duas Cidades” a dois homens, os dois homens a dois amores, os dois amores não a duas realidades
334 COSTA, Marcos Roberto Nunes. Introdução ao pensamento ético-político de Santo Agostinho. São Paulo: Loyola; Recife: Universidade Católica de Pernambuco, 2009, p. 56.
diversas – boa e má –, mas a duas atitudes ou vontades diversas, diametralmente opostas, livremente assumidadas, em face da mesma realidade.336
É necessário que se compreenda que, nesse sistema de pensamento, o papel das leis positivas é deveras limitado, cabendo ao poder temporal, unicamente, promover a paz necessária à vida contemplativa. É essa, e não a vida ativa, que levará o homem à verdadeira felicidade e ao Supremo Bem – Deus. Sobre o tema, a lição de Annabel S. Brett é esclarecedora:
Agostinho compartilhava com a teoria política clássica a compreensão central de que nossa realização virá apenas em uma cidade verdadeira, em comunicação com os outros, em meio à liberdade e à justiça. A questão era principalmente: o que é essa cidade verdadeira e como alguém obtém nela a cidadania? É aqui que a visão cristã de Agostinho diverge mais significativamente daquela de seus predecessores. Sua resposta é que só podemos ser inteiramente humanos na cidade de Deus, não na cidade terrena, a cidade do homem; e que a cidadania na cidade de Deus vem somente através da graça.337
Adiante, a autora complementa:
Agostinho não desvalorizava, então, a política humana inteiramente, mas enxergava o bem humano como jazendo fora da cidade humana, na cidadania da cidade de Deus, enquanto em peregrinação por este mundo (o que Agostinho tendia a igualar à Igreja, enquanto reconhecia que há réprobos, bem como eleitos, em suas fileiras), e nos lares de homens justos. Não é na cidade humana que o bem de nossas almas está em jogo.338
Mesmo a Igreja Militante, a Cidade de Deus na terra, enquanto agente a um só tempo político e espiritual, só tem valor na medida em que guia os homens à Igreja Triunfante, a Cidade Celestial:
[...] a Cidade de Deus não tem nesse mundo sua natural culminação, senão que a concluirá na posse de Deus, que é o objeto do amor de seus súditos. Com isto a
336COSTA. Introdução ao pensamento ético-político de Santo Agostinho..., cit., p. 83.
337BRETT, Annabel S. Filosofia política. Em MCGRADE, A. S. (Org.) Filosofia medieval..., cit., p. 329. 338BRETT. Filosofia política. Em MCGRADE, A. S. (Org.) Filosofia medieval..., cit., p. 330.
Cidade de Deus, enquanto realidade, historicamente falando, é apenas peregrina nesse mundo, e tem sua continuidade e plena realização na Cidade Celestial [...]339
Como muitos comendadores de Agostinho e de seus seguidores já salientaram, a organização governamental é filha do pecado. Isso porque, não fosse o pecado orginal e a natural inclinação do homem ao mal, a política, para Agostinho, não se faria necessária. Diversamente dos autores posteriores à Reforma Gregoriana, Agostinho não confere, à
Civitas, a tarefa de co-criadora da ordem do universo, que participaria de forma ativa na reconquista do Paraíso. Ao Direito compete, apenas, impedir a maldade humana – mas, não, aperfeiçoar sua bondade.