3. MATERYAL VE YÖNTEM
3.3. Analiz Yöntemleri
O corpo é como a argila, recebe tanta energia, é composto de tantas impurezas, que, uma hora ou outra, fatalmente ele pára, paralisa urgentemente a mente, que se descontrola, impondo sobre ele um domínio autoritário. Descobri nesse processo que sendo um organismo vivo, assim como a terra, ambas precisam de cuidados específicos. Há hora para amassar, bater, modelar, prensar, cortar e esculpir, escrever sobre nós o que é preciso ou o que o corpo necessita. Para cada uma dessas fases é preciso estar aberto, sem preconceitos, e pronto para aceitar o que a matéria pode dar ou entender se podemos juntos transformá-la e, finalmente, ter a percepção exata de até que ponto podemos chegar.
De saída, a percepção se estrutura através de processos seletivos, a partir das condições físicas e psíquicas de cada pessoa, e ainda a partir de certas necessidades e expectativas. Frente aos incontáveis estímulos que nos chegam continuamente, esta seletividade representa uma primeira instância de filtragem de significados. Como que estabelecendo um esquema de prioridades em nossa atenção, perceberemos certas coisas, podendo achá-las importantes ou menos importantes, e outras ainda, muitas outras coisas, simplesmente haveremos de ignorar. Assim a seletividade permite-nos interpretar melhor os estímulos e reagir a eles de modo mais coerente e dentro de nossos interesses. Além disso - e ainda a partir das mesmas prioridades intuitivas - a seletividade nos leva a estabelecer certas conexões (entre aspectos semelhantes ou contrastantes dos fenômenos) que possam tornar-se significativos para nós, projetando em
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nossa mente uma espécie de modelos mentais, em forma de padrões hipotéticos. Estes nos servirão de referencial durante o próprio ato de percepção. (OSTROWER, 1995, p.25-26)
Considerando que o ceramista e o barro, são elementos vivos, carregados de energia, posso ir além da minha imaginação e criar um paralelo entre ambos: imaginemos um grupo de pessoas convivendo no mesmo ambiente, trabalhando, recebendo as pressões cotidianas, sofrendo as intempéries da vida contemporânea... Feito isso, não é difícil aceitar a idéia de que a qualquer momento, algumas pessoas desse grupo sintam a necessidade de gritar, fugir, que, no limite de suas sensações, queiram “explodir”, e muitas, não consigam controlar-se diante do calor de suas emoções. Essa “explosão” acontece o tempo todo, diariamente, com todas as pessoas, momentos de raiva e indignação fazem se espalhar por todos os lados atitudes nem
sempre salutares.
Temos consciência da nossa racionalidade, e o quanto ela nos difere dos animais e de outras formas de vida, mas, se pressionados, sucumbimos diante de tanta pressão, por que o barro t e r i a q u e s u p o r t a r o c a l o r incomensurável do fogo? Quanta energia negativa não foi transferida para a matéria que amassava? Onde cavei profundamente os anos que marcaram tantas vidas, palavras e nomes saídos do esquecimento, doadores de memórias anônimos vincados, outros Fig. 101 Daniela Bueno Placas esmaltadas nos tons de amarelo 2006
tantos dilacerados. Ninguém, ou coisa alguma, deve suportar os dissabores, nem conter-se em “formas rígidas”.
Essa percepção tornar-se-ia dinâmica na medida em que eu reconhecesse as semelhanças entre as relações humanas e as esferas da matéria. Na esfera visual das placas, havia definições e seleções a fazer: cores, formatos, medidas, as d i s t â n c i a s e n t r e a s p l a c a s assimétricas e incompatíveis entre si.
Por meio da paleta de cores, acabei por distribuir os temas
semelhantes para as mesmas cores, sem conseguir uma separação rígida, afinal, não são apenas temas, mas histórias e sentimentos que ficarão expostos. Algumas peças precisaram de um cuidado maior, como por exemplo, todos os parentes que faleceram receberam a mesma cor, os acontecimentos alegres entraram nos tons de amarelo, desde o mais claro ao mais forte. Os nomes das pessoas mais ligadas a minha intimidade receberam a cor vermelha. Não foi possível estabelecer uma regra única para definir as cores, já que se desfazer de métodos excessivamente rígidos era um compromisso dessa etapa. Então, arrisquei distribuir as cores entre as peças e o resultado cromático foi o que havia planejado: um calendário vivo e afetivo.
O fato de não serem geometricamente idênticas na forma e no tamanho, impede que elas se encaixem perfeitamente ficando inúmeros vãos aparentes além de
Fig. 102 Daniela Bueno Placas esmaltadas nos tons de laranja e marrom
complicar os encaixes e as disposições, mas, de certa forma, os espaços vazios tinham uma ligação forte com o trabalho também.
Em primeiro lugar, é preciso que um artista ou artesão nunca desista quando se vê diante de uma perda, ou falha pois somente a prática, a disciplina e a persistência podem revelar um resultado positivo após o esforço. Obviamente, as perdas consecutivas dos azulejos no forno me desestimularam a continuar com as primeiras idéias, mas não foi apenas o catastrófico que deve ser levado em consideração. Fayga Ostrower tem, no cerne da obra Acasos e Criação Artística - como muitos de nós conhecemos, as significações do “acaso” nas criações, seu efeito e como ele deve ser compreendido e utilizado como fator positivo. No caso específico dos imprevistos, coube-me abraçar uma percepção sensível, quase espiritual, constituindo comparações com as percepções formais.
Cabe entender a percepção como um processo altamente dinâmico e não como mero registro mecânico de algum estímulo. “Dinâmico”, no amplo sentido da palavra, de “forças em atividade”. Nós participamos ativamente da percepção em vez de apenas estarmos passivamente presentes. (OSTROWER, 1995, p.25)
Cores diferentes, formatos diferentes, tipos distintos, advindos de cartas de pessoas diferentes... Imediatamente, vieram-me à mente as pessoas: elas nunca se comportam igualmente perto das outras, por mais que estejam juntas, integradas, fazendo parte da mesma família ou da mesma comunidade. Cada peça, assim como cada ser humano, é única, exclusiva. Um conjunto como esse se integra apesar de se diferenciar uma placa da outra, e esse vão entre elas nada mais representa que a distância que impomos entre nós e as outras pessoas, muitas vezes.
Recursos mentais que nos afastam e nos protegem, cuidado, ou simples indiferença por aqueles que não nos são iguais, próximos, encostados muitas vezes, mas sempre mantendo certa distância. Fica a interrogativa: somos ou não iguais, nesse sentido metafórico, em relação a tal conjunto de placas cerâmicas?
Aparentemente “duros” e impermeáveis, porém, absolutamente frágeis diante da queda ou do fogo. Por que mantemos distância uns dos outros e reforçarmos as diferenças entre nós? Será medo do outro, ou ainda, de nós mesmos? E caso essa decisão seja inconsciente, ou mesmo negada por nós, não importa assegurar ou afirmar um tipo de comportamento humano natural, mas perceber que existe alguma coisa ali, algo que devemos observar criticamente.
Diferenças de cor, raça, credo, de intelecto nos separam certamente, mesmo que não aceitemos, mas são essas diferenças também que nos aproximam mais de uns e menos de outros. Pensemos em afinidade, comunhão, respeito a essas diferenças, um convívio que nos é tão precioso e, ao mesmo tempo, desperdiçado por nossas vaidades, afinal, quem não as tem?
O resultado final desse trabalho gerou cerca de 400 placas cerâmicas, na grande maioria esmaltadas, que constituíram, em sua representação máxima, a terra, o barro, a cerâmica, a memória, os sentimentos, lembranças ou fragmentos de alguém que pode compartilhar dos mesmos sentidos e sensações que outro doador anônimo. Ambos doadores se entrecruzam ao sair do esconderijo mental onde se encontravam e surgem diante dos olhos para nos confortar, dividir, assumir a mera semelhança de pertencer à categoria humana, angustiados, porém elementos constituintes da produção e do processo desse trabalho cerâmico, acadêmico e inspirado na individualidade como fator fundamental e constituinte da história coletiva, seja ela reconhecível aos meios ou anônima.