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Enquanto o projeto da LDB tramitava na Câmara surgiram iniciativas paralelas no Senado, mas como na correlação de forças a representação progressista estava em vantagem, estas foram sendo abortadas. Entretanto, quando foi alterado o contexto político e a correlação de forças, foi apresentado na Comissão de Educação do Senado, em 20 de maio de 1992, um projeto de LDB de autoria do Senador Darcy Ribeiro (PDT-RJ) e assinado também pelos senadores Marco Maciel (PFL-PE) e Maurício Correa (PDT-DF), tendo sido indicado relator o senador Fernando Henrique Cardoso (PSDB-SP), contudo, o projeto ficou, por ora sem ser apreciado. Contudo, para surpresa geral - mais concretamente dos que trabalhavam pela aprovação da LDB e desconheciam as articulações promovidas no senado -, em reunião do dia 02 de fevereiro de 1993, o projeto Darcy Ribeiro, tendo agora como relator o senador Cid Sabóia de Carvalho (PMDB-CE), que apresentou parecer favorável, foi aprovado na Comissão de Educação do Senado com apenas três votos contrários. Aproveitando-se das possibilidades que lhe dava o Regimento do Senado o projeto foi levado a plenário, mas porque não constava na pauta do dia foi mandado de volta à Comissão de Educação.

O projeto Darcy Ribeiro havia sido elaborado com a assessoria de membros do Ministério da Educação do governo Fernando Collor, mas a partir de setembro de 1992 assumiu a presidência da República Itamar Franco – em decorrência do impedimento de Collor – e foi indicado para o Ministério da Educação o Prof. Murilio Hingel, que à diferença do ministro anterior era favorável ao projeto de LDB em tramitação na Câmara.

O Projeto da Câmara seguiu os caminhos normais: uma vez aprovado na Comissão de Educação, o substitutivo Jorge Hage foi encaminhado à Comissão de Finanças e Tributação, sendo designada relatora a deputada Sandra Cavalcanti (PFL-RJ). Esta, apesar de não ser sua atribuição, apresentou um relatório contendo 25 subemendas de caráter não financeiro. Estas contemplavam de modo geral interesses da iniciativa privada, especialmente as confessionais. Para impedir o arquivamento do projeto no fim da legislatura, ao apagar das luzes, na reunião de 12.12.90, o projeto foi aprovado na comissão, mas suas dificuldades não terminaram, estavam apenas começando.

O Congresso conformado depois das eleições de 1990 tomou perfil bem mais conservador e parlamentares que tiveram papel importante na tramitação do projeto, inclusive o próprio relator, já não integravam o Congresso Nacional. A relatora do projeto era agora a deputada Angela Amin (PDS-SC). Depois de enfrentar muitas dificuldades na Comissão de Constituição e Justiça, finalmente o projeto foi levado ao Plenário da Câmara em maio de 1991, onde submetido à apreciação dos deputados recebeu 1.263 emendas. Este foi o pretexto para que se determinasse sua volta às Comissões Técnicas para estudo das emendas.

Foram muitas as estratégias utilizadas pelos parlamentares de partidos de direita – principalmente, já que alguns se inscreveriam como de centro e até centro-esquerda - para emperrar a tramitação do projeto. O segundo semestre de 1992 teve seu espaço político totalmente preenchido com a CPI de P.C. Farias, que culminou com o impedimento do presidente Collor. Mas, apesar de todas as vicissitudes por que passou, indo e vindo na apreciação de destaques, procurando o consenso antes de ser levado ao Plenário, e trabalhando em novembro e dezembro de 1992, na convocação extraordinária de janeiro de 1993 e na nova legislatura a partir de 15 de fevereiro de 1993, a Câmara dos Deputados finalmente aprovou o projeto substitutivo de LDB em 13 de maio de 1993.

O projeto aprovado na Câmara deu entrada no Senado onde foi identificado como PLC (Projeto de Lei da Câmara) n.º 101 de 1993, tendo sido designado relator na Comissão de Educação o senador Cid Sabóia (PMDB-CE). O relator adotou procedimento semelhante ao usado quando da elaboração do substitutivo Hage, realizando audiências públicas e consultando diferentes representantes da sociedade civil. O resultado foi a elaboração de um novo substitutivo, que preservava a estrutura do projeto aprovado na Câmara, incorporando aspectos do projeto do senador Darcy Ribeiro de 1992. Nessa época o projeto conta com o apoio decidido do ministro Murilio Hingel.

Mas o quadro muda em janeiro de 1995 com o novo governo, de Fernando Henrique Cardoso e seu ministro Paulo Renato Costa Souza na pasta da Educação. Com ele voltaram ao ministério algumas pessoas que ocuparam postos na gestão de José Goldenberg no governo Collor.

O substitutivo do senador Cid Sabóia passa para a Comissão de Constituição e Justiça onde é designado relator o senador Darcy Ribeiro. Este encontra todo tipo de inconstitucionalidades de forma a inviabilizá-lo. Esta manobra teve êxito e tanto o projeto oriundo das Câmara como o substitutivo de Cid Sabóia são considerador inaproveitáveis. Darcy Ribeiro então apresenta substitutivo próprio que é aprovado na Comissão de Constituição e Justiça do Senado. A reação que se seguiu foi grande, pois o projeto de LDB tinha sido tomado de assalto. Como resposta às reações, o senador Darcy Ribeiro foi corregindo seu projeto apresentando sucessivas versões, incorporando emendas que atenuassem a comoção gerada pelo episódio. A última versão foi aprovada pelo Plenário do Senado em 8 de fevereiro de 1996 e é composta de 9 títulos e 91 artigos.

O substitutivo Darcy Ribeiro, uma vez aprovado no Senado, retornou à Câmara dos Deputados onde foi designado relator o deputado José Jorge (PFL-PE). Seu relatório mantém a mesma estrutura do substitutivo apresentado fazendo correções mínimas que não afetam o espírito geral do texto. Em sessão realizada em 17 de dezembro de 1996 o relatório apresentado por José Jorge é aprovado na Câmara dos Deputados indo à sanção presidencial. O texto foi mantido sem vetos e promulgado em 20 de dezembro de 1996, como Lei n.º 9394, que Estabelece as Diretrizes e Bases da Educação Nacional. A ausência de vetos por parte do presidente é compreensível pela participação do MEC na elaboração do texto de Darcy Ribeiro - este chegou a ser conhecio como Darcy-MEC, em alusão à articulação entre o senador e o ministério da Educação. Afinal o texto final aprovado não estava muito longe dos interesses do governo em matéria de educação.

A reação da comunidade educativa pode ser representada nessas palavras:

“Foi como tirar das mãos da comunidade educativa a possibilidade de

construção de um sistema democrático de educação pública, construção essa colocada como responsabilidade do Estado, com a colaboração da sociedade (...) tratava-se, então, de um projeto elaborado pelos inconformados com a forte reprodução da discriminação social, ainda realizada pelo sistema escolar brasileiro (...)” (Silva & Machado, 1998:29).

Este tinha sido um projeto que concebia a educação como prioridade, não submetendo-a às exigências econômicas. O projeto aprovado e tornado lei estabelece as prioridades da educação em função dos recursos disponíveis. Isso não tanto pelo que está escrito, mais pelas suas omissões.