Sem perder de vista os fundamentos da Psicologia Humanista de Rogers e da Educação Popular, preconizada por Freire, o Projeto enfocado passou a implantar, como já nos referimos, em setembro de 2004, sua primeira ação específica: o plantão psicológico na comunidade. No contexto de atuação do Projeto, essa estratégia de atenção psicológica foi construída e desenvolvida com a finalidade de responder às diversas solicitações feitas pelas lideranças da comunidade, seus agentes comunitários de saúde (ACS) e vários estudantes dos projetos aliados, no sentido de desenvolver uma atenção específica para os casos de sofrimento psíquico, identificados durante as visitas domiciliares e os demais acompanhamentos feitos para essas pessoas e família. Na ocasião, os casos de sofrimento psíquico se relacionavam aos transtornos de depressão, pânico, ansiedade generalizada, angústia, alguns caso de psicose e de sentimentos difusos (inespecíficos) experimentados por alguns moradores da comunidade, em sua maioria, mulheres.
Alguns desses casos eram acompanhados por ideias e/ou tentativas recorrentes de suicídio, evidenciando uma forte fragilização da saúde física das pessoas acometidas. Essa demanda apontava que o acompanhamento multiprofissional e interdisciplinar realizado nas casas e as conversas realizadas nas ruas, nos becos e na feira eram ricos, mas faltava algo mais. Faltava um lugar que pudesse acolher e mediar a dor e o sofrimento, subjetivamente, vivenciados por alguns moradores que necessitavam de uma imersão maior em sua experiência subjetiva (mundo vivido).
Analisando essa demanda, em reunião do Projeto, vislumbramos a possibilidade de criar, na comunidade, um serviço de plantão psicológico para assistir, de modo emergencial e breve, os casos de sofrimento psíquico identificados, para fazer os encaminhamentos necessários aos serviços e aos setores da rede de saúde de nossa cidade. Decidimos, então, discutir, em reunião da associação comunitária, a possibilidade de implantar um serviço de escuta
psicológica, visando acolher esse tipo de sofrimento, a fim de minimizá-lo e contribuir para o fortalecimento da saúde integral das pessoas assistidas. Assim, após discussão com os comunitários, a proposta que apresentamos foi acolhida, por ser considerada necessária e bem vinda. Partimos, em seguida, para encaminhar as providências devidas, a fim de que um plantão psicológico fosse implantado na comunidade, considerando que a atenção integral do sujeito não deveria descuidar dos aspectos e dos processos que envolviam o sofrimento psíquico.
De início, foi acordado, no grupo de Psicologia, já inserido na comunidade, que o plantão psicológico seria iniciado assim que alguns estudantes de períodos mais adiantados (5º período em diante) do Curso de Psicologia fossem selecionados e trabalhados para tal prática psicológica. Nesse sentido, abrimos dez vagas para selecionar estudantes do Curso de Psicologia interessados em vivenciar a experiência do plantão psicológico em comunidade. Como resposta, apresentou-se uma demanda de uns vinte estudantes interessados, dos quais, após entrevistas realizadas, selecionamos o nosso primeiro grupo para atuar nesse Projeto. Em vista disso, o início desse serviço de atenção psicológica só aconteceu três meses depois da seleção e da preparação dos alunos para tal fim.
O grupo foi preparado nas reuniões do Projeto, para desenvolver o serviço de escuta psicológica em questão, através de momentos semanais de discussão teórica, fundamentados nos pressupostos da Educação Popular e da Psicologia de Rogers, principalmente em relação à estratégia da escuta enfocada. Também foram realizados, semanalmente, encontros vivenciais (de sensibilização dos estudantes) e práticos (role plays) relacionados à referida prática. Nos encontros de sensibilização, os (as) estudantes do Projeto compartilhavam, por meio de dinâmicas de grupo e de situações existências de sua vida, questões relacionadas às suas experiências subjetivas, no sentido de aprenderem, conjuntamente, a ouvir e a serem ouvidos. Nesses encontros, orientando-se pela perspectiva da Psicologia Humanista de Rogers, e subsidiada pela perspectiva educativa de Freire, a professora coordenadora do Projeto buscava facilitar a comunicação e as trocas de experiências entre os (as) participantes, de modo a favorecer o desenvolvimento da sensibilidade para a escuta de si e do outro. Nos encontros práticos, os (as) estudantes dramatizavam situações de escuta com seus colegas, visando exercitar o plantão psicológico. Durante esse período de preparação para o funcionamento
do plantão psicológico da comunidade, produzimos cem panfletos explicativos, do tipo histórias em quadrinhos, para serem distribuídos nos diversos espaços (PSF, escolas, feira, ruas, associação comunitária, igrejas) da comunidade, como forma de divulgar o serviço de escuta a ser implantado.
No âmbito dessa descrição, convém explicitar que o Plantão Psicológico é uma modalidade de escuta breve e emergencial, desenvolvido pela Psicologia Humanista de Rogers, visando acolher as demandas da população que recorre aos serviços públicos e institucionais da Psicologia Clínica para assisti-la no momento de busca e fazer os encaminhamentos a outros serviços que se fizerem necessários. Essa modalidade de atenção psicológica, ao longo de nossa história, vem extrapolando os âmbitos convencionais de seu funcionamento e se expandindo para os mais variados espaços (escolas, ruas, feiras, penitenciárias, entre outras) (MAHFHOUD, 2012). Mahfhoud (1978, p. 83) descreve assim o psicólogo que trabalha no plantão psicológico:
Aceitar manter-se no momento presente, centrado na vivência da problemática que emerge com sua ansiedade e força particulares no próprio momento de pedido de ajuda, acompanhando a variação da percepção de si e das circunstâncias pela direção que a clarificação a levar - eis a disponibilidade do psicólogo-conselheiro, que possibilita o atendimento em plantão psicológico.
Sem perder de vista os referidos pressupostos, o plantão psicológico, criado através do Projeto, surgiu com o objetivo de propiciar um espaço de escuta psicológica emergencial e breve aos moradores da comunidade que vivenciavam situações de sofrimento psíquico (ou de incongruência, como diria Rogers), e que recorriam a esse tipo de atenção. Nessa direção, o (a) plantonista, orientado pelos fundamentos teórico-metodológicos da Psicologia Humanista de Rogers, dispunha- se a ouvir, de maneira atenta, sensível e acolhedora, as questões trazidas pelas pessoas em atendimento, para que, a partir de uma abordagem fenomenológica (subjetiva, particular) e dialógica da experiência vivida, pudesse ajudar a pessoa em sofrimento psíquico a se apropriar de sua situação (experiência) e identificar possibilidades de enfrentamento de sua crise e/ou sofrimento psíquico (MAHFHOUD, 2004; MORATO, 1999; ROSENBERG, 1987).
No início de seu funcionamento na comunidade, o plantão psicológico acontecia todos os sábados à tarde, numa escolinha de alfabetização, e em algumas casas da comunidade. Posteriormente, foi transferido para a unidade de saúde local,
onde funciona até o momento. Esses encontros, inicialmente, podiam acontecer em até, no máximo, três sessões, com o (a) mesmo (a) plantonista, com o intuito de não caracterizar um processo psicoterápico, o que diverge da proposta de um plantão psicológico que, geralmente, é de longa duração. A duração desses encontros abrangia, geralmente, em torno de uma hora, uma hora e meia de escuta e podia se estender por mais tempo, dependendo da demanda apresentada pelos sujeitos.
Durante esses encontros, as pessoas (na maioria, mulheres) traziam e trazem, até o momento, seus sofrimentos e angústias relacionados às questões de opressão vivenciadas em diversas situações de suas vidas: relação afetiva com seus companheiros, em que a violência física e simbólica era muito presente; situações eu envolviam ciúme, insegurança, baixa autoestima, culpa, falta de identificação de um sentido em suas vidas; medo da violência doméstica e/ou comunitária; vivências de dor pela perda de um (ou vários) ente (s) querido (s), por doença ou pela violência do tráfico; situações de preconceitos sofridos pela orientação sexual adotada; desemprego e precariedades de vida, na família; exploração do sujeito dentro da própria família, entre outros.
No contexto de escuta, o (a) plantonista atuava facilitando as pessoas a se expressarem o mais autenticamente possível, em termos de sua dor e sofrimento, experimentando os sentimentos mais fortemente vividos. Para isso, buscava se colocar, da maneira sensível e acolhedora possível, ao ouvir e responder aos sujeitos, tentando comunicar-lhes a compreensão da dimensão de seu sofrimento ou angústia, ajudando-os a se expressar de modo mais autêntico e pleno (congruente). Assim, a partir dessa experimentação, os sujeitos, um pouco mais aliviados de sua experiência de sofrimento e com ajuda do (a) plantonista, podiam examinar mais atentamente sua conduta frente ao processo de opressão vivenciado e pensar sobre as possibilidades de enfrentá-lo e superá-lo, a partir de questões levantadas pelo (a) plantonista. A intervenção deveria ocorrer no devido tempo do processo de escuta, respeitando-se o ritmo, o momento e a demanda de cada sujeito ou grupo, tal como recomenda a perspectiva teórico-metodológica de Rogers.
Muitas vezes, devido às especificidades de cada caso e sujeitos, o contato com o plantão psicológico se resumia a um único encontro, em que, depois de experimentar visceralmente (de dentro das “entranhas”, profundamente) sua dor, o sujeito já se sentia satisfeito. Na realidade, grande parte das pessoas que recorriam
ao plantão esclarecia, na chegada, que apenas queria “ser ouvida”, “desabafar”, “se aliviar”. E era isso que eles diziam encontrar no espaço do plantão: um espaço de escuta respeitosa e de desabafo. Referiam-se, assim, à sensação de alívio experimentada e ao posterior entendimento e fortalecimento frente às questões vividas. Outras pessoas, por sua vez, apresentavam a necessidade de buscar o plantão por mais vezes, porque se sentiam insatisfeitas com o número pequeno de encontros com o (a) mesmo (a) plantonista. Nesse sentido, Identificamos a demanda de várias pessoas para um processo mais prolongado, próprio para uma psicoterapia, e tivemos dificuldades de encaminhá-las aos serviços e aos setores especializados, devido às limitações financeiras apresentadas por essas pessoas, o que dificultava o acesso via transporte a tais locais. Frente a isso, alguns casos assistidos, que exigiam um acompanhamento mais sistemático, passaram a ser encaminhados para profissionais voluntários do Projeto e estagiários do último ano do Curso de Psicologia. Outros foram encaminhados para alguns serviços especializados (rede de atenção do SUS, Clínicas-Escolas, entre outros) que realizam o acompanhamento psicoterápico.
Essa estratégia de atenção psicológica contribuiu significativamente para a melhoria da saúde mental das pessoas assistidas, o que foi atestado pelos (as) próprios sujeitos assistidos, seus familiares, os (as) trabalhadores (as) da Unidade de Saúde da Família, algumas lideranças comunitárias, estudantes e professores participantes dos projetos da educação popular em saúde ali atuantes. Por isso, o plantão psicológico foi muito bem acolhido e demandado pela comunidade e a equipe de saúde local. Atualmente, temos enfrentado dificuldades de acolher a demanda apresentada, devido ao número muito restrito de pessoas disponíveis para realizar o plantão na comunidade. Isso porque, no momento, só estamos podendo contar com dois profissionais voluntários para realizar essa atividade, porque, há um ano, não tem sido realizada seleção de estudantes para essa finalidade. Esse fato tem deixado uma considerável demanda sem acesso a essa atenção psicológica no contexto da comunidade, deixando os moradores insatisfeitos.
O plantão psicológico, assim vivenciado, suscitou muitos sentimentos e desconfortos nos participantes do Projeto, devido aos desafios colocados, revelando nossas dificuldades e limitações, ao mesmo tempo em que promoveu significativas descobertas e aprendizados, em termos da nossa inserção “psi” num contexto
comunitário popular. Por isso, consideramos importante relatar essas vivências nesta pesquisa. O contato inicial com o contexto socioeconômico da comunidade em questão ocasionou um choque, acompanhado de desconforto em grande parte dos extensionistas e colaboradores do Projeto que, até então, não tinham tido contato com comunidades de baixa renda em condições tão precárias de vida. Isso provocou tristeza e indignação e levou o grupo a refletir mais profundamente sobre as injustiças sociais e a desejar contribuir mais significativamente para o empoderamento da comunidade.
É importante relembrar que o Projeto “Para Além” teve sua origem com a implantação da estratégia do plantão psicológico na comunidade. Assim, minha inserção e a de alguns (as) estudantes de Psicologia nas visitas domiciliares já estabelecidas ocorriam, anteriormente, à existência do “Para Além”. Entretanto, quando foi criado o plantão psicológico na comunidade, os (as) estudantes selecionados para desenvolver tal prática passaram um período se inserindo nas visitas domiciliares multiprofissionais/interdisciplinares para conhecer a realidade local.
Paralelamente, outras dificuldades referentes à inserção no contexto comunitário ficaram evidenciadas, como o sentimento de insegurança experimentado frente a uma realidade que, muitas vezes, é identificada como palco de violência e ameaçador à segurança dos indivíduos, o que implicou o reconhecimento, de nossa parte, da existência de preconceitos e estereótipos relacionados com comunidades economicamente carentes. Entretanto, à medida que o grupo de Psicologia foi se aproximando da comunidade, esses sentimentos foram sendo trabalhados e, gradativamente, minimizados.
Outro aspecto desafiador foi o de buscarmos nos adequar ao espaço disponibilizado pela comunidade para a realização do plantão psicológico. Como já citado, o plantão funcionava, inicialmente, na escolinha de alfabetização da comunidade, local onde foram cedidos os seguintes ambientes: duas salas de aula e outra onde funciona o atendimento psicológico da própria escola, além de um salão, que era utilizado como recepção/secretaria do plantão. Nesse contexto, os ambientes eram sempre “transformados” para que ficassem mais confortáveis e mais condizentes com um local de atendimento. Para isso, colocamos uma mesinha, um tapete, um centro de mesa, relógio, lenços de papel, cadeiras etc. No
momento, enfrentamos o desafio de adaptar e adequar o serviço às salas da Unidade de Saúde da Família (USF) da comunidade, que apresentam limitações quanto a oferecer um ambiente confortável, silencioso e ideal para o acolhimento que envolve o plantão psicológico.
Além disso, vivenciamos, desde o início, o desafio maior de realizar a escuta psicológica em ambiente domiciliar, uma vez que alguns usuários se apresentaram impossibilitados de se locomover de suas casas para outros lugares e devido a alguns casos de fobia social e/ou quadros profundos de depressão vivenciados pelos moradores. Ademais, alguns não desejavam ser vistos como usuários do serviço psicológico, razão porque uma parte das escutas realizadas pelo plantão psicológico ter ocorrido em domicílio, muitas vezes, com adultos transitando e falando alto pela casa ou com crianças entrando e saindo. Isso exigiu uma permanente adaptação do (a) plantonista ao contexto e à situação inusitada. Porém, apesar dessas variáveis, os plantonistas se dispuseram a realizar o encontro da melhor maneira possível, dentro das condições que lhes foram apresentadas. O desafio, aí, situava-se na inadequação, inicial, sentida pelos plantonistas em viver o plantão psicológico na perspectiva dessa nova proposta de atendimento, isto é, em domicílios, pois, na maneira clássica de atuação da Psicologia, existe um lugar apropriado (setting terapêutico) para realizar a escuta psicológica. Mas a flexibilidade inerente à Psicologia Humanista de Rogers, articulando-se com a Educação Popular freireana, permitiu essas adequações, sem que houvesse prejuízos para a qualidade da relação e/ou do diálogo terapêutico e educativo estabelecido.
Apesar das observações feitas, o plantão psicológico em domicílios, ao introduzir algumas variáveis no contexto da escuta (entrada de outras pessoas, superficializando o diálogo, muito barulho, várias pessoas falando e se movimentando na casa, a curiosidade de vizinhos etc.), algumas vezes impede que o processo de escuta seja mais genuíno, devido à falta de privacidade, principalmente nos casos em que as pessoas têm essa necessidade. Administrar essa questão nem sempre tem sido fácil. Esse tem sido um dos grandes desafios que a abertura e a flexibilidade inerentes à abordagem rogereana têm propiciado responder criativamente, bem como o modo freireano de “aprender com” abre
possibilidades para as especificidades do meio popular. Aprendemos a nos adaptar à realidade. Não exigirmos que a realidade se adaptasse ao modelo.
Essa práxis da Psicologia na comunidade também nos colocou os desafios de aprender a lidar com os preconceitos e os estereótipos relativos ao fazer psicológico. Sabemos que a Psicologia tem sido alvo de estereótipos e preconceitos que distanciam e dificultam o acesso e a busca da comunidade ao seu atendimento, por ser frequentemente relacionada a uma ciência que cuida de pessoas portadoras de distúrbios mentais ou, como é dito no senso comum, que “trata de doido”. E, ainda, por se atribuir ao psicólogo (a) o poder de “adivinhar”, de ver mais do que as outras pessoas o que elas sentem. Essas representações, muitas vezes, assustam e afastam as pessoas dos (as) psicólogos (as) e da atenção psicológica. Por outro lado, observamos, nas pessoas assistidas, a expectativa de que a Psicologia (o/a psicólogo/a) tenha e ofereça “soluções” imediatas para suas questões. Gradativamente, esses preconceitos e estereótipos vêm sendo dissipados, à medida que a Psicologia vem se apresentando mais à comunidade, esclarecendo sobre o seu papel, através da sua forma de atuação.
Enfrentamos, também, dificuldades em relação ao desenvolvimento e ao processo de escuta relativa às nossas próprias limitações de ouvir o (a) outro (a) em profundidade. Essas dificuldades remetiam às questões pessoais do (a) próprio (a) plantonista que, algumas vezes, via-se afetado (a) ao escutar e interagir com certas questões e vivências trazidas pelas pessoas durante os atendimentos, como, por exemplo, aquelas relacionadas à depressão, ao alcoolismo pessoal e/ou em família, a tentativas e/ou ideias de suicídio, à sexualidade, à criminalidade, entre outros.
Além dos desafios referidos, os (as) plantonistas têm experimentado a sensação de certa impotência e desconforto no processo de escuta, quando se confrontam com as limitações socioeconômicas das pessoas que buscam ali uma resposta ou solução para os seus sofrimentos. Isso acontece nos momentos em que fica claro que, embora a escuta viabilizada pelo plantão contribua para amenizar o sofrimento vivido por essas pessoas, ela é insuficiente, por faltar condições para que tenham uma boa qualidade de vida, visto que a sensação de opressão em que vivem tenderá a permanecer, em algum nível, exigindo respostas plausíveis.
Ressaltamos, entretanto, que, devido às suas especificidades e limites, o plantão psicológico não pôde responder diretamente a essa demanda. O máximo
que pode fazer (e tentou, quando isso foi possível) foi problematizar com os sujeitos (e, às vezes, com as famílias) essa situação e pensar com eles (as), e/ou dialogar com os nossos parceiros as possibilidades de enfrentar e de superar as dificuldades. A atuação conjunta e em rede com as ações desenvolvidas pelos Projetos e setores parceiros se situou como caminho e possibilidade mais direcionada para essas questões de ordem estrutural (econômica).
Consideramos pertinente lembrar que esse tipo de atuação em rede, além de ser pensada e construída em roda com os sujeitos envolvidos no processo, tem exigido do grupo e dos moradores o deslocamento e o contato com vários setores e instituições sociais que possam contribuir para resolver as questões de sofrimento e de precariedades existenciais sofridas pelos sujeitos na comunidade. Nesse processo, foi fundamental o diálogo estabelecido entre os (as) plantonistas com as duplas do PEPASF que visitavam os sujeitos e as famílias acompanhadas pelo plantão psicológico.
Algumas vezes, todavia, ao se confrontar com as precariedades existenciais dos sujeitos, e por não saber como atuar de modo coerente com as perspectivas norteadoras do nosso trabalho, o (a) plantonista se vê tentado (a) a ajudar financeiramente esses sujeitos, como forma de se sentir mais aliviado e útil. Agindo assim, desvirtua-se do compromisso ético-politico das perspectivas norteadoras do trabalho desenvolvido, por incorrer no risco de impossibilitar o desenvolvimento do potencial dos sujeitos, na direção de sua autonomia e de seu empoderamento (pessoal e coletivo), condições imprescindíveis para um desenvolvimento saudável.
A experiência do plantão psicológico na comunidade também nos trouxe oportunidades de enfrentar situações imprevisíveis e emergenciais jamais imaginadas. Como por exemplo, podemos nos referir a alguns atendimentos realizados em um único espaço, o salão do centro comunitário, nos dias em que a escolinha onde funcionam os atendimentos havia sido interditada por falta de condições em sua estrutura física. Nesses dias, para atender às pessoas que recorriam ao serviço de escuta, cada plantonista atendia sentado em um banquinho, quase sussurrando. Podemos exemplificar também, nesse sentido, as escutas realizadas nas vielas da comunidade de pessoas quase surtadas, em crise emocional profunda ou em situações desesperadoras, e em outros diferentes espaços públicos da comunidade (feira, bar, supermercado, entre outros). Foram
situações colocadas pelos seus moradores às quais fomos respondendo e nos adequando, de forma criativa, como aprendizes do novo, do inusitado.