DÖRDÜNCÜ BÖLÜM
2.2.4. Ana Odak (Domain) Analiz
Seguindo a divisão feita por Filloux (2002) no estudo sobre as relações estabelecidas pela Psicanálise e pela Educação ao longo da história, nos deparamos com quatro momentos principais, caracterizados pela especificidade da vinculação que ambas as ciências apresentam. Os paradigmas e as descobertas psicanalíticas e as problemáticas e demandas da educação apresentam desde o surgimento da Psicanálise inúmeras tentativas para o estabelecimento de uma mútua cooperação entre elas. Essas tentativas figuram como relevantes para a reflexão – ainda hoje em aberto – sobre as possibilidades de diálogo entre a Psicanálise e a Educação. Claro está que existem elementos para a sustentação teórica tanto para justificar a impossibilidade de se trabalhar simultaneamente com os preceitos teóricos da
Psicanálise e da Educação (MILOT, 2001) como também para uma argumentação que defenda que ambas as perspectivas podem contribuir para o entendimento e reflexão dos fenômenos educacionais (KUPFER, 2013).
Entendemos e respeitamos as linhas de raciocínio e pesquisa compreendidas nestes dois pontos de vista, entretanto, a adoção da perspectiva de que tal cooperação entre Psicanálise e Educação é viável permeia as argumentações contidas neste estudo.
Dando prosseguimento à divisão cunhada por Filloux (2002), é possível verificar a existência de autores que – em sua convivência próxima e direta com Freud e sua obra – tiveram a possibilidade de se dedicarem de maneira mais constante às reflexões psicanalíticas referentes aos contextos educacionais, levando em consideração elementos e contribuições marcantes da Psicanálise para o campo da Educação. Dentre estes autores, podemos destacar Ferenczi, Zullliguer, Pfister e Anna Freud. Todos partiram suas reflexões do entendimento da existência de aspectos inconscientes nos seres humanos e em suas relações, além da importância da situação edípica e das figuras parentais para a estruturação da personalidade e para o estabelecimento de relações transferenciais. Vale ressaltar também que a compreensão da existência de forças internas que mobilizam os sujeitos para determinadas ações também exerciam sua influência no que se refere aos processos envolvidos nas práticas de ensino e aprendizagem.
Dentre os aspectos a serem levados em consideração e estudados a respeito da importância da subjetividade no manejo e na apropriação do conhecimento, podemos citar a importância da relação entre a repressão de desejos e de conteúdos inconscientes e a aprendizagem. Fruto na necessidade de adaptação do indivíduo em sociedade, o refreamento de uma parcela de suas ações motivadas por elementos passionais, inúmeras formas de repressão acabam sendo utilizadas nos processos de ensino. Ferenczi (2011) se ocupa deste questionamento ao refletir sobre os processos educativos.
Se considerarmos o número elevado e sempre crescente de pessoas atingidas por essas doenças, parece desejável considerar, nem que seja apenas com um objetivo profilático, a possibilidade de uma reforma pedagógica que permitiria evitar o emprego de um mecanismo psíquico tão frequentemente nocivo: o recalcamento de ideias (FERENCZI, 2011, p. 42).
Já Zulliger apresentava em seu trabalho a atenção mais voltada para a reflexão a respeito das possibilidades de capacitação e preparo de professores, no sentido de objetivar que – via esclarecimentos psicanalíticos – os docentes se tornariam capazes de realizar uma espécie de psicoterapia psicanalítica com seus alunos. Dedicando seus estudos à melhoria da prática docente no que se refere à compreensão e o entendimento do funcionamento infantil no que se refere aos aspectos emocionais e subjetivos.
Hans Zulliger é, sem dúvida, o representante mais popular da pedagogia psicanalítica, da qual a revista com o mesmo nome é o lugar de elaboração. Distingue-se pelo estilo ágil e imaginativo como relata a sua prática; seus numerosos estudos de casos testemunham sua arte do diálogo e sua profunda compreensão das crianças, sozinhas ou em grupo, assim como de seus jogos e brincadeiras. Ele pressentiu a força terapêutica do meio educativo onde o mestre é um mediador entre o Eu pulsional das crianças e os valores culturais (MIJOLA, 2008, p. 1991).
Em Pfister, entramos em contato novamente com uma proposta psicanalítica voltada também para a figura do educador, porém, nesta perspectiva, a finalidade encontra-se em familiarizar este profissional com importantes elementos da Psicanálise, tais como as pulsões e suas dinâmicas, a existência e as consequências dos aspectos inconscientes da mente e também com as fases do desenvolvimento psicossexual propostas por Freud.
O comportamento das crianças na escola, que propõe aos professores um número bastante grande de enigmas, merece, em geral, ser relacionado com o desabrochar de sua sexualidade. O efeito sexualmente excitante de muitos afetos que em si são desprazerosos, tais como a angústia, o medo ou o horror, conserva- se num grande número de seres humanos por toda a vida, e sem dúvida explica por que tantas pessoas correm atrás da oportunidade de vivenciar tais sensações, desde que haja apenas certas circunstâncias secundárias (a pertença a um mundo imaginário, à leitura ou ao teatro) para atenuar a gravidade da sensação desprazerosa (FREUD, 1905a/1996, p. 124).
Anna Freud (1948) elabora uma linha de raciocínio na qual destaca o papel da repressão nos processos educativos e atribuindo à figura docente certa postura analítica, a fim de conciliar na prática pedagógica o ensino e uma espécie de profilaxia para os traumas e sofrimentos psíquicos.
La mision de una pedagogia fundade en los hechos revelados por el psicoanálisis consistiria, precisamente, en hallar un término médio entre ambos extremos, o sea, indicar para cada edad la combinación óptima entre el consentimento de las satisfacciones y la prohibición de los impulsos instintivos (FREUD, 1948, p. 94).
A herdeira de Freud chega, inclusive, a fundar uma instituição de ensino para crianças pautada nos preceitos psicanalíticos, visando a implementação de uma prática de ensino que além de respeitar as características da infância, almejava um crescimento mais saudável e menos “traumático” para estas crianças (ROUDINESCO, 2005).
Temos no início deste percurso, portanto, uma perspectiva orientada para que os saberes advindos da Psicanálise poderiam auxiliar na compreensão das vicissitudes das práticas educativas basicamente de duas formas:
x Na reflexão sobre a repressão e suas consequências (tanto para a aprendizagem, quanto para o psiquismo), o que em teoria seria capaz de potencializar a eficácia do ensino simultaneamente ao cuidado com a subjetividade de quem aprende, minimizando o risco de traumas e/ou o desenvolvimento de sintomas;
x Na postura docente pautada em preceitos e condutas psicanalíticas, que possibilitariam uma melhor condução, por parte do educador, dos processos educativos, na medida em que o professor seria capaz de identificar em seus alunos elementos essenciais de suas dinâmicas inconscientes e, com isso, propor maneiras mais eficientes de lidar com os entraves do cotidiano em instituições de ensino.
Vale lembrar que uma atitude psicanalítica deste nível demanda – principalmente por parte do docente – que ele apresente um alto grau de consciência acerca do funcionamento de seu aparelho psíquico e dos conteúdos inconscientes potencialmente envolvidos em sua prática. Tal conhecimento decorre de tempo considerável no papel de paciente em um processo analítico, o que talvez não seja possível para a grande maioria dos docentes.
Em um segundo momento, Filloux (2002) aponta que questões relacionadas às intercorrências do cotidiano escolar passaram a ser vistas de uma perspectiva psicanalítica, o que significa que a reflexão acerca das
ocorrências em instituições de ensino levava em consideração aspectos transferenciais e contratransferenciais envolvidos nas relações de ensino e aprendizagem. Ou seja, a tentativa inconsciente por parte de alunos e professores de reviver (ou mesmo “passar à limpo) aspectos e experiências afetivas advindas da situação edípica, também se faz presente no ambiente escolar, inclusive na relação professor-aluno. Desta forma, afetos e demais elementos passionais cuja origem remonta dos primeiros anos de vida são depositados e atribuídos (de maneira inconsciente) a professores, alunos e demais funcionários envolvidos no funcionamento das diversas instituições de ensino.
Ao debruçar-se sobre o ato de educar, a psicanálise, munida de suas lentes, verá uma outra criança, diferente daquela que a modernidade se habituou a ver com as lentes imaginárias ou ideológicas que nos foram colocadas ao rosto por injunções sócio-políticas. Essa criança que a modernidade vê é também aquela que o educador, que se encontra então despistado, já que a criança que lhe disseram que devia ensinar não corresponde àquela que ele vê diante de si (KUPFER, 2013, p. 36).
A subjetividade do professor, em sua dimensão passional, também passa a ser levada em consideração, ampliando as possibilidades de entendimento sobre as dificuldades e conflitos que se manifestam nas mais diversas etapas dos processos de ensino e aprendizagem.
Encerrarei com outra inferência, desta vez uma inferência importante não para a teoria da educação, mas para a condição daqueles que estão empenhados na educação. Se um deles aprendeu a análise por experimentá-la em sua própria pessoa, e está em posição de poder empregá-la em casos fronteiriços e mistos, a fim de auxiliá-lo em seu trabalho, obviamente deverá ter o direito de praticar a análise; e não se deve permitir que motivos mesquinhos tentem colocar obstáculos em seu caminho (FREUD, 1923/1996, p.162).
Ainda assim, as contribuições que a Psicanálise pode oferecer para a prática docente esbarram na (im)possibilidade de o professor estar em processo de análise. Embora os fenômenos transferenciais possam ocorrer em todas as relações interpessoais, é preciso de horas no divã – além de considerável conhecimento teórico – para que seja possível identificar e, o que é muito mais complexo e exige certo grau de habilidade, manejar estes fenômenos de maneira a minimizar situações conflituosas e indesejáveis em
pró da potencialização e fortalecimento de objetivos preestabelecidos – no caso das práticas educativas, uma melhora na qualidade do ensino e das relações dela derivadas.
Em uma terceira forma destas tentativas de aproximação entre Psicanálise e Educação, as instituições de ensino – principalmente as escolas – passaram a ser o foco da perspectiva psicanalítica de compreensão de mundo. A análise destas instituições no que tange seu funcionamento, seus valores, as hierarquias por elas apresentadas, além das organizações e rotinas, traria elementos para que fossem compreendidos diversos fenômenos e, por conseguinte, capacitaria o docente para lidar com estes acontecimentos. Vista de uma maneira macro, as instituições de ensino, enquanto grupos organizados com regras e posturas definidas, trariam diversas informações sobre seu funcionamento e sobre as leis (inclusive no âmbito inconsciente) que regem seu cotidiano.
Finalmente, em um momento mais próximo de nossos dias, temos as influências exercidas pela Psicanálise em pesquisas sobre as práticas educativas e suas vicissitudes. Sendo assim, o dia a dia das instituições de ensino é observado e problematizado tanto pela Psicanálise quanto pela Pedagogia e ambas as áreas do conhecimento oferecem sua parcela de contribuição na leitura e na busca de compreensão de fenômenos que se ligam de maneira direta ou indireta às práticas educativas, tais como as diversas expressões de violência, indisciplina e desinteresse com as quais entramos em contato na medida em que nos aproximamos de profissionais e pessoas envolvidas nestes eventos, além do considerável número de notícias a este respeito.
Lançando mão de diversos aspectos da teoria psicanalítica, como seria possível a interpretação de determinados acontecimentos no cotidiano das instituições de ensino e suas práticas? Estas intercorrências não nos forneceriam elementos para refletir sobre os desdobramentos das estratégias pedagógicas e sobre a organização sociocultural a partir da teoria freudiana? É neste caminho que este trabalho pretende seguir. Levando em consideração os acontecimentos inerentes ao ambiente escolar, busca-se identificar que tipo de reflexões podemos fazer a partir dos pressupostos da Psicanálise. Antes de intentarmos responder a estas inquietantes questões, faz-se necessário a
realização de consultas a duas importantes referências sobre esta temática, elaborando um levantamento sobre os escritos de duas autoras de referência no assunto, Millot (2001) e Kupfer (1997/2013).
1.3 Millot: Reflexões sobre a (in)viabilidade do diálogo entre