O interesse de Murilo por El Greco (1541-1614) viria de muito cedo, de uma leitura do livro de Maurice Barrès, Greco ou Le secret de Toled, aos 17 anos.295 Por
sinal, esse título conserva-se em edição de 1951 nas estantes do poeta, acompanhado por outros seis exemplares anotados a respeito do pintor.
Nos primeiros anos de Europa, além da arte românica, a cidade de Toledo revelou-se uma grande surpresa para Murilo, abrindo-lhe o panorama da História. Em exemplar de El Greco de Manuel de Cossío, cuja folha de rosto registra um possível instante de leitura – “M. M. Madrid, 1952” –, recebeu destaque a descrição da singular cidade, de “excepcional situação topográfica, áspera e elevada rocha de granito, apertadamente circunscrita”.296 Como no título da monografia de Barrès, Toledo está intimamente associada a El Greco. Nascido em Creta, Domenikos Theotokopoulos fixou residência em Toledo por volta de 1577. Confirmando sua identificação com a nova pátria, dedicou duas telas à cidade – Vista de Toledo (1597-1599) e Vista y plano de Toledo (1610-1614) -, como também às vezes incorporou motivos urbanos em seus quadros. Vista de Toledo, que integra o acervo do Museu Metropolitano de Arte de Nova Iorque, com seus vários planos e nebuloso céu ao fundo, suscitou em Murilo a arte moderna: “espantosa, pré-moderna vista de Toledo”297, precursora da liberdade estética do século XX, prodígio de gênio da
invenção e da metamorfose.298 Desde o poema “Uma nuvem”, de As metamorfoses,
visita-se o dramatismo da esfera celeste de El Greco:
295 ARAÚJO, Laís Correa de. Op. cit., p. 356. 296
COSSIO, Manuel B. El Greco. 2a ed. Madri: Espasa-Calpe, 1948, p. 73-74. 297
Carta geográfica (PCP, 1117). 298 Espaço espanhol (PCP, 1135-1136).
Quem poderia pintar esta nuvem? Só mesmo Domenico Teotocopuli Mergulhando seu pincel no caos,
Ao sopro da sua estranha lucidez. (PCP, 367)
Em Tempo espanhol, o poema “Toledo”, o mais longo da coletânea, explicita a relação entre pintor e cidade: “Os objetos de tocaia,/ O céu se abrindo em crateras/ Como nos quadros de El Greco. (...) Eis Toledo como El Greco a tocou e pintou:/ O máximo de intensidade no mínimo de espaço.” (PCP, 591). Insiste mais uma vez, no poema seguinte, “El Greco”: “Em Toledo sua matéria e forma própria.” (PCP, 592). E como não poderia deixar de ser, em Espaço espanhol, a parada em Toledo obriga a referência a El Greco, irmanados não só pelo gênero paisagístico, mas também pelo Retrato del Cardenal Tavera (1608-1614), o qual “poderia significar o estema da cidade: severa, apostando com a morte, autovisionária, recriada por um pintor do absoluto que, nascido longe, soube incorporá-la até o osso; provavelmente sua psique foi alterada pela planta irregular de Toledo.” (PCP, 1137).
Outros quadros mereceram a atenção de Murilo. Em Tempo espanhol, o poema “O sol de Ilhescas” “prepara a El Greco”, a partir do quadro San Ildefonso (1603-1605), que está no Hospital de Caridad de Illescas:
Quem dá de comer e beber a Ilhescas Com sua linguagem seca de tijolo E homens secos?
Ilhescas prepara a Toledo.
Quem dá de comer e beber a Santo Ildefonso Que, suspenso à parede por El Greco,
Escreve inspirado pela Virgem? Não vereis uma outra tela tão castiça:
Extraída à substância mineral da Espanha. (PCP, 589)
No sexto segmento do poema seguinte, “Toledo”, realiza uma verdadeira análise da tela El entierro del Conde de Orgaz (1586-1588)299:
299
Sobe para o céu o cavaleiro de Orgaz Que inserido em dois planos
Ainda se comunica à terra Pelo fogo comprimido de Toledo. Cada figura toledana que o cerca Participa da sua morte:
De ferro, surda.
O silêncio explode no quadro,
Na composição cerrada do primeiro plano: Silêncio e secura de Espanha
Onde a morte, elemento ainda de vida, Marca a ressurreição do homem nu Que o segundo plano indica. (PCP, 591)
Nas suas leituras, além do livro de Manuel Gómez-Moreno inteiramente dedicado a esse quadro300, Murilo valeu-se da observação de Juan Cassou, marcada com dois traços, sobre uma dualidade, tão ao gosto do poeta, baseada na dupla formação do pintor: “(...) violenta antinomia, antinomia que constituye toda la riqueza del genio del Greco, esta oposición perpetua entre su pasado oriental; es decir, litúrgico, alusivo y riguroso, y la lección del Occidente histórico que aspira incansablemente a aprisionar la realidad que huye.”301 Nesse sentido, sublinhou na obra citada de Eugène Dabit as duas diferentes visões sobre El Greco – “(...) un croyant et visionnaire, et les autres un peintre, un homme” – para anotar em francês: “il est tout ça.”302
Não apenas os homens “secos”, “descarnados”, retratados por El Greco aludem a uma Castilha, a uma Espanha almejadas pela poética de Murilo, como também a “espessura concreta” de Toledo tem seus correlatos na pintura e na poesia. Murilo destacou, na monografia de Juan Cassou, uma afirmação que aproxima El Greco a Góngora: “(...) Todo en el Greco, como en Góngora, es apretado e inseparable, lívido y ceniciento, todo es duro”303. Talvez El Greco tenha
conhecido Góngora por intermédio de Fray Hortensio Paravicino, de quem deixou um retrato. Góngora, por sua vez, escreveu um poema, “Inscripción para el sepulcro de Domínico Greco”, por ocasião da morte do pintor em 1614. Assinalado por Murilo em sua edição de Poemas y sonetos, significativamente, no soneto, o sepulcro é “dura llave”:
300 GÓMEZ-MORENO, Manuel. El entierro del conde de Orgaz. Barcelona: Editorial Juventud, 1951. 301 CASSOU, Juan. El Greco. Trad. José López y López. Barcelona: Ediciones Hymsa, 1934, p. 95- 96.
Esta en forma elegante, oh peregrino, de pórfido luciente dura llave
el pincel niega al mundo más süave, que dio espíritu a leño, vida a lino. Su nombre, aun de mayor aliento digno que en los clarines de la Fama cabe, el campo ilustra de ese mármol grave. Venérale, y prosigue tu camino. Yace el Griego. Heredó Naturaleza arte, y el Arte, estudio; Iris, colores; Febo, luces – si no sombras, Morfeo. – Tanta urna, a pesar de su dureza,
Lágrimas beba y cuantos suda olores corteza funeral de árbol sabeo. 304
Ao lado do estilo, a temática religiosa, como na arte românica, tornou-se um meio privilegiado da identificação de Murilo com a pintura de El Greco. Por exemplo, o dramatismo de seus santos arrependidos, interlocutores emocionais dos crentes, que se assemelham a eles. Repetia-se assim o efeito causado pela Virgem de Covet, “Da imagem sacra distante, a proximidade do humano”:
Desde então ajusta ao homem Seus anjos e seus santos. O santo participa de nós todos, Comunga nossa matéria mineral, Comunga nossa aridez e nossa lida. Por isso El Greco trata-o como homem Antes de o transladarem aos altares: Homem castelhano vertical,
Submisso à lei interior que o alimenta e consome. Quanto ao anjo: sem a ótica do homem,
Quem o situaria? (PCP, 592-593)