• Sonuç bulunamadı

No Brasil, os pesquisadores começaram a se deter em analisar o trabalho a domicílio a partir do final dos anos 1970 e início dos anos de 1980, principalmente, na indústria de confecção. Um dos principais trabalhos dessa fase é, portanto, a pesquisa desenvolvida por Abreu (1986) que, tendo como suporte a categoria descrita por Marx de indústria a domicílio, partiu para analisar este tipo de trabalho na indústria de confecção do Rio de Janeiro, procurando se deter nos fatores que determinavam a oferta

167 de mão-de-obra, onde mostrou como a posição da mulher no meio familiar e a responsabilidade relacionadas às tarefas reprodutivas colaboraram para seu desempenho em atividades remuneradas não capitalistas, tendo em vista a extrema flexibilidade nesse tipo de organização, em relação a divisão do tempo de trabalho.

Algumas outras pesquisas foram desenvolvidas ao longo da década de 1980, tendo como foco de suas análises o trabalho a domicílio vinculado ao processo de subcontratação. Entre esses, temos o trabalho de Abreu e Sorj (1993b), que procuram salientar as relações de gênero presentes no trabalho a domicílio entre as costureiras externas no Rio de Janeiro. Nesta pesquisa, as autoras enfatizam que:

Este é um mercado de trabalho sexuado, marcado pela diversidade de formas possíveis de inserção da mão de obra feminina que abrange desde as raras profissionais qualificadas das grandes empresas de confecção, como as modelistas, passando pelas operárias com qualificação reconhecida em carteira de trabalho, como as costureiras profissionais ou overloquistas, até todas aquelas formas ambíguas de inserção, como aprendizes menores e operárias sem carteira assinada. Nessa cadeia de relações distintas, o último elo é sem dúvida a trabalhadora a domicílio, que trabalha na sua própria casa para as empresas de confecção (ABREU e SORJ, 1993b, p. 45).

Um elemento importante observado por essas autoras consiste no fato de se

associar a “atividade da costura” como exclusivamente do universo feminino, em que o

“processo de aprendizagem é totalmente naturalizado”, sendo, portanto, um fator

determinante no que se refere aos papéis femininos e às atitudes profissionais das costureiras.

No processo de socialização, os papéis femininos são construídos mediante a aquisição de um saber que objetiva reproduzir a unidade doméstica. Aprender a costurar é considerado um conhecimento essencial para o seu futuro papel de esposa e mãe. As meninas não aprendem a costurar visando a um treinamento profissional, uma preparação para o mercado de trabalho ou como uma forma de se equipar para ganhar um salário, mas para prover serviços para si próprias e outros membros da família. Transformar esse conhecimento em um recurso econômico não parece, portanto, mudar a percepção que as costureiras e suas famílias têm da natureza do seu trabalho. A costura aparece como uma expressão de uma atividade doméstica da esposa e/ou mãe, como uma qualidade feminina (ABREU e SORJ, 1993b, p. 52-53).

Ainda se referindo a esta pesquisa, Abreu e Sorj (1993b) enfatizaram que o trabalho a domicílio desenvolvido pelas costureiras, mesmo sendo remunerado, não é percebido como um trabalho efetivamente profissional; havendo, portanto, um processo

168 relação à divisão do trabalho doméstico, “as atividades geradoras de renda das costureiras não afetavam sua responsabilidade principal para com o trabalho

doméstico.” (ABREU e SORJ, 1993b, p. 56).

Os estudos que passaram a ser desenvolvidos a partir desse momento trazem, como elemento inerente do trabalho a domicílio, a participação relevante da mão de obra feminina, principalmente vinculado à indústria de confecção, onde a costura é apresentada como uma atividade doméstica, configurando-se, portanto, expressão do trabalho da mulher no lar, como uma qualidade que é peculiar ao universo feminino.

Observando também o trabalho a domicílio vinculado ao processo de subcontratação, entretanto focando na indústria de calçados no Rio Grande do Sul, Ruas (1993) procurou analisar a formação de “redes” estabelecidas entre as empresas e os

trabalhadores a domicílio. Assim, para esse autor,

Inserido no contexto da subcontratação, a noção de trabalho a domicílio abrange toda atividade realizada de forma remunerada no ambiente familiar. Esse conceito se caracteriza também por uma subordinação técnica e/ou econômica, tendo em vista que o trabalho domiciliar se encontra em uma situação de dependência em relação a um ou mais contratantes, não se relacionando, portanto, como mercado de bens finais (RUAS, 1993, p.27).

Em sua análise, Ruas (1993) observou que, mesmo no setor de calçados, o trabalho a domicílio era predominantemente feminino, mas também envolvia alguns outros membros da família. As condições de trabalho eram geralmente precárias e havia certa descontinuidade relacionada às encomendas por parte das empresas da região. Nessa discussão, o autor reforçou a importância das redes que eram estabelecidas entre as empresas e os trabalhadores a domicílio nesse setor.

Bruschini e Ridenti (1993), revisando a literatura existente até aquele momento (início da década de 1990), verifica que a maioria das pesquisas tendia a focar o trabalho a domicílio na perspectiva de este estar relacionado a uma indústria externa através da subcontratação, ficando, portanto, de fora qualquer análise em relação ao trabalho a domicílio por conta própria. Segundo o levantamento feito por essas autoras, poucas pesquisas se enquadravam nesta perspectiva naquele momento, como é o caso do trabalho de Silva (1979), que investigou algumas costureiras que eram independentes, produzindo diretamente para um público final, ficando, portanto, sujeitas a uma rede de relações para poderem fazer seus produtos escoarem. Segundo Bruschini e Ridenti (1993),

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A trabalhadora por ele investigada é uma produtora independente que controla os instrumentos de trabalho e seu ritmo, a matéria-prima e o produto final (BRUSCHINI e RIDENTI, 1993, p. 86).

Também a pesquisa de Prandi (1978) se enquadrava nessa perspectiva, ao analisar o trabalho por conta própria, destacando sua existência em várias áreas, como serviços, ambulantes, profissionais liberais e outros. De acordo com Bruschini e Ridenti (1993):

Prandi entende por trabalhador por conta própria, independente, autônomo ou ato-empregado aquele que não tem vínculo empregatício, excluindo dessa categoria o assalariado disfarçado de autônomo ou auto-empregado aquele que desempenha atividades remuneradas na forma de tarefas. Segundo ele, o trabalho autônomo teria sua sobrevivência explicada pela sub remuneração dos fatores de produção (BRUSCHINI e RIDENTI, 1993, p. 87).

Após percorrer alguns outros estudos que abordavam outras questões relacionadas ao trabalho a domicílio, as autoras passam a defini-lo como:

[...] trabalho domiciliar qualquer atividade economicamente rentável realizada nos limites da unidade doméstica, que considera a família como unidade de produção e reprodução social, no interior da qual há uma complexa articulação de atividades econômicas, domésticas e escolares (BRUSCHINI e RIDENTI, 1993, p. 121).

Nesta pesquisa, as autoras procuraram investigar, em diversas camadas sociais, atividades desenvolvidas a domicilio, com o intuito de demostrar que o trabalho

domiciliar por conta própria, poderia assumir “múltiplas faces”. (BRUSCHINI e

RIDENTI, 1993, p. 122).

Numa perspectiva em que associa o trabalho domiciliar ao trabalho por conta própria, com auxílio de familiares e parentes, temos a pesquisa desenvolvida por Moreira (1998), no início da década de 1990, que procurou investigar o que denominou

de “pequenas unidades urbanas de produção”, ou seja, as unidades econômicas de

produção que ocupavam o espaço doméstico como espaço produtivo, utilizando-se quase sempre da mão-de-obra familiar na produção de bens tanto do ramo de confecções como de alimentação, voltados para o mercado no município de João Pessoa- PB. Nesse estudo, a autora procurou analisar:

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Como essas experiências são percebidas, as representações que delas decorrem e, a partir dessas elaborações, a construção do sentido do trabalho, sob um prisma não somente de ordem ideal, mas de produção e reprodução renovada do quadro espacial de existência da temporalidade do processo produtivo e das relações sociais (MOREIRA, 1998, p.243).

Ao longo de sua pesquisa, Moreira (1998) constatou que, por serem trabalhadores que mantinham laços de parentesco, os laços afetivos de camaradagem e solidariedade acabavam funcionando como obstáculos aos trabalhadores de ambos os setores para se lançarem em ações judiciais que restabelecessem os direitos perdidos. (MOREIRA, 1998, p. 256).

A partir da década de 1990, portanto, outras pesquisas surgiram em torno do tema trabalho a domicílio, associando-o às mudanças estruturais sofridas pela indústria brasileira neste período, com o processo de terceirização e subcontratação vinculado a reestruturação produtiva. Relembrando que:

A reestruturação produtiva significa a emergência de um novo padrão de acumulação que reorienta o conjunto das relações sociais, transforma não apenas a organização da produção, os mercados e as relações de trabalho, mas reconfigura o mundo do trabalho e a própria classe trabalhadora (ARAÚJO, AMORIM e FERREIRA, 2004, p. 02).

Nesse novo cenário, o trabalho a domicílio novamente passa a ser palco de diversos estudos em vários setores na indústria brasileira, mas é principalmente no setor de confecções e calçados que temos uma grande produção científica sobre o tema.

O interesse sobre este tema veio imbuído de um discurso maior sobre a diversidade e a complexidade que a flexibilização da produção havia proporcionado a setores já bem fragilizados como o setor de confecções, desenhando um quadro de precariedade singular, especialmente quando se focava a questão das relações de gênero. Entre as diversas pesquisas que foram elaboradas nesta perspectiva, encontramos outro trabalho de Abreu (1993), que buscou problematizar a desqualificação do trabalho como consequência do processo de modernização industrial, dando destaque à questão de gênero na divisão do trabalho sobre ocupações consideradas qualificadas e não qualificadas na indústria de confecções do Brasil. A autora procurou focar sua pesquisa em diferentes situações nesta indústria, entre as quais estava o trabalho das costureiras a domicílio, operárias fabris e assalariadas em umas pequenas empresas de confecções de roupa feminina. As costureiras a domicílio estariam ligadas a uma empresa através de um processo de subcontratação

171 completamente informalizado, exercendo apenas etapas do processo produtivo em sua residência. Nesta pesquisa, a autora conclui que embora haja diferença no processo de trabalho e na estrutura das qualificações que as três situações apresentam, a atomização das unidades produtivas e a extrema personalização das relações se mostravam presentes nos três casos estudados, como uma característica do processo intrínseco a produção na indústria de confecção, impossibilitando qualquer construção de movimentos coletivos e organizados para fazer frente aos conflitos que ocorriam na relação entre empresa e trabalhadora. (ABREU, 1993).

Araújo e Amorim (2001), tendo também por base o processo de reestruturação vivenciado pela indústria de confecção, procuraram discutir sobre as redes de

subcontratação e os “novos” usos do trabalho a domicílio, em empresas de pequeno e

médio porte na região de Campinas - SP, com o intuito de perceber seus impactos sobre as condições de trabalho e a saúde das trabalhadoras. Estas autoras afirmam que:

O trabalho a domicílio de costureiras que foi tradicionalmente utilizado neste setor principalmente em momentos de pico de produção, como forma de responder a aumentos sazonais na demanda, foi revitalizado e adquiriu novas proporções como a ponta inferior e mais frágil nas redes de terceirização no contexto da reestruturação dos anos 90. (ARAÚJO e AMORIM, 2001, p. 07).

Em suas observações, as autoras perceberam que a força-de-trabalho tradicionalmente subcontratada era feminina e, além disso, ocupavam as posições inferiores e mais vulneráveis na cadeia produtiva. Assim, o trabalho a domicílio constituía-se num instrumento central de aumento de produtividade a baixos custos e funcionava como estratégia para enfrentar a concorrência entre as grandes empresas do

setor. Nesse contexto, “a explosão das costureiras domiciliares se concretiza sob o respaldo da invisibilidade: elas não constam dos registros oficiais das empresas nem

das estatísticas industriais ou governamentais.” (ARAÚJO e AMORIM, 2001, p. 07)

Assim as autoras constataram que as trabalhadoras a domicílio eram significativamente afetadas em meio ao processo de precarização que permeou a mudanças ocorridas no setor de confecção com a reestruturação produtiva, à medida que

estas estavam “submetidas a longas jornadas de um trabalho intenso e ininterrupto”,

em seu próprio espaço doméstico, recebendo baixos pagamentos por peças produzidas,

tendo, portanto, “a utilização do espaço privado e a articulação de habilidades socialmente construídas na esfera domiciliar com atividades produtivas” (ARAÚJO e

172 viam desprovidas do amparo legal e de representações sindicais, assim como foi constatado na pesquisa de Abreu (1993).

Contribuindo para esta discussão, Leite (2004) também apresentou uma pesquisa sobre o trabalho a domicílio na indústria de confecção de São Paulo. Neste trabalho, ela

constatou que o processo acirrado das terceirizações, ao envolver as “antigas” formas

de trabalho (trabalho a domicílio) no contexto de acumulação de capital flexível, afetou

mais diretamente a mão de obra feminina que a masculina. Esta autora salientou que o trabalho a domicílio é revitalizado nesse momento não mais como marginal ao desenvolvimento econômico, mas altamente funcional, como uma forma de “inovação organizacional”, levando-se em consideração que a indústria de confecção pouco

inovou tecnologicamente50. Assim, no processo de reestruturação, o trabalho a domicílio, via terceirização e/ou subcontratação, tem sido utilizado como forma de reduzir os custos, num cenário de acirrada competição e grande precariedade.

O trabalho a domicílio das costureiras insere-se, portanto, nessa perversa lógica da competitividade baseada na disputa dos mercados assentada

basicamente nos preços – a disponibilidade de um grupo de mulheres – dois

fatores parecem estar relacionados a esta disponibilidade: por um lado, a dificuldade de inserção no mercado de trabalho que tem as mulheres de meia- idade, com filhos pequenos, com uma qualificação específica, mas pouca escolaridade; por outro lado à própria referência dessas mulheres pelo trabalho a domicílio em função da divisão sexual das tarefas domésticas (LEITE, 2004, p. 25).

Este cenário descrito por Leite (2004) sobre o trabalho a domicílio também foi observado nas pesquisas de Abreu e Sorj (1993), Araújo e Amorim (2001). As mulheres tendem a ser mais propícias ao trabalho a domicílio por conseguirem conciliar com grande esforço as atividades domésticas com as atividades produtivas, proporcionando- lhes uma certa liberdade e autonomia. Entretanto Leite(2004) alerta que:

Essa liberdade, contudo, nem sempre é real, tendo em vista as contínuas pressões quanto ao cumprimento de prazo a que as trabalhadoras estão sujeitas. Como a questão dos prazos de entrega assume, conforme já elucidamos anteriormente, uma centralidade muito grande na indústria da confecção, essas mulheres também têm que cumprir, via de regra, prazos muito curtos, o que muitas vezes exige esforços que certamente interferem em sua vida doméstica, quando não em suas condições de saúde (LEITE, 2004, p.26).

50 Em relação ao Brasil, alguns autores como Druck e Borges (2002) têm afirmado que a reestruturação

industrial tem se pautado mais em novos processos organizacionais do que em inovações tecnológicas, focalizando-se em processos flexíveis de produção na busca por redução de custos, utilizando-se portanto da terceirização, subcontratação e portanto, do trabalho a domicílio.

173 Em meio à pressão para os cumprimentos dos prazos, estas mulheres acabam envolvendo o trabalho de seus filhos menores, como ajudantes tanto nos trabalhos domésticos como na própria produção, conforme também foi observado nos trabalhos de Moreira (1998), Abreu e Sorj (1993), bem como na pesquisa de Neves e Pedrosa (2007) que traz a mesma temática, discutindo a realidade de uma cidade de porte médio de Minas Gerais.

Neves e Pedrosa (2007) além de reforçarem as considerações já colocadas nas pesquisas anteriores, acrescentaram o fato de terem observado que, em certos períodos de intensa produção, algumas trabalhadoras a domicílio além de utilizar a ajuda de familiares para atender as demandas e aos prazos, também recorriam a terceiros, que geralmente era uma vizinha ou uma amiga que tinha uma máquina de costura disponível, ou seja, havia um processo de subcontratação dentro do próprio contexto do trabalho a domicílio, chamando-o de “quarteirização”.

Assim, sendo um campo fértil para se observar as questões tanto relacionadas à precarização que acompanhou o processo de reestruturação produtiva, quanto às questões vinculadas às relações de gênero e familiares, o trabalho a domicílio continuou a despertar interesses de diversos pesquisadores ao longo do século XXI, aqui no Brasil.

Nesse contexto e considerando que o trabalho a domicílio tem implicações sobre a família e as relações de gênero que se delineiam nesse espaço, no próximo item, estaremos buscando salientar alguns aspectos teóricos e históricos sobre a família, como intuito de aprofundarmos nossas reflexões sobre a dinâmica que envolve o trabalho a domicílio e seus integrantes.