Celso Lafer tem uma relevante contribuição aos temas que fazem convergir a Filosofia do Direito e os direitos humanos. Em diálogo com a teoria dos valores de Miguel Reale, Celso Lafer apresenta apontamentos relevantes para uma hermenêutica dos direitos humanos.
Os direitos humanos, como valores, são históricos. Isso significa, como já foi ressaltado, que o tempo opera mudanças em seus conteúdos e em seus significados.
Além do seu aspecto histórico, outras várias são as características dos valores
apontadas por Celso Lafer em diálogo com Miguel Reale238.
No momento, ao que concerne ao tema em questão, cabe-nos ressaltar a referibilidade, a realizabilidade e a inexauribilidade dos valores. O arcabouço axiológico resguardado pelos direitos humanos demonstra com clareza essas características. Além do mais, são traços dos valores que muito ilustram a significado dos direitos do homem.
A referibilidade nos remete ao fato de que os valores protegidos pelos direitos humanos fazem referência, necessariamente, ao mundo fático. Não faria qualquer sentido se os valores fossem totalmente destacados da realidade. Afinal, eles são culturais.
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Para maiores esclarecimentos acerca das características dos valores como concebidas por Miguel Reale: REALE, Miguel. Filosofia do Direito. 20. ed. SãoPaulo: Saraiva, 2002. p. 189 e ss.
Por outro lado, ainda na esteira da relação entre fatos e valores, estes têm a característica da realizabilidade. A realizabilidade diz respeito à capacidade do valor de efetivar-se historicamente na práxis com apoio numa determinada realidade sócio- político-econômica.
Existem, porém, entraves à realizabilidade. Nas palavras de Celso Lafer:
a anarquia dos significados vem redundando na sublevação dos particularismos, em especial de cunho fundamentalista, intolerante e excludente, geradores de resistências à universalização de certos direitos, como o da mulher. Ao insistir na prevalência centrífuga de tradições, costumes e visões do mundo, esses particularismos, sobretudo quando de cunho fundamentalista e excludente diluem com um componente da confrontação Norte-Sul, as aspirações de uma visão kantiana, dificultando a realizabilidade do consenso de Viena.239.
Ainda nas lições de Lafer, a postura asiática de adaptação aos diferentes contextos culturais, “ainda que não conteste abertamente a idéia de uma universalidade dos direitos humanos, contribui adicionalmente para fragilizar o consenso de Viena, e é assim, um
aspecto da resistência à sua tutela no plano internacional”240.
Ao se atentar, justamente, à não realizabilidade dos direitos do homem, ressalta a outra característica marcante dos valores: a inexauribilidade. Isso significa que esses valores nunca se concretizarão totalmente porque, na medida em que vão se realizando, vão também se modificando. É uma característica muito ligada à historicidade dos valores. A resistência, diga-se de passagem, é um dos motivos da inexauribilidade. Em suma, a inexauribilidade faz com que o valor seja uma vis directiva da conduta humana. Sem dúvidas, os direitos humanos, como processo, têm um componente utópico. A inexauribilidade aponta para a percepção de que o valor se refere à realidade, mas nela não se esgota.
Os valores são um bem cultural. Têm um suporte, uma base na realidade, mas têm igualmente um significado que aponta para uma direção de ‘dever ser’. Resistência (que
239 LAFER, Celso. Resistência e realizabilidade da tutela dos direitos humanos no plano internacional no limiar do século XXI. In: AMARAL JUNIOR, Alberto do (Org.); PERRONE-MOISÉS, Cláudia (Org.). O Cinqüentenário da Declaração Universal dos Direitos do Homem. São Paulo, EDUSP, 1999. p. 450. 240 idem, ibidem, p. 451.
colabora com a inexauribilidade) e realizabilidade são importantes dimensões do tema da efetividade da tutela dos direitos humanos no plano internacional. Nas lições de Celso Lafer, a referibilidade e a realizabilidade são missões do diplomata, enquanto colaborar
para a inexauribilidade é papel das ONGs241.
Importante dizer que a realizabilidade e referibilidade estão em dialética de implicação e polaridade com a inexauribilidade, pois são características que parecem contrapostas, mas que, na verdade viabilizam a existência da outra. Enquanto um valor vai se consolidando nos fatos, o caminhar da história cuida que esse mesmo valor vá se modificando. É um processo concomitante, próprio da vida, do direito, que é experiência, que é “sendo”.
O entendimento de que os direitos humanos são referidos à realidade, realizáveis e inexauríveis, vez que são bens culturais, é essencial para a sua hermenêutica. Dessa forma, a interpretação desses direitos não será possível com o esquecimento das circunstâncias a que estão sendo aplicados, nem pode se bastar nelas – essas são diretrizes básicas.
Ou seja, a interpretação dos direitos humanos que desconsidera seu conteúdo de realizabilidade, descartando suas referências à realidade, como as diferenças culturais entre os povos, não tem qualquer efeito prático. Por sua vez, interpretá-los sem considerar seu aspecto inexaurível é desqualificar seu aspecto histórico que se revela nas mudanças ocasionadas pelo intuito de alcançar o inalcançável.
Lafer ainda faz uma observação sobre a interpretação que deve ser aplicada aos direitos humanos. Em diálogo com Bobbio, Lafer lembra que as semelhanças que
justificam a analogia são as semelhanças relevantes242. Disso pode-se inferir que a
aplicação análoga de direitos humanos só pode acontecer em casos em que o contexto fático da questão guarda efetivas semelhança relevantes.
241 idem, ibidem, p. 451. 242
LAFER, Celso. Filosofia do direito e princípios gerais: considerações sobre a pergunta ‘o que é a filosofia do direito?’. In: ALVES, Alaôr Caffé (org.). O que é a filosofia do direito? Barueri: Manole, 2004. p. 73.
Celso Lafer ensina que “os grandes temas da Filosofia do Direito aparecem na experiência jurídica e, muito especialmente, nos dias de hoje, na reflexão sobre a
interpretação”243. E, nesse desafio, deve ser empreendida a experiência do conhecer os
direitos humanos em complemento com o pensar do filósofo do direito, que reflete acerca da teoria desses direitos. Dessa forma, a vivência dos direitos humanos contribuem para o ‘pensar’ esses direitos e vice-versa – na dinâmica de implicação e complementaridade.