O objetivo deste Capítulo é explorar os conceitos básicos relacionados às opções de compra de ações. A abordagem, pois, inicia-se com a análise dos principais aspectos relativos à remuneração dos administradores.
Cabe, desde logo, alertar acerca da existência da discussão a respeito da natureza remuneratória da outorga de opções de compra de ações.
Como explica Alberto Xavier em um estudo realizado em 1977, diferenciam-se da remuneração em sentido estrito as vantagens patrimoniais atribuídas ao administrador de uma companhia com caráter premial. Afinal, o vocábulo “remuneração”, consoante a redação original do artigo 152 da Lei 6.404/7652, refere-se exclusivamente à contraprestação pelos serviços do profissional, sujeitando-se ao teto estabelecido pelos acionistas em assembleia geral. As bonificações de toda sorte e participações nos lucros, por sua vez, não se submeteriam a tal regime na medida em que seu valor diz respeito ao resultado dos negócios da companhia, o qual, apenas de maneira eventual pode ser vinculado à atuação de um administrador53.
O fato é que, exatos vinte anos após o comentário deste autor, a Lei 9.457/97 modificou o artigo 152 da Lei 6.404/76 para incluir “benefícios de qualquer natureza e verbas de representação” sob sua égide. Com isso, tencionou-se cercear os abusos cometidos em
52
“A assembleia geral fixará o montante global ou individual da remuneração dos administradores tendo em conta suas responsabilidades, o tempo dedicado às suas funções, sua competência e reputação profissional e o valor dos seus serviços no mercado.”
53 XAVIER, Alberto. A Remuneração dos Administradores das S.A. in Sociedades por Ações, Resenha
relação à remuneração indireta dos administradores, a qual em muitas ocasiões era bastante superior àquela previamente autorizada pela assembleia geral54.
Contudo, neste particular, é importante observar que as opções de compra de ações estão previstas em norma da Lei 6.404/76, parágrafo terceiro do artigo 168, e têm processo próprio de criação e outorga – em suma, um plano específico deve ser submetido à análise dos acionistas reunidos em assembleia geral extraordinária. Trata-se de procedimento apartado do conclave, que elege administradores e fixa sua remuneração global nos termos do artigo 152 da Lei 6.404/76, afastando, ao menos na seara societária, o caráter remuneratório das opções de compra de ações.
Ademais, no que se refere ao aspecto trabalhista, há que se considerar que estas se distanciam do conceito estrito de remuneração, na medida em que o benefício pecuniário extraído relaciona-se com a diferença entre o preço de exercício da opção e o valor, em mercado, da ação que resulta de tal exercício55.
É bem verdade que a quantidade e as condições da outorga são (ou deveriam ser) moldadas pelo desempenho do administrador. A vantagem patrimonial decorrente das opções, contudo, está fora do controle da companhia. Daí o argumento de que estas não se revestem de natureza salarial e, portanto, não se sujeitam ao regime próprio de tais prestações, inclusive, e especialmente, para fins previdenciários. A jurisprudência majoritária a respeito tem igual posição56.
54 CARVALHOSA, Modesto. Comentários à Lei de Sociedades Anônimas. 4. ed. revista e atualizada, São Paulo:
Editora Saraiva, 2009, p. 251. 55
Nesse sentido, Sergio Pinto Martins assevera que “o empregado não tem direito de opção como pagamento pela prestação de serviço na empresa. O ganho na venda das ações não é uma retribuição paga pelo empregador. Não existe contraprestação salarial. Trata-se de situação completamente alheia à prestação de serviços”. MARTINS, Sergio Pinto. Repertório IOB de Jurisprudência, São Paulo, Caderno 2, n. 16, 2001, p. 305. O reparo, aqui, cabe em relação à última frase, eis que a outorga das opções de compra de ações não são e não devem ser totalmente alheias à prestação de serviços, e sim orientadas pela contribuição do profissional em questão no desenvolvimento de suas atividades.
56
STOCK OPTIONS. INCENTIVO AO EMPREGADO. CARÁTER NÃO SALARIAL. Tratando-se as denominadas stock options de incentivo ao empregado no desenvolvimento de seus misteres, condicionado, porém a regras estabelecidas e não sendo gratuito, visto que sujeito a preço, embora com desconto, tem-se que não guardam tais opções de compra de ações da empresa caráter salarial. (TRT – 2ª Região – 42364200290202002, Revista Justiça do Trabalho. Porto Alegre: HS Editora, janeiro de 2004.
Independentemente de tal debate, o presente estudo adotará um conceito amplo de remuneração, correspondente ao conjunto de recompensas que um administrador recebe em razão de seu trabalho – sejam elas diretas ou indiretas, e independentemente do benefício econômico inserir-se na esfera de controle da companhia. Não há dúvida de que as opções de compra de ações devem ser incluídas em tal definição, eis que, quando estas são concedidas, representam uma importante parcela dos ganhos auferidos por um administrador57.
A este respeito, cabe lembrar o caso de Lee Iacocca, famoso pelo sucesso obtido na reestruturação dos negócios da Chrysler no início dos anos 80. O executivo assumiu o posto de diretor presidente da montadora de automóveis em 1978 mediante o salário anual de 1 dólar. Seus ganhos, contudo, foram bastante superiores a este valor, atingindo o montante de 20 milhões de dólares anuais, em razão da concessão de opções de compra de ações58. Como, neste contexto, argumentar que os incentivos em estudo não integravam sua remuneração?
Não é por outro motivo, aliás, que a Comissão de Valores Mobiliários exige, no item 13 do Formulário de Referência, relativo à remuneração dos administradores, que se divulguem detalhes acerca da concessão de incentivos baseados em ações, incluindo, como se vê dos dados reunidos no Anexo B a este trabalho, o percentual que estes representam na remuneração total percebida pelos administradores.
É importante ainda notar que muitas companhias, além de conceder as opções de compra de ações aos seus administradores, também oferecem recursos financeiros (em alguns casos mediante desconto do valor a ser pago a título de bônus) para que estes possam exercer tais opções. Desta maneira, ainda que se argumente que as opções de compra de ações constituem-se em uma ferramenta utilizada para moldar o comportamento dos seus
57 Em consonância, as novas diretrizes contábeis publicadas pelo Comitê de Pronunciamentos Contábeis
apresentam um capítulo específico sob o título de “pagamento baseado em ações” (CPC 10), no qual se incluem as normas para contabilização das opções de compra de ações. Também a Comissão de Valores Mobiliários, no item 13 do Formulário de Referência instituído pela Instrução 480/09, vale-se da terminologia “remuneração baseada em ações” para estabelecer critério de divulgação destes planos de outorga.
58 Conforme matéria publicada pela Forbes, sob o título “The Dollar-a-Year Man”. Disponível em:
destinatários e não propriamente uma contraprestação pelo seu trabalho, o fato é que estas são efetivamente percebidas como parte da remuneração pelos seus destinatários.
Daí não decorre afirmar que as opções de compra de ações estão necessariamente sujeitas ao procedimento do artigo 152 da Lei 6.404/76, ou à incidência da contribuição previdenciária. O objetivo desta correlação é tão somente analisar a maneira como tais mecanismos de incentivo se inserem na importância estratégica da política de remuneração de uma companhia e seus objetivos, como se fará a seguir.